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Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre Electric Warrior, do T. Rex

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Em 1971, não tinha ser humano com a autoestima maior que Marc Bolan, líder do T. Rex. O sucesso de Electric warrior, segundo disco da banda (e sexto desde o começo como Tyrannosaurus Rex) detonara uma verdadeira Bolanmania na Inglaterra, que marcou profundamente as vidas de uma turma enorme de roqueiros, cujas carreiras começariam entre 1976 e 1980.

Ídolo de garotos e garotas que estavam com 14, 15 anos, e posteriormente descobririam David Bowie e o punk rock, ele se achava com cacife o suficiente para cunhar afirmativas como: “Nem Dylan nem Lennon são melhores do que eu, e eles sabem disso. Eles sabem onde estou: sou diferente, como eles. Eu sabia que era diferente desde o momento em que nasci”, contava.

O entendimento de Bolan era impreciso, óbvio. Isso porque o reinado do T. Rex não duraria muito, e o cantor e compositor viraria um ídolo de outrora em pouco tempo. Mas seu legado perduraria. Morto em 1977 num acidente de automóvel, Bolan pairou nada silenciosamente sobre Ramones, Buzzcocks, The Cure, Sigue Sigue Sputnik, Red Hot Chili Peppers (John Frusciante é fã), Sex Pistols, Stone Temple Pilots, Suzi Quatro, Prince, Rita Lee & Tutti Frutti (Arrombou a festa só existe porque o boogie futurista de Bolan existiu um dia) e tudo o que, no rock pós-1971, soou como se tivesse vindo de galáxias muito distantes. E convidasse para a dança, a roda e a festa.

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E esse é o nosso relatório sobre Electric warrior, marco zero do glam rock. Ouça lendo, leia ouvindo.

VIOLÃOZINHO. O Tyrannossarus Rex, basicamente uma dupla de folk hippie sujinho, era formado por Marc Bolan violão e voz) e um sujeito chamado Steve Peregrin Took, que tocava percussões, sininhos, xilofone infantil e tudo o que mais aparecesse pela frente. Surgiu em julho de 1967 e, como pediam os tempos bizarros da aurora do glam rock, era a terceira tentativa de Bolan de fazer sucesso.

ORGASMO. Marc, antes do Tyrannossaurus, tivera uma carreira frustrada como guitarrista solo de uma banda mais-ou-menos da psicodelia. Era o John’s Children, que em 1970, já sem Bolan, escandalizaria geral gravando um disco chamado Orgasm. Mas o momento mais parecido com um “agora vai!” foi quando ele, munido de algumas canções solo, conseguiu atrair a atenção do empresário e produtor dos Yardbirds, Simon Napier-Bell, no finalzinho de 1966.

NÃO FODE, KEITH! Simon já tinha 27 anos e estava de saco cheio dos Yardbirds. Em especial do cantor Keith Relf, que dava ataques trágicos de estrelismo: ligava o dia inteiro para o empresário para reclamar da turnê australiana do grupo e, certa ocasião, disse que não subiria no palco sem que lhe dessem um par de meias novas (!). Bolan foi como uma lufada de vento na vida do empresário: quando ele adentrou seu escritório, Simon teve a impressão de que estava diante do novo Elvis.

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SÓ QUE… A bendita autoestima de Bolan quase põe tudo a perder. Simon pedira-lhe que levasse uma fita para o encontro. Munido de um violão, o cantor não levou tape nenhum e disse que poderia cantar o repertório para o empresário. “Marc tinha material suficiente para quatro discos, mas não queria gravar. Ele estava numa ego trip bizarra naquela época, achava que era só espalhar uns pôsteres dele por aí, que as pessoas veriam as fotos dele e as coisas aconteceriam”, revelou Simon.

MAS O DISCO FOI FEITO. Bolan disse que faria as gravações, mas só com voz e violão. Saíram 14 músicas, gravadas em oito horas, sem overdubs e sem esconder a técnica precária de Bolan no vocal e no violão.

AO TERMINAR TUDO, segundo Simon, Bolan estava tão confiante que disse “é isso aí, tenho um disco e ele vai acontecer”, muito embora qualquer pessoa soubesse que um álbum vacilante daqueles, gravado numa época em que os estúdios se modernizavam rapidamente, jamais chegaria às lojas. Ele só sairia em 1972, num disco acrescido de faixas bônus chamado Hard on love. O álbum foi relançado em 1974 como The beginning of doves. Em 1981, Napier-Bell acrescentou guitarra, baixo e bateria às músicas e relançou o material como You scare me to death.

