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Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre Electric Warrior, do T. Rex

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Em 1971, não tinha ser humano com a autoestima maior que Marc Bolan, líder do T. Rex. O sucesso de Electric warrior, segundo disco da banda (e sexto desde o começo como Tyrannosaurus Rex) detonara uma verdadeira Bolanmania na Inglaterra, que marcou profundamente as vidas de uma turma enorme de roqueiros, cujas carreiras começariam entre 1976 e 1980.

Ídolo de garotos e garotas que estavam com 14, 15 anos, e posteriormente descobririam David Bowie e o punk rock, ele se achava com cacife o suficiente para cunhar afirmativas como: “Nem Dylan nem Lennon são melhores do que eu, e eles sabem disso. Eles sabem onde estou: sou diferente, como eles. Eu sabia que era diferente desde o momento em que nasci”, contava.

O entendimento de Bolan era impreciso, óbvio. Isso porque o reinado do T. Rex não duraria muito, e o cantor e compositor viraria um ídolo de outrora em pouco tempo. Mas seu legado perduraria. Morto em 1977 num acidente de automóvel, Bolan pairou nada silenciosamente sobre Ramones, Buzzcocks, The Cure, Sigue Sigue Sputnik, Red Hot Chili Peppers (John Frusciante é fã), Sex Pistols, Stone Temple Pilots, Suzi Quatro, Prince, Rita Lee & Tutti Frutti (Arrombou a festa só existe porque o boogie futurista de Bolan existiu um dia) e tudo o que, no rock pós-1971, soou como se tivesse vindo de galáxias muito distantes. E convidasse para a dança, a roda e a festa.

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E esse é o nosso relatório sobre Electric warrior, marco zero do glam rock. Ouça lendo, leia ouvindo.

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VIOLÃOZINHO. O Tyrannossarus Rex, basicamente uma dupla de folk hippie sujinho, era formado por Marc Bolan violão e voz) e um sujeito chamado Steve Peregrin Took, que tocava percussões, sininhos, xilofone infantil e tudo o que mais aparecesse pela frente. Surgiu em julho de 1967 e, como pediam os tempos bizarros da aurora do glam rock, era a terceira tentativa de Bolan de fazer sucesso.

ORGASMO. Marc, antes do Tyrannossaurus, tivera uma carreira frustrada como guitarrista solo de uma banda mais-ou-menos da psicodelia. Era o John’s Children, que em 1970, já sem Bolan, escandalizaria geral gravando um disco chamado Orgasm. Mas o momento mais parecido com um “agora vai!” foi quando ele, munido de algumas canções solo, conseguiu atrair a atenção do empresário e produtor dos Yardbirds, Simon Napier-Bell, no finalzinho de 1966.

NÃO FODE, KEITH! Simon já tinha 27 anos e estava de saco cheio dos Yardbirds. Em especial do cantor Keith Relf, que dava ataques trágicos de estrelismo: ligava o dia inteiro para o empresário para reclamar da turnê australiana do grupo e, certa ocasião, disse que não subiria no palco sem que lhe dessem um par de meias novas (!). Bolan foi como uma lufada de vento na vida do empresário: quando ele adentrou seu escritório, Simon teve a impressão de que estava diante do novo Elvis.

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SÓ QUE… A bendita autoestima de Bolan quase põe tudo a perder. Simon pedira-lhe que levasse uma fita para o encontro. Munido de um violão, o cantor não levou tape nenhum e disse que poderia cantar o repertório para o empresário. “Marc tinha material suficiente para quatro discos, mas não queria gravar. Ele estava numa ego trip bizarra naquela época, achava que era só espalhar uns pôsteres dele por aí, que as pessoas veriam as fotos dele e as coisas aconteceriam”, revelou Simon.

MAS O DISCO FOI FEITO. Bolan disse que faria as gravações, mas só com voz e violão. Saíram 14 músicas, gravadas em oito horas, sem overdubs e sem esconder a técnica precária de Bolan no vocal e no violão.

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AO TERMINAR TUDO, segundo Simon, Bolan estava tão confiante que disse “é isso aí, tenho um disco e ele vai acontecer”, muito embora qualquer pessoa soubesse que um álbum vacilante daqueles, gravado numa época em que os estúdios se modernizavam rapidamente, jamais chegaria às lojas. Ele só sairia em 1972, num disco acrescido de faixas bônus chamado Hard on love. O álbum foi relançado em 1974 como The beginning of doves. Em 1981, Napier-Bell acrescentou guitarra, baixo e bateria às músicas e relançou o material como You scare me to death.

