Crítica
Ouvimos: American Football – “American Football (LP4)”

RESENHA: American Football encara envelhecimento, fracassos e culpa em LP4, disco sombrio que mistura emo, jazz, post-rock e confissões doloridas, além de toques de Smiths, The Cure e Joy Division.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Polyvinyl
Lançamento: 1 de maio de 2026
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Nos anos 1990, aqui no Brasil, o American Football era uma banda privativa de gente que amava emocore e tinha bala na agulha para CDs importados – ou contava com amigos que tinham uma coleção enorme. O mesmo pode ser dito de bandas que fazem parte da árvore genealógica deles, como Cap’n Jazz e Joan Of Arc. Na real, eram bandas até mais para quem lia a revista de skate Thrasher do que para compradores de revistas importadas de rock.
No caso do American Football, a banda sempre foi marcada por uma mescla de música, atitude e independência sonora, exposta no uso de dedilhados de guitarra, afinações pouco convencionais e referências que iam do math rock ao post rock. Um clima que tinha mais a ver com o sucesso cult do que com o reconhecimento naquela mesma hora pela crítica e por um público gigante. Vai daí que bandas como AF e Cap’n Jazz foram ouvidos por uma turma enorme que recentemente se destacou em estilos como Midwest emo e até shoegaze – o reconhecimento demorou mas foi chegando aos poucos.
American Football ou LP4, como se tornou conhecido (todos os álbuns da banda são epônimos, bastante espaçados, e têm capas que “dialogam” umas com as outras) é o quarto álbum do AF. O grupo de Mike Kinsella (voz, guitarra, baixo), seu primo Nate Kinsella (vocais, baixo e vibrafone), Steve Holmes (guitarra e teclados) e Steve Lamos (bateria, percussão e trompete) parece nunca ter achado fácil fazer álbuns, talvez por enxergarem discos como radiografias do momento. E o momento nem sempre era o mais tranquilo ou adequado para os integrantes.
Quem leu recentemente um perfil revelador da banda publicado na revista GQ viu que nem tudo foram flores para o AF – até hoje, aliás, nada ali é um mar de rosas. Pulverizados na história recente do grupo, surgem drogas, álcool, problemas de saúde, filhos, pais idosos dos integrantes, empregos de 9-às-5, divórcios (provocados justamente pelas recentes turnês do grupo, já que as esposas não haviam casado com rockstars, e sim com roqueiros de fim de semana) e falta de grana para manter turnês funcionando. Sem falar em questões normalmente só resolvidas com terapia.
Segundo a GQ, o LP4 se destaca na história da banda por ter sido o primeiro feito após, à beira dos 50 anos, todos os integrantes se conscientizarem a respeito de suas idades. Musicalmente e emocionalmente, é o álbum mais trabalhoso do grupo. Na real, dá trabalho até para ouvir, porque está tudo exposto lá, com melodias sombrias e letras sinceras ao extremo, cheias de confissões bem complexas e tortas. Na abertura, Man overboard parece quase um rock progressivo, com vocal tranquilo e uma batida indistinguível: soa como se houvesse algo defeituoso na bateria, com um ritmo que não toma forma e é constantemente atropelado.
Man overboard vai nessa linha até tomar a forma de um post rock + math rock em que Kinsella apela ao sentimento de total perdição diante da vida: “se eu algum dia zarpar, prometa que não vai rezar por mim / deus nunca me ensinou a nadar, apenas a afundar (…) / homem ao mar, não há esperança”. Dedilhados, synths e um clima de adeus tomam conta de No feelings, em que Mike canta “eu sei que você está esperando por algum sinal de vida, mas a dor é insuportável / boa noite”, pouco antes de Brendan Yates (do Turnstile, uma das várias bandas que passaram de Rolls Royce na estrada que o AF abriu a golpes de facão) se juntar a ele no refrão (as frases “sem dor” e “sem sentimentos” repetidas entre outras frases).
Blood on my blood, por sua vez, é uma das mais oitentistas do disco, aludindo diretamente ao rock de Manchester (Smiths, New Order, Joy Division) e a todo tipo de pós-punk sombrio da época – com Caithlin de Marrais, da banda emo contemporânea Rainer Maria ajudando nos vocais. Essa onda “anos 1980”, herdada especialmente do JD e dos Smiths, serve como uma cola no disco, já que faixas como Wake me up e Patron saint of pale são quase um revisionismo jazzy do som de Morrissey e Marr, com dedilhados e experimentalismos. Patron, uma composição circular e experimental, com palmas hispânicas, ritmo pouco usual e clima ambient que surge lá pelas tantas, também tem muito do country loucão do Geese, até no vocal e no arranjo cheio de surpresas.
