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Ouvimos: Public Enemy – “Black sky over the projects: Apartment 2025” / Chuck D – “Chuck D presents Enemy Radio: Radio Armageddon”

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E os discos que Public Enemy e Chuck D (integrante do grupo, em carreira solo) lançaram ano passado? Dois álbuns de rap old school com novos elementos e reflexões sobre idade, mercado do rap e tempos digitais.

RESENHA: E os discos que Public Enemy e Chuck D (integrante do grupo, em carreira solo) lançaram ano passado? Dois álbuns de rap old school com novos elementos e reflexões sobre idade, mercado do rap e tempos digitais.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9 (para ambos)
Gravadora: Enemy / Flavor Flav (Public Enemy) e Def Jam (Chuck D)
Lançamento: 8 de julho de 2025 (Public Enemy) e 16 de maio de 2025 (Chuck D)

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A essa altura já tem novidade no front de uma das bandas de rap mais históricas do mundo: o Public Enemy pegou o hit He got game, tema do filme de Spike Lee Jogada decisiva, e transformou em She got game, com participações de rappers e esportistas mulheres. Flavor Flav se tornou patrocinador da Seleção Feminina de Polo Aquático dos EUA nas Olimpíadas de 2024, e a equipe está nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026, o que motivou a faixa.

Mas vale apontar que 2025 viu nascer não apenar um álbum novo do grupo, como também um disco solo do integrante Chuck D – que, por sinal, já tem um projeto colaborativo bem instigante programado para sair em 2026. Há algumas coisas em comum entre Black sky over the projects: Apartment 2025, do Public Enemy, e Enemy Radio: Radio Armageddon, de Chuck D. Tanto o rapper quanto seu grupo mantêm-se firmes no rap old school, mas acrescentam novos elementos, e não dispensam comentários sobre a passagem do tempo.

Na real, com lançamentos de rap cada vez mais “alternativos” e criativos, muita coisa que o Public Enemy já fazia lá pelos anos 1980 corre o risco de ser vista como uma alternativa nos dias de hoje. Apartment 2025 investe no boombap, em faixas com vários segmentos (com ritmos, climas e samples alternados) e em riffs hipnóticos de piano – enfim, o que poderia servir como uma cláusula de “psicodelia” para vários novos artistas é o procedimento normal de Chuck D, Flavor Flav e seus amigos.

O novo álbum fala sobre CEOs em estado de fúria e caos mental geral (Slick, unindo rock, blues, rap e jungle), gente escrota pagando comédia (Evil way, de versos como “tudo que sobe, desce / a gravidade tem um jeito de derrubar palhaços / tropeçando na cara, caindo escada abaixo / você é um homem mau / mas até os selvagens mais cruéis acabam sendo humilhados pelos comuns”), idade avançada (em What eye said, que entre versos como “deveria ser crime, agora estou perdendo meu ritmo / 64 versos para memorizar / consultei um psiquiatra para me ajudar” fala sobre como é ser um rapper e não recorrer a rimas fáceis).

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Fools fool fools, com sons de bateria de Tré Cool, do Green Day, fala de um mercado fonográfico cada vez mais lotado de rappers, diluidores, aproveitadores e gente achando que autotune é gaita. O Public Enemy põe texturas de rock em algumas faixas, e privilegia uniões entre soul e psicodelia em várias outras, cabendo lembranças de grupos como Parliament / Funkadelic. Em vários momentos, o grupo encara os novos tempos com estranhamento – e vamos combinar que esse estranhamento tem lá suas justificativas, como na gracinha de Sexagenarian vape, reclamando de quem prefere fumar MP3 e gastar o dedo na tela (“você ama esses aplicativos, eu vou tirar um cochilo / porque você está bêbado de fama, tentando conseguir esse nome / correndo atrás de curtidas em vez de arrasar no microfone”).

Essa onda também é o combustível de Enemy Radio: Radio Armageddon, de Chuck D, álbum feito por um rapper experiente, que encara o estilo musical como uma rádio com vários programas – na real, é uma noção que faz parte do imaginário do estilo, tanto que já foi usada por De La Soul (em De La Soul is dead, de 1990), Racionais MCs (que criaram a Rádio Exodus no disco duplo Nada como um dia após o outro dia, de 2002), além do próprio Public Enemy. Em 2026, pode ser uma maneira de dizer que se a revolução não será televisionada, muito menos virá por intermédio das big techs, nas redes sociais e nas plataformas de música.

Em Enemy Radio, o girar do dial é uma maneira de dizer coisas, e de misturar universos, passando por uma análise da história do rock em What rock is, pelo empoderamento de Black don’t dead, pelo contato com os novos rappers em New gens, e pelo ódio de parte a parte (vindo da polícia, de rappers invejosos, de amigos falsos) em Rogue runnin’. Num disco dominado basicamente por convidados de velhas gerações do rap, Chuck une sons hipnóticos (New gens, Rogue runnin’, Carry on), faz rap + eletrohardcore (What are we to you?) e mexe com sons que fazem lembrar o hino Rational culture, de Tim Maia (na feminista e libertária Is god she?, com ½ Pint e Miranda Writes). Discão.

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Ouvimos: The Sophs – “Goldstar”

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Resenha: The Sophs – “Goldstar”

RESENHA: The Sophs estreia com Goldstar, disco que mistura indie, country torto, punk e alt-rock em canções imprevisíveis e cheias de personalidade.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Rough Trade
Lançamento: 13 de março de 2026

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Existe uma possibilidade do The Sophs, que vem de Los Angeles, entrar pelo mesmo buraco de tatu pelo qual passou o Geese – e sair lá no mainstream. Por enquanto, esse sexteto não parece ter cara de manobra psicológica, mas é uma banda que usa a esquisitice como arma pop em vários momentos de seu disco de estreia, Goldstar. Especialmente no que diz respeito ao vocalista Ethan Ramon, um amante dos fluxos de consciência, dos vocais intensos e das histórias de bebedeiras e perdições pelas ruínas da vida.

