Crítica
Ouvimos: The Jesus And Mary Chain, “Glasgow eyes”

- Glasgow eyes é o oitavo álbum de estúdio da banda escocesa The Jesus And Mary Chain, e o primeiro deles em sete anos. A banda formada pelos irmãos Jim e William Reid está completando 40 anos neste ano.
- Por acaso Jim afirmou que o novo disco segue os mesmos métodos estabelecidos no começo do Jesus. “Basta ir ao estúdio e ver o que acontece. Não há regras”, dizendo também que os dois irmãos se entendem por telepatia e são “aqueles gêmeos estranhos que terminam as frases um do outro”.
- Ao New Musical Express, a dupla conta que o disco novo surgiu de ajustes no som, que fizeram com que os dois quisessem usar mais sintetizadores na gravação.
O Jesus And Mary Chain é aquele tipo de banda que basta você ler sobre ela para ficar apaixonado (a) pelo som – funcionava quando todo mundo lia as resenhas dos álbuns do J&MC na antiga Bizz, mesmo sem ter dinheiro para comprar os discos. Mas depois de Honey’s dead (1992), último grande disco deles, o Jesus se tornou uma banda que volta e meia faz discos legais, e que mantém a chama acesa até mesmo quando faz álbuns irregulares.
O mais exemplo disso foi Munki, disco de 1998, com duração de LP duplo e uma ou outra coisa dispensável – e ainda assim, brilhante. Mas a rigor não existe “pior disco do Jesus”, no sentido de que toda banda tem um disco cujas cópias ela gostaria de ver enterrado no mesmo aterro onde a Atari enterrou cópias do fracassadíssimo videogame ET – O Extraterrestre. Nem mesmo discos um tanto criticados, como Darklands (o segundo, de 1987, que deixou muita gente de nariz torcido pelo fim das microfonias e pelas baterias eletrônicas) ou Damage and joy (2017), o mais recente.
Glasgow eyes, o novo álbum, mantém a dinâmica. Não é um disco perfeito como a estreia Psychocandy ou Automatic (1990), mas cresce por causa da soma de referências e das invenções de estúdio. A onda surf music do Jesus volta mesclada com o som do Suicide em Venal joy. Já Mediterranean x Film é pós-punk sombrio lembrando The Cure. Discotheque e Silver strings são o lado synth pop do Jesus. O lado distorcido soa como se produzido e tocado por Brian Eno, como em American boy e Pure poor. E o mais inusitado é ver o Jesus emulando a introdução de I love rock’n roll, da Joan Jett, na curiosa The Eagles and The Beatles – que cita Brian Jones e Bob Dylan. Ou soando como uma banda de power pop e rock chiclete na ótima Girl 71.
Agora, quem quer a dupla Jim e William Reid apaixonadíssima por seu passado e por si própria, deve correr para jamcod, single do disco, que abre em tons industriais-eletrônicos e recorda o passado de doideira dos irmãos, com referências a cocaína e bebida (sem contar o título, uma sigla para “Jesus And Mary Chain overdose”) . Ou a balada sombria Chemical animal, que sentencia “me encho de produtos químicos/para esconder a merda obscura que eu não mostro”. Além disso, a dupla encena o próprio renascimento (e cita a si própria) na bela Second of june e homenageia o Velvet Undeground, uma de suas maiores referências, na estranha Hey, Lou Reid, que encerra o álbum.
Para citar uma banda de sucesso que nada tem a ver com o rock escocês oitentista, o Jesus não jogou fora os sonhos que seus fãs sonharam. Glasgow eyes deixa isso bem claro.
Nota: 8
Gravadora: Fuzz Club
Crítica
Ouvimos: White Denim – “13”

RESENHA: White Denim mistura psicodelia, art rock, soul e pop torto em 13, álbum inventivo e imprevisível que transforma estranheza em grandes canções.
Texto: Ricardo Schott
Nota 10
Gravadora: Bella Union
Lançamento: 24 de abril de 2026
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“Psicodelia, jazz rock, yacht rock, bossa psicodélica, power pop, soul e folk mágico, com um resultado tão variado que dá vertigem”. Isso aí foi o que falamos de 12, disco anterior do White Denim, veterana banda indie liderada por James Petralli. Eis que agora sai o 13 e, ora vejam só, até daria pra repetir a mesma frase – mas há bastante diferença porque a ordem e a intensidade dos fatores foi alterada.
Pra começar, 13 soa como a tentativa de fazer um disco (vá lá) “pop”, mas a partir de referências nada amigáveis – às vezes soa como um disco progressivo no estilo do Gentle Giant, mas no geral Petralli parece prestar um tributo eterno a Captain Beefheart e a Kevin Ayers. Faixas como o soul + math rock (God created) Lock and key, o gospel perturbador Chew nails e o sophisti-pop torto de Only a fool, Crossfyre e Time time são provas disso. E formam a sequência inicial de 13.
- Ouvimos: TV Star – Music for heads
Quando chega o reggae psicodélico de Keep calling me (Baby), por sua vez, fica complicado até acreditar que, sim, ainda tem gente fazendo música assim nos dias de hoje – se fosse lançado por uma grande gravadora lá por 1979, 13 seria o filho punk do AOR, ou um art-rock radical. Lançado em 2026, pega um mercado onde cabe de tudo, embora nem tudo vire mainstream.
Tem muita coisa em 13 que faz lembrar os momentos menos pop e mais irônicos do 10cc, como o disco Sheet music (1974). A estranhice do reggae folk e lisérgico Earth to parece vir daí, a eletrônica de That’s rap também, o clima de comercial de cereal de Hired hand #2 também. Bate um Todd Rundgren rápido no southern rock voador de Ruby e no chamber pop de Quiet moment, mas 13 é também o disco de baladas fortes como Matchbook baby. Tudo é uma surpresa.
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Crítica
Ouvimos: Robert Plant com Suzi Dian – “Saving grace”

