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Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre Electric Warrior, do T. Rex

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Em 1971, não tinha ser humano com a autoestima maior que Marc Bolan, líder do T. Rex. O sucesso de Electric warrior, segundo disco da banda (e sexto desde o começo como Tyrannosaurus Rex) detonara uma verdadeira Bolanmania na Inglaterra, que marcou profundamente as vidas de uma turma enorme de roqueiros, cujas carreiras começariam entre 1976 e 1980.

Ídolo de garotos e garotas que estavam com 14, 15 anos, e posteriormente descobririam David Bowie e o punk rock, ele se achava com cacife o suficiente para cunhar afirmativas como: “Nem Dylan nem Lennon são melhores do que eu, e eles sabem disso. Eles sabem onde estou: sou diferente, como eles. Eu sabia que era diferente desde o momento em que nasci”, contava.

O entendimento de Bolan era impreciso, óbvio. Isso porque o reinado do T. Rex não duraria muito, e o cantor e compositor viraria um ídolo de outrora em pouco tempo. Mas seu legado perduraria. Morto em 1977 num acidente de automóvel, Bolan pairou nada silenciosamente sobre Ramones, Buzzcocks, The Cure, Sigue Sigue Sputnik, Red Hot Chili Peppers (John Frusciante é fã), Sex Pistols, Stone Temple Pilots, Suzi Quatro, Prince, Rita Lee & Tutti Frutti (Arrombou a festa só existe porque o boogie futurista de Bolan existiu um dia) e tudo o que, no rock pós-1971, soou como se tivesse vindo de galáxias muito distantes. E convidasse para a dança, a roda e a festa.

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E esse é o nosso relatório sobre Electric warrior, marco zero do glam rock. Ouça lendo, leia ouvindo.

VIOLÃOZINHO. O Tyrannossarus Rex, basicamente uma dupla de folk hippie sujinho, era formado por Marc Bolan violão e voz) e um sujeito chamado Steve Peregrin Took, que tocava percussões, sininhos, xilofone infantil e tudo o que mais aparecesse pela frente. Surgiu em julho de 1967 e, como pediam os tempos bizarros da aurora do glam rock, era a terceira tentativa de Bolan de fazer sucesso.

ORGASMO. Marc, antes do Tyrannossaurus, tivera uma carreira frustrada como guitarrista solo de uma banda mais-ou-menos da psicodelia. Era o John’s Children, que em 1970, já sem Bolan, escandalizaria geral gravando um disco chamado Orgasm. Mas o momento mais parecido com um “agora vai!” foi quando ele, munido de algumas canções solo, conseguiu atrair a atenção do empresário e produtor dos Yardbirds, Simon Napier-Bell, no finalzinho de 1966.

NÃO FODE, KEITH! Simon já tinha 27 anos e estava de saco cheio dos Yardbirds. Em especial do cantor Keith Relf, que dava ataques trágicos de estrelismo: ligava o dia inteiro para o empresário para reclamar da turnê australiana do grupo e, certa ocasião, disse que não subiria no palco sem que lhe dessem um par de meias novas (!). Bolan foi como uma lufada de vento na vida do empresário: quando ele adentrou seu escritório, Simon teve a impressão de que estava diante do novo Elvis.

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SÓ QUE… A bendita autoestima de Bolan quase põe tudo a perder. Simon pedira-lhe que levasse uma fita para o encontro. Munido de um violão, o cantor não levou tape nenhum e disse que poderia cantar o repertório para o empresário. “Marc tinha material suficiente para quatro discos, mas não queria gravar. Ele estava numa ego trip bizarra naquela época, achava que era só espalhar uns pôsteres dele por aí, que as pessoas veriam as fotos dele e as coisas aconteceriam”, revelou Simon.

MAS O DISCO FOI FEITO. Bolan disse que faria as gravações, mas só com voz e violão. Saíram 14 músicas, gravadas em oito horas, sem overdubs e sem esconder a técnica precária de Bolan no vocal e no violão.

AO TERMINAR TUDO, segundo Simon, Bolan estava tão confiante que disse “é isso aí, tenho um disco e ele vai acontecer”, muito embora qualquer pessoa soubesse que um álbum vacilante daqueles, gravado numa época em que os estúdios se modernizavam rapidamente, jamais chegaria às lojas. Ele só sairia em 1972, num disco acrescido de faixas bônus chamado Hard on love. O álbum foi relançado em 1974 como The beginning of doves. Em 1981, Napier-Bell acrescentou guitarra, baixo e bateria às músicas e relançou o material como You scare me to death.