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O QUASE HIT DESSE REPERTÓRIO foi essa canção aí de cima, You scare me to death, feita alegadamente como jingle de uma fábrica de pastilhas (“você me assusta até a morte com seu bafo horroroso”, diz o bizarro refrão).

MAS Bolan, na real, lançou um single sob os auspícios de Napier-Bell, Hippy gumbo. Uma canção polêmica, que narrava um crush gay numa época em que homossexualidade era crime na Inglaterra.

A EMI prometeu lançar o disco caso Simon, ainda envolvido com os Yardbirds, desse um jeito na banda, que, gravando um disco pela mesma empresa, passava a maior parte do tempo de estúdio brigando. Saiu, mas fracassou miseravelmente.

CABEÇAS DINOSSAURO. Steve Peregrin Took, cujo nome verdadeiro era Steve Porter (e cujo nome artístico vinha de certa adoração hippie ao livro O Senhor dos Anéis, de Tolkien), fizera parte da primeira e fracassada formação do Tyrannossaurus Rex, quando Bolan tentou montar uma banda de rock formal, com guitarra, baixo e bateria. Ficou apenas na percussão, enquanto Bolan cantava suas canções folk cheias de letras viajantes.

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A OPÇÃO pelo novo set veio, em parte, por restrições orçamentárias: Took devia uns meses de aluguel e precisou vender sua bateria. Bolan também tinha assistido a um show do indiano Ravi Shankar e achou que o formato dava pé.

ALIÁS E A PROPÓSITO, quem ajudou muito a dupla foi o DJ John Peel, da BBC. Peel quase contratou o Tyrannossaurus Rex para seu selo Dandelion. Em 1968, Bolan e Took foram contratados pelo selo Regal Zonophone e sob produção de Tony Visconti, lançaram um primeiro disco de nome bizarro: My people were fair and had sky in their hair… But now they’re content to wear stars in their brows.

O PRIMEIRO DISCO não deu muito certo, mas garantiu algum aiprlay e alguns fãs para o grupo. Quem não ficou muito tempo por lá foi Peregrin. Steve foi saído do Tyrannosaurus Rex por, supostamente, ter jogado doses do alucinógeno STP num ponche preparado para o lançamento da versão inglesa da Rolling Stone – o parceiro Bolan, desavisado, provou da bebida e pagou mico na festa. Obrigado contratualmente a permanecer na banda durante uma turnê norte-americana, aproveitou para tocar o zaralho: caiu de boca nas drogas, deu uma de Iggy Pop (chegou a chicotear-se no palco) e horrorizou geral.

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ATÉ SAIR, Peregrin gravou três LPs com o Tyrannossaurus Rex. O quarto, A beard of stars (1970), já trouxe Mickey Finn, novo parceiro de Bolan, em seu lugar. Finn era tido como um músico bem menos cheio de atributos que Took e a piada era que ele havia entrado só por ter boa aparência e uma moto “maneira”. Mas Finn foi fundamental na transição “elétrica” do grupo, acrescentando baixos ocasionais e bongôs latinos à mistura.

EM MARÇO DE 1970 o Tyrannosaurus Rex foi lançar A beard of stars com um showcase para jornalistas na redação da revista Melody Maker. Deram azar: a dupla apareceu na hora do almoço, e só Chris Welch, um dos jornalistas da publicação, estava na hora do show. Antes que Welch pudesse mostrar o quanto estava gostando do show (e ele estava) algum repórter da revista Cycling, cuja redação era na sala ao lado, bateu na parede e gritou, reclamando do barulho.

UM HIT, ENFIM. A dupla passou por uma diminuição de nome (de Tyrannossaurus Rex para T. Rex), de sonoridade (do folk zabelê para o som eletrificado e roqueiro) e de gravadora: o elenco do selo Regal Zonophone foi para a recém-criada Fly Records. O primeiro disco da nova fase, T. Rex, saiu em dezembro de 1970, com nova imagem na capa: Bolan fez questão de posar com sua guitarra, mostrando que era a hora do som elétrico, e não dos violões da fase anterior. E finalmente a banda conseguiu um hit: Ride a white swan, que saiu em single e estava apenas na versão americana no disco, estourou e levou a dupla ao Top of the pops.