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O QUASE HIT DESSE REPERTÓRIO foi essa canção aí de cima, You scare me to death, feita alegadamente como jingle de uma fábrica de pastilhas (“você me assusta até a morte com seu bafo horroroso”, diz o bizarro refrão).

MAS Bolan, na real, lançou um single sob os auspícios de Napier-Bell, Hippy gumbo. Uma canção polêmica, que narrava um crush gay numa época em que homossexualidade era crime na Inglaterra.

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A EMI prometeu lançar o disco caso Simon, ainda envolvido com os Yardbirds, desse um jeito na banda, que, gravando um disco pela mesma empresa, passava a maior parte do tempo de estúdio brigando. Saiu, mas fracassou miseravelmente.

CABEÇAS DINOSSAURO. Steve Peregrin Took, cujo nome verdadeiro era Steve Porter (e cujo nome artístico vinha de certa adoração hippie ao livro O Senhor dos Anéis, de Tolkien), fizera parte da primeira e fracassada formação do Tyrannossaurus Rex, quando Bolan tentou montar uma banda de rock formal, com guitarra, baixo e bateria. Ficou apenas na percussão, enquanto Bolan cantava suas canções folk cheias de letras viajantes.

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A OPÇÃO pelo novo set veio, em parte, por restrições orçamentárias: Took devia uns meses de aluguel e precisou vender sua bateria. Bolan também tinha assistido a um show do indiano Ravi Shankar e achou que o formato dava pé.

ALIÁS E A PROPÓSITO, quem ajudou muito a dupla foi o DJ John Peel, da BBC. Peel quase contratou o Tyrannossaurus Rex para seu selo Dandelion. Em 1968, Bolan e Took foram contratados pelo selo Regal Zonophone e sob produção de Tony Visconti, lançaram um primeiro disco de nome bizarro: My people were fair and had sky in their hair… But now they’re content to wear stars in their brows.

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O PRIMEIRO DISCO não deu muito certo, mas garantiu algum aiprlay e alguns fãs para o grupo. Quem não ficou muito tempo por lá foi Peregrin. Steve foi saído do Tyrannosaurus Rex por, supostamente, ter jogado doses do alucinógeno STP num ponche preparado para o lançamento da versão inglesa da Rolling Stone – o parceiro Bolan, desavisado, provou da bebida e pagou mico na festa. Obrigado contratualmente a permanecer na banda durante uma turnê norte-americana, aproveitou para tocar o zaralho: caiu de boca nas drogas, deu uma de Iggy Pop (chegou a chicotear-se no palco) e horrorizou geral.

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ATÉ SAIR, Peregrin gravou três LPs com o Tyrannossaurus Rex. O quarto, A beard of stars (1970), já trouxe Mickey Finn, novo parceiro de Bolan, em seu lugar. Finn era tido como um músico bem menos cheio de atributos que Took e a piada era que ele havia entrado só por ter boa aparência e uma moto “maneira”. Mas Finn foi fundamental na transição “elétrica” do grupo, acrescentando baixos ocasionais e bongôs latinos à mistura.

EM MARÇO DE 1970 o Tyrannosaurus Rex foi lançar A beard of stars com um showcase para jornalistas na redação da revista Melody Maker. Deram azar: a dupla apareceu na hora do almoço, e só Chris Welch, um dos jornalistas da publicação, estava na hora do show. Antes que Welch pudesse mostrar o quanto estava gostando do show (e ele estava) algum repórter da revista Cycling, cuja redação era na sala ao lado, bateu na parede e gritou, reclamando do barulho.

UM HIT, ENFIM. A dupla passou por uma diminuição de nome (de Tyrannossaurus Rex para T. Rex), de sonoridade (do folk zabelê para o som eletrificado e roqueiro) e de gravadora: o elenco do selo Regal Zonophone foi para a recém-criada Fly Records. O primeiro disco da nova fase, T. Rex, saiu em dezembro de 1970, com nova imagem na capa: Bolan fez questão de posar com sua guitarra, mostrando que era a hora do som elétrico, e não dos violões da fase anterior. E finalmente a banda conseguiu um hit: Ride a white swan, que saiu em single e estava apenas na versão americana no disco, estourou e levou a dupla ao Top of the pops.

