Connect with us

Cultura Pop

Lendas urbanas históricas 8: Setealém

Published

on

Lendas urbanas históricas 8: Setealém

Voltamos com o oitavo e ÚLTIMO capítulo da nossa série sobre lendas urbanas, começando lá pelos anos 1980 e prosseguindo com as lendas que fazem a turma mais nova morrer de medo (essas lendas existem?). Dessa vez o papo é sobre Setealém, um universo paralelo que muita gente visitou (ou pelo menos crê que visitou)…

SETEALÉM: A PRIMEIRA CREEPYPASTA DO BRASIL? (2004-2020)

Para quem não sabe o que é creepypasta, a definição mais simples é: um compêndio de lendas urbanas sobre um mesmo tema em grupos de discussões da internet.

O termo Setealém tem sido um trending topic no ano de 2020 no Brasil. Mas Setealém, 7Além, Cetealém, Sete Além (não se sabe qual é a real grafia) é um lugar? Uma cidade, bairro? Os jovens e adolescentes brasileiros andam intrigados com o tema. Aliás, Luciano Milici, escritor e especialista em marketing, alega ter o registro da marca “setealém” e de suas variações. Conversamos com ele, que nos contou um pouco sobre essa história (confira lá embaixo).

MAS O QUE É SETEALÉM?

Calma! O POP FANTASMA esclarece todas as dúvidas sobre este lugar misterioso que vem assombrando muita gente na internet. Há pessoas que têm certeza de terem visitado o lugar sem querer (ou querendo) através de rituais. E até via Randonautica, o aplicativo estranho que vem fazendo a cabeça de jovens e adolescentes neste ano de 2020 (e sobre o qual falamos em outro capítulo desta série).

Advertisement

Os fãs acalorados de séries como Stranger things e de jogos eletrônicos de terror como aquele lançado pela empresa japonesa Konomi, o Silent Hill (que foi transformado em filme em 2006), entenderão bem o que é Setealém. Trata-se de um lugar apagado, decadente, com pessoas tristes ou rancorosas que sabem da nossa existência e não querem nossa presença. Não se sabe se é um plano espiritual ou um universo paralelo, o que se sabe é que os seus moradores chegam ao “nosso mundo” e nós chegamos ao “mundo deles”.

A lenda é a seguinte: em 2004 Luciano Milici criou um grupo de discussão no finado Orkut chamado Setealém. A descrição do grupo era sua suposta experiência paranormal ocorrida pelos idos de 1994. Muitos sites relacionados a histórias de terror esmiuçaram a estória relatada por ele e também detalhes sobre sua vida pessoal e profissional, em uma verdadeira investigação sobre a veracidade do seu currículo e sua vida pregressa na tentativa de desmascará-lo. Não é o nosso objetivo.

MOTORISTA, PARA TUDO QUE EU QUERO DESCER!

Reza a lenda que, em 1994, Milici, como fazia rotineiramente, pegou um ônibus em uma movimentada avenida de São Paulo. Aliás, foi sem nem olhar o destino, pois os itinerários de todos os ônibus faziam a rota que ele precisava. E seguiu ouvindo Nação Zumbi no discman distraidamente.

Ao entrar no ônibus, uma passageira, percebendo que ele era um outsider, questionou se o seu destino seria “Setealém”. Ele ficou confuso e os demais passageiros também pareciam incomodados com sua presença. Encaravam-no de modo fixo para que ele saísse e logo avisaram o motorista abrir a porta para ele descer. Desceu.

Advertisement

O ônibus fechou a porta, retomou o caminho até fazer uma curva em uma rua estreita e de paralelepípedos. Todavia, algo muito estranho, pois não havia ônibus naquela rota. Tentou encontrar explicação, achando que fosse um ônibus particular, mas lembrou-se que havia cobrador/trocador. Quando fez o grupo de discussão dez anos depois, ele foi bombardeado de histórias semelhantes. Além de outras muito sinistras, envolvendo experiências em que pessoas de forma distraída, em rotas familiares, acabavam chegando em Setealém.

Era um lugar de casas decadentes, postos de beira de estrada empoeirados e fedidos, luzes fracas, pessoas ríspidas – algumas mais benevolentes que aparecem para ajudar. E de crianças pálidas com olhos amarelos ou totalmente pretos, com roupas velhas ou de outras épocas (geralmente com roupas dos anos 30 até os anos 80). Tudo isso em um cenário em sépia ou sombrio.