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COM Ride a white swan, o T. Rex virou mania entre adolescentes de uma hora para a outra, e conquistou um número de fãs que a dupla não tinha antes. Bolan, por sua vez, estava felicíssimo com o fato de poder aparecer em pé no palco – o cantor incluía em seus números, além dos mergulhos na guitarra, uma dança lasciva e andrógina, além de aparecer vestido com roupas chamativas e brilhantes, e de adotar o glitter no rosto. Ao Record Mirror, chegou a dizer que estava cansado de aparecer sentado no palco, como na época dos shows com Peregrin Took.

QUEM VIU o T. Rex no Top of the pops e se apaixonou por Bolan (e comprou o single com Ride a white swan) foi a futura cantora Toyah Wilcox, 12 anos em 1970. “Parte da rebelião dele, é que ele era um cara feminino, de verdade. Uau, um cara que usava maquiagem, vestia cetim, era gentil ao falar. Era uma rebelião gentil, poética”, recordou.

TOYAH era uma das fãs da verdadeira legião de admiradoras (e admiradores) que o T. Rex conseguiu, partindo do folk riponga para o boogie futurista que passariam a fazer em Electric warrior. Um disco, por sinal, feito com uma certeza na cabeça: sucesso na Inglaterra, o T. Rex começava a interessar ao mercado americano. Especialmente depois que outro single, Hot love, chegou ao número 1.

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O T. REX fez sua primeira tour nos EUA em abril de 1971, e Tony Visconti, americano radicado na Inglaterra desde 1967, resolveu ir visitar a família em Nova York. Foi ao show do T. Rex e, nos bastidores, já soube por intermédio da dupla Mark Wolman e Howard Kaylan (o Flo e o Eddie dos Turtles) que haviam marcado uma sessão no Media Sound para apresentar os estúdios americanos ao T. Rex.

VISCONTI avisou que se havia um disco para sair disso aí, ele fazia questão de produzir. Bolan já havia gravado coisas em Londres mas não havia exatamente um disco planejado: o músico queria só registrar material que havia acabado de compor. O produtor, vendo que Marc andava para lá e para cá com um caderno cheio de letras e ideias, disse que se ele trabalhasse bem naquilo, teria um disco pronto.

NOSTALGIA. Electric warrior era, vale dizer, um fruto típico de uma era em que o rock, uma arte jovem, estava começando a viver sua primeira era de nostalgia. Uma época em que havia Elvis Presley fazendo turnês, artistas do começo do estilo participando de festivais e todo mundo chorando as mortes de Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Brian Jones. E morrendo de saudades dos Beatles.

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ALIÁS E A PROPÓSITO, Bill Legend, baterista que participou das sessões do disco, recorda-se claramente de Bolan dizendo que queria que a energia do álbum fosse parecida com a dos discos de rock dos anos 1950 que ele ouvia na infância.

LEGEND também credita a energia do disco ao fato de tudo ter sido gravado ao vivo, “com os músicos olhando uns para os outros”. “Você não pode ter isso gravando os instrumentos em separado, não é real”, explica.

SOM PRÓPRIO. Quem viu as gravações de Electric warrior lembra que Bolan trabalhou feito um maluco para conseguir dar ao disco um som com personalidade. Usou amplificação valvulada em todo o álbum, e dispensou vários instrumentos que tinha para usar uma Gibson Les Paul 1958, além de seus pedais com efeitos. Também fazia questão de mostrar alguma faixa emperrada para Visconti quando não chegava a alguma conclusão. Cosmic dancer, por exemplo cresceu bastante com o arranjo de cordas.

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ALIÁS E A PROPÓSITO, desde 1970 o T. Rex já era uma banda de verdade. Enfim, uma banda que era dupla (!), mas que na capa de Electric warrior era representada apenas pelo vocalista e guitarrista (!!). Do disco de 1971 participaram Bolan, Finn, Legend e Steve Currie (baixo), além de Flo & Eddie (vocais), Ian McDonald e Burt Collins (sopros e metais). Visconti fez arranjos de cordas.

RICK WAKEMAN, então um pobre músico de estúdio que estava desesperado para pagar o aluguel, supostamente fez o piano de Get it on, primeiro single do disco. Digo “supostamente” porque testemunhas dizem que o músico galês Blue Weaver (que tocou nos Strawbs, onde Wakeman também tocara) passou igualmente pelo estúdio e tocou tudo o que havia de piano na faixa.