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COM Ride a white swan, o T. Rex virou mania entre adolescentes de uma hora para a outra, e conquistou um número de fãs que a dupla não tinha antes. Bolan, por sua vez, estava felicíssimo com o fato de poder aparecer em pé no palco – o cantor incluía em seus números, além dos mergulhos na guitarra, uma dança lasciva e andrógina, além de aparecer vestido com roupas chamativas e brilhantes, e de adotar o glitter no rosto. Ao Record Mirror, chegou a dizer que estava cansado de aparecer sentado no palco, como na época dos shows com Peregrin Took.

QUEM VIU o T. Rex no Top of the pops e se apaixonou por Bolan (e comprou o single com Ride a white swan) foi a futura cantora Toyah Wilcox, 12 anos em 1970. “Parte da rebelião dele, é que ele era um cara feminino, de verdade. Uau, um cara que usava maquiagem, vestia cetim, era gentil ao falar. Era uma rebelião gentil, poética”, recordou.

TOYAH era uma das fãs da verdadeira legião de admiradoras (e admiradores) que o T. Rex conseguiu, partindo do folk riponga para o boogie futurista que passariam a fazer em Electric warrior. Um disco, por sinal, feito com uma certeza na cabeça: sucesso na Inglaterra, o T. Rex começava a interessar ao mercado americano. Especialmente depois que outro single, Hot love, chegou ao número 1.

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O T. REX fez sua primeira tour nos EUA em abril de 1971, e Tony Visconti, americano radicado na Inglaterra desde 1967, resolveu ir visitar a família em Nova York. Foi ao show do T. Rex e, nos bastidores, já soube por intermédio da dupla Mark Wolman e Howard Kaylan (o Flo e o Eddie dos Turtles) que haviam marcado uma sessão no Media Sound para apresentar os estúdios americanos ao T. Rex.

VISCONTI avisou que se havia um disco para sair disso aí, ele fazia questão de produzir. Bolan já havia gravado coisas em Londres mas não havia exatamente um disco planejado: o músico queria só registrar material que havia acabado de compor. O produtor, vendo que Marc andava para lá e para cá com um caderno cheio de letras e ideias, disse que se ele trabalhasse bem naquilo, teria um disco pronto.

NOSTALGIA. Electric warrior era, vale dizer, um fruto típico de uma era em que o rock, uma arte jovem, estava começando a viver sua primeira era de nostalgia. Uma época em que havia Elvis Presley fazendo turnês, artistas do começo do estilo participando de festivais e todo mundo chorando as mortes de Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Brian Jones. E morrendo de saudades dos Beatles.

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ALIÁS E A PROPÓSITO, Bill Legend, baterista que participou das sessões do disco, recorda-se claramente de Bolan dizendo que queria que a energia do álbum fosse parecida com a dos discos de rock dos anos 1950 que ele ouvia na infância.

LEGEND também credita a energia do disco ao fato de tudo ter sido gravado ao vivo, “com os músicos olhando uns para os outros”. “Você não pode ter isso gravando os instrumentos em separado, não é real”, explica.

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SOM PRÓPRIO. Quem viu as gravações de Electric warrior lembra que Bolan trabalhou feito um maluco para conseguir dar ao disco um som com personalidade. Usou amplificação valvulada em todo o álbum, e dispensou vários instrumentos que tinha para usar uma Gibson Les Paul 1958, além de seus pedais com efeitos. Também fazia questão de mostrar alguma faixa emperrada para Visconti quando não chegava a alguma conclusão. Cosmic dancer, por exemplo cresceu bastante com o arranjo de cordas.

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ALIÁS E A PROPÓSITO, desde 1970 o T. Rex já era uma banda de verdade. Enfim, uma banda que era dupla (!), mas que na capa de Electric warrior era representada apenas pelo vocalista e guitarrista (!!). Do disco de 1971 participaram Bolan, Finn, Legend e Steve Currie (baixo), além de Flo & Eddie (vocais), Ian McDonald e Burt Collins (sopros e metais). Visconti fez arranjos de cordas.

RICK WAKEMAN, então um pobre músico de estúdio que estava desesperado para pagar o aluguel, supostamente fez o piano de Get it on, primeiro single do disco. Digo “supostamente” porque testemunhas dizem que o músico galês Blue Weaver (que tocou nos Strawbs, onde Wakeman também tocara) passou igualmente pelo estúdio e tocou tudo o que havia de piano na faixa.

