Crítica
Ouvimos: Nigéria Futebol Clube – “Entre quatro paredes” / “Hamas” (ao vivo)

RESENHA: Nigéria Futebol Clube mistura noise e no-wave para confrontar o rock, narrar histórias de negritude e de raiva urbana em dois discos radicais e políticos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9 (para ambos)
Gravadora: Independente
Lançamento: 28 de novembro de 2025 e 20 de dezembro de 2025, respectivamente
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Formado por Raphael Conceição (bateria e voz), Rodrigo (guitarra e voz) e Cauã de Souza (baixo), o Nigéria Futebol Clube disse certa vez – num papo certeiro com o site Scream & Yell – que quer matar o rock, e que o estilo precisa morrer. “O rock, como conceito, está ultrapassado. Ele foi apropriado, especialmente por brancos. O rock que importa é o rock negro, mas ele foi roubado e destronado”, disse Raphael. Na real, dá mesmo para dizer que o grupo surge da contestação da caretice do rock, e dos próprios “experimentalismos” ligados a ele.
Se a no-wave contestava a caretice do punk usando a própria linguagem do punk, só que modificada e radicalizada, o NFC usa seu experimentalismo particular para contar estilhaços de histórias ligadas à negritude, às raízes dos integrantes, às experiências de cada um – e a um dia a dia em que todo mundo sai perdendo. A estreia Entre quatro paredes inverte a ordem de Sobrevivendo no inferno (1997), dos Racionais MCs, e abre com Agradecimentos (Não existe capitalismo sem racismo), música com lembranças de Itaquaquecetuba, município de São Paulo e cidade natal da banda – e também com histórias de uma São Paulo repleta de prédios, onde o preto erige “monumentos de homens brancos” e dedica sua vida ao concreto.
- Ouvimos: Retail Drugs – Factory reset
Já Ambiência vol. 1 une histórias da Mangueira contadas por Cartola e Dona Ivone Lara, experimentação musical psicodélica e um verso único, que remete a um grito de liberdade (“pega ladrão / roubaram meu sol!”). Lurdes é um instrumental de samba-jazz-stoner, sombrio – enquanto lembranças bem mais fortes da no-wave e do punk do Crass surgem em Preto mídia, e o ódio às falsidades e preconceitos, esperados e inesperados, dão as caras nos dez minutos do (vá lá) noise-rock violento Nerds/punks. Uma música que espalha brasa para a revolta comprada, para neo-nazistas e para o rock branco como sinônimo de mudança política (“que saudades né? / quando vocês agiam / quando eram revolução”).
Entre quatro paredes é também o disco da estranha e quebradiça NOU, que fala da destruição de SP (“não vou deixar tudo / pra um governador carioca para privatizar”). E dos doze minutos da onda aterradora de 18h52, cuja letra quilométrica é um poema sobre as ameaças dos “irmãos de fé”, os sofrimentos do povo e o dia a dia no inferno disfarçado de vida real (“inabalável fé / do julgamento / meus deuses não permitem / meu sofrimento”). O final da faixa é quase um delírio com frases da música misturadas à fala de Heitor dos Prazeres (“não há nada mais sublime do que a massa humana”), emendando na vinheta Nigéria Escalade Club.
O NFC fez também outro lançamento em 2025: Hamas é a gravação do show do grupo em 6 de setembro de 2024 na Porta Maldita, em São Paulo. Entre quatro paredes, na real, é a ação da banda para levar aquele som do show para o estúdio – o som do Nigéria Futebol Clube nasce da experimentação, do improviso e da fricção, o que torna o registro ao vivo bem mais fiel.
No disco ao vivo, Preto mídia ganha ares de porrada circular, Lurdes torna-se mais psicodélica e poética ainda, Nerds e Punks transformam-se em canções separadas, Ambiência vol. 1 e 18:52 metem medo. E tem ainda a microfonia esmerilhada e revolucionária de Jurupari, referência a um personagem da mitologia indígena. Além da frase pra lembrar: “O terror do escravocrata é o meu prazer”.
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Crítica
Ouvimos: Cola – “Cost of living adjustment”

