Crítica
Ouvimos: Emicida – “Emicida Racional VL.3: As aventuras de DJ Relíquia e LRX” (mixtape) / “Emicida Racional VL.2: Mesmas cores e mesmos valores”

RESENHA: Emicida revisita raízes com dois discos inspirados nos Racionais, misturando histórias pessoais e interpolações em faixas experimentais, íntimas e contestadoras.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5 (para ambos)
Gravadora: Independente
Lançamento: 12 de novembro de 2025 e 11 de dezembro de 2025, respectivamente.
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“Eu era o moleque da música dos Racionais, eu era o pretinho vendo tudo do lado de fora”, disse Emicida num papo com Lucas Brêda para a Folha de S. Paulo recentemente. A trilogia de lançamentos “racionais” que ele vem fazendo desde o fim do selo Laboratório Fantasma (criado por ele ao lado do irmão Fióti, com quem está brigado) põe em dia as origens de seu trabalho.
Mais do que isso: os dois primeiros discos da série passam a limpo a mescla de rap guerrilheiro que marcava suas mixtapes, lado a lado com a experimentações musicais e poéticas de álbuns como Sobre crianças, quadris, pesadelo e lições de casa (2015). Deve rolar um Emicida Racional VL.1, talvez – em contagem regressiva, em sintonia com o verso “quando os caminhos se confundem, é necessário voltar ao começo”, do próprio Emicida.
Emicida Racional VL3 – As aventuras de DJ Relíquia e LRX sai no formato de mixtape, com lançamento apenas no YouTube, SoundCloud e Bandcamp. E traz de volta não apenas a parceria com o DJ Nyack, mas também os codinomes que os dois usavam no começo da carreira (Nyack era o Relíquia, Emicida era o Louco Revolucionário X, ou LRX).
- Ouvimos: Posada – Vamossive
Num espelho dos mashups dos anos 2000, as faixas são interpolações das faixas de Emicida com hits dos Racionais: Capítulo Boa, Versículo Esperança une a letra de Boa esperança (do rapper) e a base de Capítulo 4, Versículo 3 (do grupo), Levanta e estrada tem Levanta e anda, de Emicida, e Homem na estrada, dos Racionais (marcada pela base sampleada de Ela partiu, de Tim Maia), e vai por aí.
Soando mais como exercício de criação do que álbum completo, As aventuras é também o disco de interpolações menos óbvias, como Papel, caneta e num devo, num temo me dá meu copo que já era… (união de Papel, caneta e coração, do rapper, e Vida loka pt 1, do grupo), e de um bônus, Voz triunfal, em que as vozes dos Racionais em Voz ativa unem-se à base de Triunfo, de Emicida.
A mixtape abre espaço para as imaginações sonoras e líricas de Emicida Racional VL.2: Mesmas cores e mesmos valores. Um disco em que Cores e valores, álbum controverso dos Racionais lançado em 2014, é reimaginado por Emicida ao lado de colaboradores como o pianista Amaro Freitas e os rappers Rashid e Projota.
Cores e valores é controverso por praticamente revirar o universo de discos como Sobrevivendo no inferno (1997) e Nada como um dia após o outro dia (2002, este em especial). A esperança é pouca, o dia a dia é cada vez mais sombrio, os inimigos são outros. As letras são enigmáticas e inconclusas, e o álbum (curto) é marcado pela presença de várias vinhetas – que acabam deixando Cores e valores com ares de suíte hip hop, dividida em segmentos.
Emicida revê o disco levando o mundo de Cores e valores para seu próprio mundo. A abertura com Bom dia, né gente? (Ou saudade em modo maior) traz uma colagem de várias gravações de vozes (captadas provavelmente via WhatsApp) de sua recém-falecida mãe Dona Jacira, junto com uma trilha sonora feita por Amaro Freitas, que lembra algo feito por Dori Caymmi. As mensagens trazem conversas familiares que passam por vida, morte, comida, festas, passagem espiritual – com direito a Emicida chorando ao fundo durante dois minutos no fim.