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O QUASE HIT DESSE REPERTÓRIO foi essa canção aí de cima, You scare me to death, feita alegadamente como jingle de uma fábrica de pastilhas (“você me assusta até a morte com seu bafo horroroso”, diz o bizarro refrão).

MAS Bolan, na real, lançou um single sob os auspícios de Napier-Bell, Hippy gumbo. Uma canção polêmica, que narrava um crush gay numa época em que homossexualidade era crime na Inglaterra.

A EMI prometeu lançar o disco caso Simon, ainda envolvido com os Yardbirds, desse um jeito na banda, que, gravando um disco pela mesma empresa, passava a maior parte do tempo de estúdio brigando. Saiu, mas fracassou miseravelmente.

CABEÇAS DINOSSAURO. Steve Peregrin Took, cujo nome verdadeiro era Steve Porter (e cujo nome artístico vinha de certa adoração hippie ao livro O Senhor dos Anéis, de Tolkien), fizera parte da primeira e fracassada formação do Tyrannossaurus Rex, quando Bolan tentou montar uma banda de rock formal, com guitarra, baixo e bateria. Ficou apenas na percussão, enquanto Bolan cantava suas canções folk cheias de letras viajantes.

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A OPÇÃO pelo novo set veio, em parte, por restrições orçamentárias: Took devia uns meses de aluguel e precisou vender sua bateria. Bolan também tinha assistido a um show do indiano Ravi Shankar e achou que o formato dava pé.

ALIÁS E A PROPÓSITO, quem ajudou muito a dupla foi o DJ John Peel, da BBC. Peel quase contratou o Tyrannossaurus Rex para seu selo Dandelion. Em 1968, Bolan e Took foram contratados pelo selo Regal Zonophone e sob produção de Tony Visconti, lançaram um primeiro disco de nome bizarro: My people were fair and had sky in their hair… But now they’re content to wear stars in their brows.

O PRIMEIRO DISCO não deu muito certo, mas garantiu algum aiprlay e alguns fãs para o grupo. Quem não ficou muito tempo por lá foi Peregrin. Steve foi saído do Tyrannosaurus Rex por, supostamente, ter jogado doses do alucinógeno STP num ponche preparado para o lançamento da versão inglesa da Rolling Stone – o parceiro Bolan, desavisado, provou da bebida e pagou mico na festa. Obrigado contratualmente a permanecer na banda durante uma turnê norte-americana, aproveitou para tocar o zaralho: caiu de boca nas drogas, deu uma de Iggy Pop (chegou a chicotear-se no palco) e horrorizou geral.

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ATÉ SAIR, Peregrin gravou três LPs com o Tyrannossaurus Rex. O quarto, A beard of stars (1970), já trouxe Mickey Finn, novo parceiro de Bolan, em seu lugar. Finn era tido como um músico bem menos cheio de atributos que Took e a piada era que ele havia entrado só por ter boa aparência e uma moto “maneira”. Mas Finn foi fundamental na transição “elétrica” do grupo, acrescentando baixos ocasionais e bongôs latinos à mistura.

EM MARÇO DE 1970 o Tyrannosaurus Rex foi lançar A beard of stars com um showcase para jornalistas na redação da revista Melody Maker. Deram azar: a dupla apareceu na hora do almoço, e só Chris Welch, um dos jornalistas da publicação, estava na hora do show. Antes que Welch pudesse mostrar o quanto estava gostando do show (e ele estava) algum repórter da revista Cycling, cuja redação era na sala ao lado, bateu na parede e gritou, reclamando do barulho.

UM HIT, ENFIM. A dupla passou por uma diminuição de nome (de Tyrannossaurus Rex para T. Rex), de sonoridade (do folk zabelê para o som eletrificado e roqueiro) e de gravadora: o elenco do selo Regal Zonophone foi para a recém-criada Fly Records. O primeiro disco da nova fase, T. Rex, saiu em dezembro de 1970, com nova imagem na capa: Bolan fez questão de posar com sua guitarra, mostrando que era a hora do som elétrico, e não dos violões da fase anterior. E finalmente a banda conseguiu um hit: Ride a white swan, que saiu em single e estava apenas na versão americana no disco, estourou e levou a dupla ao Top of the pops.

