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Crítica

Os 50 melhores álbuns nacionais de 2024!

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Os 50 melhores álbuns nacionais e internacionais de 2024 ouvidos pelo Pop Fantasma!

Se bobear, o Pop Fantasma é o último meio de comunicação de música a dar os melhores do ano passado. Ano que vem vai sair tudo bem mais cedo, mas de qualquer jeito tem “os melhores” todo mês, e vai continuar tendo. E seguem aí os 50 melhores álbuns nacionais de 2024! Ouça tudo aos poucos e não esqueça dos discos de 2025, esse ano que já tá aí, correndo como pode.

Os discos estão em tópicos, do último ao primeiro colocado, sempre lembrando que para classificar os melhores vamos da nota 8 a 10. Dentro de cada nota, vínhamos fazendo um pequeno ranking particular para classificar os discos, e foi isso que levou à classificação. Penamos MUITO para cortar certos discos que estiveram nas linhas de melhores (nota 8) de alguns meses. Eles continuam estando entre os melhores dos meses em que os ouvimos, de qualquer jeito.

“Ué, mas e os EPs de 2024?”. Calma, tem uma seção especial para os EPs de 2024. Lá embaixo tem todos os links! (arte: Aline Haluch).

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50 MADRE, “VAZIO OBSCENO”. “Vazio obsceno, a estreia em álbum do projeto Madre, de Luiza Pereira, tem simultaneamente um ar anos 1990, graças às guitarras e ao peso da gravação, e um clima espacial e psicodélico, dado pela produção, pelos efeitos e pelo uso dos instrumentos. Na mixagem, a voz de Luiza aparece como um dos instrumentos”.

49 GUEERSH, “INTERFERÊNCIAS NA FAZENDINHA”. “Gueersh é uma banda que leva a ideologia do acid rock às últimas consequências. O som da banda não é só psicodelia: tem coisas próximas do shoegaze e do guitar rock em vários momentos da trajetória do grupo”.

48 PANTERAS VENENOSAS, “CIGANA ASSASSINA”. “O Panteras Venenosas é a maior novidade que você vai achar no pós-punk nacional atual. Uma dupla de synth-pop em negativo, chegada a climas misteriosos e góticos, misturando algo próximo de OMD, Ultravox, Saara Saara e Letrux”.

47 DORA MORELENBAUM, “PIQUE”. “Estreando solo com Pique, Dora Morelenbaum surge com um disco de MPB clássica – no sentido de que, se uma banda tentar dar sua cara às influências de Led Zeppelin, Beatles e Rolling Stones, vai flertar com o rock clássico”.

46 SUE, “QUANDO VC VOLTA?”. “Basicamente, dá para dizer que Quando vc volta?, álbum de Sue, é um disco de imagens, ou pelo menos de imagens sonoras. As doze faixas do álbum, mais do que serem instrumentais, são abstrações musicais, que dão notas, efeitos e beats a imagens e sentimentos”.

45 SUGAR KANE, “ANTES QUE O AMOR VÁ EMBORA”. “No novo álbum, o Sugar Kane não necessariamente se tornou uma banda mais otimista, como afirmou até no release – o repertório mostra que a visão da banda sobre questões da vida é que foi se tornando mais madura”.

44 FELIPE AUD, “ACUMULADO”. “O material do disco de Felipe Aud vem realmente de um acúmulo de canções guardadas por vários anos. O filtro de Acumulado vem pela maneira enviesada e diferente que a MPB paulista tem de contar histórias e de encarar o próprio processo de fazer música – características que surgem no som dele”.

43 SUPERVÃO, “AMORES E VÍCIOS DA GERAÇÃO NOSTALGIA”. “O segundo álbum da banda gaúcha Supervão soa como manifesto de geração – só que é uma geração beeeem esticada, que vai dos 20 e poucos aos 50 e poucos, passando pela indefinição dos 30. O disco é dominado por uma sonoridade entre o power pop e o tecno, entre o indie rock anos 2000 e o lo-fi”.