O valores do disco passam pela reflexão e pela experimentação, e por um universo que é preciso estar atento – e talvez ouvir várias vezes – para entender. Mesmas cores tem faixas extensas, o resultado soa irregular, quem quer mensagens para captar de primeira vai acabar estranhando. É um álbum que soa como exercício pessoal e como contestação, mais do que como um disco “de carreira”. Em busca de uma filosofia pessoal que capte os símbolos das músicas dos Racionais, Emicida investe em rimas difíceis como as da cinematográfica Mesmas cores & mesmos valores. Ou as de Finado neguim memo?
Aliás, num post do Xwitter, o rapper promete um bug mental a quem entender o sentido dessa letra, com versos repletos de proparoxítonas como “raiva num cubículo, vácuo, quem dera Mykonos / tungstênio gira, escalando tipo lúpulo / digno, a boca um túmulo, no júbilo do século / tíítulo do capítulo, chute, Pelé no ângulo”. O disco ainda tem instrumentais como O que noiz faz com essa dor (que traz o riff de Capítulo 4, versículo 6 tocado no piano e por violinos em pizzicato) e A coisa mais dilacerante e a mais esperançosa são a mesma (lembrando estilhaços de Diário de um detento e Homem na estrada).
De extremamente emocionante, Mesmas cores e mesmos valores tem A mema praça, que muda o ângulo de A praça, dos Racionais. Dessa vez o show da banda em 2007 na Praça da Sé (dentro da programação da Virada Cultural) é contado pela perspectiva de Emicida, Rashid e Projota, que estavam na plateia. Quanto vale o show memo?, por sua vez, amplia Quanto vale o show?, dos Racionais, para uma aula de história recente do Brasil – com samples de Castiçal, de Cassiano.
O final do disco tem A próxima mensagem que você precisa está exatamente onde você está agora. Um vinhetão de dez minutos, o tipo de complemento que fazia sentido na era do CD, com suas faixas escondidas e brincadeiras que esticavam álbuns dos 40 até os 70 minutos – e que aqui, na falta de surpresas das plataformas digitais, parece dispensável.
De qualquer jeito, tem lá o clima de volta à simplicidade e às raízes que Emicida busca na nova fase, com pássaros cantando, uma comemoração de aniversário ao fundo e vibe familiar, cabendo no universo particular de Mesmas cores e mesmos valores – e deixando menos certezas e mais perguntas.
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Crítica
Ouvimos: Cola – “Cost of living adjustment”

RESENHA: Cola une pós-punk, dream pop e art rock em seu melhor disco até hoje, Cost of living adjustment: político, torto, bonito e cheio de surpresas sonoras.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Fire Talk
Lançamento: 8 de maio de 2026
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Havia uma expectativa grande por esse disco novo da banda canadense Cola – inclusive já tinha gente perguntando quando Cost of living adjustment sairia no Pop Fantasma. O terceiro disco do grupo do guitarrista/vocalista Tim Darcy, do baixista Ben Stidworthy e do baterista Evan Cartwright é o melhor da banda até hoje. E é o lançamento da banda que mais faz sentido se colocado ao lado do Ought, a banda de art-rock de Tim e Ben, anterior ao Cola.
Cost of living adjustment impressiona pela beleza das músicas – uma beleza diferente do comum do guitar rock, que mistura tons de bossa (!) a algo próximo dos Smashing Pumpkins em Forced position, e vai até para lados improváveis, como o clima pré-britpop de Hedgesitting, a vibe experimental e brincalhona de Fainting spell e o pós-punk com ritmo de Smiths e The Cure em Satre-torial.
- Ouvimos: The Pale White – Inanimate objects of the 21st century
Quando chega Haveluck country, você já está convencido de que não se trata de uma banda comum: ali tem o clima loucão do Geese, a zoeira slacker do Pavement, algo de math rock e uma onda que lembra London calling, do Clash, acelerado. E ainda por cima a música é bonita, do tipo que dá pra ficar horas ouvindo. Essa junção pós-punk + guitar rock + experimentalismos é a cara do Cola, mas ainda mais do que isso, a banda é afrontosa, politicamente falando: temas com falta de grana (bom, o disco se chama “ajuste de custo de vida”, e a sigla realmente é usada pelo sistema de seguro social na América do Norte), aperto geral de cintos, capitalismo predatório e… refrigerante – o “cola” do título não faz referência a uma certa bebida preta e gasosa, mas tem lá suas zoeiras.
