Crítica
Ouvimos: Chico Chico – “Let it burn / Deixa arder”

RESENHA: Let it burn/Deixa arder é o disco mais longo e confessional de Chico Chico: ousado, difuso no início, mas com caminhos que se revelam aos poucos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Deck
Lançamento: 24 de outubro de 2025
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Quem achava excelentes os discos anteriores de Chico Chico justamente por sua concisão e pelo ir-direto-ao-assunto, musicalmente falando, que marcava o seu trabalho, talvez se sinta meio perdido com esse novo álbum, Let it burn / Deixa arder. Na verdade, é um disco no qual dá para se perder inicialmente, mas dá achar novos caminhos logo depois.
Let it burn tem 20 faixas e duração de álbum duplo (são 74 minutos de música). Como todo álbum duplo, nasce da necessidade de criar, experimentar e não se sentir aprisionado por limites. Foi o que rolou com o Clash em London calling (1979), com os Beatles no White album (1967) e, para falar de um brasileiro, com Gilberto Gil no adiado Cidade do Salvador (feito em 1973 e lançado apenas em 1999, já em CD).
Numa conversa recente com Silvio Essinger no jornal O Globo, Chico explicou sua atual fase, cheia de novas demandas e mudanças pessoais. Uma história que dá ótimo pano de fundo para o atual momento criativo do cantor, e para o fato de Let it burn ser um disco ousado, diferente e bastante confessional, com letras em inglês e em português e releituras.
É o que rola em faixas como o blues a la Tom Waits Two mother’s blues (uma música biográfica, que fala da morte do pai biológico, da morte da mãe Cássia Eller, e da presença da segunda mãe Maria Eugênia em sua vida), a tranquila Tanto pra dizer, o blues-reggae Não carece, e a cigana e nordestina Parabelo da existência (com Josyara).
Também é o que acontece no neo-folk Heal me, com clima emotivo e lembranças da fase final da carreira de Cássia. E no beat beatle-maracatu de Na minha idade, no afro-pop tropicalista de Rita e Luísa e no curioso folk-tango de Lugarzin. E na MPB derivada do blues de Zero jogo, que poderia ter sido feita para Cássia gravar, ou para Gal Costa gravar.
No geral, Chico, que sempre teve cara própria como cantor e compositor – e lutou para não ser visto apenas como filho de Cássia Eller, apesar de seu início de carreira representar uma lenda musical tão esperada quanto as de Jeff Buckley e Maria Rita – parece mais tranquilo. Há momentos em Let it burn / Deixa arder, em que ele não parece constrangido do seu tom de voz lembrar o da mãe, ou de certos momentos evocarem fortemente Cazuza, Nando Reis e até Cida Moreira (rola bastante na teatral Farsa).
O disco tem também covers bem sacados, como Four and twenty (Crosby, Stills, Nash & Young), Girl from the North Country (Bob Dylan) e Vila do Sossego (de Zé Ramalho, por acaso uma música que fez parte do repertório de Cássia). São escolhas que aproximam Chico de um público mais variado, ao mesmo tempo que fazem (vá lá) uma certa transição para a turma dos profetas do folk-rock, armados de violão e voz.
No fim, Let it burn/Deixa arder pode ser até longo e meio difuso, mas nunca entediante – e soa como um presente de Chico para si próprio, extensivo aos fãs.
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Crítica
Ouvimos: Catïça – “Cereja de xuxu”

RESENHA: Em Cereja de xuxu, a banda Catïça, de Londrina, mistura punk, crossover e grunge em dez faixas rápidas, com humor ácido e críticas sociais.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Deck
Lançamento: 23 de outubro de 2026
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Tinha uma lenda de que algumas sorveterias e lojas de doces, sem grana pra comprar cerejas, usavam o chuchu para produzir uma imitação horrenda da iguaria, que servia apenas de enfeite. Vindo de Londrina, o Catïça decidiu partir para a zoeira chamando seu segundo disco de Cereja de xuxu (e não “chuchu”). Mas não tem só gozação – ou melhor, ela vem filtrada em temas como cena underground, política e até playboyzices do dia a dia (devidamente sacaneadas no pós-punk Petit comité).
O disco do Catïça tem lá suas semelhanças com Magia, estreia do Budang – a saber: união de várias vertentes do punk em torno do crossover, uso de expressões locais (embora o disco dos catarinenses do Budang seja cantado quase em dialeto), porrada sonora destacando o baixo, músicas rápidas (são dez faixas em 15 minutos). O grupo fala do amor à música e à estrada em Sofá cubista e Em todos esses anos nessa indústria vital, essa é a primeira vez que isso me acontece (sim, o título foi tirado daquele desenho do Pica-Pau), lembra histórias de sua terra em Pé vermei e avisa que a taxação de grande fortunas vai rolar nem que seja na porrada (em Surpresinha).
O crossover bate mais forte em faixas como Chosen e Sofá cubista, além da sacanagem religiosa Crente canibal. A curiosidade aqui é Vixvéi, grunjão da massa em que o Catïça soa como uma banda fanática por Alice In Chains (!).
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Crítica
Ouvimos: Sophia Stel – “The greatest album of all time”