42 TAXIDERMIA, “VERA CRUZ ISLAND”. “Um disco bem eletrônico, e bastante experimental, mas não é isso o que mais chama a atenção quando se escuta o primeiro álbum do Taxidermia. Ele é basicamente um disco de MPB, de afrobeat. E até de pós-punk em alguns momentos”.

41 LUIZA BRINA, “PRECE”. “Um disco essencialmente feminino, e repleto de mistérios e histórias. A abertura, com o instrumental Oração 1, serve como um prefácio do álbum: uma música curta, orquestral, que destaca a percussão e o tom marítimo da melodia e do arranjo. E indica que Prece é uma aventura pessoal e interna, e um trabalho de tapeçaria musical”.

40 APPLEGATE, “MESMO LUGAR”. “Daria para usar até o desgastado termo ‘progressivo’ para definir o disco. É por aí, mas não é bem isso – o Applegate investe mais em ambientes sonoros do que em demonstrações de virtuosismo musical”.

39 ROD KRIEGER, “A ASSEMBLEIA EXTRAORDINÁRIA”. “Popularizado inicialmente pelo rock básico da Cachorro Grande (banda gaúcha da qual foi baixista), Rod Krieger volta em clima de space rock em seu segundo disco solo, A assembleia extraordinária. Mais que isso: volta atualizando a psicodelia nacional dos anos 1970 e o som de artistas como Syd Barrett e Arnaldo Baptista para uma onda meditativa e eletrônica”.

38 MUNDO VÍDEO, “NOITE DE LUA TORTA”. “O som eletrônico e experimental do disco volta com uma cara mais orgânica no álbum de estreia. Ainda que programações e teclados apareçam aqui e ali, e deem o tom da dupla de faixas de abertura (Como você me vê e O que nos aproxima, uma continuando a outra), violões, guitarras e vocais bem arranjados surgem na cara do ouvinte durante a audição”.

37 DANI BESSA, “HIPERDRAMA”. “O objetivo de Dani Bessa é, pelo que dá para ver das faixas de Hiperdrama (e de seu EP de estreia, Despedidas) é falar de amor praticamente ao contrário – tentar, enfim, arrumar novas maneiras de abordar um assunto que praticamente domina a produção de canções pop”.

36 ADORÁVEL CLICHÊ, “SONHOS QUE NUNCA MORREM”. “O Adorável Clichê volta equilibrado entre os lados dream pop e shoegaze. São dois estilos musicais que conversam bastante entre si (e que quase sempre servem como sinônimos um do outro), mas que servem a musicalidades diferentes, dependendo de qual parede de som aguarda o ouvinte”.

35 ANTIPRISMA, “COISAS DE VERDADE”. “O Antiprisma fez um disco chamado Coisas de verdade que já entrega sua proposta logo no nome: um álbum orgânico na era da inteligência artificial. É o que aparece, principalmente, na combinação das vozes de Elisa Moos e Victor José, que soam como uma conversa íntima logo na primeira faixa, Que seja“.

34 DANILO PENTEADO, “DáPé”. “O som de Danilo Penteado é ligado à música brasileira feita em São Paulo, mas tem muito de Jorge Ben, Nelson Cavaquinho e, em especial, Gilberto Gil. Nomes como Mauricio Pereira, Cesar Lacerda e Romulo Fróes, que colaboraram em DáPé, ajudam a dar um ar simultaneamente lírico e irônico para as faixas do álbum”.

33 ANDRÉA DUTRA, “ENTRE NÓS”. “Nove músicas de voz e piano, todas com letra e música de Andréa Dutra – que surge acompanhada por pianistas diferentes em cada faixa. O material, apontando para a união de samba e jazz em vários momentos, vai do expansivo ao lírico”.

