Crítica
Ouvimos: Wire – “Nine sevens” (box set)

RESENHA: Wire abre caminhos do punk ao experimental: Nine sevens reúne singles lançados entre 1977 e 1980, de melodias pop a ruídos industriais, mostrando a ousadia infinita da banda.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: pinkflag
Lançamento: 25 de abril de 2025
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A banda punk / pós-punk britânica Wire é uma das manias aqui da casa – não faz muito tempo, recordamos a pré-história do grupo e demos uma geral em Pink flag, estreia da banda, de 1977. Não se trata de uma banda “punk” formal: o Wire é abrasivo, mexe em fios de alta tensão musical, e em alguns momentos, soa como o primo anarquista do rock progressivo, com sua obsessão por “ambientações” musicais, canções com segmentos diferentes (mesmo no caso de músicas curtas) e letras concretas e impenetráveis.
Nos primeiros anos, até 1980 – quando a banda entrou num hiato que durou cinco anos, para que os integrantes pudessem se dedicar a projetos individuais – o Wire era formado pelo quarteto Colin Newman (vocal, guitarra), Graham Lewis (baixo, vocal), Bruce Gilbert (guitarra) e Robert Gotobed (bateria). Hoje em dia, apenas Gilbert, que segue em carreira solo e trabalha com trilhas sonoras, não está mais na banda (Matthew Simms ocupa seu lugar desde 2010). E é dessa fase inicial que trata a caixa Nine sevens, que reúne pela primeira vez os nove compactos de sete polegadas lançados pelo grupo entre 1977 e 1980.
Nine sevens, que traz 21 gravações importantes do Wire e foi lançada em tiragem limitada para o Record Store Day desse ano, tá infelizmente esgotada no site da banda, pelo menos na versão box, com os compactinhos separados – a versão “LP duplo” ainda rola por lá e vale cada centavo. Também pode ser ouvida nas plataformas digitais. O Wire de singles como Feeling called love e I am the fly, bem do comecinho, era variado a ponto de lembrar Iggy Pop e Modern Lovers, e de adiantar o indie rock dos anos 2000 (The Killers, Franz Ferdinand).
Eles também eram uma banda voltada para o country punk abrasivo (Dot dash), para o rhythm’n blues na onda do Clash (Options r) e um grupo com um ótimo gosto para boas melodias. Tanto que a bela Outdoor miner, single do segundo álbum, Chairs missing (1978, mais elaborado e menos minimalista que a estreia), quase levou o Wire para o Globo de Ouro da BBC, o Top Of The Pops – acabou não rolando porque a EMI foi acusada de manipular as paradas para encaixar o Wire na atração.
Daí para a frente, Nine sevens se torna uma caixa de surpresas, já que o Wire entrou para o rol dos quase indefiníveis. Eram uma banda fantasmagórica (Practice makes perfect, Go ahead, Let’s panic later, Small electric piece), industrial (Former airline, com ruídos de guitarra que lembram uma transmissão de rádio, e um beat que parece a batida de Bo Diddley feita por um robô), clássica (A question of degree, que parece uma versão pós-punk da batida de Taxman, dos Beatles).
Já faixas como Midnight Bankoff café, Map Ref. 41°N 93°W e Second lenght tratavam de dar um passo à frente no som de Pink flag, com tons eletropunk e mais experimentais ainda – Second length, por exemplo, chega a lembrar Talking Heads, o que pode ser visto até como um passo comercial do Wire, mas nem tanto. Outras curiosidades são Song 1, uma espécie de afropunk com vibe Lou Reed, e a ruidosa e aterradora Catapult 30, que soa como um barco sendo remado por almas penadas. E Get down 1+ 2, som psicodélico ambient e doidão na linha das primeiras músicas do Kraftwerk, mas que vai sendo desrobotizada por uma guitarra estranhamente blueseira. Coragem musical, em todos os momentos.
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Crítica
Ouvimos: Hyper Gal – “Our hyper”

RESENHA: Duo japonês Hyper Gal faz noise caótico e ensurdecedor em Our hyper, misturando tecnohardcore, kraut e ecos de Suicide num ataque sonoro intenso.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Skin Graft Records
Lançamento: 10 de abril de 2026
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Vindas de Osaka, no Japão, Koharu Ishida e Kurumi Kadoya, as duas integrantes do Hyper Gal, fazem som para quem gosta muito de barulho – pode inclusive se preparar para levar um susto com a introdução de Our hyper, seu novo álbum. Uma rajada de balas sonoras toma conta de Killua, uma espécie de tecnohardcore falado, que é justamente a faixa de abertura. Null abre com um baixo distorcido (sintetizado?) e uma batida intermitente, além de vocais que mais parecem um “atenção senhores passageiros” do inferno – a cara de bandas como Suicide, só que patinando no pesadelo sonoro.
- Ouvimos: Melvins e Napalm Death – Savage Imperial Death March
Já o blues do ruído Hazy até consegue soar meio “ameno” – e o vocal ganha ares de cantiga infantil. Só que depois a faixa ganha sucessivas porradas de bateria, acompanhadas de microfonias e distorções. O tipo de som que faz qualquer pessoa enlouquecer caso ouvido no volume máximo. Tem ainda a viagem quase krautrock de I said you said, pouca coisa mais calminha que as faixas anteriores.
Seguindo pro final de Our hyper, o Hyper Gal faz de tudo para deixar as coisas mais pesadas e ensurdecedoras – faz até eletrohardcore de roda em Fade out, e mais sons que poderiam estar no repertório do Suicide, como Tinnitus. Porrada sonora de verdade.
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Crítica
Ouvimos: Outros Bárbaros – “Pelas ruas das Américas”