BECO EM PORTUGAL

Um relato vindo de Portugal talvez seja o que mais destoa dos demais, pois relata a experiência de uma família brasileira em um local paradisíaco chamado Setealém, encontrado ao cruzarem o buraco de uma parede num beco de Lisboa. Mas nesse caso, a família deparou com flores lindas, uma terra muito fértil, animais lindos que não existem em nosso mundo, bem como uma paisagem tão perfeita que parecia foto do Pinterest.

Já um adolescente jurou ter usado o Randonautica para reencontrar seu “crush” que havia conhecido em uma balada e perdido contato. Após o aplicativo levá-lo até a residência da amada (que – adivinhe só – tinha uma pichação no muro com a palavra “Setealém”), ele recebe a notícia de que sua querida havia falecido de foma trágica três meses antes do reencontro.

Advertisement

Há também o relato perturbador da executiva de uma multinacional que contou no grupo Setealém do Facebook sobre quando em um resort na Bahia para uma conferência e, relaxando na banheira do luxuoso quarto, escutou um estrondo que parecia um tremor.

Ao abrir a porta, ela vê sua cama coberta por uma colcha velha e empoeirada, abajures antigos, nada lembrando o glamour do resort cinco estrelas. Retornando ao banheiro, tudo fétido, pior que banheiro de boteco…

Desesperada, a moça sai de roupão para procurar ajuda e quando encontra o recepcionista no elevador ele, de modo sarcástico, pergunta se ela está gostando da experiência em Setealém. A executiva pega o elevador novamente no andar. Ele volta a parecer o do hotel em que havia se hospedado, não uma espelunca. Ela não contou aos colegas a experiência, mas jura que jamais voltará ao famoso resort, nem se pagarem o quarto mais luxuoso!

A LENDA QUE PEGA CRIANÇAS

Mas a história que mais me apavorou foi a do toque de um tambor antigo que abre portais para castigar crianças rebeldes enviando-as à Setealém. Barulhos estridentes, músicas ruidosas ou de época, tem relatos que falam até que estiveram numa Setealém “oitentista”, no melhor estilo De volta para o futuro.

A conclusão que tirei foi a de que estas pessoas (se não forem outras identidades de Luciano) acreditam realmente na existência deste lugar, em virtude de terem tido estas experiências estranhas. Dizem que há moradores de Setealém querendo levar pessoas do nosso mundo a se converter ao mundo deles. Por isso, se alguém com aparência sombria lhe abordar e disser: “Você não quer ouvir a Palavra de Setealém?” comece a rezar…

Advertisement

ENTREVISTA COM LUCIANO MILICI SOBRE SETEALÉM

POP FANTASMA. Vou fazer algumas perguntas-chave. A história inicial eu já conheço. Também conheço o grupo do Orkut e os primeiros relatos. Vou procurar perguntar coisas que talvez não tenham te perguntado. Você tem recomendações prévias para familiares ou amigos próximos se por algum acaso você for parar em Setealém novamente? E se algum deles quisesse propositalmente visitar Setealém, você deixaria?

LUCIANO MILICI: Eu sempre estive envolvido com estudos reais e ficcionais de terror e sobrenatural, mas nunca cheguei a recomendar nada a ninguém, nem mesmo aos mais próximos.

Eu sou muito racional para com todos os fenômenos e, por isso, treinei meus filhos, amigos e familiares para serem sempre racionais. Se eu ou alguém que eu conheço se encontrar em um local desconhecido (seja neste ou em outro universo) agirá como se deve agir em um ambiente hostil. Sobre visitar propositalmente, alguns até querem, mas não creio que conseguiriam.

Você já recebeu relatos bastante verossímeis, embora as histórias sejam muitofantásticas. Você acha que estas pessoas que enviam relatos destas viagens interdimensionais possam ser escritores de literatura de terror ou literatura fantástica que estejam testando a aceitação das histórias? Sim. Já encontrei muitos que agiram assim no grupo de Facebook, principalmente. E não são só escritores. Há pessoas que querem “polarizar” a atenção dizendo ter receitas ou contatos específicos para, assim, chamarem atenção. Se o escritor é sincero e me diz que está criando uma ficção, deixo postar no grupo avisando.