O The Sophs tem a mesma obsessão pelo country que o Geese tem – o estilo, além de todo seu imaginário, é usado como recurso em vários momentos de Goldstar. Nunca li nenhuma entrevista da banda, mas acho difícil que sejam amantes do estilo, porque o lance ali é rock alternativo, indie rock e estranhezas.

Para quem tem entre 40 e 50 anos, tem uma chave de compreensão interessante em Goldstar: a estreia dos Sophs é a cara da finaleira dos anos 1990, quando de repente o rock começou a ficar estranho e nostálgico a ponto de surgirem hits improváveis como o bolerinho The way (do Fastball), o pop sixties do espaço Walking on the sun (do Smash Mouth) e a cascata de emoções de bandas como Cake. No Brasil, Los Hermanos fizeram sucesso com Anna Julia porque, provavelmente, a jovem guarda weezeriana dos cariocas cabia no meio disso aí tudo.

Essa cláusula de loucura permite que os Sophs abram Goldstar com dois mistos de barulho pixie e cantiga de violão à Paul McCartney (The dog dies in the end e Goldstar), prossigam com um som que mais parece com uma canção da Shakira em clima punk (Blitzed again) e caiam depois no alt-rock elegante (Sweat). Quando você começa a achar que não tem mais como saber pra onde o disco vai, surge um folk rock gospel (House), um punk country (Sweetpie) e um power pop herdado diretamente do evangelho dos Replacements (Death in the family).

Momentos em que tudo parece mais com um velho cântico de festas mafiosas não faltam em Goldstar, disco que adere também às working songs (A sympathetic person), à poesia falada em clima sixties, com órgão de churrascaria e clima punk (a destrutiva The told me jump, I said how high) e a algo entre The Jam e Strokes (I’m your fiend). Se eu descobrir que The Sophs é invenção de algum fabricante de loucuras indies, vou ficar bem puto.

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Ouvimos: Mesh Kimono – “Line cliché” (EP)

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Resenha: Mesh Kimono – “Line cliché” (EP)

RESENHA: Mesh Kimono estreia com Line cliché, um EP de psicodelia pop que mistura rádio dos anos 1970, vaporwave, glitches e romantismo espacial.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Living Waters Records
Lançamento: 26 de junho de 2026

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Mais conhecido por seu trabalho como músico acompanhante (tocou com MGMT, Craig Finn Band, Lemon Twigs) o norte-americano Will Berman estreia solo com seu projeto Mesh Kimono e o EP Line cliché. Uma espécie de viagem psicodélica e mística em torno do som de rádio dos anos 1970 – como imaginário, Will cita “os karaokê decadentes e os lounges de piano esfumaçados e sombrios da Nova York do final dos anos 70”, além de referências musicais como Jeff Lynne, XTC, Todd Rundgren, Andy Partridge e Eric Carmen.

  • Ouvimos: Lulina e Hurso – Vida amorosa que segue vol. 2

Na real, é como se o pop de rádio da virada dos anos 1970 para os 1980 (uma lista que inclui Doobie Brothers, Christopher Cross, Rita & Roberto, Lincoln Olivetti, Hall & Oates e tudo que era lento demais para ser disco music) fosse jogado num chip de computador – ou numa fita VHS coloridíssima, estourada e com defeitos. Essa onda passa por faixas como o pop “physical” Permanent death, som tecladeiro, cheio de glitches, e com bateria eletrônica “antiga”. E também pelo romantismo espacial, a la Genesis e Guilherme Arantes, de Supermoon.

Um clima que passa aliás por todo o EP, que ainda tem a balada psicodélica Floating away, o aconchego pop e mágico de After all e pelo menos um tema “tristinho” de novela dos anos 1970, Waterbaby – só que transformado em vaporwave furioso e estelar. Um EP curto e viciante.

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Ouvimos: Katy da Voz e as Abusadas – “Sandra Eletrônica” (EP)

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Resenha: Katy da Voz e as Abusadas – “Sandra Eletrônica” (EP)

RESENHA: Katy da Voz e as Abusadas troca o funk por techno e house em Sandra Eletrônica, EP de batidas fortes, humor e letras sem freio.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 11 de junho de 2026

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Entre os preparos para uma turnê europeia, Katy da Voz e as Abusadas decidiram fazer um EP que fosse mais “música eletrônica” do que essencialmente um disco de funk. Sandra Eletrônica é formado basicamente por techno, house e club music, e os batidões aqui são outros.

  • Ouvimos: Cyberkills – Dedo no cue

A receita de muita sacanagem nas letras envolve agora a rapidez aeróbica de Drogas, sexo, techno, repete! (“diga não às drogas / dependendo, diga sim”, zoa a letra) e o bailão anos 1990 da faixa-título, de versos como “agora tá todo mundo vendo meu piriquito no grupo da igreja!” e “é piranha, é gainha / dá o (*) e faz a linha”.

Se não tá bom o suficiente pra você, tem o clima quase Domingo Legal anos 90 da inacreditável Ejacu e a onda Só as melhores da Pan de Diz aquendei, cada uma mais pornô do que a outra. No final, o disco todo surge remixado numa faixa só, Mixtape da Sandra. Música sem freio e sem filtro.

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