Crítica
Ouvimos: The Vaccines, “Pick-up full of pink carnations”

- Pick-up full of pink carnations é o sexto disco da banda britânica The Vaccines, formada hoje por Justin Young (vocal principal, guitarra), Árni Árnason (baixo, vocal), Timothy Lanham (guitarra, teclado, voz) e Yoann Intonti (bateria).
- É o primeiro álbum de estúdio após a saída do guitarrista Freddie Cowan, que deixou o grupo em 2023 – uma decisão que o músico disse não ter sido fácil.
- Justin tirou o nome do disco do hit American pie, de Don McLean, que tem o verso “I was a lonely teenage broncin’ buck/with a pink carnation and a pickup truck”. O cantor morava em Los Angeles quando compôs as letras, identificou-se com os sentimentos da música de McLean, e decidiu que o nome do disco traria uma referência à “perda de sonhos”, até pelo fim de vários relacionamentos dele.
Os Vaccines são hoje o que os Killers poderiam ter sido: uma banda cool, para a qual não falta glamour, e em especial, não faltam canções boas, ganchudas e irônicas. Nem tudo dos Vaccines é 100% bom, mas o fato é que não falta assunto para a banda, e não falta resenha para quem acompanha a carreira deles. Você sempre vai estar comentando de um disco, uma música, uma letra, um detalhe. Os álbuns de modo geral vão direto ao assunto, as músicas já ganham o ouvinte de cara por um riff qualquer (ou por evocar alguma banda querida) e, de modo geral, é fácil gostar deles.
O disco novo de Justin, Yoann, Ámi e Timothy segue o fluxo da simpatia, acumulando influências do punk, do pós-punk e do rock do começo dos anos 2000. Mas dessa vez num certo clima de fim de festa, dado pelas letras meio desencantadas. Sometimes, I swear, a faixa de abertura, repete várias vezes “às vezes, juro/parece que não pertenço a lugar nenhum”. Heartbreak kid fala em “quando todo mundo te chama de garoto com coração partido/você não pode acreditar que eles realmente desistiram”. Vai por aí, e musicalmente o disco não reflete essa tristeza, soando às vezes como aquelas músicas que rolam tanto na pista de dança, que só depois de vinte anos você percebe que elas eram verdadeiros clássicos da dor de cotovelo.
O material de Pick-up prossegue numa receita que os Vaccines arrumaram e que faz com que o material da banda pareça super identificável: na abertura, um riff grave de baixo, um toque intermitente na guitarra, abrem espaço para um som dançante e um refrão explosivo, em faixas como Lunar eclipse, Sometimes, I swear, Love to walk away, marcadas pelo bom diálogo rítmico entre baixo, bateria e guitarra, assim como acontece em Discount De Kooning. Já a charmosa Sunkissed tem baixo sessentista e clima soando como um Roxy Music dos anos 00. No final, Anonymous in Los Feliz tem alegria na melodia, mas a letra resume o clima de gilete-no-pulso de boa parte do disco (“não consigo dormir com uma memória/então mostre-se para mim/e volte para mim”).
Nota: 8,5
Gravadora: Thirty Tigers/Super Easy
Foto: Reprodução da capa do álbum
Crítica
Ouvimos: Josie – “Sensações” (EP)

RESENHA: Sensações, EP da paulista Josie, mistura brasilidades e vibes ligadas a estilos como post rock, dream pop e synthpop em uma viagem existencial da Confusão à Luz.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamentos: 26 de novembro de 2025
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Celebrando as “as emoções, as belezas e as imperfeições do cotidiano”, a paulista Josie faz no EP Sensações uma música brasileira cujas emanações vão até estilos como rock progressivo e dream pop. Não é uma música fácil de colocar em gavetas, mas Confusão, a faixa de abertura, remete tanto a Peter Gabriel quanto à vanguarda paulista (por causa dos vocais), e insere também climas jazzísticos no piano. Escuro tem clima gélido que remete aos lados mais experimentais do synthpop, mas também tem calor garantido pelas dissonâncias na melodia, e pela voz de Josie.
- Ouvimos: Janine – Muda (EP)
Seguindo como uma travessia existencial – da Confusão, que abre o EP, até a Luz, que encerra o disco – Sensações fala de motivos para sonhar em Transição, uma espécie de samba eletrônico ao contrário, que lembra Tom Zé. Calmaria é uma drum’n bossa viajante, o lado mais dream pop do disco, propondo um momento de descanso, de fechar os olhos. Luz abre e prossegue numa onda quase erudita-nordestina, e encerra com clima post-rock. Uma coleção de sensações e climas musicais.
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Crítica
Ouvimos: MC Taya – “Histeria agressiva 100% neurótica vol. 2 – Muito mais neurótico” (EP)