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COM Ride a white swan, o T. Rex virou mania entre adolescentes de uma hora para a outra, e conquistou um número de fãs que a dupla não tinha antes. Bolan, por sua vez, estava felicíssimo com o fato de poder aparecer em pé no palco – o cantor incluía em seus números, além dos mergulhos na guitarra, uma dança lasciva e andrógina, além de aparecer vestido com roupas chamativas e brilhantes, e de adotar o glitter no rosto. Ao Record Mirror, chegou a dizer que estava cansado de aparecer sentado no palco, como na época dos shows com Peregrin Took.

QUEM VIU o T. Rex no Top of the pops e se apaixonou por Bolan (e comprou o single com Ride a white swan) foi a futura cantora Toyah Wilcox, 12 anos em 1970. “Parte da rebelião dele, é que ele era um cara feminino, de verdade. Uau, um cara que usava maquiagem, vestia cetim, era gentil ao falar. Era uma rebelião gentil, poética”, recordou.

TOYAH era uma das fãs da verdadeira legião de admiradoras (e admiradores) que o T. Rex conseguiu, partindo do folk riponga para o boogie futurista que passariam a fazer em Electric warrior. Um disco, por sinal, feito com uma certeza na cabeça: sucesso na Inglaterra, o T. Rex começava a interessar ao mercado americano. Especialmente depois que outro single, Hot love, chegou ao número 1.

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O T. REX fez sua primeira tour nos EUA em abril de 1971, e Tony Visconti, americano radicado na Inglaterra desde 1967, resolveu ir visitar a família em Nova York. Foi ao show do T. Rex e, nos bastidores, já soube por intermédio da dupla Mark Wolman e Howard Kaylan (o Flo e o Eddie dos Turtles) que haviam marcado uma sessão no Media Sound para apresentar os estúdios americanos ao T. Rex.

VISCONTI avisou que se havia um disco para sair disso aí, ele fazia questão de produzir. Bolan já havia gravado coisas em Londres mas não havia exatamente um disco planejado: o músico queria só registrar material que havia acabado de compor. O produtor, vendo que Marc andava para lá e para cá com um caderno cheio de letras e ideias, disse que se ele trabalhasse bem naquilo, teria um disco pronto.

NOSTALGIA. Electric warrior era, vale dizer, um fruto típico de uma era em que o rock, uma arte jovem, estava começando a viver sua primeira era de nostalgia. Uma época em que havia Elvis Presley fazendo turnês, artistas do começo do estilo participando de festivais e todo mundo chorando as mortes de Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Brian Jones. E morrendo de saudades dos Beatles.

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ALIÁS E A PROPÓSITO, Bill Legend, baterista que participou das sessões do disco, recorda-se claramente de Bolan dizendo que queria que a energia do álbum fosse parecida com a dos discos de rock dos anos 1950 que ele ouvia na infância.

LEGEND também credita a energia do disco ao fato de tudo ter sido gravado ao vivo, “com os músicos olhando uns para os outros”. “Você não pode ter isso gravando os instrumentos em separado, não é real”, explica.

SOM PRÓPRIO. Quem viu as gravações de Electric warrior lembra que Bolan trabalhou feito um maluco para conseguir dar ao disco um som com personalidade. Usou amplificação valvulada em todo o álbum, e dispensou vários instrumentos que tinha para usar uma Gibson Les Paul 1958, além de seus pedais com efeitos. Também fazia questão de mostrar alguma faixa emperrada para Visconti quando não chegava a alguma conclusão. Cosmic dancer, por exemplo cresceu bastante com o arranjo de cordas.

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ALIÁS E A PROPÓSITO, desde 1970 o T. Rex já era uma banda de verdade. Enfim, uma banda que era dupla (!), mas que na capa de Electric warrior era representada apenas pelo vocalista e guitarrista (!!). Do disco de 1971 participaram Bolan, Finn, Legend e Steve Currie (baixo), além de Flo & Eddie (vocais), Ian McDonald e Burt Collins (sopros e metais). Visconti fez arranjos de cordas.

RICK WAKEMAN, então um pobre músico de estúdio que estava desesperado para pagar o aluguel, supostamente fez o piano de Get it on, primeiro single do disco. Digo “supostamente” porque testemunhas dizem que o músico galês Blue Weaver (que tocou nos Strawbs, onde Wakeman também tocara) passou igualmente pelo estúdio e tocou tudo o que havia de piano na faixa.