SÓ QUE Wakeman teria encontrado Bolan, e lhe pedira trabalho. Foi convidado a ir ao estúdio e, ao ouvir o material, teria dito a Visconti que o disco não estava precisando de mais piano. Visconti pediu a ele que fizesse os glissandos de piano que aparecem na música, ganhou a grana do aluguel e ficou tudo bem.

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O SINGLE. Get it on saiu em 2 de julho de 1971. Mas nos EUA, mercado importante para o T. Rex àquela altura, a canção mudou de nome para Bang a gong (Get it on). Isso porque havia uma música também chamada Get it on, lançada por um grupo chamado Chase.

QUEM É ESSE TAL DE CHASE? Ok, sabemos o que você está pensando: o T. Rex mudou o nome da sua música por causa de um grupo do qual ninguém nem lembra. Acontece que o Chase era uma banda de jazz-rock bem bacaninha e o bom single Get it on, lançado em maio de 1971, passou nada menos que 13 semanas no Billboard Hot 100. O Chase teve vida curta: em 1974 o vocalista Bill Chase morreu num acidente de avião. Entre 1977 e 1979, a turma da primeira formação se reuniu num grupo de tributo e até gravou um disco novo, Watch closely now.

BOLAN disse que sua grande inspiração ao fazer Get it on foi Little queenie, de Chuck Berry, que ele chegou a pensar em gravar. Fez um pequeno roubo no riff da faixa e acrescentou o “and meanwhile, I’m still thinking”, da canção de Berry, no final. A canção foi uma das faixas gravadas durante as sessões em Londres, no Trident Studios.

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QUEM DEIXOU CLARO que não havia gostado muito da música nova foi… ninguém menos que John Peel, outrora amigo de todas as horas de Bolan. Peel ganhou um single promocional e não tocou a faixa. Apesar de ser amigo de Bolan, Peel não se sentia obrigado a tocar nada de ninguém se não gostasse da música. Os dois se falaram apenas uma vez até a morte de Bolan em 1977. Peel tentou fazer contato com ele em 1971, quando soube que Bolan havia se chateado, e não conseguiu.

IAN McDONALD, o saxofonista que toca em Get it on, era integrante de primeiríssima hora do King Crimson. Tocara na estreia In the court of Crimson King (1969) e, antes disso, tocara como convidado no embrião da banda, Giles, Giles & Fripp, banda formada pelo guitarrista Robert Fripp com os irmãos Michael Giles (bateria) e Peter Giles (baixo). Em 1976, wow, tornaria-se um dos fundadores do Foreigner. Olha ele aí no sax.

EXISTEM DOIS CLIPES de Get it on. Num deles, o T. Rex aparece num cenário poluído visualmente, durante uma apresentação num programa de TV austríaco. Mas no clipe tido como oficial, o T. Rex aparece no palco do Top of the pops e ninguém menos que Elton John está no piano.

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ELTON não estava lá à toa: era muito fã de Marc e considerava o cantor uma espécie de mentor. “Era um grande amigo e um pop star perfeito”, disse Elton. Ano passado, ele e o U2 regravaram a própria Get it on juntos.

ACÚSTICO. O livro Cosmic dancer – The life and music of Marc Bolan, de Paul Roland (uma das fontes desse texto) nota que, apesar das mudanças na sonoridade do T. Rex, a banda não deixou de investir em canções acústicas, como Cosmic dancer e Girl. Também apontou um detalhe sobre Bolan como letrista: ele não era um cara exatamente literato ou irônico, como Bob Dylan ou John Lennon. Mas tinha a capacidade de escrever letras que pareciam com temas infantis, e que geralmente vinham de imagens que batiam em sua mente e logo eram aproveitadas.

E ESSA CAPA AÍ? A biografia também aponta para um detalhe básico: Electric warrior é o único disco de Bolan a não trazer seu rosto na capa. A imagem da capa, que traz a silhueta do cantor, foi feita pela empresa Hipgnosis a partir de uma foto do cantor durante um show no Albert Hall, em Nottingham, dia 14 de maio de 1971. Olha a imagem original aí, antes do tratamento.

