Crítica
Os 50 melhores álbuns nacionais de 2024!

Se bobear, o Pop Fantasma é o último meio de comunicação de música a dar os melhores do ano passado. Ano que vem vai sair tudo bem mais cedo, mas de qualquer jeito tem “os melhores” todo mês, e vai continuar tendo. E seguem aí os 50 melhores álbuns nacionais de 2024! Ouça tudo aos poucos e não esqueça dos discos de 2025, esse ano que já tá aí, correndo como pode.
Os discos estão em tópicos, do último ao primeiro colocado, sempre lembrando que para classificar os melhores vamos da nota 8 a 10. Dentro de cada nota, vínhamos fazendo um pequeno ranking particular para classificar os discos, e foi isso que levou à classificação. Penamos MUITO para cortar certos discos que estiveram nas linhas de melhores (nota 8) de alguns meses. Eles continuam estando entre os melhores dos meses em que os ouvimos, de qualquer jeito.
“Ué, mas e os EPs de 2024?”. Calma, tem uma seção especial para os EPs de 2024. Lá embaixo tem todos os links! (arte: Aline Haluch).
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50 MADRE, “VAZIO OBSCENO”. “Vazio obsceno, a estreia em álbum do projeto Madre, de Luiza Pereira, tem simultaneamente um ar anos 1990, graças às guitarras e ao peso da gravação, e um clima espacial e psicodélico, dado pela produção, pelos efeitos e pelo uso dos instrumentos. Na mixagem, a voz de Luiza aparece como um dos instrumentos”.
49 GUEERSH, “INTERFERÊNCIAS NA FAZENDINHA”. “Gueersh é uma banda que leva a ideologia do acid rock às últimas consequências. O som da banda não é só psicodelia: tem coisas próximas do shoegaze e do guitar rock em vários momentos da trajetória do grupo”.
48 PANTERAS VENENOSAS, “CIGANA ASSASSINA”. “O Panteras Venenosas é a maior novidade que você vai achar no pós-punk nacional atual. Uma dupla de synth-pop em negativo, chegada a climas misteriosos e góticos, misturando algo próximo de OMD, Ultravox, Saara Saara e Letrux”.
47 DORA MORELENBAUM, “PIQUE”. “Estreando solo com Pique, Dora Morelenbaum surge com um disco de MPB clássica – no sentido de que, se uma banda tentar dar sua cara às influências de Led Zeppelin, Beatles e Rolling Stones, vai flertar com o rock clássico”.
46 SUE, “QUANDO VC VOLTA?”. “Basicamente, dá para dizer que Quando vc volta?, álbum de Sue, é um disco de imagens, ou pelo menos de imagens sonoras. As doze faixas do álbum, mais do que serem instrumentais, são abstrações musicais, que dão notas, efeitos e beats a imagens e sentimentos”.
45 SUGAR KANE, “ANTES QUE O AMOR VÁ EMBORA”. “No novo álbum, o Sugar Kane não necessariamente se tornou uma banda mais otimista, como afirmou até no release – o repertório mostra que a visão da banda sobre questões da vida é que foi se tornando mais madura”.
44 FELIPE AUD, “ACUMULADO”. “O material do disco de Felipe Aud vem realmente de um acúmulo de canções guardadas por vários anos. O filtro de Acumulado vem pela maneira enviesada e diferente que a MPB paulista tem de contar histórias e de encarar o próprio processo de fazer música – características que surgem no som dele”.
43 SUPERVÃO, “AMORES E VÍCIOS DA GERAÇÃO NOSTALGIA”. “O segundo álbum da banda gaúcha Supervão soa como manifesto de geração – só que é uma geração beeeem esticada, que vai dos 20 e poucos aos 50 e poucos, passando pela indefinição dos 30. O disco é dominado por uma sonoridade entre o power pop e o tecno, entre o indie rock anos 2000 e o lo-fi”.
42 TAXIDERMIA, “VERA CRUZ ISLAND”. “Um disco bem eletrônico, e bastante experimental, mas não é isso o que mais chama a atenção quando se escuta o primeiro álbum do Taxidermia. Ele é basicamente um disco de MPB, de afrobeat. E até de pós-punk em alguns momentos”.
41 LUIZA BRINA, “PRECE”. “Um disco essencialmente feminino, e repleto de mistérios e histórias. A abertura, com o instrumental Oração 1, serve como um prefácio do álbum: uma música curta, orquestral, que destaca a percussão e o tom marítimo da melodia e do arranjo. E indica que Prece é uma aventura pessoal e interna, e um trabalho de tapeçaria musical”.