SÓ QUE Wakeman teria encontrado Bolan, e lhe pedira trabalho. Foi convidado a ir ao estúdio e, ao ouvir o material, teria dito a Visconti que o disco não estava precisando de mais piano. Visconti pediu a ele que fizesse os glissandos de piano que aparecem na música, ganhou a grana do aluguel e ficou tudo bem.

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O SINGLE. Get it on saiu em 2 de julho de 1971. Mas nos EUA, mercado importante para o T. Rex àquela altura, a canção mudou de nome para Bang a gong (Get it on). Isso porque havia uma música também chamada Get it on, lançada por um grupo chamado Chase.

QUEM É ESSE TAL DE CHASE? Ok, sabemos o que você está pensando: o T. Rex mudou o nome da sua música por causa de um grupo do qual ninguém nem lembra. Acontece que o Chase era uma banda de jazz-rock bem bacaninha e o bom single Get it on, lançado em maio de 1971, passou nada menos que 13 semanas no Billboard Hot 100. O Chase teve vida curta: em 1974 o vocalista Bill Chase morreu num acidente de avião. Entre 1977 e 1979, a turma da primeira formação se reuniu num grupo de tributo e até gravou um disco novo, Watch closely now.

BOLAN disse que sua grande inspiração ao fazer Get it on foi Little queenie, de Chuck Berry, que ele chegou a pensar em gravar. Fez um pequeno roubo no riff da faixa e acrescentou o “and meanwhile, I’m still thinking”, da canção de Berry, no final. A canção foi uma das faixas gravadas durante as sessões em Londres, no Trident Studios.

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QUEM DEIXOU CLARO que não havia gostado muito da música nova foi… ninguém menos que John Peel, outrora amigo de todas as horas de Bolan. Peel ganhou um single promocional e não tocou a faixa. Apesar de ser amigo de Bolan, Peel não se sentia obrigado a tocar nada de ninguém se não gostasse da música. Os dois se falaram apenas uma vez até a morte de Bolan em 1977. Peel tentou fazer contato com ele em 1971, quando soube que Bolan havia se chateado, e não conseguiu.

IAN McDONALD, o saxofonista que toca em Get it on, era integrante de primeiríssima hora do King Crimson. Tocara na estreia In the court of Crimson King (1969) e, antes disso, tocara como convidado no embrião da banda, Giles, Giles & Fripp, banda formada pelo guitarrista Robert Fripp com os irmãos Michael Giles (bateria) e Peter Giles (baixo). Em 1976, wow, tornaria-se um dos fundadores do Foreigner. Olha ele aí no sax.

EXISTEM DOIS CLIPES de Get it on. Num deles, o T. Rex aparece num cenário poluído visualmente, durante uma apresentação num programa de TV austríaco. Mas no clipe tido como oficial, o T. Rex aparece no palco do Top of the pops e ninguém menos que Elton John está no piano.

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ELTON não estava lá à toa: era muito fã de Marc e considerava o cantor uma espécie de mentor. “Era um grande amigo e um pop star perfeito”, disse Elton. Ano passado, ele e o U2 regravaram a própria Get it on juntos.

ACÚSTICO. O livro Cosmic dancer – The life and music of Marc Bolan, de Paul Roland (uma das fontes desse texto) nota que, apesar das mudanças na sonoridade do T. Rex, a banda não deixou de investir em canções acústicas, como Cosmic dancer e Girl. Também apontou um detalhe sobre Bolan como letrista: ele não era um cara exatamente literato ou irônico, como Bob Dylan ou John Lennon. Mas tinha a capacidade de escrever letras que pareciam com temas infantis, e que geralmente vinham de imagens que batiam em sua mente e logo eram aproveitadas.

E ESSA CAPA AÍ? A biografia também aponta para um detalhe básico: Electric warrior é o único disco de Bolan a não trazer seu rosto na capa. A imagem da capa, que traz a silhueta do cantor, foi feita pela empresa Hipgnosis a partir de uma foto do cantor durante um show no Albert Hall, em Nottingham, dia 14 de maio de 1971. Olha a imagem original aí, antes do tratamento.