O disco ganha tons mais introvertidos em faixas como Conflagration mindset, pós-punk meio sombrio, com mudanças de tom e climas diferenress, e Skywriter’s sigh, música em que Darcy solta pensatas dignas de uma tirinha do Snoopy, em que a mendicância das ruas mistura-se a gastos impensados e dívidas com aluguel (“peguei um empréstimo para observar o céu noturno / precisava de inspiração no inverso do que eu conhecia / um evento celestial valia o aluguel de uma temporada / e como eu sabia disso!”). Mas ainda há muita explosão em músicas como Polished knives, com clima Pixies e vocal quase infantil, Third double, com lembranças de Sonic Youth e Pavement, e a melodia + arranjo surpreendentes do pós-punk Favoured over the ride. Ouça bem alto.
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Crítica
Ouvimos: Agnes Nunes – “Novela” (EP)

RESENHA: Agnes Nunes mistura alt-pop, neo soul, samba e reggae em Novela, EP sobre amores frustrados, autonomia e clima leve de… novela.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 24 de abril de 2026
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Com dois álbuns gravados, além de um ao vivo no Estúdio Showlivre (além de um show recente no festival Lollapalooza), Agnes Nunes faz de seu novo EP, Novela, um projeto de alt-pop brasileiro, com produção de Iuri Rio Branco, e clima herdado do neo soul, além de variações mais tranquilas e recentes da música pop. Novela abre com o folk pop dançante de Será que eu vou te ver, e prossegue numa mistura de pop nacional macio, e letras que unem romantismo e afirmação.
Autodesilusão é samba-neo soul herdado de Jorge Ben e Paulinho da Viola (o “desilusão” da letra remete logo a Dança da solidão). Última vez que me rebaixei é uma canção bem mais doce, romântica e positiva do que o título transparece – é um reggae pop sobre encontros e desencontros, talvez a última chance para alguém que deixou Agnes apaixonada e que (lamentavelmente) não estava nem aí. A melhor música de Novela também é um reggae “de boa”, No mei do povo, acompanhado por backing vocals e por uma guitarra tranquila.
- Ouvimos: Heliara – Everything’s a love song (EP)
Na Novela de Agnes, a principal personagem é uma mulher que já não quer se sujeitar a amores vãos e experiências ruins – e que às vezes deixa a deprê tomar conta, como no neo soul Aprendi a viver só. Mas o EP mantém o bom astral com ótimo dub-samba Denso e danço, que encerra tudo. Falta só alguma música de Agnes servir de trilha para alguma novela (se é que já não rolou).
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Crítica
Ouvimos: Daniel Gnatali – “Antes do sol” (EP)

RESENHA: Daniel Gnatali mistura folk, rock rural e Clube da Esquina em Antes do sol, EP sobre mudanças, recomeços e travessias afetivas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Pomar
Lançamento: 17 de abril de 2026
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Daniel Gnatali atua em duas frentes mais conhecidas: é artista visual, e também é cantor e compositor. Antes do sol, seu novo EP, em cinco faixas, fala basicamente de mudanças e nascimentos – ou renascimentos – em meio a lembranças de Clube da Esquina, Beatles, Mutantes e Sá, Rodrix e Guarabyra. Como numa extensão do trabalho de desenhista de Daniel, investe em canções visuais, cheias de imagens.
- Ouvimos: Flávio Vasconcelos – Jatobá peri
Antes do sol, aliás, é a primeira parte de um projeto duplo, que vai ser complementado com o EP Manhã de festa, a sair ainda em 2026 – e que deve ser bem mais extrovertido, menos interiorizado. A face contemplativa da música de Daniel, exposta no primeiro EP da série, aponta para folk com evocações de George Harrison em Ventre à luz do mundo, com os vocais de Nina Becker; para heranças de Zé Rodrix e Guilherme Arantes no lindíssimo country Estação; e também para ondas entre John Lennon e Lô Borges em duas faixas cantadas em inglês, Dear to me e Lady Lo (esta última, também com lembranças de Paul McCartney na melodia).
O final, com Quando me mudei, é rock rural, inspirado nos grandes nomes do estilo – mas com ecos também de Gilberto Gil e Rita Lee. A letra é cheia de lembranças e recomeços, falando de um tema comum nas músicas de Sá, Rodrix e Guarabyra e O Terço: o adeus à cidade grande e o encontro de uma nova vida no interior. Um disco de travessias em forma de canções.
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