40 APPLEGATE, “MESMO LUGAR”. “Daria para usar até o desgastado termo ‘progressivo’ para definir o disco. É por aí, mas não é bem isso – o Applegate investe mais em ambientes sonoros do que em demonstrações de virtuosismo musical”.
39 ROD KRIEGER, “A ASSEMBLEIA EXTRAORDINÁRIA”. “Popularizado inicialmente pelo rock básico da Cachorro Grande (banda gaúcha da qual foi baixista), Rod Krieger volta em clima de space rock em seu segundo disco solo, A assembleia extraordinária. Mais que isso: volta atualizando a psicodelia nacional dos anos 1970 e o som de artistas como Syd Barrett e Arnaldo Baptista para uma onda meditativa e eletrônica”.
38 MUNDO VÍDEO, “NOITE DE LUA TORTA”. “O som eletrônico e experimental do disco volta com uma cara mais orgânica no álbum de estreia. Ainda que programações e teclados apareçam aqui e ali, e deem o tom da dupla de faixas de abertura (Como você me vê e O que nos aproxima, uma continuando a outra), violões, guitarras e vocais bem arranjados surgem na cara do ouvinte durante a audição”.
37 DANI BESSA, “HIPERDRAMA”. “O objetivo de Dani Bessa é, pelo que dá para ver das faixas de Hiperdrama (e de seu EP de estreia, Despedidas) é falar de amor praticamente ao contrário – tentar, enfim, arrumar novas maneiras de abordar um assunto que praticamente domina a produção de canções pop”.
36 ADORÁVEL CLICHÊ, “SONHOS QUE NUNCA MORREM”. “O Adorável Clichê volta equilibrado entre os lados dream pop e shoegaze. São dois estilos musicais que conversam bastante entre si (e que quase sempre servem como sinônimos um do outro), mas que servem a musicalidades diferentes, dependendo de qual parede de som aguarda o ouvinte”.
35 ANTIPRISMA, “COISAS DE VERDADE”. “O Antiprisma fez um disco chamado Coisas de verdade que já entrega sua proposta logo no nome: um álbum orgânico na era da inteligência artificial. É o que aparece, principalmente, na combinação das vozes de Elisa Moos e Victor José, que soam como uma conversa íntima logo na primeira faixa, Que seja“.
34 DANILO PENTEADO, “DáPé”. “O som de Danilo Penteado é ligado à música brasileira feita em São Paulo, mas tem muito de Jorge Ben, Nelson Cavaquinho e, em especial, Gilberto Gil. Nomes como Mauricio Pereira, Cesar Lacerda e Romulo Fróes, que colaboraram em DáPé, ajudam a dar um ar simultaneamente lírico e irônico para as faixas do álbum”.
33 ANDRÉA DUTRA, “ENTRE NÓS”. “Nove músicas de voz e piano, todas com letra e música de Andréa Dutra – que surge acompanhada por pianistas diferentes em cada faixa. O material, apontando para a união de samba e jazz em vários momentos, vai do expansivo ao lírico”.
32 RODRIGO CAMPOS, “PODE SER OUTRA BELEZA”. “Uma proposta musical bastante simplificada: com exceção de intervenções de percussão, todo o disco (curto, oito músicas, menos de 25 minutos) é de voz e violão, viajando entre o samba e a experimentação musical, em letra e música”.
31 CHICO CHICO, “ESTOPIM”. “Estopim é o disco mais sistemático (vamos dizer assim) que Chico Chico conseguiu fazer até o momento. E ele conseguiu isso numa gravadora de porte – a Deck -, sem abdicar da identidade própria que havia em todos os lançamentos anteriores”.
30 INOCENTES, “ANTES DO FIM”. “O veterano grupo paulista deixa as guitarras de lado e vai por outra via, inserindo características de blues em boa parte do repertório, além de uma ou outra coisa que soa parecida com bandas como Violent Femmes – só que em tom mais hard e classe-operária”.
29 DUO CHIPA, “LUGAR DISTANTE”. “Inspirado na cultura e na biodiversidade do Pantanal, o disco foi todo gravado com viola de cocho (uma variante da viola caipira, com um som que volta e meia chega a lembrar o do banjo), e traz canções que exploram ritmos locais como cururu e siriri, em um material predominantemente autoral”.