Já ocorreu também de escritores mandarem relatos para o canal do YouTube pedindo para que eu divulgue como caso real. Ah, não posso esquecer: dada a minha negativa, os escritores buscam outros canais para emplacarem seus contos. Porém, nem sempre outros canais aceitam ficção deslavada. Meu filtro não é a verossimilhança, mas sim, o quanto a história é interessante.

Qual seria o relato que mais te assustou nestes dezesseis anos de divulgação da suposta existência desta dimensão chamada Setealém? O relato que mais me assusta é o meu mesmo. O do ônibus, na década de 1990. Isso, porque ele é real e é o único que eu posso colocar a mão no fogo no tocante à veracidade.

Escrevi sobre o aplicativo Randonautica e os jovens que alegam ter chegado em Setealém através dele. Você acha que o aplicativo tem algo sobrenatural? Em época de isolamento social, notou um maior interesse dos internautas sobre viagens interdimensionais? Por que eles querem viver tais experiências? Não acredito no Randonautica de maneira alguma. Acho a proposta interessante, mas não acho que funciona. Recebi e divulguei relatos a respeito por achá-los interessantes apenas. Não creio que a pandemia e o isolamento tenham aumentado o interesse por universos paralelos.

Advertisement

Eu acho que o enclausuramento forçado impulsionou a busca por distração passiva como TV e Internet. A partir daí, os temas ligados ao terror ou ao sobrenatural serviram como escape. Creio que o impulso das pessoas na quarentena seja visitar o nosso próprio universo e o nosso mundo que ficou restrito devido à pandemia. A busca por assuntos como universos paralelos está crescendo muito por conta das recentes descobertas científicas e a oferta de histórias assim na ficção.

Para você ter uma ideia, as gigantes mundiais de quadrinhos Marvel e DC, que já exploravam o tema multiverso desde os anos 1980, começaram a desenvolver histórias para TV e Cinema ligados a esse tema, como a Crise nas Infinitas Terras do Arrowverse da DC e o Spiderverse da Marvel. O assunto Multiverso é a NEXT BIG THING da ficção.

Quem é fã da série da Netflix Stranger things vai naturalmente achar que Setealém é uma espécie de “mundo invertido”, pois em ambas dimensões há escuridão, monstros, seres estranhos e versões maléficas de nós. Fãs do terror mais tradicionais dirão que as crianças descritas nos relatos de Setealém têm uma pitada de Stephen King. O que você acha? É fã? Sou fã e admirador de Stranger things, Stephen King, Twilight zone, Black mirror, horror vintage e tudo o que facilmente encontramos em relatos de Setealém. Acho válido dizer aqui, em primeira mão, que há três tipos de relatos no meu canal. São os que eu recebi e mexi muito pouco (no mínimo 20% da história foi mexida, nunca menos que isso); os que eu recebi e mexi em quase tudo (no mínimo 80% da história foi mexida) e os que escrevi inteiramente. Qual é qual? Nunca contarei.

CONFIRA TAMBÉM:
– Setealém, o canal 
– Setealém, grupo de discussão.
– E Setealém, domínio internet.

Confira as outras lendas da série aqui.

44 anos. Gosta de Cultura Pop, Moda, Literatura, Sociologia, Cinema, Fotografia e é movida à Música desde que se entende por gente. Bacharel em Direito, enveredou-se para as Relações Internacionais e atualmente encontra-se em fase de mudanças profissionais.

Continue Reading
Advertisement

Cinema

Mulheres do punk no Reino Unido, em documentário

Published

on

Mulheres do punk no Reino Unido, em documentário

Se você só tiver tempo de ver UM filme sobre música em algum momento do dia de hoje, veja este. She’s a punk rocker UK é um filme ultra-hiper-independente, dirigido durante vários anos por Zillah Minx, a vocalista do grupo gótico-anarco-punk Rubella Ballet, e que conta a história do punk feito por mulheres no Reino Unido. Entre as fontes, tem gente muito conhecida, como Poly Styrene (X-Ray Spex) e Eve Libertine (Crass).

No filme, dá pra ver também os depoimentos de nomes como Caroline Coon, que durante um tempinho foi empresária do Clash e trabalhou com a banda num especial período de confusão – quando a banda ainda era um incompreendido nome da CBS britânica que não conseguia estourar nos Estados Unidos de jeito nenhum (opa, fizemos um podcast sobre isso).