Uma das músicas mais “normais” de LP4 é justamente uma música que jamais deixaria que o American Football fosse classificado tranquilamente como “banda emo”: Bad moons, de oito minutos, primeiro single do álbum, é a união de duas músicas do grupo – tornou-se um post rock legítimo, marcado por cordas e por um riff de harpa, em que um homem segue “relutantemente vivendo a vida de um homem adulto, acumulando seus erros e culpas ao longo do caminho”, como disse Mike.
Desdemona e No soul to save, no final do álbum, seguem um receituário entre Radiohead, The Cure e os próprios Smiths. A primeira apresentando um começo “mágico”, com celesta e riff de vocais, muita emoção e surpresa para ser absorvida de primeira. Já a última, é uma música que vai sendo construída aos poucos em torno de uma batida igualmente construída aos pedaços – e cuja letra soa como o Renato Russo triste e indignado de Uma outra estação, último disco da Legião Urbana (1997): “senhoras e somente os homens mais gentis, por favor, vão se foder / eu já disse que sinto muito por tudo e não vou repetir / bem, eu não nasci para viver num palco, meu amor / cometi muitos erros”. Tomara que hoje em dia, vá tudo bem com Kinsella, seu primo e seus amigos.
Mike solta em No feelings uma frase que parece resumir os sentimentos expostos em LP4: “Sinceramente, nunca planejei envelhecer”. Muita coisa pode ser extraída daí: planejamento financeiro, de saúde, ou o enferrujamento que torna difícil a um corpo de quase 50 anos se acostumar a uma realidade diferente – mesmo que a tal realidade seja “olha, sua banda agora vai dar certo e você tem uma turnê pra fazer”. Vai daí que a missão-visão-valores do American Football é transformar em música uma certa sensação de bomba relógio, de algo prestes a explodir, física e emocionalmente. LP4 é isso do começo ao fim.
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Crítica
Ouvimos: Tom Morello – “Everyone gets everything they want”

RESENHA: Em Everyone gets everything they want, Tom Morello vai além do Rage Against The Machine e cruza metal, rap, country e spoken word em letras sobre capitalismo, imigração, resistência e memória.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Mom + Pop
Lançamento: 25 de setembro de 2026
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Como garoto negro fã de metal e rock, Tom Morello deve ter sentido solidão várias vezes na vida. Em especial ao constatar que nem sempre dava para enxergar 100% de solidariedade nas letras de alguns de seus ídolos – e vale citar que ele, pelo menos até algum tempo atrás, conseguia manter uma amizade pra lá de enrolada com ninguém menos que Ted Nugent, o que já diz muito.
Seja como for, tudo foi canalizado para o desejo de independência, que gerou projetos como o Rage Against The Machine e este Everyone gets everything they want, primeiro disco solo de Morello – e um disco no qual, em vários momentos, ele surge frustrando quem esperava apenas uma repetição do que ele já fazia no RATM ou no Audioslave. Ainda sem uma voz de cantor de rock, Tom busca atacar em outros flancos: une vocais cantados a raps e foca na voz grave, incorporada, lembrando uma mistura de Leonard Cohen e Gil Scott-Heron.
Sintomaticamente, é nas músicas em que ele toca ao lado do filho Roman que aparecem riffs arrasa-quarteirão mais assemelhados aos de seus grupos anteriores. Como rola principalmente em faixas como o gospel-metal Soldier in the army of love, a porrada Date night e no single Adjourn it, dividido também com Serj Tankian, do System Of A Down. Sem colaboradores ao lado em Untethered, ele consegue deixar baixar um pouco do espírito de músicas como Killing in the name.
Tem mais: ao lado do Kneecap, em Unconquered, ele encara o dance-rock-rap pesado e sinuoso, igualmente com riffs de alta octanagem – e surge algo próximo do nu metal com a pesada Everything burns, colaboração com o pessadíssimo Beartooth. E Morello consegue, de alguma forma, unir Bruce Springsteen e Ozzy Osbourne (!) na balada metal Pretend you remember me. Ele faz até country nas guerreiras They can’t kill us all, I am not yours to command e The last rung on the ladder. E, mesmo trabalhada no peso e no groove, a faixa-título destaca-se mais pela mistura de metal, balanço e spoken word.
Já as letras de Everyone vão para os lados da contação de histórias e da análise de realidades: Tom pergunta quem paga as contas dos sonhos capitalistas dos outros (na faixa-título), relembra uma história real da resistência holandesa contra a ocupação nazista durante a Segunda Guerra (Date night) e fala sobre mãe e filho imigrantes separados pelas ações de deportação nos EUA (Pretend you remember me). E põe peso lírico no protesto e no irredentismo, afastando qualquer hipótese de soar panfletário. Um baita disco.