32 RODRIGO CAMPOS, “PODE SER OUTRA BELEZA”. “Uma proposta musical bastante simplificada: com exceção de intervenções de percussão, todo o disco (curto, oito músicas, menos de 25 minutos) é de voz e violão, viajando entre o samba e a experimentação musical, em letra e música”.

31 CHICO CHICO, “ESTOPIM”. “Estopim é o disco mais sistemático (vamos dizer assim) que Chico Chico conseguiu fazer até o momento. E ele conseguiu isso numa gravadora de porte – a Deck -, sem abdicar da identidade própria que havia em todos os lançamentos anteriores”.

30 INOCENTES, “ANTES DO FIM”. “O veterano grupo paulista deixa as guitarras de lado e vai por outra via, inserindo características de blues em boa parte do repertório, além de uma ou outra coisa que soa parecida com bandas como Violent Femmes – só que em tom mais hard e classe-operária”.

29 DUO CHIPA, “LUGAR DISTANTE”. “Inspirado na cultura e na biodiversidade do Pantanal, o disco foi todo gravado com viola de cocho (uma variante da viola caipira, com um som que volta e meia chega a lembrar o do banjo), e traz canções que exploram ritmos locais como cururu e siriri, em um material predominantemente autoral”.

28 TETO PRETO, “FALA”. “É música pop, é eletrônico, dançante, até próximo de uma MPB adulta e sofisticada em vários momentos – mas é igualmente um disco cheio de raiva. Essa raiva aparece nas batidas pesadas, nos vocais ríspidos e nas letras, repletas de frases que parecem bem mais típicas do rap do que de outros estilos musicais”.

27 NEGRO LEO, “RELA”. “O álbum fala de sexo, mas não do jeito mais óbvio. É o sexo que rola no submundo dos aplicativos de relacionamento, no universo do OnlyFans, nas conversas online e nos desejos que não saem do digital”.

26 PATRICK ANGELLO, “VIOLÃO AFRO-BRASILEIRO”. “Patrick pretende não apenas falar de história do violão na música brasileira, como também da sua própria identidade como músico oriundo do subúrbio e neto de ialorixá – e esse contato rico com as raízes pessoais e musicais dá um entendimento diferente às faixas”.

25 GUILHERME PELUCI, “SÃO PAULO INSTRUMENTAL”. “Tem muita coisa que une esse São Paulo instrumental, de Guilherme Peluci, a São Paulo – Brasil, disco instrumental gravado por Cesar Camargo Mariano em 1977. São dois discos que falam musicalmente de São Paulo, claro. E são dois álbuns ligados ao jazz, cada a um pertencendo ao seu tempo”.

24 BATATA BOY, “MAGICLEOMIXTAPE (quando vê, já foi)”. “O subtítulo do disco novo de Batata Boy não é brincadeira: se você escutar MAGICLEOMIXTAPE distraidamente, pode acabar ficando assustado com a duração curta, e com os universos musicais para os quais o álbum aponta num tempo tão curto”.

23 NINA MAIA, “INTEIRA”. “Uma travessia em forma de disco. O repertório foi sendo construído durante sete anos, as letras têm vários questionamentos que Nina fez da adolescência até hoje. E ela própria trata a organização das músicas do álbum como uma jornada”.

22 VARANDA, “BEIRADA”. “O Varanda mistura informações musicais do pós-punk, do indie nacional dos anos 1990 e de um lirismo próximo da canção brasileira, sempre inserindo surpresas nas melodias e nas letras”.

21 PATRICIA POLAYNE, “O COMBOIO DA ILUSÃO”. “O tom de Polayne como compositora chega a ser apocalíptico, lembrando artistas como Raul Seixas e Chico Science, e lembrando que ainda há muito por ser feito. “A vida é só uma quantia pequeníssima que temos”, diz em Pequeníssima, samba-pop-abolerado de vocal forte”.

