Lançamentos
Radar: Borabaez, Girlblogging, Dawid, Marcos Braccini, Bayside Kings, Latina Shuffle

Rapaz, esse pessoal do Pop Fantasma só pode estar ficando maluco: a delicadeza de Itinerário, canção de Marcos Braccini, em meio a uma turma do punk, do ska, do noise-rock… Nada disso: pra gente, música não tem limite, nem fronteira, e aqui cabe de tudo. Começando pelo arrocha-pagodão de protesto do Borabaez e indo até a mistura do Latina Shuffle. Ouça e passe adiante!
Texto: Ricardo Schott – Foto (Borabaez): Analu da Bahia / Divulgação
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BORABAEZ feat ANASTÁCIA, “ÊTÁ, VIU?”. Uma dupla que faz uma mescla de indie-pop e pagodão baiano, e que vem de dois lugares diferentes do país. Henrique Paoli (do Espirito Santo) e Karola Balves (da Bahia) são o Borabez, que acaba de lançar o single Êtá, viu? – uma canção que junta arrocha e pagodão, e que fala sobre aqueles momentos em que a violência num relacionamento é mais psicológica do que física.
“Ela tem muitas faces, como aquele tipo de companheiro que te joga pra baixo, que não quer te ver bem, não quer te ver crescer. O rolê que é abusivo, quando a gente percebe, a gente precisa de estratégia pra cortar. Êtá… é sobre aquele momento de ‘estalo’ mesmo, de ‘o que eu tô fazendo aqui, véi?’. Que muitas, muitas vezes nem a mais treinada das garotas consegue perceber sozinha, então é importante lembrar de ter sempre uma amigue por perto, porque sim, salva vidas”, diz Karola, que divide os vocais com a artista capixaba Anastácia.
GIRLBLOGGING, “O GOL”. Greg Maya, guitarrista da banda Terno Rei, usa o codinome Girlblogging para suas aventuras solo – um projeto que já rendeu o EP Entre rosas (2024), e que retorna agora com o single-clipe O gol. Na faixa, dá para perceber sonoridades que fazem lembrar o grupo de origem de Greg, mas o lance aqui é som “perdido”, meio pós-punk, meio psicodélico – e com jeitão de noise-rock, mas sem exageros no ruído. Detalhe: apesar do nome da faixa, o criativo vídeo dirigido por Erick Trovilho mostra mesmo é uma turma jogando basquete.
DAWID, “VILÃO” / “TRABALHO SUJO”. “Minha música é a perspectiva de alguém injustiçado, mal interpretado e julgado por um grupo de pessoas que, diante de uma história com dois lados, decide acreditar apenas em um deles”, diz esse cantor e compositor, que viu seu single Vilão viralizar, quando foi postada uma montagem homenageando o personagem Akaza, do anime Demon Slayer. Muita gente acabou se identificando com a música, voltada para um som próximo do emo.
“É surreal ver o impacto que essa música está tendo na vida de tantas pessoas, que assim como eu, um dia já foram considerados ‘vilões’ da história. Hoje tenho a chance de poder representá-las”, conta o músico, que liberou a montagem e o lyric video da faixa. E já soltou também Trabalho sujo, indie-pop dançante em que o narrador fala sobre ter que lidar com relacionamentos tóxicos, com falta de autoestima e com gente narcisista que desvia o foco das próprias cagadas (“não sou mais como era antes / eu te dei todas as chances pra te perdoar / pra que vou me culpar se eu já tenho você? / pra que eu vou me odiar se eu já tenho você?”).
MARCOS BRACCINI feat JOSÉ MIGUEL WISNIK E ILESSI, “ITINERÁRIO”. Canção poética e quase erudita, de música brasileira elaboradíssima – e single que abre o lançamento de Nas marés, disco de Marcos previsto para o ano que vem. Itinerário é parceria com Flávio Henrique e a poeta Brisa Marques, e já havia sido gravada tanto por Marcos quanto por Flávio, retornando agora atualizada após a morte de Flávio em 2018, como símbolo de permanência. José Miguel Wisnik e Ilessi participam da nova gravação, que ganhou um clipe com imagens das sessões de voz dos três, registradas em separado – um encontro quase espectral, além de musical.