Várias coisas que você já sabia sobre Electric Warrior, do T. Rex

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UM CLÁSSICO do cinema pairava como referência em Electric warrior: era 2001 – Uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick. O amplificador por trás de Bolan é uma referência ao monolito do filme (o mesmo que inspirou a capa de Who’s next, do Who). E, ora vejam só, o disco tem uma canção sobre “consciência cósmica” chamada… Monolith.

ALIÁS E A PROPÓSITO, Monolith – geralmente tida como uma resposta de Bolan a Space oddity, do amigo-rival David Bowie – tem outra influência básica: o hit pop The duke of Earl, de Gene Chandler. Bolan pegou a melodia original, deu uma ralentada, umas modificações pequenas e fez outra canção na cara de pau.

OUTRA REFERÊNCIA do disco: You’ll be mine, do bluesman Howlin’ Wolf, serviu de inspiração para a letra e a levada de Jeepster.

A ÚLTIMA FAIXA DO DISCO, Rip off, termina com um improviso barulhento de guitarra, sax e cordas. Tony Visconti diz que tudo nessa faixa foi feito quase inconscientemente. “Quando as pessoas dizem que parece que pertence a outro lugar, digo: absolutamente certo! Foi feito com outra parte do cérebro”, contou.

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ALIÁS E A PROPÓSITO, Electric warrior teve algo em comum com outro disco do “várias coisas que você já sabia sobre”, The Who sell out, do Who (1967). Também vinha com um “pôster grátis’, só que trazendo uma imagem de Marc relaxadão numa poltrona, com os outros músicos atrás dele.

DE MODO GERAL, a arte de Electric warrior foi respeitada nos países em que foi lançado. No Irã, uma edição pirata transformou o lay out numa imagem com contornos prateados. Em Israel, o título foi acrescentado à capa, junto de um aviso “inclui Jeepster e Get it on”. Na Alemanha, a versão 8-track passou de preto para branco. No Brasil, a Polydor lançou o disco, mas com uma inscrição “série Rock Power – a nova geração elétrica”, acima do nome da banda. Por causa disso, os pés de Bolan foram cortados da capa.

ESSA TAL SÉRIE Rock Power fez estragos nas capas de discos de Jade Warrior, Manfred Mann’s Earth Band e Audience.

DEU CERTO? E como. Electric warrior saiu em 24 de setembro de 1971 e pôs Bolan na aristocracia do rock mais rápido do que se esperava, com discos vendendo a rodo, entrevistas, adulações de outros grandes astros (Ringo Starr virou quase seu irmão mais velho por alguns anos). Ficou 44 semanas nas paradas da Inglaterra e entrou para a classificação 32 no chart Billboard 200.

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O MINISTÉRIO DO SUCESSO ADVERTE. O livro de Paul Roland diz que nem tudo foram flores na vida de Bolan após o sucesso. Ou melhor: talvez o excesso de flores provocasse problemas. Bolan começou entrar numa egotrip meio bizarra, na qual misturavam-se sentimentos de eu-sou-o-fodão e momentos de inadequação e insegurança. Além de uma ideia, lá no fundo, de que aquilo tudo podia ir embora. Marc em vários momentos afastou-se dos amigos e afogou as mágoas na bebida e na cocaína.

OS AMIGOS afirmam que Marc vivia numa espécie de monastério, bastante perigoso e confuso. Elton John conta que o amigo “vivia num mundo de fantasia do qual não queria sair”. Tony Visconti diz que as pessoas próximas “precisavam alimentar as fantasias de Marc e levá-las adiante, e ninguém podia tirá-lo dessa bolha de plástico”. Steve Currie acredita que alguém perto de Marc alimentava o lado egocêntrico do cantor, “e pôs na cabeça dele a ideia de que ele era a melhor coisa já inventada desde o pão fatiado”.

MESMO ASSIM Bolan não podia reclamar de falta de sucesso. Aliás, era tanto sucesso que a coisa começava a ficar perigosa. No começo da turnê britânica do T. Rex, em maio de 1971 (portanto alguns meses antes de Electric warrior sair), dezenas de meninas adolescentes foram recepcioná-lo. Algumas delas recorriam a uma mania típica daqueles tempos: levavam tesouras para cortar cachos do seu cabelo.