20 DEAD FISH, “LABIRINTO DA MEMÓRIA”. “Lançado no começo de 2024, Labirinto acabou sendo uma boa abertura para um ano em que antigas memórias do país seriam remexidas. Afinal foi em 2024 que saiu o filme Ainda estou aqui, e isso já diz muita coisa”.

19 BETO CUPERTINO, “AUTO”. “Um disco que alude a muitas coisas: emocore dos anos 1990, soft rock, MPB no estilo de Beto Guedes e Guilherme Arantes, rock britânico desolado dos anos 1990/2000 e som agridoce dos anos 1970”.

18 LUIZ AMARGO, “AMOR DE MULA”. “Amor de mula é um disco de MPB herdadíssimo da vanguarda paulista, mas passando também pela sonoridade do rock indie dos anos 1980 e 2000, por Jards Macalé, Raul Seixas, Eduardo Dussek, Joelho de Porco”.

17 LESTICS, “BOLERO #9. “O Lestics começou como um spin-off de outra banda interessantíssima de São Paulo, o Gianoukas Papoulas, e ganhou história própria, com direito a um design musical e lírico que se aproxima da criação de contos ou crônicas”.

16 CÉU, “NOVELA”. “Se você já gostava de Céu, prepare-se para conferir o quanto tudo em Novela soa amadurecido, sem o conformismo ligado aos trabalhos costumeiramente rotulados como ‘maduros’.”

15 ZÉ MANOEL, “CORAL”. “Artista brasileiro de musicalidade inspirada e incomum, Zé Manoel aproveita para desafiar, em Coral, toda e qualquer ideia que ainda resta a respeito da preferência atual do público por músicas curtas e concisas”.

14 CÁTIA DE FRANÇA, “NO RASTRO DE CATARINA”. “Um disco basicamente regido pelo renascimento, pela afirmação e pela visibilidade, cujas música valem como crônicas. Ela canta também o envelhecimento e o orgulho pela idade avançada e pelo tempo passado”.

13 PLUMA, “NÃO LEVE A MAL”. “O som do Pluma é recomendadíssimo para quem era fã de Cardigans nos anos 1990 – têm aquela mesma combinação de rock, detalhes eletrônicos, som lounge e vocais doces, além da mescla em doses iguais de peso e estranhice, que os suecos apresentaram no álbum First band on the moon (1996)”.

12 SOFIA FREIRE, “PONTA DA LÍNGUA”. “Um disco de MPB feito com base no synth-pop. Mas não pense na MPB dos anos 1980, porque o lance aqui é outro, unindo referências claras de música brasileira experimental, indie rock, indie pop, e até neo-soul”.

11 BOOGARINS, “BACURI”. “Impossível não pensar em Dorival Caymmi ao começar a ouvir Bacuri, disco carregado de brasilidade e baianidade, cuja abertura é com a faixa-título – uma canção meditativa, com percussão funcionando quase como um relógio e a letra cantada pelo baterista Ynaiã Benthroldo, quase como um mantra”.

10 MILTON NASCIMENTO E ESPERANZA SPALDING, “MILTON + ESPERANZA”. “Sim, Milton Nascimento está cantando muito bem. Mesmo que sua voz não seja mais a dos anos 1970 e 1980, ele se adaptou otimamente ao barítono atual, e segue a vida. O fim das turnês é providencial para o sossego do homem de 81 anos, mas o artista vai bem”.

09 PAPANGU, “LAMPIÃO REI”. “O ideal é resistir à tentação de colocar o Papangu na mesma prateleira de bandas influenciadíssimas pelo rock brasileiro dos anos 1970. Até porque Lampião Rei não existiria sem o tom gutural do black metal, sem o stoner rock e até sem a criatividade associada ao ‘faça você mesmo’ do punk”.

08 ORUÃ, “PASSE”. “Echo and The Bunnymen, Pink Floyd do começo e Jorge Ben – além de sons de terreiro, partículas de psicodelia californiana, e toda a carga da vida urbana, da luta diária, da resistência suburbana. Todas essas coisas juntas, com o filtro deles, são Oruã”.