BAYSIDE KINGS, “NADA PRA MIM”. Entre o punk e o hardcore, essa banda retorna com single novo, cuja letra fala sobre romper em definitivo com quem te julgou. “É sobre virar a chave, se posicionar e deixar o passado no lugar dele: pra trás” afirma Milton Aguiar, vocalista da banda. Vindo de Santos (SP), o Bayside Kings estreia na Deck com a música nova, que já ganhou clipe.
LATINA SHUFFLE, “PAGAR O PREÇO” / “A HORA É ESSA”. Esse grupo paulistano reúne vários músicos das cenas ska e punk, vindos de bandas como Skamoondongos, Flicts e outras. A estreia da turma surge equilibrada entre os dois estilos, com direito a percussão, steel drums e metais no primeiro single. As duas faixas falam sobre ser o que você quiser ser, e seguir em frente fazendo o que te orgulha – apesar das expectativas de todo mundo, e apesar das falsidades que parecem vir de todos os lados. E o grupo é um time bem grande e multifacetado, com homens e mulheres tocando juntos.
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Crítica
Ouvimos: Shaking Hand – “Shaking Hand”

RESENHA: Shaking Hand estreia misturando britpop, shoegaze e pós-punk: guitarras circulares, ruído à Sonic Youth e climas de Ride a Wire.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Melodic
Lançamento: 16 de janeiro de 2026
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Vindo de Manchester, o Shaking Hand estreia mostrando na capa de seu álbum um projeto arquitetônico criado para “edifícios funcionais” de Los Angeles nos anos 1970. As origens do grupo também remontam a uma mescla de rock inglês e norte-americano: há guitarras circulares típicas do britpop unidas a sonoridades que lembram estilos como emo e shoegaze – bem como há sons que lembram Beatles unidos ao ruído herdado de bandas como Sonic Youth.
- Ouvimos: So Dead – A wet dream and a pistol
Essa mistura sonora já dá as caras na faixa de abertura, Sundance – som hipnótico, uma espécie de shoegaze sessentista, que herda tanto de Who e Beatles quanto de Ride, e cuja velocidade varia da lentidão tranquila ao peso distorcido. Mantras soa como um Sonic Youth meditativo, com boa trama de guitarra e poucas distorções. A urgente In for a … pound! abre com riff grave de guitarra e segue no pós-punk. Night owl, música noturna (note o nome: “coruja da noite”) lembra um jazz-rock-prog, com beleza espacial e clima feliz mesmo dentro de uma onda sombria e nublada.
Na estreia do Shaking Hand há um lado quebradiço que lembra até o pós-hardcore em Cable ties – pós-punk de quase nove minutos, com intervenção apocalíptica e ruidosa lá pela metade. A maior parte do álbum, por sua vez, tem como grande referência o Ride da época da estreia Nowhere (1991) – só que misturada a outros detalhes, cabendo climas que lembram Wire e Pavement em músicas como a balada pós-punk Italics e a sombria e bela Up the ante(lope).
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Crítica
Ouvimos: Karnak – “Relicário: Karnak – Ao vivo no SESC, 1999” (ao vivo)

RESENHA: Relicário: Karnak – Ao vivo no SESC, 1999 mostra a banda como som sem fronteiras: humor, caos criativo e mistura global de ska, jazz, reggae e rock.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Selo Sesc
Lançamento: 5 de dezembro de 2025
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O Karnak é uma das maiores (em importância e número de integrantes) e mais duradouras bandas punk do Brasil. Peraí, punk? O Karnak? Eu chego lá.
O grupo liderado pelo músico, cantor, ator e diretor André Abujamra não é punk da maneira estrita – nada de dois acordes, músicas econômicas ou letras de teor panfletário na obra deles, claro. Mas a entrega deles a vários estilos musicais, à dessacralização da música, e a uma visão de que o ser humano foi feito para caminhar pelo mundo – fisicamente, culturalmente e musicalmente – tem tudo a ver com um universo sem fronteiras, anárquico, diverso culturalmente.