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O EXCESSO DE FÃS nesse primeiro show, no Winter Gardens, mostrou que a equipe de segurança não ia dar conta: algumas adolescentes começaram a forçar tanto para chegar perto do palco, que caíram num fosso e empurraram alguns seguranças com elas. Não foi nada de muito grave, apesar do susto enorme, mas uma dúzia de policiais foi chamada para dar conta da situação.

DURO MESMO foi ouvir o show, prejudicado por causa dos gritos da plateia. E mais duro ainda foi sair do local com fãs de jogando por cima dos carros que levavam os músicos. “A gente estava mais assustado com o fato de que se algum deles se machucasse, seria nossa culpa”, disse Finn. Em outro show, em Newcastle, o percussionista é que sofreria: fãs o puxariam do palco e cortariam até cachos do seu cabelo.

E DEPOIS? O disco seguinte do T. Rex seria o excelente The slider (1972). E seria também o primeiro disco do contrato milionário assinado com a nova gravadora, a EMI. Bolan passaria a ter direitos de licenciamento sobre os masters dos discos, sua própria companhia de produção e edição musical. E, para lançamento no Reino Unido, teria também seu próprio selo, o T. Rex Wax Co. Que se responsabilizaria apenas pelos lançamentos da banda e não faria discos de novos artistas.

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BOLAN e seu grupo entrariam em declínio a certa altura dos anos 1970 e ficariam completamente perdidos em meio às novidades do mercado – até uma tentativa de disco music o T. Rex faria, com Dreamy lady, em 1975. As plateias punks redescobririam a banda, e o T. Rex voltaria a fazer sucesso após 1976. Bolan apareceria na mídia ao lado de grupos como The Damned, Ramones e Buzzcocks, e ganharia até mesmo um programa de TV. Estava reformulando seu som pouco antes de morrer em 1977.

E JÁ QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI, pega aí uma versão bastante inusitada de Ride a white swan, do T. Rex. A supermodelo Naomi Campbell gravou a canção em 1995 em seu disco Babywoman.

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No nosso podcast, os primeiros anos do Soft Cell

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No nosso podcast, os primeiros anos do Soft Cell

O Soft Cell tá vindo aí pela primeira vez. A dupla de Marc Almond e Dave Ball se apresenta no Brasil em maio, e vai trazer – claro – seu principal hit, Tainted love. Uma música que marcou os anos 1980 e vem marcando todas as décadas desde então, e que deu ao Soft Cell um conceito todo próprio – mesmo não sendo (você deve saber) uma canção autoral. Era um dos destaques de seu álbum de estreia, Non stop erotic cabaret (1981), um dos grandes discos da história do synth pop.

No nosso podcast, o Pop Fantasma Documento, voltamos lá no comecinho do Soft Cell, mostramos a relação da dupla com uma das cidades mais fervilhantes da Inglaterra (Leeds) e damos uma olhada no que é que está impresso no DNA musical dos dois – uma receita que une David Bowie, T Rex, filmes de terror, Kenneth Anger, sadomasoquismo e vários outros elementos.

Século 21 no podcast: Red Cell e Noporn.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch. Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.

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Cultura Pop

Relembrando: Mick Ronson, “Play don’t worry”

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Guitarrista de David Bowie na fase Spiders From Mars, Mick Ronson foi uma promessa injustamente não cumprida como artista solo. Inicialmente teve cobertura da Mainman (mesma empresa que cuidava de Bowie nessa fase), contrato com a RCA, interesse da mesma imprensa que cobria o dia a dia dos popstars do glam rock, certa migração de fãs do cantor de Starman.

Até porque Ronson estreou com treze shows no Reino Unido em março de 1974, quando Bowie estava fora dos palcos. E o guitarrista volta e meia era chamado de “substituto” de seu patrão. Ironicamente o próprio Bowie ficaria com ciúmes de sua “cria”, começando a armar sua volta aos palcos a partir daí. Esbarraria no fato de que a turnê solo do guitarrista havia comido uma boa parte da grana que seria investida em sua própria carreira, mas isso é outra história.

No começo, Ronson era um músico desprotegido a ponto de, mesmo sendo mais velho que Bowie e sua mulher Angie, ser cuidado pelo casal como se fosse um irmão mais novo. Com Bowie, chamou a atenção das plateias e foi um quase parceiro. Merecia ter ganhado crédito de co-autor em faixas de discos como The man who sold the world, de 1970, cuja gravação havia sido marcada pelo desapego do maior interessado, que era o próprio Bowie. Como compensação, fica o fato de que é impossível lembrar de músicas como Life on Mars? e Starman sem lembrar das guitarras de Ronson.

