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Crítica

Ouvimos: Retail Drugs – “Factory reset”

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Em Factory reset, Retail Drugs faz eletropunk ruidoso com baixo distorcido e ironia ácida sobre trabalho, redes sociais e a vida real.

RESENHA: Em Factory reset, Retail Drugs faz eletropunk ruidoso com baixo distorcido e ironia ácida sobre trabalho, redes sociais e a vida real.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Fire Talk
Lançamento: 5 de dezembro de 2025

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Jake Brooks, o cara por trás do Retail Drugs, é o sujeito das manipulações de tapes e dos ruídos de guitarra, e dos sons assustadores – que vêm marcando os discos e singles do projeto. Dessa vez, ele fez Factory reset, novo álbum do Retail Drugs, usando um laptop e a plataforma Ableton, e quase sempre os sons parecem vir de um baixo extremamente distorcido. As letras meio inconclusas do disco parecem apontar para o total desaparecimento de uma pessoa e de sua rotina de trabalho – quase uma atualização do verso “você não pode me despedir, porque eu já caí fora”, de Scentless apprentice, do Nirvana.

Epa: esse verso é tido por muita gente como a verdadeira nota de despedida de Kurt Cobain, o que pode parecer preocupante… No caso de Factory reset, tudo parece uma zoeira nada elegante com as rotinas opressoras do capitalismo, das redes sociais e das semanas de trabalho. O disco começa rodando ao contrário em Welcome to factory reset e invade a área do eletropunk circular em Anti-lonely, o retrato do estresse e da solidão (“eu não quero ser o próximo / você caminha por um pequeno lago, um anjo fala em poemas / você perde a visão”). Is the money right? parece uma macarena demoníaca, marcada pelo verso “todo mundo está lá fora se o dinheiro não estiver certo”. A enigmática Outside, com estilhaços de poesia na letra (“todo mundo quer ser tudo o que eu quero ver / mesmo quando eu acordo lá fora, você algum dia vai me encontrar nos meus olhos?”) parece um stoner eletrônico e sombrio.

Essa eletrônica assustadora, que marca o som do Retail Drugs, retorna no novo disco em quase todas as músicas, cabendo as distorções de Black tie, a psicodelia de araque de Knifetime, o lo-fi ao extremo de He hears us e o punk eletrônico de Factory reset feels so good!, além da porrada eletropunk de Everybody knows. Demon town tem algo de trap disfarçado, emoldurando uma letra que fala dos perigos de sair de casa (“eu não quero morrer / eu não quero morrer / será que já é a hora, porra?”). Já Gansett e Factory reset got me down misturam eletropunk, felicidade falsa e bebedeira geral para enfrentar a semana. O inimigo aqui é a vida real e suas irrealidades.

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Crítica

Ouvimos: Vero – “Razor tongue”

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Banda sueca Vero mistura pós-punk, grunge e power pop em Razor tongue: guitarras, vocal rouco e clima entre Hole, Nirvana e R.E.M., com peso e melodia.

RESENHA: Banda sueca Vero mistura pós-punk, grunge e power pop em Razor tongue: guitarras, vocal rouco e clima entre Hole, Nirvana e R.E.M., com peso e melodia.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: PNKSLM Recordings
Lançamento: 20 de março de 2026

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Outra banda da Suécia lançando disco e aparecendo no Pop Fantasma? Sim, e aparentemente uma das qualidades mais louváveis do rock feito por lá é que as bandas não estão nem aí se você acha que o som delas é pouco original, ou é uma mistura de elementos facilmente reconhecíveis. Basicamente o Vero, em seu segundo álbum, Razor tongue, segue essa rotina: diga o que quer dizer, ponha guitarras, vocal blasé e sirva da maneira mais “curtível” possível.

Vindo de Estocolmo, o Vero basicamente personifica esse tal de bubblegrunge (mas que rótulo!) que anda colado em algumas resenhas de discos lá fora – e que na verdade não passa de uma mistura de pós-punk, grunge e, às vezes, power pop. Vai aí que Julia Boman, baixista e vocalista, dona de um registro vocal bem rouco, deixa tudo em Razor tongue bem na onda do Hole (a banda da Courtney Love). Tem peso e perigo, mas sem a sensação de desabamento iminente que o grupo do hit Malibu carregava.

Julia, as guitarristas Amanda Eddestål e Clara Gyökere, e Mille Hökengren (bateria) fazem um som provocativo e distorcido, que valoriza ruído e melodia lado a lado. Tanto que surge um clima que faz lembrar Radiohead em The hand, ondas próximas do grunge em Dead train, Kick e Calico. E algo que deixa o Vero a meio caminho do Nirvana e do R.E.M. de Monster (1994) em faixas como Taste the ten (a melhor do disco) e Dumb it.

100 calls, no fim do disco, tem baixo à frente, som grave e viajante, e algo mais próximo do pós-punk, com uma torrente de ruídos no fim. Já a introspectiva Silver lakes tem uma boa parede de guitarras, que não chega a caracterizar um shoegaze, mas dá uma onda boa de balada college, feita para ouvir no volume máximo.

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Crítica

Ouvimos: Stuck – “Optimizer”

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Em Optimizer, Stuck faz punk ácido e político, atacando o capitalismo com riffs frios e ecos 60’s, entre caos, ironia e um desencanto sem saída.

