Crítica
Os melhores discos de 2024 que a gente ouviu no primeiro semestre

Não deu pra escutar tudo que saiu em 2024, e menos ainda deu pra resenhar tudo. Se o Pop Fantasma recebesse todos os discos que resenha em formato físico, nossa redação imaginária estaria com pilhas de álbuns para escutar até o teto. Muita coisa que a gente quer escutar e que saiu entre janeiro e julho ainda está aqui esperando pela gente – e vai rolar de ouvir e quem sabe, de escrever sobre elas.
De qualquer jeito, demos uma olhadinha pra trás e vimos quais foram os discos desse começo de semestre que balançaram mais nosso (meu, no caso) coração e receberam nota 8 ou acima disso. Os nacionais Black Pantera, com Perpétuo, e Amaro Freitas, com seu já mitológico Y’Y saem bem na frente, com notas 10 ao lado de álbuns que relembram o passado de Neil Young e Pavement.
TURMA DA NOTA 8:
Thunderpussy, West
Khruangbin, A la sala
DIIV, Frog in boiling water
Melvins, Tarantula heart
Master Peace, How to make a Master Peace
Ibibio Sound Machine, Pull the rope
Papisa, Amor delírio
Cloud Nothings, Final summer
Vampire Weekend, Only god was above us
Pharrell Williams, Black Yacht Rock, Vol. 1: City of limitless access
Yard Act, Where’s my utopia?
Deize Tigrona, Não tem rolé tranquilo
The Jesus And Mary Chain, Glasgow eyes
Stephie James, As night fades
Ministry, HOPIUMFORTHEMASSES
Sheer Mag, Playing favorites
Hurray For The Riff Raff, The past is still alive
Lime Garden, One more thing
Helado Negro, Phasor
Sonic Youth, Walls have ears
Idles, Tangk
Kali Uchis, Orquídeas
Green Day, Saviors
TURMA DA NOTA 8,5:
O., WeirdOs
The Vaccines, Pick-up full of pink carnations
Cavalera Conspiracy, Schizophrenia
Paul McCartney e Wings, One hand clapping
Charli XCX, Brat
Paira, EP01 (EP)
Billy Tibbals, Nightlife stories (EP)
Chloe Slater, You can’t put a price on fun (EP)
Knocked Loose, You won’t go before you’re supposed to
Billie Eilish, Hit me hard and soft
Beth Gibbons, Lives outgrown
Dream Pony, Suspicion today
Laura Carbone, The cycle
Tony Visconti, Apollo 80
St Vincent, All born screaming
Pet Shop Boys, Nonetheless
Pearl Jam, Dark matter
Ride, Interplay
Kim Gordon, The collective
Liam Gallagher & John Squire, Liam Gallagher & John Squire
Ryan Adams, Star sign, Heatwave, Sword & stone, Prisoners (live), 1985
TURMA DA NOTA 9:
Paul Weller, 66
Beyoncé, Cowboy Carter
The Libertines, All quiet on the Eastern Esplanade
Cátia de França, No rastro de Catarina
Céu, Novela
The Black Keys, Ohio players
Mark Knopfler, One deep river
Black Crowes, Happiness bastards
Norah Jones, Visions
Cast, Love is the call
Bill Ryder-Jones, Iechyd da
Brittany Howard, What now
The Last Dinner Party, Prelude to ecstasy
Gruff Rhys, Sadness sets me free
Sleater-Kinney, Little rope
TURMA DA NOTA 10!
Black Pantera, Perpétuo
Amaro Freitas, Y’Y
Neil Young e Crazy Horse, Fuckin’ up
Pavement, Cautionary tales: Jukebox classiques
Crítica
Ouvimos: The Bobby Lees – “New self”

