Crítica
Ouvimos: Beyoncé, “Cowboy Carter”

O disco novo de Beyoncé já era um clássico antes de sair: a maior cantora pop da atualidade, uma afro-americana nascida e criada no Texas, vinha pensando Act II: Cowboy Carter há alguns anos como um projeto redefinidor não apenas para ela, como também para a história da música norte-americana. Considerada “pouco próxima” do universo da música country – especialmente após uma aparição na premiação Country Music Awards que tocou no nervo exposto do preconceito do fã do estilo – ela decidiu mexer não apenas na história do gênero, como no próprio racismo histórico que faz com que ninguém pense na existência de cowboys negros no Velho Oeste.
- Curiosamente há ate um filme de 1971 sobre o assunto, Black rodeo, que mostra um rodeio no Harlem, do qual participam Muhammad Ali e o ator (e ex-atleta) Woody Strode.
O álbum (segundo ato de uma trilogia iniciada com Renaissance, de 2022, daí o Act II acrescentado ao título e tantos “II” nos nomes das faixas)) também merece parabéns pela verdadeira festa de referências. Você tem que ouvir o álbum lendo todas as informações possíveis sobre ele – algo que nem Madonna, Prince, David Bowie, Michael Jackson ou George Michael haviam conseguido antes. Se você ouvir Cowboy carter distraidamente, vai perder boa parte da festa. Nomes como Linda Martell, cantora negra de destaque no country, desaparecida do mercado há 50 anos, são evocados e convidados por Beyoncé para mais do que soltar a voz, abençoar o disco – ela surge justamente no batidão Spaghettii, uma das faixas menos associáveis com qualquer coisa de country, cabendo até um sample de funk (Aquecimento – Vem vem vai vai, do DJ Dedé Mandrake). Também gravou uma vinheta com sua voz.
O nome “country”, faz alguns anos, não identifica exatamente um estilo musical. É praticamente um guarda-chuva sob o qual se equilibram várias nuances e gêneros – Taylor Swift, pop a perder de vista, volta e meia faz questão de resgatar sua cidadania country em declarações e entrevistas. É nessa variedade musical, além da fidelidade ao imaginário do estilo (um verdadeiro canhão de comunicação para histórias pessoais de luta e vitória) que Cowboy Carter se segura, desde a abertura com o gospel Ameriican requiem, unindo cítaras, violões, samples de cordas e versos que unem pessoal e político (“diziam que eu era country demais/veio a rejeição, disseram que eu não era country o bastante” ao lado de “réquiem americano/as grandes ideias estão enterradas aqui”). Por acaso, é um dos álbuns mais audivelmente orgânicos já lançados pela cantora, com violões, guitarras e cordas – mesmo que sampleados.
O clima passa pelo trap-country da estradeira 16 carriages e pelo soul de saloon de Texas hold’em. E por dois tributos à musicalidade do Fleetwood Mac em sua fase pós-1975: o rock de FM Bodyguard e o pop country II most wanted – essa última, trazendo Miley Cyrus dividindo os vocais, é referenciada no hit Landslide, composto por Stevie Nicks. E por Ya ya, que traz Beyoncé procurando soar sessentista e pop-clássica, numa música cujo clipe poderia ser assistindo na scopitone instalada no bar mais próximo – referências de These boots are made for walkin’, de Nancy Sinatra, e Good vibrations, dos Beach Boys, surgem no decorrer da faixa. Blackbiird, a regravação-sample de Blackbird, dos Beatles, repatria a luta original pelos direitos humanos da letra.
Cowboy Carter vem sendo considerado como um passeio no dial do rádio – um conceito que, mesmo tendo trechos radiofônicos gravadas por Linda Martell, Dolly Parton e Willie Nelson, surge mais como uma gracinha e desaparece no decorrer da audição. Por sinal, Beyoncé regrava Jolene, de Dolly, mas inclui versos que deixam a letra mais feroz e ameaçadora, como se fosse uma disputa dos novos tempos. Riiverdance, outro destaque do disco, parte de uma violada country para recriar a house music e os batidões dançantes. Levii’s jeans, com Post Malone, traz mais pop herdado do rock e do country, com sinuosidade herdada do hip hop e do trap nos vocais. Repleto de vinhetas, o álbum destaca, entre as curtinhas, os vocais trabalhados de Flamenco e o diálogo voz-e-baixo de Desert eagle.
O novo álbum de Beyoncé, como tudo que vem rolando na carreira dela, é um projeto histórico-cultural (e não é?) e uma jogada de xadrez daquelas – em tempo de eleições nos Estados Unidos, ela surge na capa carregando a bandeira norte-americana e resgatando a influência de seu povo nos rumos do país, ao mesmo tempo que garante mais e mais atenção (e dinheiro, enfim). Vale acrescentar que, seja como for, Cowboy Carter é um disco bom para converter não-fãs, pessoas anti-pop e indignados em geral.
Nota: 9
Gravadora: Parkwood/Columbia
Crítica
Ouvimos: Makeshift Art Bar – “Marionette” (EP)