28 TETO PRETO, “FALA”. “É música pop, é eletrônico, dançante, até próximo de uma MPB adulta e sofisticada em vários momentos – mas é igualmente um disco cheio de raiva. Essa raiva aparece nas batidas pesadas, nos vocais ríspidos e nas letras, repletas de frases que parecem bem mais típicas do rap do que de outros estilos musicais”.
27 NEGRO LEO, “RELA”. “O álbum fala de sexo, mas não do jeito mais óbvio. É o sexo que rola no submundo dos aplicativos de relacionamento, no universo do OnlyFans, nas conversas online e nos desejos que não saem do digital”.
26 PATRICK ANGELLO, “VIOLÃO AFRO-BRASILEIRO”. “Patrick pretende não apenas falar de história do violão na música brasileira, como também da sua própria identidade como músico oriundo do subúrbio e neto de ialorixá – e esse contato rico com as raízes pessoais e musicais dá um entendimento diferente às faixas”.
25 GUILHERME PELUCI, “SÃO PAULO INSTRUMENTAL”. “Tem muita coisa que une esse São Paulo instrumental, de Guilherme Peluci, a São Paulo – Brasil, disco instrumental gravado por Cesar Camargo Mariano em 1977. São dois discos que falam musicalmente de São Paulo, claro. E são dois álbuns ligados ao jazz, cada a um pertencendo ao seu tempo”.
24 BATATA BOY, “MAGICLEOMIXTAPE (quando vê, já foi)”. “O subtítulo do disco novo de Batata Boy não é brincadeira: se você escutar MAGICLEOMIXTAPE distraidamente, pode acabar ficando assustado com a duração curta, e com os universos musicais para os quais o álbum aponta num tempo tão curto”.
23 NINA MAIA, “INTEIRA”. “Uma travessia em forma de disco. O repertório foi sendo construído durante sete anos, as letras têm vários questionamentos que Nina fez da adolescência até hoje. E ela própria trata a organização das músicas do álbum como uma jornada”.
22 VARANDA, “BEIRADA”. “O Varanda mistura informações musicais do pós-punk, do indie nacional dos anos 1990 e de um lirismo próximo da canção brasileira, sempre inserindo surpresas nas melodias e nas letras”.
21 PATRICIA POLAYNE, “O COMBOIO DA ILUSÃO”. “O tom de Polayne como compositora chega a ser apocalíptico, lembrando artistas como Raul Seixas e Chico Science, e lembrando que ainda há muito por ser feito. “A vida é só uma quantia pequeníssima que temos”, diz em Pequeníssima, samba-pop-abolerado de vocal forte”.
20 DEAD FISH, “LABIRINTO DA MEMÓRIA”. “Lançado no começo de 2024, Labirinto acabou sendo uma boa abertura para um ano em que antigas memórias do país seriam remexidas. Afinal foi em 2024 que saiu o filme Ainda estou aqui, e isso já diz muita coisa”.
19 BETO CUPERTINO, “AUTO”. “Um disco que alude a muitas coisas: emocore dos anos 1990, soft rock, MPB no estilo de Beto Guedes e Guilherme Arantes, rock britânico desolado dos anos 1990/2000 e som agridoce dos anos 1970”.
18 LUIZ AMARGO, “AMOR DE MULA”. “Amor de mula é um disco de MPB herdadíssimo da vanguarda paulista, mas passando também pela sonoridade do rock indie dos anos 1980 e 2000, por Jards Macalé, Raul Seixas, Eduardo Dussek, Joelho de Porco”.
17 LESTICS, “BOLERO #9. “O Lestics começou como um spin-off de outra banda interessantíssima de São Paulo, o Gianoukas Papoulas, e ganhou história própria, com direito a um design musical e lírico que se aproxima da criação de contos ou crônicas”.
16 CÉU, “NOVELA”. “Se você já gostava de Céu, prepare-se para conferir o quanto tudo em Novela soa amadurecido, sem o conformismo ligado aos trabalhos costumeiramente rotulados como ‘maduros’.”
15 ZÉ MANOEL, “CORAL”. “Artista brasileiro de musicalidade inspirada e incomum, Zé Manoel aproveita para desafiar, em Coral, toda e qualquer ideia que ainda resta a respeito da preferência atual do público por músicas curtas e concisas”.
14 CÁTIA DE FRANÇA, “NO RASTRO DE CATARINA”. “Um disco basicamente regido pelo renascimento, pela afirmação e pela visibilidade, cujas música valem como crônicas. Ela canta também o envelhecimento e o orgulho pela idade avançada e pelo tempo passado”.
