Crítica
Ouvimos: Dead Fish, “Labirinto da memória”

- Labirinto da memória é o décimo álbum da banda punk capixaba Dead Fish. Após várias mudanças de formação, o grupo hoje tem Rodrigo Lima (vocalista e o mais longevo integrante da banda), Marcos Mellini (bateria), Ric Mastria (guitarra) e Igor Tsurumaki (baixo).
- “O disco reflete sobre o passado, mas sem nostalgia. Não é sobre dizer que antigamente era melhor, porque não era. É sobre criar um chão, um alicerce para seguirmos em frente. A gente vive em um país que esquece a própria história, então quisemos usar nossas memórias para construir algo significativo”, contou Rodrigo à Rolling Stone Brasil.
- As inspirações de Rodrigo para as letras foram o livro Realismo capitalista, de Mark Fisher, e o álbum Roteiro Pra Anöuz, de Dom L.
O álbum mais recente do Dead Fish já saiu há mais de um ano (chegou às plataformas em 12 de janeiro de 2024). E acabou sendo uma boa abertura para um ano em que antigas memórias do país seriam remexidas. Afinal foi em 2024 que saiu o filme Ainda estou aqui, e isso já diz muita coisa. Todo o repertório de Labirinto da memória une afeto, política, lembranças que já foram muita coisa e hoje não têm lá muito significado, memórias que funcionam como cartas jamais enviadas.
O som do Dead Fish é um hardcore mais emocionado do que propriamente “emo”, com letras que, quando você lê, chega a duvidar da hipótese de caberem nas melodias. São frases meio longas, poucos versos rimados, sempre focando na contação de histórias e no resgate de antigas lembranças, como numa linha do tempo que não para de apontar simultaneamente para o passado e para o futuro. Se o Ratos de Porão faz há décadas uma crônica política no punk nacional, o Dead Fish une político e pessoal, em letras tão emocionais quanto mobilizadas.
No novo disco, músicas como Adeus adeus (“um deus que impõe medo/de divino não tem nada”, diz um dos versos) e 49 (cuja letra fala sobre relacionamento pai e filho e traz micropontos de lembranças da infância nos anos 1970), apresentam o ouvinte a esse conceito – assim como as metáforas sobre perda da inocência e dos sonhos em Dentes amarelos. Avenida Maruípe parte de recordações do futebol na infância para chegar a uma história da ditadura militar.
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Interrupção mistura fatos, histórias, imagens e melodias ágeis para falar de poluição, remédios, burnout, solidão. Nomes como Golbery do Couto e Silva (ministro da casa civil do Governo Militar), SNI, Le Cocq (referência à escuderia Le Cocq, primeiro grupo de extermínio do Brasil) surgem para contar uma história dolorida do país em Estávamos lá (“eu cantava o hino/e também estava lá/com os que matavam, com os que morriam/todos prontos para desaparecer”). Temas como família (Aos poucos), bullying (Criança versus criança) e traumas (Labirinto da memória, do verso “não deixar registro é não deixar vestígio”) vão se sucedendo.
No final, Você conhece Pistóia? faz referência ao cemitério militar de Pistoia, na Itália, onde pracinhas da Força Expedicionária Brasileira estão sepultados. A melodia traz baixo e bateria primais, próximos do pós-punk, com clima tenso criado pela guitarra. Na letra, versos que não precisam de muita explicação (“eu estive em sua guerra/limpei suas armas/eu lotei o seu porão/matei ser quem eu pensava/eu defendi suas ideias”).
Nota: 9
Gravadora: Deck
Lançamento: 12 de janeiro de 2024.
Crítica
Ouvimos: Raidol – “Todas as mensagens que nunca te enviei” (EP)

RESENHA: No EP Todas as mensagens que nunca te enviei, Raidol mistura tecnobrega e tecno-melody para contar, em clima de aparelhagem, uma jornada de amor e empoderamento.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: suave.cito
Lançamento: 3 de março de 2026
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Conheci Raidol quando participei de uma mesa de pitching no festival Se Rasgum, em Belém, em 2022. Após falar sobre seu trabalho, ela disse: “vocês precisam falar mais dos artistas da região da Amazônia”.
Uma verdade. De fato, nem sempre Rio e São Paulo ficaram de olho no que vinha de Belém e arredores. Acabam deixando passar a musicalidade de uma região que tem um rolé todo próprio de criação musical e diversão, e cujo som tem uma assinatura fortíssima.
Todas as mensagens que nunca te enviei traz Raidol, artista trans amazônica, fazendo quase um EP conceitual sobre empoderamento diante do amor, com idioma sonoro entre tecnobrega e tecno-melody. Esse teu jeito assim…, com guitarra quase indianista e participação de Madeirito (Gang do Eletro), lembra quando tudo dava certo.
O relacionamento começa a ficar cagado em Já deu a minha hora, com Rebeca Lindsay soltando a voz ao lado de Raidol e ajudando na sofrência. A personagem do EP sai fora da tristeza no alegre tecno-melody Lovezinho, quando percebe que aquele relacionamento não acrescenta nada. Uma jornada amorosa em clima de festa de aparelhagem.
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Crítica
Ouvimos: MC Cabelinho e Tz da Coronel – “Palácio de lona”