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SÓ QUE Wakeman teria encontrado Bolan, e lhe pedira trabalho. Foi convidado a ir ao estúdio e, ao ouvir o material, teria dito a Visconti que o disco não estava precisando de mais piano. Visconti pediu a ele que fizesse os glissandos de piano que aparecem na música, ganhou a grana do aluguel e ficou tudo bem.

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O SINGLE. Get it on saiu em 2 de julho de 1971. Mas nos EUA, mercado importante para o T. Rex àquela altura, a canção mudou de nome para Bang a gong (Get it on). Isso porque havia uma música também chamada Get it on, lançada por um grupo chamado Chase.

QUEM É ESSE TAL DE CHASE? Ok, sabemos o que você está pensando: o T. Rex mudou o nome da sua música por causa de um grupo do qual ninguém nem lembra. Acontece que o Chase era uma banda de jazz-rock bem bacaninha e o bom single Get it on, lançado em maio de 1971, passou nada menos que 13 semanas no Billboard Hot 100. O Chase teve vida curta: em 1974 o vocalista Bill Chase morreu num acidente de avião. Entre 1977 e 1979, a turma da primeira formação se reuniu num grupo de tributo e até gravou um disco novo, Watch closely now.

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BOLAN disse que sua grande inspiração ao fazer Get it on foi Little queenie, de Chuck Berry, que ele chegou a pensar em gravar. Fez um pequeno roubo no riff da faixa e acrescentou o “and meanwhile, I’m still thinking”, da canção de Berry, no final. A canção foi uma das faixas gravadas durante as sessões em Londres, no Trident Studios.

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QUEM DEIXOU CLARO que não havia gostado muito da música nova foi… ninguém menos que John Peel, outrora amigo de todas as horas de Bolan. Peel ganhou um single promocional e não tocou a faixa. Apesar de ser amigo de Bolan, Peel não se sentia obrigado a tocar nada de ninguém se não gostasse da música. Os dois se falaram apenas uma vez até a morte de Bolan em 1977. Peel tentou fazer contato com ele em 1971, quando soube que Bolan havia se chateado, e não conseguiu.

IAN McDONALD, o saxofonista que toca em Get it on, era integrante de primeiríssima hora do King Crimson. Tocara na estreia In the court of Crimson King (1969) e, antes disso, tocara como convidado no embrião da banda, Giles, Giles & Fripp, banda formada pelo guitarrista Robert Fripp com os irmãos Michael Giles (bateria) e Peter Giles (baixo). Em 1976, wow, tornaria-se um dos fundadores do Foreigner. Olha ele aí no sax.

EXISTEM DOIS CLIPES de Get it on. Num deles, o T. Rex aparece num cenário poluído visualmente, durante uma apresentação num programa de TV austríaco. Mas no clipe tido como oficial, o T. Rex aparece no palco do Top of the pops e ninguém menos que Elton John está no piano.

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ELTON não estava lá à toa: era muito fã de Marc e considerava o cantor uma espécie de mentor. “Era um grande amigo e um pop star perfeito”, disse Elton. Ano passado, ele e o U2 regravaram a própria Get it on juntos.

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ACÚSTICO. O livro Cosmic dancer – The life and music of Marc Bolan, de Paul Roland (uma das fontes desse texto) nota que, apesar das mudanças na sonoridade do T. Rex, a banda não deixou de investir em canções acústicas, como Cosmic dancer e Girl. Também apontou um detalhe sobre Bolan como letrista: ele não era um cara exatamente literato ou irônico, como Bob Dylan ou John Lennon. Mas tinha a capacidade de escrever letras que pareciam com temas infantis, e que geralmente vinham de imagens que batiam em sua mente e logo eram aproveitadas.

E ESSA CAPA AÍ? A biografia também aponta para um detalhe básico: Electric warrior é o único disco de Bolan a não trazer seu rosto na capa. A imagem da capa, que traz a silhueta do cantor, foi feita pela empresa Hipgnosis a partir de uma foto do cantor durante um show no Albert Hall, em Nottingham, dia 14 de maio de 1971. Olha a imagem original aí, antes do tratamento.

Várias coisas que você já sabia sobre Electric Warrior, do T. Rex

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UM CLÁSSICO do cinema pairava como referência em Electric warrior: era 2001 – Uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick. O amplificador por trás de Bolan é uma referência ao monolito do filme (o mesmo que inspirou a capa de Who’s next, do Who). E, ora vejam só, o disco tem uma canção sobre “consciência cósmica” chamada… Monolith.