RESENHA: Após um burnout, os Bobby Lees voltam com um disco curto, raivoso e confessional, misturando punk, rap-metal e letras sobre frustração.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Epitaph
Lançamento: 12 de junho de 2026
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Barulhenta e afrontosa, essa banda – e olha que New self faz parte da atual linhagem de álbuns curtos, que cativam em pouco tempo e encerram rápido (oito faixas e vinte minutos, no caso). O novo disco dos Bobby Lees vem, por sinal, depois de uma época de muito barulho na mente, em que vivenciaram o burnout tiveram que dar um tempo na banda.
Talvez por isso, New self seja tão direto, com apenas uma música com mais de três minutos (All I got), e com certeza por isso, as letras falam de temas como sucesso (e a busca dele), vida fora do controle, frustração. Tudo em tons pesados e, às vezes sombrios – como em The end, que resume “tudo” em versos como “o negócio é esse, é bom para o show / tudo é sangue, nada de grana, mas eu vou saber / o que está rolando por trás das cenas”. O clima geral: vocais fortes e rappeados, baixo à frente, beats entre punk e funk metal.
Sam Quartin, a vocalista, teve esquizofrenia induzida por álcool na adolescência (“muitas coisas realmente estranhas aconteceram, alucinações auditivas, visuais, tudo isso; e até hoje não tenho ideia do que estava acontecendo”, chegou a falar numa entrevista). Parou com bebida e drogas, mas esse período influencia sua arte até hoje – o nome “Bobby Lees” vem de um fantasma que ela diz ter visto nesse período de alucinações. Ela também é atriz e concilia os dois trabalhos.
- Ouvimos: Water Rats – Macrodose
As letras do Bobby Lees são influenciadas diretamente por essa dicotomia entre vida real e vida imaginária, que todo artista vive: a falta de grana após filmes trabalhosos e turnês lotadas, a sensação de que muito foi feito e pouco foi alcançado. No caso do Bobby Lees, uma desilusão com o sistema de pagamentos do Spotify fez a banda parar por uns tempos. O clima raivoso de faixas como o punk funkeado 50 ft (uma versão de 50 ft queenie, de PJ Harvey) e o humor ácido da demolidora Napoleon vem dessa sensação de que tudo virou uma batalha naval.
Quem milita no meio artístico e se sentiu em algum momento querendo provar algo pra alguém, vai ter gatilhos ouvindo o punk rap-metal raivoso da faixa-título. All I got, sombria e pesada, é um Ouro de tolo (a do Raul) com burnout e sequelas psicológicas no lugar das pipocas dadas aos macacos. Got me good, de voz e guitarra, é assustadoramente confessional, falando de vícios adquiridos em família. Red hot substitui todos os vícios químicos pelo sexo viciante e por amores cagados. Som criado em alto volume, para ouvir no máximo.
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Crítica
Ouvimos: Twisted Teens – “Florida water blues”

RESENHA: Garage, punk, country e pós-punk se misturam no novo Twisted Teens: um disco sujo, intenso e imprevisível, cheio de referências e personalidade.
Nota: 9
Gravadora: Going Underground Records
Lançamento: 10 de julho de 2026
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São três discos de clima intenso e garageiro: o terceiro do Twisted Teens, Florida water blues, já começa soando como uma demo do Wire gravada em fita K7 em 1977 e esquecida no fundo de uma gaveta, em Why did you miss it? O lance é que esse duo de Nova Orleans curte tanto desafiar expectativas que quase tudo deles é complicado de definir de primeira. Como acontece em Hand me a cigarette, aberta com violão country e…
Bom, até que dá pra dizer que se trata de um country-rock, só que glorificado pelo punk e por uma gravação de demo. Swamp tem algo de Bruce Springsteen (!), até na voz rouca – dá pra dizer que é quase Springsteen + Lou Reed, o rock “de verdade” invadido pelo punk. No geral, é um som que dispensa fórmulas e que, do começo ao fim, parece ser feito de forma natural. Caspian Hollywell (voz) e Razor Ramon Santos (steel guitar) basicamente consegue transformar tudo o que tocam em sujeira bonita.
- Pip Blom revisita o próprio passado em EP de dez anos da banda
Essa beleza na sujeira continua em faixas intensas como Guided thunder (que lembra The Clash), o country-rock sonhador da faixa-título e de Javelina, o garage-rock sessentista de Top of the world hwy nº2, o pós-punk guitarrístico de Concealed weepin’ (no qual Razor toca como se estivesse afinando a guitarra e Caspian tosse e resmunga como um doente recém-acordado) e do quase ska Riding.
Tem mais: Business parece um The Who lo-fi e, pasme, Dancer abre com um violãozinho corrido no estilo do The Cure. Acaba se revelando uma ótima junção Lou Reed + Jimi Hendrix. O final, com a balada country pantaneira e violeira Sun go down, é quase beleza sem sujeira – mas lá pelas tantas vozes e instrumentos imitam pessoas roncando (!) e o som vira um caos pacífico e bacana.
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Crítica
Ouvimos: Sakim de Kola – “Sakim de Kola”

RESENHA: Punk do interior paulista, o Sakim de Kola ataca coaches, conservadores e fascistas em disco rápido, pesado, irônico e sem poupar ninguém.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 28 de novembro de 2025
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O Sakim de Kola é uma banda punk do interior de São Paulo que tem como missão zoar (muito) o conservadorismo. O EP de estreia, Cantigas pedagógicas aprovadas pelo MEC (2022), foi ensaiado e parcialmente gravado no pátio de uma escola pública, e trazia músicas com nomes corrosivos e auto-explicativos: UZI, Universidade Federal do Zap, Ministro da educassão, entre outras.
Sakim de Kola, o disco novo, sai numa época BEM melhor do país – mas ainda há muito o que reclamar, já que o país ta cheio de coaches financeiros sem noção (Educação financeira), gente escrota (Classe média de avião, aberta com uma fala de Odete Roitman no Vale tudo original de 1988), nazistas verde-e-amarelos (o ska-punk Tupinazi), e guerras injustas, com oprimidos querendo ser opressores (Terra prometida). Além do chamado de Organizar o nosso ódio.
Na onda punk + hardcore do grupo, rola também uma zoeira com o universo do metal (Steve Harris, que zoa o baixista-déspota do Iron Maiden), além de noise-rock sombrio (Tribunal do júri). Rápido, direto e pesado.
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