RESENHA: Em Palácio de lona, Cabelinho e Tz da Coronel expõem, em trap direto e brutal, relatos de crime, poder e sobrevivência nas periferias.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Bairro 13 / Cúpula Records
Lançamento: 6 de março de 2026
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Outro dia deparei com um meme dizendo que “todo estilo musical tem uma cruz para carregar: a do punk é o punk pop, a do rap é o trap, a do metal é o próprio metal”. Faz sentido? Talvez – preconceitos à parte.
No caso do punk pop e do trap, ninguém duvida de que são estilos que ampliaram o público de seus gêneros originais – mas tornaram o “três acordes” uma diversão de playboy. Problema é ver também que o trap tornou-se um imenso algoritmo, com climas e letras repetitivas, e uma vibe “underground” típica de quem só chegou ao subterrâneo quando o pop já foi lá e pegou quase tudo que interessava (Xtranho, disco novo de Matuê, sofre desse problema).
No caso de Palácio de lona, de MC Cabelinho e Tz da Coronel, o trap coloca uma questão séria na cara do/da ouvinte: tudo que você ouve em inglês nos discos de rap (e muitas vezes vai ter dificuldade para entender 100% sem ler as letras), vai ouvir aqui em português. Ou seja: se você se incomoda com relatos do dia a dia do crime e versos que destilam machismo e misoginia, nem chegue perto, porque músicas como Foragido, Lobo mau, Pussy, Glocks & bersa e Tá com essa daí tratam exatamente disso.
Se for separar as coisas e acompanhar tudo como uma série de TV (a melhor maneira de sacar tudo sem puxar a carta do cancelamento), vai entender que a realidade de Cabelinho e Tz é diferente pra burro do universo de quase todo mundo que você conhece. Palácio de lona fala de um mundo que exige soluções rápidas, pensamento ativo, análise pé-no-chão, e valores de compadrio que têm de funcionar mesmo (e por causa disso) com as drogas, a grana, o crime e as armas. E em que “sair do crime” envolve situações como as de faixas como Elenco fabuloso e Menor suicida, em que tudo parece ruir, inclusive valores cultivados há anos (“como que eu não vou encontrar uma saída? / como eu não vou ter uma contrapartida? / sabe nada sobre mim nem da minha vida / nós tem um sensor, não julgue a aparência”).
Musicalmente, Palácio de lona traz alguns destaques, como o som brutal de Lobo mau, a vibe r&b-soul-trap de Normal, a onda viajante e sufocante de Elenco fabuloso e Menor suicida, o batidão de Baile no morro. Nomes dos selos criados por Cabelinho e Tz, como Vinicin e Raflow, unem-se a consagrados como Poze do Rodo, Oruam e Filipe Ret. A vontade de fugir da algoritmização do trap (em músicas e frases) saltou na frente e já é muito.
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Crítica
Ouvimos: Waterboarding School – “Steer clear” (EP)

RESENHA: EP Steer clear, do Waterboarding School, mistura pop sessentista, psicodelia e sujeira punk para falar de ansiedades estranhas do dia a dia.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: BlackValley Records
Lançamento: 6 de março de 2026
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O Waterboarding School, essa banda sueca de nome sarcástico (“escola do afogamento simulado” – sendo que afogamento simulado é uma espécie de tortura) já teve seu terceiro álbum, The little sports mirror, comentado aqui. O EP Steer clear é uma continuação do disco anterior em clima meio sessentista e, às vezes, quase psicodélico. Recordações de bandas como XTC permeiam o “lado A”, com as faixas Funcionalty e Living a lie.
- Ouvimos: O Grande Ogro – O Grande Ogro (EP)
Na segunda metade de Steer clear, Nonsense chega a lembrar o Pink Floyd do começo, mas ganha clima quase beatle depois, enquanto Complaints tem uma cara de pop sofisticado sessentista, com partes diferentes, mas tudo acrescido de alguma sujeira punk. Nas letras, por sua vez, o Waterboarding School fala de um dia-a-dia bem estranho em que pessoas preferem fazer tudo para mudar, menos fazer terapia, e em que todo mundo é assaltado por problemas bem estranhos no meio da noite. Se identificou?
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