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ALIÁS E A PROPÓSITO, Monolith – geralmente tida como uma resposta de Bolan a Space oddity, do amigo-rival David Bowie – tem outra influência básica: o hit pop The duke of Earl, de Gene Chandler. Bolan pegou a melodia original, deu uma ralentada, umas modificações pequenas e fez outra canção na cara de pau.

OUTRA REFERÊNCIA do disco: You’ll be mine, do bluesman Howlin’ Wolf, serviu de inspiração para a letra e a levada de Jeepster.

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A ÚLTIMA FAIXA DO DISCO, Rip off, termina com um improviso barulhento de guitarra, sax e cordas. Tony Visconti diz que tudo nessa faixa foi feito quase inconscientemente. “Quando as pessoas dizem que parece que pertence a outro lugar, digo: absolutamente certo! Foi feito com outra parte do cérebro”, contou.

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ALIÁS E A PROPÓSITO, Electric warrior teve algo em comum com outro disco do “várias coisas que você já sabia sobre”, The Who sell out, do Who (1967). Também vinha com um “pôster grátis’, só que trazendo uma imagem de Marc relaxadão numa poltrona, com os outros músicos atrás dele.

DE MODO GERAL, a arte de Electric warrior foi respeitada nos países em que foi lançado. No Irã, uma edição pirata transformou o lay out numa imagem com contornos prateados. Em Israel, o título foi acrescentado à capa, junto de um aviso “inclui Jeepster e Get it on”. Na Alemanha, a versão 8-track passou de preto para branco. No Brasil, a Polydor lançou o disco, mas com uma inscrição “série Rock Power – a nova geração elétrica”, acima do nome da banda. Por causa disso, os pés de Bolan foram cortados da capa.

ESSA TAL SÉRIE Rock Power fez estragos nas capas de discos de Jade Warrior, Manfred Mann’s Earth Band e Audience.

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DEU CERTO? E como. Electric warrior saiu em 24 de setembro de 1971 e pôs Bolan na aristocracia do rock mais rápido do que se esperava, com discos vendendo a rodo, entrevistas, adulações de outros grandes astros (Ringo Starr virou quase seu irmão mais velho por alguns anos). Ficou 44 semanas nas paradas da Inglaterra e entrou para a classificação 32 no chart Billboard 200.

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O MINISTÉRIO DO SUCESSO ADVERTE. O livro de Paul Roland diz que nem tudo foram flores na vida de Bolan após o sucesso. Ou melhor: talvez o excesso de flores provocasse problemas. Bolan começou entrar numa egotrip meio bizarra, na qual misturavam-se sentimentos de eu-sou-o-fodão e momentos de inadequação e insegurança. Além de uma ideia, lá no fundo, de que aquilo tudo podia ir embora. Marc em vários momentos afastou-se dos amigos e afogou as mágoas na bebida e na cocaína.

OS AMIGOS afirmam que Marc vivia numa espécie de monastério, bastante perigoso e confuso. Elton John conta que o amigo “vivia num mundo de fantasia do qual não queria sair”. Tony Visconti diz que as pessoas próximas “precisavam alimentar as fantasias de Marc e levá-las adiante, e ninguém podia tirá-lo dessa bolha de plástico”. Steve Currie acredita que alguém perto de Marc alimentava o lado egocêntrico do cantor, “e pôs na cabeça dele a ideia de que ele era a melhor coisa já inventada desde o pão fatiado”.

MESMO ASSIM Bolan não podia reclamar de falta de sucesso. Aliás, era tanto sucesso que a coisa começava a ficar perigosa. No começo da turnê britânica do T. Rex, em maio de 1971 (portanto alguns meses antes de Electric warrior sair), dezenas de meninas adolescentes foram recepcioná-lo. Algumas delas recorriam a uma mania típica daqueles tempos: levavam tesouras para cortar cachos do seu cabelo.

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O EXCESSO DE FÃS nesse primeiro show, no Winter Gardens, mostrou que a equipe de segurança não ia dar conta: algumas adolescentes começaram a forçar tanto para chegar perto do palco, que caíram num fosso e empurraram alguns seguranças com elas. Não foi nada de muito grave, apesar do susto enorme, mas uma dúzia de policiais foi chamada para dar conta da situação.