RESENHA: Em The greatest album of all time, a canadense Sophia Stel mistura electropop, trip-hop e dream pop para falar de solidão, insegurança e vida noturna.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: A42 Music
Lançamento: 16 de outubro de 2026
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Nem tudo na música eletrônica é feito pra dançar, e nem tudo que é feito pra dançar é alegre e eufórico. Mais: estilos como electropop muitas vezes falam mais de tristezas e porradas da vida – ou são perfeitos para falar daquele momento em que a festa acaba e só resta você, suas circunstâncias e questões para resolver.
The greatest album of all time, estreia em álbum da canadense Sophia Stel, de 27 anos, vai bastante por esse caminho. Sophia cresceu numa família religiosa de 11 filhos, já lançou dois EPs e gravou quase todo o disco sozinha, em hotéis e apartamentos alugados durante turnês. O título começou como uma brincadeira e acabou virando uma maneira de espantar a síndrome da impostora.
O som é indietronica com estiileiras trip-hop, electropop, dream pop … Sophia canta como se estivesse meio entorpecida, alternando sussurros, falas melódicas e uma espécie de rap arrastado. Em vários momentos, a voz soa quase robótica, como se tivesse sido programada para cantar daquele jeito – e o auto-tune ajuda bastante nisso. Mesmo quando fala de sentimentos intensos, ela parece não estar nem aí.
O disco fica melhor quando Sophia consegue fazer música sombria e dançante ao mesmo tempo. On my dick, cuja letra soa como uma confissão de autoconfiança bastante exagerada e sarcástica, abre com um pop eletrônico quase psicodélico e escuro. Molly in the club, sobre a solidão e a confusão emocional provocadas pela vida noturna. tem algo de trip-hop, mas a viagem fica por conta dos vocais cheios de eco. Em Like a kite, uma batida que lembra um relógio vai ganhando teclados que mudam completamente o clima da música. Já I’ll walk começa com cordas tensas e piano grave, antes de cair num trip-hop tranquilo, cheio de teclados.
Tem ainda a dance music discreta de Better believe it, o dream pop de 15 hours away e o canto quase falado de Now I’ve got a lot you know, que depois ganha até uma batida próxima do reggaeton. O problema é que, com 12 faixas, o álbum acaba ficando um pouco inchado, e nem todas as ideias funcionam tão bem.
Mas quando Sophia acerta, faz uma eletrônica ótima para dançar com a cabeça cheia de problemas. O final, com o batidão tímido de Burn, é a conclusão positiva e sarcástica do disco: Sophia fala que quer viver intensamente – só faz questão de lembrar que na idade dela (27), uma renca de gente partiu.
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Crítica
Ouvimos: Jardim Depressa – “O pequeno deus do sol” (EP)

RESENHA: No EP O pequeno deus do sol, a banda paulista Jardim Depressa mistura pós-punk, shoegaze e psicodelia em quatro faixas de tensão e angústia existencial.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 29 de setembro de 2026
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Pós-punk e psicodelia já se encontraram muitas vezes. E já tiveram um casamento consumado por estilos como o shoegaze. No EP O pequeno deus do sol, a banda paulista Jardim Depressa celebra a união em clima de tensão sonora, sombras e experimentalismo, como no spoken word percussivo da faixa-título e no clima soturno, quase post-rock, de Em seu lugar – música que depois vai ganhando uma onda venturosa.
Curto, o disco tem quatro faixas separadas por uma vinheta, Vênus, com dedilhados e clima sonhador. Diabo, lançada em single, é ágil, melancólica e tensa, com uma gravação meio lo-fi (você pode achar que se trata de uma banda dos anos 1980) e uma parede simples de guitarra que encobre os vocais. Quando comentamos sobre essa faixa, vimos referências de bandas como Kitchens Of Distinction e House Of Love.
No final, Tempestade vem com clima angustiado e acústico. Na letra, pensamentos sobre o mal, o tempo, e a maldade que nunca dorme. Sonzeira existencial e perturbadora.
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