RESENHA: Em Optimizer, Stuck faz punk ácido e político, atacando o capitalismo com riffs frios e ecos 60’s, entre caos, ironia e um desencanto sem saída.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Exploding In Sound Records
Lançamento: 27 de março de 2026

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“Otimizador”? Mas nem de brincadeira: o Stuck, uma banda de Chicago, faz punk altamente depreciativo e consciente de que a vida seria bem melhor sem multimilionários querendo dominar o mundo – e querendo explorar cada vez mais as pessoas, os recursos, o seu salário, a sua aposentadoria e tudo o que aparece na frente. O som deles em Optimizer é outra curiosidade: é blasé como o Sex Pistols, afrontoso como o Shame, mas tem algo que passa por uma noção 60’s de rock – dá para dizer que o Stuck é mais filho do pré-punk do que do próprio punk.

O Stuck resume as sacanagens do capitalismo em uma única frase de Instakill (“soluções de hoje são apenas problemas de amanhã”, em meio a escrotizações com coaches de plantão). Obrigam os ouvintes a dar uma olhadinha para o lado em Totally vexed (“quando o que antes era normal começa a parecer absurdo / dê uma olhada ao redor: todo mundo está pra baixo / a juventude totalmente irritada, um show após o outro”). Falam da autoestima performática das redes sociais em Sicko (“você nunca se cansa de si mesmo? / dia após dia, um inferno na Terra? / você não gostaria de ser outra pessoa?”).

  • Ouvimos: Microwaves – Temporal shifter

Fazem isso tudo aí enquanto enfileiram riff atrás de riff e soltam punks e pós-punks que lembram mais The Sound e Stranglers (além de outra banda com S, os Stooges) do que qualquer outra coisa. É o que rola nas duronas e frias Deadlift e Fire, man – essa última batendo em trumpismos, imigrantes banidos e guerras do dia a dia (“você sente: compulsão / um desejo incontrolável, destruição / compartilhe a raiz, compartilhe a podridão”). Os 46 segundos de punk extremamente ágil de More is less trazem dor em meio ao caos (a letra enigmática resume-se à frase “mais um amigo que se foi”, gritada).

Prosseguindo, Net negative volta a misturar anos 60 e punk, mas com agilidade, clima frio e paixão pelo ruído. It isn’t, com vibe marcial e baixo caminhando e conduzindo a melodia antes dos riffs de guitarra, é o “você vai continuar fazendo música?” deles, em clima bem mais dramático. “Você diz que acabou, desta vez é definitivo / desligue as guitarras e venda seus vinis / já está na hora de encerrar sua música”, cantam, antes da conclusão meio dolorosa, meio esperançosa: “você é velho o suficiente para saber que não pode controlar o tempo / mas isso não o impedirá de tentar ganhar a vida com algo que está morrendo”.

Optimizer tem humor. Mas não chega a conclusões otimistas nem mesmo no fim: Punchline é o punk rock mais sombrio do disco. Já GG varia entre o clima solar e os tons doloridos – num resultado mais próximo até de bandas como My Bloody Valentine – com uma letra que narra a perda de controle sobre a própria vida: “Você acorda no banco do passageiro de alguém que você não reconhece / mas vê nos olhos dessa pessoa que ela não se importa”. Que vá tudo bem com a turma do Stuck…

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Ouvimos: Quedalivre – “Seres urbanos”

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Quedalivre mistura emo, nu-metal e indie em Seres urbanos, com peso, melodia e ruído. Disco diverso, bem produzido e cheio de referências dos anos 90/2000.

RESENHA: Quedalivre mistura emo, nu-metal e indie em Seres urbanos, com peso, melodia e ruído. Disco diverso, bem produzido e cheio de referências dos anos 90/2000.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: AlterEgo
Lançamento: 30 de março de 2026

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Dá para classificar o som da banda carioca Quedalivre como emo? Dá, mas é o grande problema de usar qualquer rótulo: o nome reduz. A tristeza de estilos como Midwest emo surge associada a vibes pesadas bem diferentes em Seres urbanos, álbum do grupo. E na real as nove canções do disco surgem como um tributo a vários sons da geração de Lore (voz, guitarra), Victor Basto (voz, guitarra e produção) e João Mendonça (bateria e produção).

Traduzindo: quem nasceu lá pelos anos 1990 ou 2000 não teve como ficar imune a punk, rock alternativo pós-grunge, nu-metal, emo e ate às criações eletrônicas de nomes como Skrillex. E não deve ser por acaso que Pq vc n olha mais pra mim??? termina com uma batida drum’n bass, antes de passar pela gravidade do emo. Lado animal, na abertura, é tranquila, mas tem até algo de Alice In Chains e Soundgarden. Já Acaso, com guitarra dedilhada, tem vocais bastante melódicos – algo até meio bossa, unindo vocal feminino e masculino.

  • Ouvimos: Este Lado Para Cima – Carona com desconhecidos (EP)

O lado nu-gaze do Quedalivre, propondo um encontro entre My Bloody Valentine e Deftones, surge forte em músicas como Narciso, Escapismo e Hedo – essa última invade a área do hardcore e tem uma coisa ou outra que faz lembrar até Sepultura. Deixa pra lá e Fungo, entre ruídos e vocais enterrados na mixagem, vão até para o lado da psicodelia. No final, a tensão sombria de Eutanásia, com quase oito minutos. Na abertura, violão dedilhado e piano elétrico, seguido por vocais raivosos, trechos narrados, lembranças de relacionamentos traumáticos – e efeitos que deixam tudo mais tenso ainda. Independência ruidosa e bem produzida.

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