13 PLUMA, “NÃO LEVE A MAL”. “O som do Pluma é recomendadíssimo para quem era fã de Cardigans nos anos 1990 – têm aquela mesma combinação de rock, detalhes eletrônicos, som lounge e vocais doces, além da mescla em doses iguais de peso e estranhice, que os suecos apresentaram no álbum First band on the moon (1996)”.
12 SOFIA FREIRE, “PONTA DA LÍNGUA”. “Um disco de MPB feito com base no synth-pop. Mas não pense na MPB dos anos 1980, porque o lance aqui é outro, unindo referências claras de música brasileira experimental, indie rock, indie pop, e até neo-soul”.
11 BOOGARINS, “BACURI”. “Impossível não pensar em Dorival Caymmi ao começar a ouvir Bacuri, disco carregado de brasilidade e baianidade, cuja abertura é com a faixa-título – uma canção meditativa, com percussão funcionando quase como um relógio e a letra cantada pelo baterista Ynaiã Benthroldo, quase como um mantra”.
10 MILTON NASCIMENTO E ESPERANZA SPALDING, “MILTON + ESPERANZA”. “Sim, Milton Nascimento está cantando muito bem. Mesmo que sua voz não seja mais a dos anos 1970 e 1980, ele se adaptou otimamente ao barítono atual, e segue a vida. O fim das turnês é providencial para o sossego do homem de 81 anos, mas o artista vai bem”.
09 PAPANGU, “LAMPIÃO REI”. “O ideal é resistir à tentação de colocar o Papangu na mesma prateleira de bandas influenciadíssimas pelo rock brasileiro dos anos 1970. Até porque Lampião Rei não existiria sem o tom gutural do black metal, sem o stoner rock e até sem a criatividade associada ao ‘faça você mesmo’ do punk”.
08 ORUÃ, “PASSE”. “Echo and The Bunnymen, Pink Floyd do começo e Jorge Ben – além de sons de terreiro, partículas de psicodelia californiana, e toda a carga da vida urbana, da luta diária, da resistência suburbana. Todas essas coisas juntas, com o filtro deles, são Oruã”.
07 NICOLAS NÃO TEM BANDA, “NICOLAS NÃO TEM BANDA”. “Existe algo ‘politicamente incorreto’ no imaginário desse grupo paulistano – só que da mesma forma perturbadora e incômoda que se esperou por vários anos que a incorreção cultural agisse, e não com o mesmo tom imbecil e reacionário associado a esse tipo de coisa”.
06 THALIN, CRAVINHOS, VCR SLIM, PIRLO E ILOVEYOULANGELO, “MARIA ESMERALDA”. “Difícil dizer se Maria Esmeralda vai criar uma escola no rap. Mas provavelmente muita gente que ouvir o disco vai decidir escrever um livro que tenha a mesma intensidade, ou dirigir um filme. E quem sabe, vira livro ou filme.”.
05 MIRAGEM, “MUITOS CAMINHOS PRUM LINDO DELÍRIO”. “Não dá para não prestar atenção numa banda que consegue se envolver simultaneamente com música brasileira dos anos 1970, psicodelia, rock progressivo, pós-punk e guitar rock noventista. Tudo bastante unificado musicalmente”.
04 LÔ BORGES, “TOBOGÔ. “Em Tobogã, Lô parece ter seguido uma receita que emparelha vários elementos do rock britânico, além da natureza criativa do R.E.M. na época de discos como Out of time e Automatic for the people, e até um pouco de power pop na linha de bandas como Big Star”.
03 AMARO FREITAS, “Y’Y”. “Ouça sem olhar para os nomes das faixas e encarando-o como uma única peça musical, dividida em vários segmentos instrumentais, que sugerem um passeio marítimo – com direito a seres quase imaginários, mistérios, uma ou outra sensação de perigo, cenas quase de desenho animado”.
02 BLACK PANTERA, “PERPÉTUO”. “O tom metal-afro-latino que já aparecia em lançamentos anteriores ressurge em plena forma, servindo como ligação entre todo o novo repertório, com percussões e sons pesados dando o tom de faixas como o hino Candeia e o punk rock Boom!”.