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Crítica
Ouvimos: Varanda – “Às vezes um sonho…”

RESENHA: No segundo álbum, Às vezes um sonho…, o Varanda amplia seu pop com slowcore, pós-punk, french pop e ecos do Clube da Esquina, sem perder a leveza do primeiro disco.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Selo Sesc
Lançamento: 28 de agosto de 2026
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Às vezes um sonho pode ser um planeta inteiro ou uma canção ou uma cama com travesseiro de pluma de ganso ou um apagão ou a grande luz no meio desse grande túnel no qual estamos inegável infalível incansavelmente passageiros. Esse é o nome completo do segundo álbum da banda mineira Varanda – um nome que desafia títulos de matérias (o SEO de qualquer site enlouqueceria) e de certa forma desafia o tempo (quando você chega na palavra final, já esqueceu a primeira, e precisa voltar). Só dá para ser lido como frase poética, com entonação especial e separação entre mini-frases.
Se você apostar que Amélia do Carmo (voz), Mario Ricardo (guitarra), Augusto Vargas (baixo e voz) e Bernardo Bara (bateria) fizeram de Às vezes um sonho… seu disco mais experimental, vai perder a aposta. Claro que tem experimentação ali, mas na verdade, trata-se do típico segundo disco de banda que passou no teste do segundo disco – e que se esforçou pra entender que a ideia é quase fazer um segundo primeiro disco, com novidades lado a lado com o que ficou melhor resolvido.
O som do quarteto ficou mais sofisticado, ganhando uma cara de pop chique e poético em faixas como Alameda Travessia (que chega a lembrar Samuel Rosa) e lidando com fantasmagoria pop-rock em Caminho – que parece um Phil Collins convertido ao slowcore, e ainda ganha um synth que, curiosamente, lembra Tom Sawyer, do Rush. Flecha tem ares de french pop e faz lembrar a mesma chiqueza de Vida pacata, hit do disco anterior, com imagens que evocam Milton Nascimento e Gonzaguinha na letra. A balada Sereno, com Fernanda Takai (Pato Fu) nos vocais, tem guitarra desértica e algo do mistério poético-musical da turma do Clube da Esquina.
Essa sofisticação dá ares voadores a músicas como a balada Cartão postal para Teruel e o pós-punk Eu não aceito desculpas, além do clima etéreo e nostálgico de Anjo de papel, outra que traz lembranças do pop francês. Já Riso solto tem algo de Sophia Chablau, e músicas como as lindas De longe e Planeta sonho mexem com a mesma herança mutante geralmente associada ao Pato Fu. Uma curiosidade é Labirinto, música na qual a banda percorre em menos de três minutos um caminho que vai de Kinks ao samba, passando pelo punk rock. Tudo junto, misturado, mas sem clima de salada. Ficou muito bonito.
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Crítica
Ouvimos: Marina Mole – “Azucrim”

RESENHA: Em Azucrim, Marina Mole acompanha um anjo descobrindo as contradições da vida humana enquanto cruza surf music, new wave, psicodelia, no wave e até Paulinho da Viola.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 10 de setembro de 2026
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Com um material composto ao longo de quatro anos, Azucrim, estreia em álbum de Marina Mole, invade um terreno quase tão perigoso quanto o das óperas-rock – o dos discos que contam uma historia, mas jogam a bola na direção do / da ouvinte, como Ziggy Stardust, de David Bowie. Você sabe que há uma história ali, mas muita coisa fica nas entrelinhas para você ir completando, como geralmente costuma acontecer nas melhores letras de música. Afinal, tudo que nem é tão literal tem MUITO mais graça – e ainda por cima o disco passa a se sustentar independentemente da história.
Pois bem: Marina e seu Azucrim se saem bem na tarefa de criar canções e momentos diferentes que, alinhavados, compõem um arco. O personagem-título é um anjo criado por ela, que desce a Terra (na primeira faixa, Descida) e no final descobre que a vida é bem mais complexa do que a velha divisão entre anjos e demônios (em Fúria leve, um quase shoegaze que está bem mais próximo da psicodelia ruidosa e suingante). Já musicalmente, Azucrim é preenchido por uma energia musical que passa por surf music, Blondie, B-52’s e os estilingues guitarrísticos de Duane Eddy – presentes em Descida, Azucrim, Alô, tudo bem, e outros momentos.
Concebido como um disco de época que relembra uma outra época – um flashback dentro do outro – Azucrim passa pelo sonho musical de Sonho de voo, pela onda surf music de Luneta azul, pela criatividade de Coração remendado (que cria um baile punk inacreditável em cima de Coração imprudente, de Paulinho da Viola), pela psicodelia de Terrível e Cidade ou estrela… O clima de new wave celestial e espacial é quebrado em alguns momentos, como na no-wave Slowdancing, cuja letra fala sobre um desejo que nunca cessa, mas que nem sempre consegue ser realizado. No fim, Azucrim é um anjo bem humano.
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