RESENHA: MC Taya e banda detonam machismo, racismo, violência e abuso em Histeria agressiva 100% neurótica vol. 2 – Muito mais neurótico, misturando funk, punk, metal e fúria social.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Deck
Lançamento: 28 de novembro de 2025
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MC Taya era apenas o nome de uma rapper – hoje, além disso, é um trio de rock liderado por ela, da mesma forma que Alice Cooper liderou uma banda com seu nome nos anos 1970. Taya contribui com vocais, letras, composição, atitude e histórias contadas com raiva. Em Histeria agressiva 100% neurótica vol. 2 – Muito mais neurótico (continuação do EP de mesmo nome, lançado em 2024), ela, Spieker (DJ, guitarrista) e Salva (bateria) criam a trilha sonora de uma distopia vivida pela gente 24 horas por dia – com direito a referências sonoras de Slipknot, Body Count, Slayer (especialmente) e vários outros grupos pesados.
- Ouvimos: FBC – Assaltos & batidas
Histeria abre com funk-rap-punk-metal nas alturas em Manifesto, que fala de violência policial, falência da guerra contra as drogas, capitalismo e escala 6×1 (“olha pro lado / é um bando de facho / querendo te roubar / fuder o proletariado”). Nerds&noias bate no racismo e na saúde mental do jovem oprimido (“filha da puta fica puto / porque eu racializo tudo / foda-se o que tu acha / eu que vivo nesse mundo de merda racista!!”).
Conto de fadas abre em tom romântico, e tem evocações de jazz e de rock experimental a la Primus na melodia, encerrando com peso, anti-romantismo e lembranças de abusos em relacionamentos – tema que surge também em Parasita, metal-rap com cara de Slayer, e no bate-cabeça metálico-funkeiro de É us capeta não adianta. O máximo de romantismo é o sexo ao som de Slipknot da vinheta Chovendo fetos do demônio – mas com Taya no controle.
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Crítica
Ouvimos: Aerosmith + Yungblud – “One more time” (EP)

RESENHA: Yungblud e Aerosmith revivem a fase anos 1990 do grupo norte-americano em EP irregular. Tem hard rock psicodélico competente, uma boa faixa (Wild woman) e resto sem grandes surpresas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 6
Gravadora: Capitol / Universal
Lançamento: 21 de novembro de 2025
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Tem um certo momento em que o que damos como garantido – ou seja: o que parece sair de uma torneira eternamente aberta – começa a escassear, às vezes sem que a gente se dê conta. Deve haver um gatilho que simboliza essa “falta”, mas o mais louco é que, quando a gente menos percebe, o que a gente achava que estava meio padronizado vira cult. Tipo jovens usando bigode ou bandas que fazem uma espécie de rock farofa alternativo. Ou artistas novos que estão mais próximos do emo (ou estilos parecidos) mas cresceram ouvindo a fase de sucesso noventista do Aerosmith, quando canções como Cryin’ e Livin’ on the edge não saíam do rádio.
Dominic Richard Harrison, o popular Yungblud, já foi definido como a mistura de “Robbie Williams, o falecido vocalista do Prodigy Keith Flint e o personagem Dennis, o Pimentinha” – e é um cara que usa imaginários conhecidos do rock para contar histórias e fazer música, como na ópera-rock Idols, lançada neste ano (e resenhada aqui pela gente). Normal que a parceria entre ele e o Aerosmith, pensada inicialmente para apenas uma música, tenha se tornado um EP de cinco faixas.
- Ouvimos: Sombr – I barely know her
Na real, One more time, o EP, traz o retorno do próprio som feito pelo grupo nos anos 1990 – aquela popização de psicodelia e de riffs de Rolling Stones e Led Zeppelin. Não é um disco excelente do Aerosmith, e é balizado por duas lembranças da era de discos como Get a grip (1993), em faixas como My only angel, o hard rock levemente psicodélico Problems, e o tom sombrio, roqueiro e selvagem de Wild woman – a melhor música, na cola do disco Rocks (1975).
A thousand days, por sua vez, é uma balada sem muito atrativo, que lembra não muito discretamente Knockin’ on heavens door (Bob Dylan). No fim, tem um remix de Back in the saddle (música de abertura do álbum Rocks) – que é quase a mesma música de sempre, só que com mais peso e ambiência, além dos vocais de Yungblud. Deve ter sido divertido para o convidado, mas não há muita coisa além da diversão por aqui.
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