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DURO MESMO foi ouvir o show, prejudicado por causa dos gritos da plateia. E mais duro ainda foi sair do local com fãs de jogando por cima dos carros que levavam os músicos. “A gente estava mais assustado com o fato de que se algum deles se machucasse, seria nossa culpa”, disse Finn. Em outro show, em Newcastle, o percussionista é que sofreria: fãs o puxariam do palco e cortariam até cachos do seu cabelo.

E DEPOIS? O disco seguinte do T. Rex seria o excelente The slider (1972). E seria também o primeiro disco do contrato milionário assinado com a nova gravadora, a EMI. Bolan passaria a ter direitos de licenciamento sobre os masters dos discos, sua própria companhia de produção e edição musical. E, para lançamento no Reino Unido, teria também seu próprio selo, o T. Rex Wax Co. Que se responsabilizaria apenas pelos lançamentos da banda e não faria discos de novos artistas.

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BOLAN e seu grupo entrariam em declínio a certa altura dos anos 1970 e ficariam completamente perdidos em meio às novidades do mercado – até uma tentativa de disco music o T. Rex faria, com Dreamy lady, em 1975. As plateias punks redescobririam a banda, e o T. Rex voltaria a fazer sucesso após 1976. Bolan apareceria na mídia ao lado de grupos como The Damned, Ramones e Buzzcocks, e ganharia até mesmo um programa de TV. Estava reformulando seu som pouco antes de morrer em 1977.

E JÁ QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI, pega aí uma versão bastante inusitada de Ride a white swan, do T. Rex. A supermodelo Naomi Campbell gravou a canção em 1995 em seu disco Babywoman.

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Quando Pegaram Gary Cherone (Extreme) para Cristo

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Em 1994, pouco antes de gravar o quarto disco com sua banda Extreme (o pseudo-conceitual Waiting for the punchline, de 1995) e de fazer uma tentativa de virar o vocalista do Van Halen (que deu no disco Van Halen III, de 1998, e numa turnê), o cantor Gary Cherone encontrou Jesus. Bom, mais que isso: ele se tornou Jesus, como ator da ópera-rock Jesus Christ Superstar, mas apenas nas montagens da peça em Boston, em 1994, 1996 e 2003.

O papel de Gary incluiu a crucificação e tudo, e o cantor chegou a declarar que a peça era uma antiga obsessão sua. “Sempre adorei a música dessa peça”, contou. O musical foi uma produção da Boston Rock Opera, trazia ainda Kay Hanley (Letters To Cleo) como Maria Madalena, e participação de vários roqueiros locais. Gary realmente curtia Jesus Christ Superstar: segundo uma matéria do The Boston Globe, a equipe que fazia o musical estava pensando em não apresentar nada na páscoa de 1994. Só que Gary não deixou: tinha visto uma encenação em Boston em 1993, gostou do que viu, passou a mão no telefone e ligou pessoalmente para a turma oferecendo-se para o papel.

A equipe ouviu o pedido do vocalista do Extreme, achou que ser maluquice não aproveitar a oferta do cantor e partiu para os ensaios. Detalhe que Gary, depois de três temporadas sendo crucificado, se preparava para outro desafio na mesma peça: iria interpretar Judas, o amigo da onça de Jesus. “Gosto do papel de Jesus, mas Judas tem músicas mais pesadas”, chegou a dizer.

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Isso de Gary resolver interpretar Judas e gostar do lado meio pesado da história (e ele fez mesmo o papel em 2000) reacendeu uma velha polêmica em relação a Jesus Christ Superstar. Criada por Andrew Lloyd Webber e Tim Rice inicialmente como uma ópera-rock lançada apenas em disco (ninguém tinha grana para levar aquilo tudo ao palco e não surgiam produtores interessados), a história discutia os papéis de Jesus Cristo e de seus apóstolos durante sua última semana de vida. E quando a peça foi à Broadway, com Jeff Fenholt como Jesus e Ben Vereen como Judas, não faltou gente reclamando que Judas parecia bastante simpático na peça.

Interpretando Jesus, por sinal, Gary encarou um papel que já foi vivido por outro vocalista de rock. Ninguém menos que Ian Gillan, que foi Jesus no LP da ópera-rock, feito quando ainda não havia planos para levá-la aos palcos. Mas Gillan não quis subir ao palco quando a montagem começou a ser feita, alegando que não queria virar ator. Um tempo depois, o papel de Jesus passou a ser tão cobiçado por roqueiros que até Sebastian Bach (o próprio) interpretou o papel.

