Crítica
Ouvimos: Florence + The Machine – “Everybody scream”

RESENHA: Florence Welch (leia-se Florence + The Machine) encara traumas e renasce em Everybody scream, disco-catarse que mistura bruxaria pop, dor, cura e críticas à indústria musical.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Republic
Lançamento: 31 de outubro de 2025.
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Algo diz que a chegada do Last Dinner Party ao mercado deu uma assustada de leve em Florence Welch. Everybody scream, sexto disco de Florence + The Machine, já abre trazendo de volta o lado catártico da cantora e do grupo na faixa-título. Terrores e vibes de antanho também surgem fortemente na música de Florence no disco novo, ainda que Everybody scream nem seja totalmente um disco gritalhão.
Na essência, é um álbum-exorcismo na história da cantora londrina, que passou por uma cirurgia grave em 2023 (devido a uma hemorragia interna, causada por uma gestação ectópica, fora do útero) e, segundo ela própria, “quase morreu”. A faixa-título, com referências musicais medievais e clima bruxuleante, demonstra que o lugar em que Florence se sente verdadeiramente empoderada é o palco – apesar dos perigos, da exposição de sentimentos, do desgaste diário.
- Ouvimos: Jehnny Beth – You heartbreaker, you
“Mas veja só, me esgoto, sangue no palco / mas como posso te deixar quando você está gritando meu nome?”, canta ela, deixando claro que a energia que surge, no fim das contas, é curativa. “A bruxaria, a medicina, os feitiços e as injeções / a colheita, a agulha, protejam-me do mal / a magia e a miséria, a loucura e o mistério / oh, o que tudo isso fez comigo?”. Essas sombras pessoais surgem também no dream pop de And love (uma canção de abdicação do amor), na épica e sinistra Drink deep, no soft rock solitário e igualmente épico de Buckle, nos amores perdidos e doloridos de Kraken – que parece unir Siouxsie, Queen e David Bowie.
Outros temas sangram no disco: Florence fala do apagamento da mulher na indústria musical, na sombria e impressionante One of the greats, música de vocais operísticos e fantasmagóricos, e letra crua e realista. “Estarei lá em cima com o homem e as outras dez mulheres / e com os cem maiores discos de todos os tempos / deve ser bom ser homem e fazer música chata só porque você pode”, vocifera. Sexo e aventuras surgem em Witch dance, uma dança da bruxa, de verdade. Egoísmo masculino, castigo do silêncio e pancadarias emocionais dão as caras em Music by men – uma canção que, segundo Florence, relaciona-se bastante com a vontade de levar uma vida normal após cada novo trabalho.
Em Everybody scream, Florence e sua turma conseguem fazer quase tudo descer bem e funcionar – há uma vibe já-ouvi-isso-antes incômoda em Sympathy magic (um hino na onda de Dog days are over) e no quase-metal sinfônico You can have it all, mas para por aí. No geral, o disco novo é o som da luta pessoal e do ritual de cura – pelo grito, pela escrita, pelo dar-nomes-aos-bois, tanto faz.
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Crítica
Ouvimos: Rocketsuit Rogue – “Hello, apocalypse”

RESENHA: Vindo do Zebrahead, Matty Lewis estreia como Rocketsuit Rogue com Hello, apocalypse, disco que cruza punk, hard rock, ska e humor apocalíptico em canções rápidas e explosivas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 7,5
Gravadora: Double Helix Records / SBAM Records
Lançamento: 21 de agosto de 2026
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Rocketsuit Rogue é o codinome de Matty Lewis, cantor, compositor e guitarrista presente durante vários anos na história do Zebrahead, grupo pop-punk que promove mesclas com hip hop (tem quem chame de punk-rap) e que, a bem da verdade, não chega a ser o tipo de banda imperdível. Nos anos 90 chegaram a lançar uma música, Get back, em que diziam “tenho que arrumar dinheiro como meu mano Trump” – uma patacoada da qual se arrependeram anos depois (dá pra alegar que nos anos 1990 Donald Trump era só um empresário, mas naquela época, já era uma companhia das piores).
Hello, apocalypse, sua estreia solo sob o codinome, tem um tom mais pesado, satírico e rock hero do que sua banda fazia supor – o som lembra uma união de grupos como Motörhead, Green Day, Ramones, Pennywise, e alguns clássicos do pré-pop punk, como Vice Squad. A agilidade sonora e o link com temas espaciais e/ou apocalípticos em faixas como Watch the world just fall apart, Better off dead, a explosiva Our last parade e o skacore Artificial ignorance, além de um certo pé na canoa do hard rock, garantem que o / a ouvinte vá deparar com canções legais.
Matty diz que o “alô, apocalipse” do título não é necessariamente o fim do mundo, mas qualquer sensação de “tudo acabado” do dia-a-dia. Algo que bate em canções como o power pop + ska-punk de The best last day on Earth e em hinos punk de fôlego, como Take me home e Goodbye paradise.
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Crítica
Ouvimos: Captibs – “Episódios trágicos” (EP)