Enfim, um lance até bem mais chegado à desrepressão e à rebelião do invidívuo do que o bom e velho “no future” que acabou colando no estilo musical. E que, na real, é só a constatação de que, se ninguém fizer nada, não vai ter futuro nenhum mesmo: mundo em guerra, juventude sem perspectivas, natureza em colapso, ricos viajando pelo sistema solar, IA tomando empregos e todos os piores “etecéteras” que você puder imaginar.
Relicário: Karnak – Ao vivo no SESC, 1999 traz a gravação de um show do grupo no Sesc Pompeia, em dezembro aquele ano, seis meses antes do lançamento do disco Estamos adorando Tókio. Assim como rolou com Karnak mesozóico, novo álbum do grupo, houve uma história curiosa por trás do álbum de 2000: a banda nunca havia ido à Tókio, o nome foi inspirado numa história vivida lá por uma conhecida de André Abujamra, a capa do álbum trazia um desenho da Torre Eiffel (!).
A zoeira com o mapa-múndi se estendeu para o repertório do show, que trazia ska russo (Abertura russa), jazz punk (O indivíduo), reggae caipira (Juvenar, com teclado lembrando A day in the life, dos Beatles, e brincadeira com Admirável gado novo, de Zé Ramalho), reggae hardcore (Mediócritas, que lembra que “ninguém quer te ver feliz / todo mundo quer que você quebre o nariz”), rock de arena (a junção de Sósereiseuseforsó com Nuvem passageira, de Hermes Aquino) e uma espécie de encontro de canções tradicionais mundiais (Universo umbigo).
Se os anos 1990 foram a era do humor de estereótipos (de Friends a Casseta & Planeta), a proposta do Karnak era tirar uma onda dos vários pontos de vista existentes numa mesma história. Mesmo que fossem os pontos de vista de um gorila, uma arara e um leão presos no jardim zoológico (Zoo) – sem falar nas diferentes cores convivendo na letra de Alma não tem cor. Som, humor e propósito.
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Crítica
Ouvimos: Sis and The Lower Wisdom – “Saints and aliens”

RESENHA: Saints and aliens é pop meditativo de Sis and The Lower Wisdom: folk, jazz e psicodelia guiados por baixo e piano, em travessia espiritual.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Native Cat Recordings
Lançamento: 9 de janeiro de 2026
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Vinda da Califórnia, Jenny Gillespie Mason vem usando há algum tempo o pseudônimo Sis and The Lower Wisdom para seus discos. O nome “sabedoria inferior” (o tal do “lower wisdom”) soa irônico – bem como o “sis”, algo como “mana”, corruptela de irmã – mas o que ela faz no quarto álbum do projeto, Saints and aliens, é pop meditativo legítimo, herdado do folk, do rock, do jazz e da psicodelia, liderado por baixo, piano, bateria e sax.
As nove músicas do álbum surgem baseadas numa noção de jazz espiritualista, que dá mesmo a noção de uma travessia pessoal em meio a um mundo repleto de demandas esquisitas e gente robotizada. Como em Crocus man, uma canção sobre amizade e sentido da vida, com beat perdido lembrando Velvet Underground, teclados circulares e uma noção de psicodelia focada no pós-punk e no jazz.
- Ouvimos: Lemonheads – Love chant
O repertório do disco prossegue com canções que vão se abrindo em vários climas e segmentos, como na solar e indianista Big bend (Oh Jai Ma), a noturna e quase progressiva Wolf child (com batida motorik orgânica) e a eletroacústica Saints and aliens, com um baixo acústico que faz a música caminhar. Duas curiosidades são Yoga of the soul’s release, tema jazzy e sofisticado que poderia estar na abertura de uma série policial, e Luce, música fantasmsgórica e encantadora que segue no mesmo beat de Tomorrow never knows, dos Beatles.
Já Yasholipsa, no final, é jazz folk bossa, próximo do som de Carly Simon e Joni Mitchell nos anos 1960, mas sem abandonar a psicodelia – e uma faixa cujo título significa algo como “desejo de glória, fama, vitória e poder” em sânscrito. Um som cheio de alma.
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