RESENHA: Em Pelas ruas das Américas, a banda Outros Bárbaros mistura reggae, ska e samba com pop 90s, ganhando identidade e apontando caminhos variados no decorrer das faixas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 6 de fevereiro de 2026
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Banda de Florianópolis, Outros Bárbaros exibe clima de grupo carioca ou baiano em seu terceiro disco, Pelas ruas das Américas, cercado de sons ligados ao reggae, ao ska e ao samba em várias faixas. O álbum de Maurício Peixoto (voz e guitarra), Eduardo Lehr (baixo) e Marco Mibach (bateria e percussão) soa bastante referenciado na liberdade do pop nacional dos anos 1990, mais até do que na música brasileira.
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Essa lembrança do pop noventista surge especialmente nas primeiras faixas, Pelas ruas das Américas, Cheguei cadê você (rock + blues com metais e clima de balada reggae) e no ska Nós dóis. São músicas que têm detalhes bem legais, como os vocais luminosos no fim de Nós dois – o risco é apresentar o Outros Bárbaros como uma banda parecida demais com o som da época.
Mesmo posicionada num lugar arriscado em Pelas ruas das Américas (é a quarta faixa, local de destaque no qual merecia aparecer uma canção autoral) a versão quase blues da banda para Alucinação, de Belchior, provoca uma divisão no álbum. A partir daí, vão surgindo canções com uma cara bem mais própria, destacando o baladão 60’s Aquela canção do Roberto, o ótimo samba-rock-reggae Sem paz, sem chão (a melhor do disco) e a vibe roqueira de Fortaleza hostil, cuja letra cita Refazenda, clássico de Gilberto Gil.
Essa onda roqueira toma conta também da ótima Bicho acuado, música que inicia como um reggae com cara dub. No final, Brasil criança une Jorge Ben e Santana no mesmo espaço – é um bom samba-rock com guitarra lembrando os solos e timbres do mexicano. Pelas ruas das Américas soa como demonstração dos diversos caminhos que o Outros Bárbaros pode seguir daqui pra frente.
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Crítica
Ouvimos: The Pale White – “Inanimate objects of the 21st century”

RESENHA: Em Inanimate objects of the 21st century, The Pale White mistura stoner, glam e power pop em disco sobre tecnologia, nostalgia e excesso digital, com ecos de Beatles, QOTSA e anos 60/70.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: End Of The Wall Recordings
Lançamento: 27 de março de 2026
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Aparentemente, a tecnologia como vida pessoal, vida interior, vida exterior, vida após a morte etc etc e etc, deve virar um tema “instigante” para artistas e bandas nos próximos anos. The hedonist, EP do The 113 que tá vindo aí, fala disso – e Inanimate objects of the 21st century, terceiro disco da banda britânica The Pale White, segue a mesma onda.
Mais: um dos temas do disco é uma espécie de náusea em relação às mudanças na tecnologia. O punk glam Absolutely cinema, herdado tanto de Kinks quanto de Buzzcocks, fala de uma época (distante) em que ir ao cinema era uma diversão até acessível – algo bem distante dos ingressos caríssimos e da fartura de streamings de hoje em dia. Göbekli Tepe, que recorda uma antiga vila arqueológica da Turquia, é outra música que parece falar do que já foi o máximo e foi sendo esquecido. E é uma espécie de dream-metal, que chega a lembrar uma versão stoner do Aphrodite’s Child.
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Essa filiação stoner do The Pale White, aliás, é uma atração à parte. O som dos irmãos Jack e Adam Hope, que lideram o projeto, tem ligação tanto com Queens Of The Stone Age quanto com Beatles, Badfinger, glam rock e até Wings. Faixas ótimas como This fascination e Disappoint me unem vocais estelares, batida e clima sessentistas, e cuidado melódico – tudo isso junto soa como uma citação nada discreta da fase anos 1970 de Paul McCartney.
Moth in the headlights, faixa de abertura, une fronteiras do desconhecido, tecnologia e buracos negros como fatores de descoberta, numa onda glam + stoner + power pop que inclui corais lá em cima, batida rocker herdada dos Beatles e ótimas guitarras wah wah, além de surpresas melódicas. Essa onda 60’s, que passa necessariamente por evocações de bandas como Supergrass, pega também faixas como Float away e a glam Medusa, além do soul + punk Oh brother (que abre com aquela guitarrinha estilo Weezer + Pixies que tá ficando célebre hoje em dia, e cuja estrutura entrega algo próximo até de Jack White e Black Keys).
Inanimate exala um clima bem típico de discos feitos por fanáticos por discos: citações sonoras de bandas como The Moody Blues e The Pretty Things rolam aqui e ali, até no som meio Pixies de Carpe diem e, em especial, na balada psicodélica Mannequin. E ainda por cima o disco do The Pale White encerra com uma versão absolutamente sombria de All I have to do is dream, o hit dos Everly Brothers – só que a canção fica parecendo uma “lentinha” dos Smashing Pumpkins. Essa banda vai para o trono.
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