07 NICOLAS NÃO TEM BANDA, “NICOLAS NÃO TEM BANDA”. “Existe algo ‘politicamente incorreto’ no imaginário desse grupo paulistano – só que da mesma forma perturbadora e incômoda que se esperou por vários anos que a incorreção cultural agisse, e não com o mesmo tom imbecil e reacionário associado a esse tipo de coisa”.

06 THALIN, CRAVINHOS, VCR SLIM, PIRLO E ILOVEYOULANGELO, “MARIA ESMERALDA”. “Difícil dizer se Maria Esmeralda vai criar uma escola no rap. Mas provavelmente muita gente que ouvir o disco vai decidir escrever um livro que tenha a mesma intensidade, ou dirigir um filme. E quem sabe, vira livro ou filme.”.

05 MIRAGEM, “MUITOS CAMINHOS PRUM LINDO DELÍRIO”. “Não dá para não prestar atenção numa banda que consegue se envolver simultaneamente com música brasileira dos anos 1970, psicodelia, rock progressivo, pós-punk e guitar rock noventista. Tudo bastante unificado musicalmente”.

04 LÔ BORGES, “TOBOGÔ. “Em Tobogã, Lô parece ter seguido uma receita que emparelha vários elementos do rock britânico, além da natureza criativa do R.E.M. na época de discos como Out of time e Automatic for the people, e até um pouco de power pop na linha de bandas como Big Star”.

03 AMARO FREITAS, “Y’Y”. “Ouça sem olhar para os nomes das faixas e encarando-o como uma única peça musical, dividida em vários segmentos instrumentais, que sugerem um passeio marítimo – com direito a seres quase imaginários, mistérios, uma ou outra sensação de perigo, cenas quase de desenho animado”.

02 BLACK PANTERA, “PERPÉTUO”. “O tom metal-afro-latino que já aparecia em lançamentos anteriores ressurge em plena forma, servindo como ligação entre todo o novo repertório, com percussões e sons pesados dando o tom de faixas como o hino Candeia e o punk rock Boom!”.

01 CAXTRINHO, “QUEDA LIVRE”. “Daria para colocar o álbum de estreia de Mario Vitor Castro na gaveta dos retropicalismos, mas calma: tudo soa como se Luiz Melodia e Jards Macalé decidissem aderir à no wave, mas para responder aos discos de Lydia Lunch e James Chance, fizessem um disco brasileiro por opção, trevoso por raiz e psicodélico por vocação”.

Crítica

Ouvimos: Johnny Marr – “The age of everything”

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Resenha: Johnny Marr – “The age of everything”

RESENHA: Em The age of everything, Johnny Marr fala de fascismo, capitalismo e um mundo acelerado enquanto revisita pós-punk, reggae e rock oitentista — dos Smiths e The The aos Pretenders.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: New Voodoo / BMG
Lançamento: 02 de outubro de 2026

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Descrito como o álbum que traz as canções mais catárticas já feitas por ele, The age of everything, quinto álbum de Johnny Marr, é a trilha sonora para uma época em que tudo parece acontecer ao mesmo tempo – e em que inúmeras sensações parecem tomar conta de todo mundo, sem que a gente pareça preparado para dar conta delas.

Unindo histórias e questões pessoais às letras, Marr acaba soando venturoso como Bruce Springsteen, quando fala da aceleração do mundo em Spin, e de resistência emocional em Beyond the rain. Soa também vingativo como Chrissie Hynde, quando fala da vida em Londres (All in a life), da briga contra o fascismo de 2026 (Fire with fire) e contra o aprisionamento criado pelo capitalismo (It’s time). Em pouco tempo, fica claro que, seja lá como Marr viva hoje, ele observa o mundo pelo ponto de vista de quem olha para os lados e não enxerga muitas chances.