Um depoimento interessante é o de Mary, uma punk veterana que trabalhou por uns tempos como segurança de Poly Styrene, cantora do X-Ray Spex. Tanto ela quanto Poly lembram que o  público dos shows era meio violento em alguns lugares – com “fãs” jogando cerveja e cuspindo na plateia para demonstrar que estavam gostando da apresentação (era comum). Logo no começo do documentário, entrevistadas como Rachel Minx (também do Rubella Ballet) contam que nem tinham uma ideia exata de que elas eram punks quando começaram a adotar o visual típico do estilo – roupas rasgadas, maquiagem, reaproveitamento de peças usadas. Em vários casos, a ideia era se vestir diferente porque todas começaram a produzir suas próprias roupas – e a moda se refletia na música, nas letras e no comportamento.

A própria Zillah é uma figura importante e pouco citada do estilo musical, e viveu o estilo de vida punk antes mesmo dos Sex Pistols começarem a fazer sucesso. O filme dela  foi feito inicialmente com uma câmera emprestada e precisou passar por vários processos de edição durante vários anos. Apoiando o Patreon do projeto, aliás, você consegue ter acesso às integras de todas as entrevistas.

Advertisement

Ela disse nesse papo aqui que foi aprendendo a fazer tudo sozinha, sem nenhum financiamento, com a ideia de responder algumas perguntas sobre a presença feminina no punk britânico. “Ser punk era perigoso, então por que tantas mulheres se tornaram punks? Foi apenas sobre vestir-se escandalosamente? Essas mulheres punk foram tratadas como membros iguais da subcultura e como foram tratadas pelo resto da sociedade? Como ser uma mulher punk afetou suas vidas? A mulher punk influenciou diretamente as atitudes da sociedade em relação às mulheres de hoje?”, disse.

Continue Reading

Cultura Pop

E os 30 anos de The End Of Silence, da Rollins Band?

Published

on

A relação de Henry Rollins com a Imago Records – selo que contratou sua Rollins Band no começo nos anos 1990 – acabou em briga. A gravadora e o cantor brigaram nos tribunais por alguns anos. Rollins havia recém mudado para a DreamWorks e era acusado de “quebra de contrato” e de ter mudado de selo por ter sido induzido pela nova casa. O artista alegava fraude e coerção econômica, e reclamava que a Imago tratava seus contratados como se fossem “bens móveis”. Com a mudança, algumas novidades aconteceram na vida do cantor, que chegou a ser fotografado jantando com Madonna (interessadíssima em levá-lo para seu selo Maverick) e deu margem até a boatos de um caso amoroso.

O surgimento de Rollins no mainstream, por outro lado, foi bem mais ameno – embora não menos cheio de trabalho e movimentações. Após alguns anos liderando o Black Flag, e sendo uma das figuras proeminentes do punk californiano, ele havia iniciado uma carreira solo com o álbum  Hot animal machine (1987), um precursor da Rollins Band, lançado pelo selo indie Texas Hotel, ao mesmo tempo em que mantinha carreira paralela como escritor e poeta, e gravava desconcertantes discos de spoken word, com seus textos biográficos e tristes – alguns deles escancarando a porta da misantropia.

Sua Rollins Band começou a ser tramada nessa época, e seria um projeto único: com o fortão Rollins à frente, bancando o herói punk californiano, o grupo daria passos além do punk, tocando uma mistura de metal (numa onda pré-stoner) e jazz rock, descambando para o noise rock e para as influências de grupos como Swans, Suicide e Velvet Underground. A política de Rollins, na hora de fazer as letras, era a da superação, do exorcismo de antigos fantasmas, do fim do silêncio em relação à opressão.

Lançado com uma turnê em que a Rollins Band abria para os Red Hot Chili Peppers, o trintão The end of silence, terceiro disco do grupo, chegou às lojas em 25 de fevereiro de 1992, já pela Imago, selo montado por Terry Ellis, fundador da gravadora Chrysalis. O disco abria direto com Rollins aconselhando o ouvinte e analisando detalhadamente a alienação e o autoabandono (Low self opinion).

Advertisement

O cantor, que sofrera com pais abusivos e espancamentos nos tempos de escola, dava conselhos a si mesmo em Grip (“quando essas paredes se fecham ao seu redor/quando todos duvidam de você/quando o mundo pode viver sem você/mantenha-se no controle”). Comentava sobre relacionamentos que acabam em abandono, nas letras de You didn’t need e Tearing. Aos berros, narrava um encontro com seu pai, que costumava espancá-lo na infância, em Just like you.