Várias coisas que você já sabia sobre Electric Warrior, do T. Rex

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UM CLÁSSICO do cinema pairava como referência em Electric warrior: era 2001 – Uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick. O amplificador por trás de Bolan é uma referência ao monolito do filme (o mesmo que inspirou a capa de Who’s next, do Who). E, ora vejam só, o disco tem uma canção sobre “consciência cósmica” chamada… Monolith.

ALIÁS E A PROPÓSITO, Monolith – geralmente tida como uma resposta de Bolan a Space oddity, do amigo-rival David Bowie – tem outra influência básica: o hit pop The duke of Earl, de Gene Chandler. Bolan pegou a melodia original, deu uma ralentada, umas modificações pequenas e fez outra canção na cara de pau.

OUTRA REFERÊNCIA do disco: You’ll be mine, do bluesman Howlin’ Wolf, serviu de inspiração para a letra e a levada de Jeepster.

A ÚLTIMA FAIXA DO DISCO, Rip off, termina com um improviso barulhento de guitarra, sax e cordas. Tony Visconti diz que tudo nessa faixa foi feito quase inconscientemente. “Quando as pessoas dizem que parece que pertence a outro lugar, digo: absolutamente certo! Foi feito com outra parte do cérebro”, contou.

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ALIÁS E A PROPÓSITO, Electric warrior teve algo em comum com outro disco do “várias coisas que você já sabia sobre”, The Who sell out, do Who (1967). Também vinha com um “pôster grátis’, só que trazendo uma imagem de Marc relaxadão numa poltrona, com os outros músicos atrás dele.

DE MODO GERAL, a arte de Electric warrior foi respeitada nos países em que foi lançado. No Irã, uma edição pirata transformou o lay out numa imagem com contornos prateados. Em Israel, o título foi acrescentado à capa, junto de um aviso “inclui Jeepster e Get it on”. Na Alemanha, a versão 8-track passou de preto para branco. No Brasil, a Polydor lançou o disco, mas com uma inscrição “série Rock Power – a nova geração elétrica”, acima do nome da banda. Por causa disso, os pés de Bolan foram cortados da capa.

ESSA TAL SÉRIE Rock Power fez estragos nas capas de discos de Jade Warrior, Manfred Mann’s Earth Band e Audience.

DEU CERTO? E como. Electric warrior saiu em 24 de setembro de 1971 e pôs Bolan na aristocracia do rock mais rápido do que se esperava, com discos vendendo a rodo, entrevistas, adulações de outros grandes astros (Ringo Starr virou quase seu irmão mais velho por alguns anos). Ficou 44 semanas nas paradas da Inglaterra e entrou para a classificação 32 no chart Billboard 200.

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O MINISTÉRIO DO SUCESSO ADVERTE. O livro de Paul Roland diz que nem tudo foram flores na vida de Bolan após o sucesso. Ou melhor: talvez o excesso de flores provocasse problemas. Bolan começou entrar numa egotrip meio bizarra, na qual misturavam-se sentimentos de eu-sou-o-fodão e momentos de inadequação e insegurança. Além de uma ideia, lá no fundo, de que aquilo tudo podia ir embora. Marc em vários momentos afastou-se dos amigos e afogou as mágoas na bebida e na cocaína.

OS AMIGOS afirmam que Marc vivia numa espécie de monastério, bastante perigoso e confuso. Elton John conta que o amigo “vivia num mundo de fantasia do qual não queria sair”. Tony Visconti diz que as pessoas próximas “precisavam alimentar as fantasias de Marc e levá-las adiante, e ninguém podia tirá-lo dessa bolha de plástico”. Steve Currie acredita que alguém perto de Marc alimentava o lado egocêntrico do cantor, “e pôs na cabeça dele a ideia de que ele era a melhor coisa já inventada desde o pão fatiado”.

MESMO ASSIM Bolan não podia reclamar de falta de sucesso. Aliás, era tanto sucesso que a coisa começava a ficar perigosa. No começo da turnê britânica do T. Rex, em maio de 1971 (portanto alguns meses antes de Electric warrior sair), dezenas de meninas adolescentes foram recepcioná-lo. Algumas delas recorriam a uma mania típica daqueles tempos: levavam tesouras para cortar cachos do seu cabelo.

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O EXCESSO DE FÃS nesse primeiro show, no Winter Gardens, mostrou que a equipe de segurança não ia dar conta: algumas adolescentes começaram a forçar tanto para chegar perto do palco, que caíram num fosso e empurraram alguns seguranças com elas. Não foi nada de muito grave, apesar do susto enorme, mas uma dúzia de policiais foi chamada para dar conta da situação.