Musicalmente, por sua vez, o novo disco é uma surpresa bem menos afiada do que The messenger (2013) e Playland (2014), os dois primeiros álbuns solo do guitarrista. O galho é que essa “surpresa menos surpreendente” pega pelo ouvido e pela emoção, e parece intencional. Mais do que em qualquer outro disco solo seu, Marr parece disposto a unir toda a sua história como guitarrista, dos Smiths ao The The, passando pelos Pretenders e, em especial, pelos valores musicais e criativos da década que viu seu trabalho nascer.

Isso porque o som de The age of everything é, digamos, bem oitentista: quem for fã de discos como Learning to crawl, dos Pretenders (1984), ou da volta por cima do The The nos anos 1990 com Dusk (1993), vai se descobrir aqui. Não tem como não falar de Smiths ou de Morrissey numa hora dessas: Spin, na abertura, é o som que o ex-parceiro de Marr podia estar fazendo hoje, caso ele tivesse permanecido na mesma onda de discos como Your arsenal (1992). Músicas como Beyond the rain, com clima hispânico, e o pós-punk + reggae All in a life têm muitos elementos que Marr desenvolveu nos anos 1980. Uma surpresa é a balada In and out of love, o tipo de música que ficaria bem na voz de Morrissey.

Seguindo numa onda de, talvez, dar sua visão pessoal do lado mais tranquilo e embelezado do pós-punk, Marr investe em riffs simples e circulares, e em melodias de fácil assimilação. Há um clima de pós-punk sofisticado em It’s time, In and out of love e Just once more, além de um ska dobrado para caber na caixinha do rock em Ophelia (cuja letra enxerga a personagem de Hamlet, de Shakespeare, pelo viés tanto da vulnerabilidade quanto da sobrevivência). How come tem uma leveza que lembra não apenas Smiths como R.E.M., com baixo singrando pela melodia.

Outra surpresa: That feeling, uma das melhores do álbum, poderia ser uma candidata a jingle de loja de surfwear, caso tivesse sido lançada nos anos 1980. Tem uma batidinha meio reggae, uma guitarra que lembra tanto o The The quanto o hit Talking in your sleep, da formação new wave oitentista The Romantics (lembra desse som?), e um “ôôôôô” claramente inspirado no hit Invisible sun, do The Police (!). O som é de época, mas não é datado – The age of everything é um bom disco de mensagens, com uma trilha sonora adequada.

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Ouvimos: Adriana Calcanhotto e Arnaldo Antunes – “Vice-versa”

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Resenha: Adriana Calcanhotto e Arnaldo Antunes – “Vice-versa”

RESENHA: Em Vice-versa, Arnaldo Antunes e Adriana Calcanhotto misturam samba, reggae, punk, baião e experimentação num disco sobre trabalho, amor, cotidiano e as estranhezas do presente.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Universal Music Brasil
Lançamento: 22 de setembro de 2026

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Dos letristas mais recentes da MPB, Arnaldo Antunes talvez seja o criador mais ligado a uma espécie de sabedoria popular. Em sua música, punchlines altamente criativas chegam a lembrar antigos ditados, nem que seja por associação. Da mesma forma, certas letras dele, desde a época dos Titãs, crescem no ouvido pela familiaridade. Como algo que, lido ou ouvido, soa como uma polaroide boa de assuntos como “casa”, “família”, “revolta”, “amor”, “vida”, “morte” – qualquer tema, mesmo que descrito com frases soltas em vez de cenas.

Não dá pra negar que, mais até do que Marisa Monte, Adriana Calcanhotto soa como a companhia ideal para Arnaldo nessa onda – primando por letras bastante visuais, a compositora de Esquadros já viu músicas suas, como Cariocas, fazerem o caminho inverso e se tornarem quase memes. Vice-versa, disco feito por Arnaldo e Adriana, ainda que não tenha hinos da MPB como nos discos dos Tribalistas, une dois artistas com tons artísticos parecidíssimos em prol de uma música brasileira de clima pop e levemente experimental.