The end of silence não é um disco agradável. Não que seja um disco ruim, mas ele soa pesado e desconfortável em vários momentos. A atmosfera é extremamente sombria. Rollins era acompanhado por um time de supermúsicos: Chris Haskett (guitarra), Sim Cain (bateria) e Andrew Weiss (baixo). Ao contrário de qualquer disco punk que você possa imaginar, as músicas são quilométricas. O álbum original dura 72 minutos, até mesmo no vinil. Blues jam, faixa de mais de onze minutos, foi tão improvisada em estúdio, até mesmo por Rollins, que sua letra nem sequer aparece no encarte.

Os shows, por sua vez, assustavam: enorme e tatuado, Rollins se movia pelo palco com uma fúria descomunal, impressionando desde novos fãs até gente bem experiente, como Wayne Kramer, do MC5, com quem o cantor chegou a trocar correspondência durante vários anos. O cantor era constantemente chamado para participar de programas da MTV, e acabou conseguindo até mesmo um papel no filme cyberpunk Johnny Mnemonic, de Robert Longo (1995).

Era de fato, o fim do silêncio para um dos maiores nomes do punk americano, cujo próximo passo musical com a Rollins Band seria o disco Weight (1994), um álbum bem mais sacolejante e de canções mais curtas – e nem por isso menos furioso, graças a músicas como Disconnect, Shine (uma canção anti-suicídio, lançada por acaso no mês de morte de Kurt Cobain) e Divine object of hatred. Pena que a discografia de Rollins hoje em dia não esteja nas plataformas digitais.

Advertisement

Continue Reading

Cinema

Jogaram o documentário musical brasileiro Som Alucinante no YouTube

Published

on

Jogaram o documentário musical brasileiro Som Alucinante no YouTube

Som alucinante, filme de Guga de Oliveira (irmão de Boni, ex-todo poderoso da Rede Globo), lançado nos cinemas em 1971, apareceu pela primeira vez na íntegra no YouTube há poucos dias. O filme traz um apanhado de shows do programa Som Livre Exportação, musical exibido pela Rede Globo entre 1970 e 1971. A produção foi feita no espírito do filme do festival de Woodstock, de Michael Wadleigh, com shows misturados a entrevistas com artistas, músicos, a equipe técnica tanto do festival quanto do filme, e com pessoas da plateia.

Logo no começo, o radialista paulistano Walter Silva (o popular Pica-Pau) resolve perguntar a uma mulher da plateia o que ela espera encontrar no show. Como resposta, recebe risos e um “ah, sei lá, dizem que tá bacana, né?”. Bom, de fato, o formato de festival não competitivo – ou de pacote de shows – ainda não era das coisas mais conhecidas aqui no Brasil.

Tudo ali era meio novidade, tanto o fato de tantos nomes estarem reunidos num mesmo evento, quanto o fato de vários nomes “alternativos”, de uma hora para outra, terem virado grandes atrações de um programa da Globo: Ivan Lins (em ascensão e fazendo seu primeiro show em São Paulo), Gonzaguinha, Mutantes, A Bolha, Ademir Lemos e até um deslocadíssimo grupo americano chamado Human Race – que apresentou uma cover de Paranoid, do Grand Funk. Para contrabalancear e garantir mais audiência ao programa, Elis Regina, Wilson Simonal e Roberto Carlos participaram da temporada de 1971 da atração (que mesmo assim continuou sem audiência, mas com sucesso de crítica). O show levado ao ar nessa temporada serviu de fonte para o documentário.

O que mais chama a atenção em Som alucinante, na real, não é nem mesmo a música. Bom, e isso ainda que o filme apresente uma entrevista bem interessante com um iniciante Gonzaguinha (que faz um excelente discurso sobre “não pensar no mercado e ser você mesmo”), uma Rita Lee aparentemente em órbita falando sobre “é bom ganhar dinheiro com o que se faz, né?”, Mutantes tocando José e Ando meio desligado, A Bolha tocando o gospel-lisérgico Matermatéria, Elis Regina dividindo-se entre os papéis de cantora e mestra de cerimônia. E também várias entrevistas com Milton Nascimento que não vão adiante, de tão constrangido que o cantor estava.

Advertisement

O mais maluco no filme é que a plateia desmaia, e o tempo todo (!). Os fãs começam a empurrar uns aos outros e num determinado momento, a solução da produção é convidar os que estavam em maior situação de vulnerabilidade para subir no palco. Numa cena, um policial carrega uma garota desmaiada e ele próprio quase toma um estabaco.