RESENHA: Cola une pós-punk, dream pop e art rock em seu melhor disco até hoje, Cost of living adjustment: político, torto, bonito e cheio de surpresas sonoras.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Fire Talk
Lançamento: 8 de maio de 2026
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Havia uma expectativa grande por esse disco novo da banda canadense Cola – inclusive já tinha gente perguntando quando Cost of living adjustment sairia no Pop Fantasma. O terceiro disco do grupo do guitarrista/vocalista Tim Darcy, do baixista Ben Stidworthy e do baterista Evan Cartwright é o melhor da banda até hoje. E é o lançamento da banda que mais faz sentido se colocado ao lado do Ought, a banda de art-rock de Tim e Ben, anterior ao Cola.
Cost of living adjustment impressiona pela beleza das músicas – uma beleza diferente do comum do guitar rock, que mistura tons de bossa (!) a algo próximo dos Smashing Pumpkins em Forced position, e vai até para lados improváveis, como o clima pré-britpop de Hedgesitting, a vibe experimental e brincalhona de Fainting spell e o pós-punk com ritmo de Smiths e The Cure em Satre-torial.
- Ouvimos: The Pale White – Inanimate objects of the 21st century
Quando chega Haveluck country, você já está convencido de que não se trata de uma banda comum: ali tem o clima loucão do Geese, a zoeira slacker do Pavement, algo de math rock e uma onda que lembra London calling, do Clash, acelerado. E ainda por cima a música é bonita, do tipo que dá pra ficar horas ouvindo. Essa junção pós-punk + guitar rock + experimentalismos é a cara do Cola, mas ainda mais do que isso, a banda é afrontosa, politicamente falando: temas com falta de grana (bom, o disco se chama “ajuste de custo de vida”, e a sigla realmente é usada pelo sistema de seguro social na América do Norte), aperto geral de cintos, capitalismo predatório e… refrigerante – o “cola” do título não faz referência a uma certa bebida preta e gasosa, mas tem lá suas zoeiras.
O disco ganha tons mais introvertidos em faixas como Conflagration mindset, pós-punk meio sombrio, com mudanças de tom e climas diferenress, e Skywriter’s sigh, música em que Darcy solta pensatas dignas de uma tirinha do Snoopy, em que a mendicância das ruas mistura-se a gastos impensados e dívidas com aluguel (“peguei um empréstimo para observar o céu noturno / precisava de inspiração no inverso do que eu conhecia / um evento celestial valia o aluguel de uma temporada / e como eu sabia disso!”). Mas ainda há muita explosão em músicas como Polished knives, com clima Pixies e vocal quase infantil, Third double, com lembranças de Sonic Youth e Pavement, e a melodia + arranjo surpreendentes do pós-punk Favoured over the ride. Ouça bem alto.
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Crítica
Ouvimos: Agnes Nunes – “Novela” (EP)

RESENHA: Agnes Nunes mistura alt-pop, neo soul, samba e reggae em Novela, EP sobre amores frustrados, autonomia e clima leve de… novela.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 24 de abril de 2026
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Com dois álbuns gravados, além de um ao vivo no Estúdio Showlivre (além de um show recente no festival Lollapalooza), Agnes Nunes faz de seu novo EP, Novela, um projeto de alt-pop brasileiro, com produção de Iuri Rio Branco, e clima herdado do neo soul, além de variações mais tranquilas e recentes da música pop. Novela abre com o folk pop dançante de Será que eu vou te ver, e prossegue numa mistura de pop nacional macio, e letras que unem romantismo e afirmação.
Autodesilusão é samba-neo soul herdado de Jorge Ben e Paulinho da Viola (o “desilusão” da letra remete logo a Dança da solidão). Última vez que me rebaixei é uma canção bem mais doce, romântica e positiva do que o título transparece – é um reggae pop sobre encontros e desencontros, talvez a última chance para alguém que deixou Agnes apaixonada e que (lamentavelmente) não estava nem aí. A melhor música de Novela também é um reggae “de boa”, No mei do povo, acompanhado por backing vocals e por uma guitarra tranquila.
- Ouvimos: Heliara – Everything’s a love song (EP)
Na Novela de Agnes, a principal personagem é uma mulher que já não quer se sujeitar a amores vãos e experiências ruins – e que às vezes deixa a deprê tomar conta, como no neo soul Aprendi a viver só. Mas o EP mantém o bom astral com ótimo dub-samba Denso e danço, que encerra tudo. Falta só alguma música de Agnes servir de trilha para alguma novela (se é que já não rolou).
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Crítica
Ouvimos: Daniel Gnatali – “Antes do sol” (EP)

RESENHA: Daniel Gnatali mistura folk, rock rural e Clube da Esquina em Antes do sol, EP sobre mudanças, recomeços e travessias afetivas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Pomar
Lançamento: 17 de abril de 2026
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Daniel Gnatali atua em duas frentes mais conhecidas: é artista visual, e também é cantor e compositor. Antes do sol, seu novo EP, em cinco faixas, fala basicamente de mudanças e nascimentos – ou renascimentos – em meio a lembranças de Clube da Esquina, Beatles, Mutantes e Sá, Rodrix e Guarabyra. Como numa extensão do trabalho de desenhista de Daniel, investe em canções visuais, cheias de imagens.
- Ouvimos: Flávio Vasconcelos – Jatobá peri
Antes do sol, aliás, é a primeira parte de um projeto duplo, que vai ser complementado com o EP Manhã de festa, a sair ainda em 2026 – e que deve ser bem mais extrovertido, menos interiorizado. A face contemplativa da música de Daniel, exposta no primeiro EP da série, aponta para folk com evocações de George Harrison em Ventre à luz do mundo, com os vocais de Nina Becker; para heranças de Zé Rodrix e Guilherme Arantes no lindíssimo country Estação; e também para ondas entre John Lennon e Lô Borges em duas faixas cantadas em inglês, Dear to me e Lady Lo (esta última, também com lembranças de Paul McCartney na melodia).
O final, com Quando me mudei, é rock rural, inspirado nos grandes nomes do estilo – mas com ecos também de Gilberto Gil e Rita Lee. A letra é cheia de lembranças e recomeços, falando de um tema comum nas músicas de Sá, Rodrix e Guarabyra e O Terço: o adeus à cidade grande e o encontro de uma nova vida no interior. Um disco de travessias em forma de canções.
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