Surgiu a chance de tornar-se artista solo, quando Bowie havia resolvido ficar longe dos palcos. O repertório da estreia de Ronson, Slaughter on 10h avenue (1974), unia as duas faces do músico, um cara que tocava guitarra como se o instrumento viesse do espaço sideral, e também regia orquestras, além de tocar piano.

Era o disco da hard roqueira Only after dark, do blues glam I’m the one (de Annette Peacock, musicista pioneira dos sons eletrônicos que também gravava pela RCA naquele período). E da grandiloquência da faixa título (uma canção dos anos 1930 revisitada), do romantismo de Love me tender (aquela mesma, imortalizada por Elvis Presley). Mick, por sua vez, era o guitarrista experiente que tinha talento dramático a ponto de fazer um anúncio-curta metragem para divulgar Slaughter – a foto da capa, que trazia o guitarrista chorando, era um trecho do tal filme.

Muita coisa contribuiria para afastar a Mainman de Ronson e entre elas, estava o fato da relação entre Bowie e o empresário Tony Defries estar saindo do controle e ter chegado a um ponto bem complicado em 1974.Por acaso, foi em janeiro de 1975 que saiu Play don’t worry, o segundo disco do guitarrista.

Era mais um disco realizado sob as barbas de Pin-ups, disco de covers de Bowie (1973). O primeiro de Ronson havia sido gravado com a mesma banda do cantor na época, assim que o serviço no disco do patrão terminara. Já em Play, Mick reaproveitava uma backing track realizada para Pin ups, e nunca lançada: a da versão de White light/white heat, do Velvet Underground, mais viva e pesada que a original, e uma das melhores faixas do disco de um compositor e guitarrista que, ao se tornar um intérprete e fazedor de covers, quase sempre acertava.

Play don’t worry tinha a mesma aparência ora melancólica, ora feliz do disco anterior. Era o disco da balada glam Angel nº9, releitura do grupo country-rock Pure Prairie League (de cuja gravação original Mick havia participado fazendo arranjos), e do agito de Girl can’t help it, clássico do repertório de Little Richard, relido em clima protopunk. Outro rock countryficado do Pure Prairie League, Woman, encerrava o álbum. Por outro lado, Empty bed, versão de Io me ne andrei, do pop-roqueiro italiano Claudio Baglioni, era um baladão romântico, pronto para entrar em trilha de novela no Brasil (infelizmente não entrou).

Ronson aparecia como autor apenas em duas faixas, talvez escolhidas a dedo para mostrar que nem tudo ali eram flores. Play don’t worry, feita ao lado do amigo produtor e compositor Bob Sargeant, falava sobre os altos e baixos da vida, e era a provável admissão de que a vida de potencial rockstar havia trazido mais problemas do que soluções. Hazy days, faixa-solo, trazia aquelas discussões sobre a obsolescência programada do pop, típicas da própria música de Bowie (“o que você vai fazer agora, quando você achar que estou no passado?”, diz a letra).

Parecia recado para alguém. Talvez para o próprio Ronson, que não se sentia nem um pouco confortável ou feliz como artista solo. “Sabia que as pessoas perceberiam meu desconforto na plateia e eu não queria isso”, chegou a afirmar o músico, que também considerava a vida de popstar solo algo parecido como ter dúvidas e ter que responder suas próprias dúvidas, sem contar com a parceria de ninguém.

Mick respondeu suas próprias dúvidas quando resolveu, ainda com Play don’t worry em curso, juntar-se ao Mott The Hoople, banda do amigo Ian Hunter. O Mott estava com os dias contados e restou a Mick voltar à vida de músico contratado. Gravou com muita gente, mas ficou conhecido pelas colaborações com Ian, com quem chegou a gravar um disco em dupla – Yui orta, de 1990. Infelizmente tornou-se menos reconhecido do que deveria, e a decepção com as expectativas do pop tornou-se um vazio nunca devidamente preenchido.