Jogaram o documentário musical brasileiro Som Alucinante no YouTube

Companhias indesejáveis na plateia do Som Livre Exportação

Em outro momento, os fãs são puxados ao palco por policiais e pessoas da produção com uma tal intensidade, que aquilo fica parecendo uma tragédia bíblica. Ou um evento que estava mais para Altamont do que para Woodstock, porque era evidente que aquilo estava ficando perigoso. Especialmente porque militares circulavam na plateia e aparecem, em determinados momentos, atrás do palco, o que já explica todo aquele estresse.

Ah, sim a parte do “nós estamos todos reunidos nessa grande festa”, dos Mutantes (que aparece no documentário Loki?, sobre Arnaldo Baptista) foi tirada de Som alucinante. E pelo menos um crítico do Jornal do Brasil, Alberto Shatovsky, detestou a linguagem “moderna” do filme.

A sequência de Roberto Carlos no filme.

Advertisement

E se você não reconheceu o sujeito de bigodes e cabelo black que aparece em alguns momentos no filme, é o Ademir Lemos, do Rap da rapa (lembra?). Era um dos apresentadores do Som Livre Exportação.

Jogaram o documentário musical brasileiro Som Alucinante no YouTube

Continue Reading
Advertisement
Mulheres do punk no Reino Unido, em documentário
Cinema12 minutos ago

Mulheres do punk no Reino Unido, em documentário

Cultura Pop22 horas ago

E os 30 anos de The End Of Silence, da Rollins Band?

Jogaram o documentário musical brasileiro Som Alucinante no YouTube
Cinema2 dias ago

Jogaram o documentário musical brasileiro Som Alucinante no YouTube

Cultura Pop3 dias ago

O 1967 dos Beatles no podcast do Pop Fantasma

Devo: no YouTube, tem versão "rascunho" do filme The Men Who Make The Music
Cultura Pop4 dias ago

Devo: no YouTube, tem versão “rascunho” do filme The Men Who Make The Music

The Lost Sheep: um single (da Virgin, de 1979) com ovelhas soltando a voz
Cultura Pop5 dias ago

The Lost Sheep: um single (da Virgin, de 1979) com ovelhas soltando a voz

O Homem Que Caiu na Terra, feito para TV em 1987
Cinema6 dias ago

O Homem Que Caiu na Terra, feito para TV em 1987

No Acervo Pop Fantasma, o livro de paradas dos anos 80 da Omnibus Press
Cultura Pop7 dias ago

No Acervo Pop Fantasma, o livro de paradas dos anos 80 da Omnibus Press

Paul McCartney virando funkeiro (oi?) em 2013
Cultura Pop1 semana ago

Paul McCartney virando funkeiro (oi?) em 2013

Cultura Pop1 semana ago

E os 50 anos da estreia do Roxy Music?

Treta: as duas “versões do autor” de Video Killed The Radio Star
Cultura Pop1 semana ago

Treta: as duas “versões do autor” de Video Killed The Radio Star, dos Buggles

David Bowie revelando tudo sobre Ziggy Stardust na pressão, bem antes do disco sair
Cultura Pop1 semana ago

David Bowie revelando tudo sobre Ziggy Stardust na pressão

Então vamos lá: por que você tem que parar tudo e ouvir Ziggy Stardust agora mesmo
Cultura Pop2 semanas ago

Pare tudo e ouça Ziggy Stardust agora mesmo

Dez coisas bem legais que você encontra no Museu Virtual do Gilberto Gil
Cultura Pop2 semanas ago

Disco inédito, fotos e vídeos raros: o Museu Virtual do Gilberto Gil no Google

Mais Ziggy Stardust: um monte de "It ain't easy", em mixtape
Cultura Pop2 semanas ago

Mais Ziggy Stardust: um monte de “It ain’t easy” (em mixtape!)

Cultura Pop2 semanas ago

Starman: quando saiu um disco de David Bowie na União Soviética (e em 1989)

As sobras de Ziggy Stardust
Cultura Pop2 semanas ago

As sobras de Ziggy Stardust

Quem é quem (e o que é o que) na ficha técnica de Ziggy Stardust, de David Bowie
Cultura Pop2 semanas ago

Quem é quem (e o que é o que) na ficha técnica de Ziggy Stardust, de David Bowie

Trending