RESENHA: Robert Plant explora folk, blues e gospel em Saving grace, disco contemplativo que reinventa clássicos e valoriza a parceria vocal com Suzi Dian
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Nonesuch / Es Paranza
Lançamento: 26 de setembro de 2025
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Acusar Jimmy Page de viver à sombra do passado é bem injusto. Dá até pra dizer que o guitarrista não fez nada de tão relevante após o fim do Led Zeppelin – mas convenhamos, é o Led Zeppelin, e não uma banda one hit wonder cujo principal compositor sobrevive até hoje como gigolô de royalties. Deve dar gosto viver de um passado desses, e ele tem esse direito.
Robert Plant, vocalista do Led, é o contrário: fez discos solo de vibe quase pós-punk nos anos 1980, migrou para o “rock de adulto” entre os anos 1980 e 1990 e, depois, passou a fazer de cada álbum uma experiência diferente. Saving grace, por sua vez, é o “disco de cantor” de Plant, em que ele mostra o trabalho que realizou desde a pandemia com um coletivo chamado Saving Grace, e ainda deu destaque para a voz de Suzi Dian.
- Ouvimos: Rolling Stones – Foreign tongues
Em faixas como Ticket taker, cover de uma banda chamada The Low Anthem, e Higher rock, da compositora folk Martha Scanlan, os vocais dela ganham muito destaque, à frente do chefe – e Plant mostra que fez com que seu registro vocal se adaptasse ao passar dos anos (se você não ouve os discos solo dele e a música mais recente que você escutou com a voz de Plant saiu em 1979, vai acabar ouvindo “outro” cantor, com registro vocal mais envelhecido, mas talvez mais maduro e seguro).
O som de Saving grace é uma mistura de referências que ele carrega desde a época do Led: folk, blues, gospel, canções tradicionais. Nesse último quesito, tem I never will marry, arranjada por ele e pelo grupo, que é uma cantiga sobre um homem que escuta o lamento de solidão (ou o cântico de empoderamento, vá lá) de uma mulher – além da redentora Gospel plough. Chevrolet, que abre o disco, é uma baita curiosidade histórica: um blues de Memphis Minnie que foi recomposto, regravado e mudado ao longo dos anos (Donovan figura como um dos autores, por causa dessas “refações” que levam a faixa ao folk dos anos 1960). Plant e cia fizeram dessa música um folk meditativo sobre desejos e aspirações.
Esse clima de “meditação” é a tônica de Saving grace, aparecendo em faixas de clima esparso como As I roved out (tradicional, com arranjo de Sam Amidon), o blues-soul Soul of a man (de Blind Willie Johnson, cantado por Suzi e Plant em clima de Crosby, Stills, Nash & Young) e o folk luminoso It’s a beautiful day today (do repertório da banda psicodélica sessentista Moby Grape). Já Everybody’s song, da banda noventista Low, tem clima zeppeliano-oriental, e até um certo peso no arranjo. Saving grace é uma maravilha que sobrou do ano passado.
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Crítica
Ouvimos: TV Star – “Music for heads”

RESENHA: Em Music for heads, TV Star estreia com dream pop, shoegaze e indie noventista, unindo guitarras, psicodelia e letras sobre libertação e relações tóxicas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Father / Daughter Records
Lançamento: 24 de abril de 2026
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O TV Star vem de Seattle, tinha só EPs na discografia antes desse álbum Music for heads, e faz uma espécie de dream pop + shoegaze “de estrada”, que faz vir à mente nomes como Waxahatchee e Howling Bells – além do trabalho solo da cantora do HB, Juanita Stein. Na maior parte do tempo, eles se comportam como uma banda de blues rock e country que pode pesar o som, ou como um grupo de jangle rock modernizado e com a cara de 2026 – da mesma forma, muita coisa soa como britpop made in USA, nos dias de hoje.
Ambas as facetas convivem no dedilhado da bela The package, no clima de nuvem de Reality cheque e na onda quase velvetiana de Two revolutions. Algo entre Mazzy Star e o Jesus and Mary Chain da era Stoned and dethroned (1994) convivem lado a lado em Texas relation e Greener postures, enquanto a distorção-e-percussão de For heads põe mais psicodelia no clima do disco.
O fim de Music for heads parece existir por causa dos inícios de carreira de bandas como Blur e Ride, com o indie rock anos 1990 + jangle pop de Lodestar e Koresh me down, além da onda despojada de Out of my bag (uma homenagem assumida ao universo Madchester e ao britpop dos anos 1980 e 1990) e Strawberry hero (essa, com voz, violão e beat marcial). As letras, por sua vez, aludem à libertação de manipulações e ao fim de relacionamentos tóxicos. Uma banda tranquila mas com energia demolidora.
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