RESENHA: De Mogi Guaçu, o Captibs estreia com Episódios trágicos, EP que cruza emo e pós-hardcore para falar de autossabotagem, falsidade, vigilância e dores de crescimento.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Lixorama Discos
Lançamento: 14 de agosto de 2026
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Banda de emo e pós-hardcore de Mogi Guaçu (SP), o Captibs é uma novidade – Cortinas, o primeiro single, saiu dia 31 de julho. Episódios trágicos, primeiro EP, aponta para o fim de tudo e para as últimas palavras de alguém (justamente em Cortinas), para a busca de equilíbrio num mundo desequilibrado (a vinheta Não vou ficar), para os momentos de autossabotagem da vida (Maus hábitos e comportamentos) e outros assuntos – em meio a solos e riffs ágeis, e vocais gritados quase no limite.
O clima do Captibs aponta para dores de crescimento e para a busca de solução para o que parece impossível de resolver, mas também fala de falsidade nas redes sociais (Je ne suis pas interésse), eterna vigilância (a faixa-título, com um poema triste narrado por uma voz feminina, lá pela metade) e golpes da vida (Jogado pra trás).
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Crítica
Ouvimos: Sondre Lerche – “Acrobats”

RESENHA: Em seu 11º álbum, Acrobats, Sondre Lerche cruza sophisti-pop, pós-punk, jazz, bossa nova e psicodelia em oito faixas grandiosas, que transitam entre canção pop, trilha de filme e balé.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: PLZ
Lançamento: 21 de agosto de 2026
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Gravado em nove estúdios diferentes, com participação de músicos de jazz, Acrobats tem sido considerado um passo grande e bem dado do compositor norueguês Sondre Lerche – e olha que ele geralmente é comparado a todo mundo que ocupa algum lugar no espaço do sophisti-pop, o pop sofisticadíssimo do qual falamos outro dia no instagram do Pop Fantasma.
O décimo-primeiro disco de Sondre é um “pop adulto”, com sonoridade oscilando entre o tal pop sofisticado, a experimentação pós-punk e um clima que remete tanto a Beach Boys quanto a bossa nova. A capa – detalhe – parece funcionar como uma espécie de norte artístico, como se os acrobatas representassem o baixo fincado, os beats de drum’n bass e a argamassa futurista e orquestral de How much of this was planned, a faixa de abertura. Ou a beleza arquitetônica de Little kids, quase um filme musicado, e um hino da perda de inocência. Ou a contemplação de Drive me away from you, uma esquina curiosa entre Beach Boys e Jaques Brel, com orquestrações de tirar o fôlego.
Ou o disco todo. Acrobats tem 45 minutos e oito faixas – algumas delas são bem grandes e deixam o álbum com uma certa cara de trilha de filme, ou de balé. A camerística Love is all e a dançante e sonhadora Follow the river, nove minutos cada uma, dão impressão de submergir, num cenário complementado por letras de puro delírio. Follow ainda é dividida por um momento de pura psicodelia feita com corda, em que tudo parece desabar. Curta para os padrões do disco (3:54), e com clima ligeiramente beatle, a faixa-título fala da acrobacia como um voo, em meio a uma melodia igualmente voadora, turbinada por um baixo pesado e circular.
Essa onda beatle toma conta da magistral In the time before I knew her well, uma valsa em clima absolute cinema – você consegue imaginar as cenas da letra, e um elenco dançando, em meio aos corais e cordas. Life-changing love, encerrando o disco, é o sophisti-pop mais “formal” do álbum: uma balada grandiloquente, com Sondre fazendo o possível para lembrar Paul McCartney cantando. “Lindo” é pouco. Acrobats é uma maravilha.
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