Se você mal pode esperar para ver o ex-Skid Row interpretando o papel (bom, vai demorar pro POP FANTASMA fazer outra matéria sobre o mesmo assunto…) tá aí.

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Cultura Pop

Tem aniversário de Controversy, do Prince, vindo aí!

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Tem aniversário de Controversy, do Prince, vindo aí!

A capa do quarto disco de Prince, Controversy (lançado em 14 de outubro de 1981 e prestes a fazer 40 anos) já era (hum, ok) controversa. Transformado em escândalo público por causa do disco anterior, Dirty mind (1980, e do qual já falamos aqui), Prince estava nas manchetes. E elas estavam, de brincadeira, na capa do novo álbum.

Dirty mind tinha dado uma bela crescida musical – do pós disco dos álbuns anteriores, a uma mistura de soul, rock, um tantinho de psicodelia e até folk urbano herdado de Joni Mitchell. A crítica não deixou de prestar atenção nas letras beem safadas do álbum – que se chamava “mente poluída” e trazia Prince em frente às molas de uma cama, na capa. Robert Christgau comparou Prince a Jim Morrison e John Lennon, e ainda arrematou com uma frase lapidar: “Mick Jagger deveria recolher seu pau e ir para casa”. Na Rolling Stone, Ken Tucker dizia que Prince era um romântico ingênuo nos dois primeiros discos, mas finalmente estava à solta nas sacanagens e na música.

Controversy foi lançado doze meses após Dirty mind, e foi feito numa época de bastante trabalho para Prince – que pouco antes tinha produzido, assinando o trabalho como Jamie Starr, o disco de estreia do The Time, banda liderada pelo seu vocalista Morris Day. Como na época vários colunistas de jornal já faziam comentários sobre a sexualidade do cantor, não tinha como o assunto ficar de fora do álbum, a faixa-título (que abre o disco) já abre com vários questionamentos: “Sou preto ou branco? Eu sou hetero ou gay?/ Controvérsia / Eu acredito em Deus?/Eu acredito em mim?/Controvérsia”, perguntava Prince.

>>> Mais Prince no POP FANTASMA aqui.

Não era só nos jornais que Prince passava por esse tipo de situação. Abrindo para os Rolling Stones em 9 de outubro de 1981, o cantor (usando a roupa da época da turnê Dirty mind, que incluía uma tanguinha preta) foi vaiado e ouviu xingamentos homofóbicos da plateia, no Memorial Coliseum, em Los Angeles.

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Não só vaias: Prince e seus músicos foram atingidos por comida, latas, garrafas e tudo o que estivesse ao alcance do público. Prince ia desistindo de fazer o show do dia 11 de outubro, ate que Mick Jagger ligou para ele para encorajá-lo. “Eu disse a ele: se você chega a ser uma atração principal realmente grande, você tem que estar preparado para as pessoas jogarem garrafas em você à noite. Preparado para morrer!”, brincou Jagger.

Em Controversy, mais uma vez Prince tocou tudo “sozinho” – enfim, mais ou menos, porque em Jack U off, a última faixa, aparecem Bobby Z. (bateria), Lisa Coleman (teclados e vocais de fundo) e Dr. Fink (teclados). Andre Cymone, baixista de turnê de Prince, compôs a safadíssima Do me baby. Mas como estava sendo cada vez mais comum no universo de Prince naquela época, não recebeu crédito pela faixa, que apareceu assinada pelo patrão nas primeiras edições.

Não era o único momento de safadeza no disco, claro. Private joy era pura sacanagem, com versos como “todos os outros garotos amariam transar com você, mas você é meu brinquedo privativo” e “você pertence a Prince”. Mas Sexuality inovava por misturar sexo, política e futurismo (“precisamos de uma nova raça, líderes, levante-se, organize-se/não deixe seus filhos assistirem televisão até que saibam ler”).

Anne Christian era a resposta de Prince ao levante pós-punk, com peso, intensidade e uma letra que fala sobre uma prostituta que “matou John Lennon, atirou nele a sangue frio” e “tentou matar Reagan”. Ronnie, talk to Russia mostrava que Prince vinha acompanhando as tensões entre Ronald Reagan, então presidente dos EUA, e o governo da União Soviética, mas que estava do lado do seu país, enfim (“você pode ir ao zoológico, mas não alimente guerrilheiros de esquerda”).