DURO MESMO foi ouvir o show, prejudicado por causa dos gritos da plateia. E mais duro ainda foi sair do local com fãs de jogando por cima dos carros que levavam os músicos. “A gente estava mais assustado com o fato de que se algum deles se machucasse, seria nossa culpa”, disse Finn. Em outro show, em Newcastle, o percussionista é que sofreria: fãs o puxariam do palco e cortariam até cachos do seu cabelo.

E DEPOIS? O disco seguinte do T. Rex seria o excelente The slider (1972). E seria também o primeiro disco do contrato milionário assinado com a nova gravadora, a EMI. Bolan passaria a ter direitos de licenciamento sobre os masters dos discos, sua própria companhia de produção e edição musical. E, para lançamento no Reino Unido, teria também seu próprio selo, o T. Rex Wax Co. Que se responsabilizaria apenas pelos lançamentos da banda e não faria discos de novos artistas.

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BOLAN e seu grupo entrariam em declínio a certa altura dos anos 1970 e ficariam completamente perdidos em meio às novidades do mercado – até uma tentativa de disco music o T. Rex faria, com Dreamy lady, em 1975. As plateias punks redescobririam a banda, e o T. Rex voltaria a fazer sucesso após 1976. Bolan apareceria na mídia ao lado de grupos como The Damned, Ramones e Buzzcocks, e ganharia até mesmo um programa de TV. Estava reformulando seu som pouco antes de morrer em 1977.

E JÁ QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI, pega aí uma versão bastante inusitada de Ride a white swan, do T. Rex. A supermodelo Naomi Campbell gravou a canção em 1995 em seu disco Babywoman.

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Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

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O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).

“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.

Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.

Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.

“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.

“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.

E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.

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R.E.M. recorda os 44 anos do primeiro contrato com uma gravadora

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R.E.M. recorda os 44 anos do primeiro contrato com uma gravadora

No dia 31 de maio de 1982, a gravadora I.R.S. enviava um press release avisando que havia assinado com o R.E.M., “uma banda de Athens, Georgia, aclamada pela crítica”. E já anunciava que no dia 26 de agosto sairia o EP Chronic town, com as faixas 1,000,000, Stumble, Wolves, lower, Gardening at night e Carnival of sorts (Boxcars). A foto de imprensa, em preto e branco, trazia Peter Buck (guitarra), Mike Mills (baixo), Bill Berry (bateria) e Michael Stipe (vocais) com visual pós-adolescente.

“O EP vai ser seguido por um álbum no ano que vem. O R.E.M. planeja fazer uma turnê pelo Oeste do país durante o verão, seguida pelos estados da Costa Leste e do Canadá durante o Outono”, avisava a gravadora, oferecendo também o contato da empresária Betsy Alexander, primeira pessoa a cuidar profissionalmente do grupo, ajudando em contatos, logística e gestão. O release só errava na ordem das músicas do EP, que possivelmente ainda não estava decidida (Chronic town também saiu dividido em duas partes, com lado A nomeado Chronic town e lado B com nome Poster torn)

O contrato era de longo prazo e previa cinco discos – ou seja, tudo que saiu do grupo até Life’s rich pageant, o quarto álbum, de 1986. Depois disso, o grupo renegociou e lançou o quinto disco, Document, de 1987 – mas acabou migrando para a Warner e terminando o contrato com a coletânea Eponymous (1988).

A I.R.S. tinha sido criada em 1979 por Miles Copeland III, irmão de Stewart Copeland, baterista do The Police. O selo vinha da cena punk/new wave britânica e funcionava como uma espécie de ponte entre o underground e uma estrutura profissional de distribuição via A&M (a gravadora do Police, por acaso).

Na época em que o R.E.M. assinou, a I.R.S. já tinha grupos como Wall of Voodoo, Oingo Boingo, The Go-Go’s e The English Beat. Era um selo muito ligado a college radio, pós-punk, new wave e à ideia de independência artística. Depois, virou praticamente sinônimo do rock universitário americano dos anos 1980 por causa do próprio R.E.M.