Mick morreu em 29 de abril de 1993, já resgatado para as novas gerações. Pouco antes, havia produzido Your arsenal, de Morrissey, e tinha se juntado a David Bowie, a Ian Hunter e aos remanescentes do Queen no concerto de tributo a Freddie Mercury. A notícia de sua partida ressoa até hoje como os últimos ruídos de guitarra de Play don’t worry, a canção. São sons que desaparecem aos poucos, como numa transmissão de TV cheia de interferências que vai sumindo. Nossa sorte é que o recado estava dado: “Não pense muito neles/comece a sonhar novamente com o amanhã”.

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Os discos do poeta John Sinclair

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Os discos do poeta John Sinclair

O nome de John Sinclair, morto nesta terça (2) aos 82 anos. não é tão estranho assim para o fã de rock clássico. Afinal, ele foi empresário do MC5 na época do disco Kick out the jams (1969), foi homenageado por John Lennon numa música justamente chamada John Sinclair (de 1972) e até mesmo aquele discurso que o ativista Abbie Hoffman tentou fazer durante o show do Who no Festival de Woodstock (1969) aconteceria para conscientizar as pessoas em relação à situação de John. Que estava encarcerado por tráfico após vender maconha a um policial disfarçado.

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John havia sido condenado a dez anos de prisão, uma arbitrariedade. Mas foi solto em 1971 quatro deias depois de Lennon organizar um comício por sua liberdade, ao lado de Bob Seger, Stevie Wonder, Bobby Seale (do Partido dos Panteras Negras) e outros. Assim que saiu da prisão, Sinclair mergulhou de cabeça no ativismo pró-maconha e na produção de livros e escritos de poesia. Só que como seu estilo de texto tem tudo a ver com a cadência do jazz, pela maneira como é escrito e declamado, normal que ele não tenha ficado restrito aos livros, jornais e revistas. Tanto que dos anos 1990 para cá, ele vinha acumulando uma discografia bem grande.

Em 1994, por exemplo, saiu Full moon night, primeiro disco no qual Sinclair aparecia acompanhado pela agremiação variável de músicos que ganhou o nome de The Blues Scholars. O disco trazia textos como Homage to John Coltrane, Spiritual e Like Sonny, e saiu direto em CD por um selo chamado Total Energy, responsável por lançamentos retrospectivos de pré-punk – álbuns escarafunchando os baús de grupos como The Deviants, The New Race e o próprio MC5 saíram por esta etiqueta. Em 1996 saiu Full circle, mais um CD de Sinclair e sua banda, com participação de ninguém menos que o ex-MC5 Wayke Kramer, morto recentemente.

Um outro álbum bastante significativo de Sinclair saiu em 2008, com o nome de sua banda modificado para His Motor City Blues Scholars. É o ao vivo Detroit life, trazendo 15 faixas entre o jazz e o blues, com John declamando (às vezes bem alto, com voz gutural) textos de inspiração beat como The screamers, April in Paris, Let’s call this e Walking on a tightrope. As músicas são grandes, e boa parte dos números é quase instrumental, cabendo intervenções de John lá pelos dois minutos de faixa, em alguns casos.

A discografia de Sinclair inclui também vários discos apenas com seu nome (o mais recente é Beatnik youth, de 2017) além de álbuns impressionante feitos com a banda de jazz experimental e ruidoso Hollow Bones – como Honoring the local gods, de 2011. Já o percussivo PeyoteMind, de 2002, foi gravado ao lado da banda de psicojazzfolk Monster Island, e traz recordações de uma viagem feita em 1963 sob o efeito do psicoativo peiote.

Esse material vem encontrando relativamente poucos ouvintes nas plataformas – no Spotify, John tem apenas 207 (207!) ouvintes mensais. Não são discos muito divulgados –  enfim, poesia e jazz não formam exatamente uma combinação de sucesso. E saíram por selos independentes de alcance restrito. Mas boa parte do que Sinclair gravou está lá, e está ao alcance de futuros fãs – mesmo com a barreira da língua, tem a declamação de John e a maneira como ele faz tudo parecer uma espécie de jazz maldito e tribal. Além do seu ativismo anti-capitalismo, pró-maconha e pró-liberdade de expressão, perceptível em vários versos.

E só pra complementar, um material multimídia recente e importantíssimo saiu justamente da última aparição ao vivo de Sinclair. Em Paris, no dia 16 de fevereiro, ele leu o longo poema 21 days in jail, gravado por uma pessoa da plateia. A letra já havia sido musicada e gravada por ele com os Blues Scholars, mas aqui aparece sendo lida pelo autor.

Foto: Wikipedia.

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