Vice-versa começa no samba com Também capaz – música que tem algo de Gonzaguinha, e cuja letra, atualizadíssima, fala sobre unir trabalho e descanso, cuidar da vida e olhar para dentro. Digamos que o ecumenismo de Arnaldo e Adriana permite até que a música fale simultaneamente com empregado e patrão (“um monte de dinheiro não vale nenhum tostão / não vai comprar seu sossego, nem amor nem paixão” com certeza não são versos destinados a quem precisa sofrer ganhando mal e trabalhando seis dias por semana). Há muito dos Tribalistas e até de Marisa Monte em balanços como Se for pra ser vai ser agora, Na minha carne viva e o reggae pop Você não vai me achar, ou na tranquilidade de Por ti, por mim, por nós.

Uma cara titânica toma conta de faixas como o rock-reggae-brega Sorriso livro, o punk Não me dão e até o pós-manguebit As bancas de jornais – cuja letra é uma poesia interessante sobre as mudanças nas bancas, o sucateamento do próprio jornalismo e a possibilidade de um dia alguém comprar até armas e aparelhos de tortura numa delas. Entre os momentos mais legais estão o baião pop Contemplando a folia, com algo de João Donato no piano, e a história romântica torta e ruidosa de Agora juntos.

E curiosamente a faixa que mais tem recordações dos Titãs é a última, Não me deu. Uma toada com violão em clima de lamento, tipo Funeral de um lavrador (Chico Buarque e João Cabral de Melo Neto), em que a dupla relata que não recebeu de deus nem apólices, nem hectares, nem hipotecas – e muito menos certezas inabaláveis e temores infundados. Às vezes lembra a dureza de Dívidas, lado B do Cabeça dinossauro (1986). Outros tempos, mas temas áridos e pouco poéticos continuam rendendo música.

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Ouvimos: Blondshell – “Violins”

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Resenha: Blondshell – “Violins”

RESENHA: Em Violins, Blondshell transforma relações tóxicas e frustrações em guitar rock melancólico, misturando shoegaze, alt rock dos anos 1990 e um inesperado apelo de rádio adulta.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Partisan Records
Lançamento: 25 de setembro de 2026

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“Você não faz promessas que não pode cumprir / então você não faz promessas para mim”, cospe Sabrina Teitelbaum, a popular Blondshell, na faixa-título de seu segundo álbum, Violins – que vem num clima mais “profundo” e bem mais entristecido que o debute, If you asked for a picture (2025, resenhado aqui). Parece que Sabrina sentiu alguns baques e decidiu colocar isso em sua música de uma forma bem mais evidente, quase sempre aludindo ao alt rock dos anos 1990 e à tristeza da época.

As amarguras da estreia se transformaram num discurso em que as palavras servem de cura e de mudança – mesmo que ela não veja essa mudança acontecendo ao redor dela. Essa inatividade geral dá as caras no deboche de New age trojan horse, zoeira séria com homens que fingem que se importam com as mulheres. E no realismo de Heart has to work so hard (sobre amizades tóxicas), além da estranheza de Lucky, sobre coisas estranhas e boas das turnês.

Sabrina torna seu guitar rock com bases pop mais interessante quando ele soa bem mais nublado – como em Heart has to work so hard e em Stone fruit, músicas com lembranças de Smashing Pumpkins e Cranberries. Mas o ruído new wavizado de Lucky e o beat tranquilo da balada New shape e dos shoegazes New age trojan horse e Sea legs também são puro grude no ouvido. Assim como a introversão do soft rock Two fried e a onda quase Eurythmics + ABBA guitar rock de Fur Elise.

No geral, Violins é o som ruidoso e herdado dos anos 1990 pronto para atacar a Antena 1 e as demais rádios adultas. Se bobear, você ouviu Blondshell no Uber hoje.

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