A entrada da banda na gravadora aconteceu muito por conexões da cena. O empresário/agente Ian Copeland, irmão de Miles e Stewart, já acompanhava o grupo desde os primeiros shows em Athens. O baterista Bill Berry tinha trabalhado para Ian em Macon como roadie e serviços-gerais, e mantinha contato com ele. Isso ajudou o R.E.M. a conseguir shows de abertura para bandas maiores, como The Police e Gang of Four, até chamar atenção da I.R.S.

E olha o post comemorativo do R.E.M. aí.

 

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George Harrison em 2001: “O que é Eminem?”

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George Harrison (Reprodução YouTube)

RESUMO: Em 2001, George Harrison participou de chats no Yahoo e MSN para divulgar All Things Must Pass; com humor, respondeu fãs poucos meses antes de morrer – e desdenhou Eminem (rs)

Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução YouTube

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“Que Deus abençoe a todos vocês. Não se esqueçam de fazer suas orações esta noite. Sejam boas almas. Muito amor! George!”. Essa recomendação foi feita por ninguém menos que o beatle George Harrison no dia 15 de fevereiro de 2001 – há 25 anos e alguns dias, portanto – ao participar de dois emocionantes chats (pelo Yahoo e pelo MSN).

O tal bate-papo, além de hoje em dia ser importante pelos motivos mais tristes (George morreria naquele mesmo ano, em 29 de novembro), foi uma raridade causada pelo relançamento remasterizado de seu álbum triplo All things must pass (1970), em janeiro de 2001. George estava cuidando pessoalmente da remasterização de todo seu catálogo e o disco, com capa colorida e fotos reimaginadas, além de um kit de imprensa eletrônico (novidade na época), era o carro-chefe de toda a história. O lançamento de um site do cantor, o allthingsmustpass.com, também era a parada do momento (hoje o endereço aponta para o georgeharrison.com).

Os dois bate-papos tiveram momentos, digamos assim, inesquecíveis. No do Yahoo, George fez questão de dizer que era sua primeira vez num computador: “Sou praticamente analfabeto 🙂 “, escreveu, com emoji e tudo. Ainda assim, um fã meio distraído quis saber se ele surfava muito na internet. “Não, eu nunca surfo. Não tenho a senha”, disse o paciente beatle. Um fã mais brincalhão quis saber das influências dos Rutles, banda-paródia dos Beatles que teve apoio do próprio Harrison, no som dele (“tirei todas as minhas influências deles!”) e outro perguntou sobre a indicação de Bob Dylan ao Oscar (sua Things have changed fazia parte da trilha de Garotos incríveis, de Curtis Hanson). “Acho que ele deveria ganhar TODOS os Oscars, todos os Tonys, todos os Grammys”, exultou.

A conta do Instagram @diariobeatle deu uma resumida no chat do Yahoo e lembrou que George contou sobre a origem dos gnomos da capa de All things must pass, além de associá-los a um certo quarteto de Liverpool. “Originalmente, quando tiramos a foto eu tinha esses gnomos bávaros antigos, que eu pensei em colocar ali tipo… John, Paul, George e Ringo”, disse. “Gnomos são muito populares na Europa. E esses gnomos foram feitos por volta de 1860”.

A ironia estava em alta: George tambem disse que se começasse um movimento como o Live Aid ajudaria… Bob Geldof (!)., o criador do evento. Perguntado sobre se Paul McCartney ainda o irritava, contemporizou: “Não examine um amigo com uma lupa microscópica: você conhece seus defeitos. Então deixe suas fraquezas passarem. Provérbio vitoriano antigo”, disse. “Tenho certeza de que há coisas suficientes em mim que o irritam, mas acho que já crescemos o suficiente para perceber que nós dois somos muito fofos!”. Um / uma fã perguntou sobre o que ele achava da nominação de Eminem para o Grammy. “O que é Eminem?”, perguntou. “É uma marca de chocolates ou algo assim?”.

Bom, no papo do MSN um fã abusou da ingenuidade e perguntou se o próprio George era o webmaster de si próprio. “Eu não sou técnico. Mas conversei com o pessoal da Radical Media. Eles vieram à minha casa e instalaram os computadores. Os técnicos fizeram tudo e eu fiquei pensando em ideias. Eu não tinha noção do que era um site e ainda não entendo o conceito. Eu queria ver pessoas pequenas se cutucando com gravetos, tipo no Monty Python”, disse.

Pra ler tudo e matar as saudades do beatle (cuja saída de cena também faz 25 anos em 2026), só ir aqui.

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