01 CAXTRINHO, “QUEDA LIVRE”. “Daria para colocar o álbum de estreia de Mario Vitor Castro na gaveta dos retropicalismos, mas calma: tudo soa como se Luiz Melodia e Jards Macalé decidissem aderir à no wave, mas para responder aos discos de Lydia Lunch e James Chance, fizessem um disco brasileiro por opção, trevoso por raiz e psicodélico por vocação”.
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- E isso aqui também é 2024. E como.
Crítica
Ouvimos: King Gizzard and The Lizard Wizard – “Alien metal”

RESENHA: Alien metal, novo álbum do King Gizzard and The Lizard Wizard, abandona o metal esperado pela capa e mergulha em uma viagem de EDM, acid house, techno e psicodelia criada a partir de jams com sintetizadores.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: p(doom) Records
Lançamento: 14 de agosto de 2026
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A capa e o título dão a entender que vem aí (aham) metal pesado, mas o novo disco do King Gizzard and The Lizard Wizard é o álbum EDM deles. Alien metal, pra complicar um pouco as coisas, surgiu de jams ao vivo que a banda vem fazendo desde 2024 com um enorme sistema de sintetizador apelidado por eles de “Nathan”. Todo o material do disco veio de uma jam de uma hora feita por eles, igualmente ao vivo – isso porque eles chegaram a tentar fazer uma sessão em estúdio que não deu certo.
O King Gizzard tem um detalhe, digamos assim, básico, que perpassa toda a sua (enorme) discografia. Você pode optar por levar tudo bastante a sério, ou não – e seja como for, o grupo está se divertindo bastante no estúdio, o que facilita a compreensão de que aquilo tudo é uma bela zoeira psicodélica. Funcionando como uma viagem de uma só música, Alien metal tem cara de acid house feita para ser curtida por deadheads, com uma faixa-título frenética que fala em “adormeça sob as estrelas / brisa de verão com um toque de PCP”, seguindo para a letra simplificada de Superheavy, supercritic (“quando você se sente pesado / quando você se sente super, super, super, supercrítico”).
- Resenhamos também o disco anterior do King Gizzard, Phantom island.
Kill for the steel é como se o Manowar, ou uma banda de war metal, decidisse se transformar por um dia no Aphex Twin – o beat e a viagem das faixas anteriores evoluem para uma voz de robô repetindo “não desejamos a morte / mas mataremos pelo aço” (!). Level 5 parece o hino de uma sociedade robotizada, assustada e escondida (“agente funerário, não me faça parecer feio esta noite / tenho um encontro com o fim do mundo”). As letras de modo geral têm frases simples, abertas a mil interpretações, mas altamente comunicadas com o “alien” do título do álbum, porque mesmo os momentos de diversão do disco vêm com um toque de recado pra manada.
Um certo tom mais calmo toma conta de Alien metal nos teclados e na voz robótica de Rapid alpha decay – para depois tudo virar uma terapia eletroconvulsiva em UQT, e um instrumental sombrio em Atomic collapse, com ruído de robô sendo desligado no fim. Tudo a ver com um disco “gravado no futuro por alienígenas”, como diz a própria banda – e não custa lembrar, a obra do KG não está no Spotify e pode ser escutada no Bandcamp.
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Crítica
Ouvimos: Getdown Services – “Massive champion”

RESENHA: O novo álbum do Getdown Services, Massive champion, leva o pós-punk para um território cada vez mais estranho, misturando blues-rock, eletrônica lo-fi, humor absurdo e letras sobre situações bizarras do cotidiano.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8, 5
Gravadora: Breakfast Records
Lançamento: 14 de agosto de 2026
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Se você achava bandas como Viagra Boys o máximo da sacanice, o Getdown Services mostra que as coisas podem ficar ainda mais esquisitas. Massive champion, segundo álbum do grupo (cuja discografia inclui EPs que foram resenhados neste site) abre com Poor bannister, um country bem estranho em que o narrador é um sujeito que anda de ônibus e vê o colidir de dois destinos: uma senhora que dorme despreocupadamente dentro do coletivo, e um sujeito que acaba de vomitar na própria calça e no corrimão do ônibus.
Já I can’t die like that tem algo da mescla de blues-rock com pós-punk, que atingiu nomes como Lou Reed nos anos 1970 / 1980 – aliás esse é basicamente o som do disco e da banda. Na letra, um bando de pensamentos desconexos, provavelmente tidos por um pobre coitado antes de partir desta para uma melhor, embora a banda prefira dizer que se trata da “sensação de coisas simples se complicarem”. Já Probiotic… Bom, ninguém provavelmente pensou em compor um rock iletrado, igualmente lembrando Lou Reed, sobre a saúde da flora intestinal. Eles não só pensaram, como compuseram – e encheram tudo de solos ruidosos.