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Para os fãs brasileiros, Controversy trazia uma novidade: Dirty mind não tinha saído aqui em tempo real (só foi lançado no Brasil em 1990!), mas o quarto disco de Prince saiu aqui imediatamente. Com um aviso na capa: “inclui Sexuality e Controversy“. Incluía mesmo.

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Cinema

Urban struggle: tem documentário raro sobre punk californiano na web

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Sabe aquele vizinho fascista que você detesta, e que também tem uma relação péssima com você? Pois bem, o conto dos vizinhos que se odeiam mutuamente ganhou proporções astronômicas e perigosas com o relacionamento bizarro entre dois bares californianos: o boteco punk Cuckoo’s Nest e o bar de cowboys urbanos Zubie’s. Os dois ficavam um ao lado do outro na cidade de Costa Mesa, localizada em Orange County, região com cena punk fortíssima.

O Cuckoo’s Nest era um local importante para o punk da Califórnia, a ponto de bandas como Black Flag, Circle Jerks, Fear e TSOL teram tocado lá. E do primeiro show do Black Flag com Henry Rollins no vocal ter acontecido na casa, no dia 21 de agosto de 1981. Bandas como Ramones e Bad Brains, ao passarem pela cidade, sempre tocavam lá. Já o Zubie’s, lotado de playboys no estilo country, costumava ser um problema para os punks: os cowboys invadiam o local, arrumavam brigas com os punks e os insultavam usando termos homofóbicos.

Vale citar que mesmo dentro do Cuckoo’s Nest as coisas não eram fáceis, até porque “movimento punk” significava uma porrada de gente reunida, com motivações diferentes e estilos de vida conflitantes. Tipos violentos e machistas começaram a frequentar o local e a arrumar briga com os frequentadores. E quem viu o documentário The other f… word, da cineasta e roteirista Andrea Blaugrund Nevins, recorda que o rolê punk na Califórnia era muito violento.

Flea, baixista dos Red Hot Chili Peppers – e que tocou no Fear por alguns tempos nos anos 1980 – lembra em The other f… word que, no começo dos anos 1980, uma cena comum nos shows do Black Flag eram as inúmeras brigas nas quais os fãs eram esmurrados e nocauteados, apenas por terem o cabelo ou a roupa assim ou assado. “As pessoas não somente tomavam porrada, elas acabavam no hospital. Havia ambulâncias transportando os fãs após os shows a todo momento!”.

O Cuckoo’s Nest ficou aberto de 1976 até 1981 e nunca deixou de ter problemas. O proprietário Jerry Roach lutava para manter a casa aberta, dialogava da maneira que dava com policiais, com clientes e até com a turma enorme de hippies, cabeludos e malucos que pulava de galho em galho na Califórnia.

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E essa longa introdução é só pra avisar que jogaram no YouTube o documentário  Urban struggle: The battle of the Cuckoo’s Nest, dirigido em 1981 por Paul Young.  Infelizmente sem legendas.

Tem uma edição melhor no Vimeo. Sem legendas também.

Num dos depoimentos do documentário, Jerry define a atitude dos punks como “foda-se, vivo de acordo com minhas regras”. Mas diz que não vê hippies como sendo pessoas da paz e do amor o tempo todo, e muito menos enxerga punks como odiadores contumazes. “É só um conflito de gerações”, disse Jerry, que – você talvez já tenha imaginado – batizou o local em homenagem ao filme Um estranho no ninho, de Milos Forman (o nome no original era One flew over the cuckoo’s nest).

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Tanto os músicos quanto Jerry falam bastante a respeito de brigas com a polícia – o dono do local relata as vezes em que conversou com os agentes – e reclamam da violência policial. Por acaso, um dos agentes é entrevistado, e os meganhas locais, seguindo o exemplo dos cowboys, não tinham o menor apreço pelos punks. A luta de Jerry para manter o local aberto também está no doc. Mas se você quer sair fora das discussões, o documentário ainda tem apresentações bem legais do Black Flag, Circle Jerks e TSOL.

Paul Young, o autor do filme, era um estudante de cinema que tinha sido contratado por Jerry para filmar as invasões da polícia ao local. Acabou sendo responsável pelo documentário, e anos depois acabou ficando bastante indignado quando viu o filme We were feared – The story of The Cuckoo’s Nest, de Jonathan WC Mills, e reconheceu várias de suas imagens lá.

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