RESENHA: Makeshift Art Bar mistura jungle, industrial, ska e eletrônica pesada em Marionette, EP intenso, caótico e cheio de tensão.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Heist or Hit
Lançamento: 26 de junho de 2026
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Vindo da Irlanda do Norte, o Makeshift Art Bar é uma banda interessada em porrada, caos e ousadia: Marionette, o segundo EP, une sons eletrônicos e peso sem soar parecido com o Ministry ou com qualquer outra banda craque do estilo.
O som de faixas como Chocolate é basicamente um jungle distorcido e imagético, gravado como se fosse uma trilha de filme – dá para imaginar uma pista de dança escura bombando. Crows é um blues industrial porradeiro, em que o ritmo parece dado por várias correntes rangendo, enquanto a letra fala sobre incertezas e falta de paz.
- Ouvimos: Data Animal – Future of ghosts
Marionette é um EP curtinho, com duas faixas em cada metade. Discipline tem ares de Laibach e de Alien Sex Fiend – une música sombria, clima hi-energy, peso e ondas de pavor. Servant, no final, é um ska demoníaco e pesado, em que temas como controle mental e manipulação se tornam cada vez mais apavorantes.
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Crítica
Ouvimos: Bleeder – “Marble station” (EP)

RESENHA: Bleeder une pós-punk, post-rock e experimentalismo em Marble station, EP que transforma duas covers em viagens sonoras densas e sombrias.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Escho
Lançamento: 5 de junho de 2026
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Direto da Dinamarca, o Bleeder é o projeto musical de Peter Peter, mais conhecido como autor de trilhas de filmes de ação e crime. No EP Marble station, ele se cerca de amigos, como Elias Ronnelfelt (do Iceage), para unir pós-punk e experimentalismo roqueiro histórico.
Marble station tem quatro faixas, mas o clima é de ocupação sonora, abrindo com a faixa-título. São nove minutos de música em que as guitarras vão tomando conta de um jeitão até meio emo – mas com piano luminoso e clima perdido, quase de post-rock, em que o peso vai chegando aos poucos. Here comes the dead, a outra autoral do álbum, é metal post-rock, em clima sombrio e sonhador.
O repertório de Marble station é complementado por duas covers. Boy / girl, de Lydia Lunch, vira hardcore ruidoso e eletrônico, com ares de Ministry, mas ganhando até uma percussão. If not this time, música da pioneira banda experimental estadunidense Fifty Foot Hose, é psicodelia sombria sessentista. Loucura sonora mapeada.
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Crítica
Ouvimos: Jokas – “Ispiridiguiberto”

RESENHA: All Jokers vira Jokas e lança Ispiridiguiberto. São 16 minutos de punk e hardcore irônicos, pesados e maduros, entre zoeira, crítica e boas melodias.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Lixo-O-Rama Discos
Lançamento: 28 de junho de 2026
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Falamos outro dia de um álbum de onze minutos, mas tá aí a banda paulista Jokas quase na mesma linha. Ispiridiguiberto, o primeiro álbum do grupo, tem oito faixas e uma duração pouca coisa menos extravagante (16 minutos) que Magazine, o tal disco curto do YHWH Nailgun. O Jokas, que vem de Campinas (SP), é “das antigas”: é o clássico grupo punk All Jokers com outro nome, mas com a mesma receita irônica e ruidosa.
Ispiridiguiberto, primeiro álbum com o nome novo, oscila entre punk californiano e hardcore para falar de vida no limite (Vida de doidão), ruindades do mundo (Fuck this shit, a faixa-título), amores (She couldn’t wait, em clima meio The Clash, meio NOFX). Tem zoeira em tom surf-punk, A bosta, e hardcore em clima guerrilheiro, Come join us – completando com a beleza punk de Goodbye, grey sky e Sweet perfection. Som com peso, vocais bacanas e maturidade nas composições.
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