- Ouvimos: Man/Woman/Chainsaw – Cannonball
Entre vocais falados e climas bem estranhos, Massive champion ganha um ar mais eletrônico em Cha cha slide e no eletrorock lo-fi The radiator – esta, uma estranha homenagem a pessoas que, ao lidarem com objetos que não funcionam, ficam com raiva e derrubam tudo no chão. Um clima predominante no disco é o de músicas que soam como módulos bem estranhos, em que a letra vira uma narração e a melodia vai se repetindo. É como se alguém apodrecesse a fórmula sonora de Low rider, sucesso do War – embora em vários momentos, o Getdown Services dê mostras de que ouviu todos os discos do Cake e saiu cortando o que não servia para seu projeto musical. Essa impressão surge especialmente em canções barulhentas como The definitive map.
Massive champion tem até, digamos, uma balada indie de amor, What’s in your mind? – mas a letra parece mais a descrição da doideira de alguém MUITO apegado. Stop living, uma espécie de dance-pop “do contra”, traz pactos bem estranhos na letra (“eu não quero morrer / só quero parar de viver”). O synthpop de videogame No one likes me é a confirmação de que você deve agradecer de joelhos por não ser parente ou vizinho de nenhum dos personagens do álbum (“estou apertando o hamster até os olhos dele saltarem para fora / é por isso que ninguém gosta de mim / estou me fazendo de bobo ou é pura crueldade?”), enquanto o glam-punk Lentils une lentilhas, piolhos e eczemas na letra.
Há momentos no disco que, quanto mais acessível vai ficando o material, mais loucas vão ficando as situações – como no indie-pop Check the definition, de versos como “eu estava com vontade de amar / eu te direi quando a hora for certa”. A onda do Getdown Services é basicamente falar sobre aqueles momentos em que você ouve algo e ou: 1) acha tão absurdo que é melhor nem responder; 2) responde com olhar de contrariedade e um “oi?”; 3) responde com um “poderia repetir, por favor?”. Se isso rende em filme, em série e em meme, rende em música.
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Crítica
Ouvimos: Luluc – “Sweet thief”

RESENHA: Sweet thief, novo álbum do duo australiano Luluc, reúne folk minimalista, vocais harmonizados e uma atmosfera sonhadora, aproximando Simon & Garfunkel, Nico e Nick Drake de uma estética indie e lo-fi.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Community Music Group
Lançamento: 10 de julho de 2026
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“E se Simon e Garfunkel tivessem se juntado a Nico em sua fase mais suave?”, questiona o blog do Bandcamp ao falar do Luluc, um duo australiano formado por Zoë Randell e Steve Hassett, que toca há duas décadas juntos. E, a julgar por Sweet thief, os dois preferem continuar fazendo música sonhadora e simples.
Sweet thief chega a ser minimalista, numa abordagem em que metade das músicas tem menos de três minutos – e no geral, tudo, mesmo Homesick in L.A., um “épico” de quase cinco minutos, percorre caminhos absolutamente naturais. No geral, os dois tocam como menestréis, com violão “seco”, como que gravado em fita K7, e vocais harmonizados.
A curta Honeyeater, que abre o álbum, oferece justamente isso como demonstrativo. Mesmo quando o som fica mais formalmente pop e mais elétrico, como na nostálgica Rewarding melody, ou mais experimental, como na balada-drone Dopamine slot machine (que depois se torna uma “lentinha” de baile), a impressão não é muito diferente.
- Ouvimos: Power Snatch – EP2 (EP)
Sweet thief tem muito daqueles temas de novelas dos anos 1970, ainda que tudo ganhe uma textura esparsa e “indie”, como na balada soul-country Wanna get free – com letra idealista lembrando que “tudo bem querer ser diferente / tudo bem querer ser livre”, lado a lado com um verso que diz “você foi feita para sorrir e rebolar” (!).
Parece papo de maluco beleza e talvez seja mesmo. Fui pesquisar umas resenhas do Luluc e descobri que há muita gente que leva bastante as letras deles a sério (resenhando Sweet thief no site Pitchfork, Brian Howe disse que as músicas deles têm “um tom didático”).
No geral, mesmo quando tentam ser poéticos, como em No one else’s pen e A better truth, Zoë e Steve soam como andarilhos passando por uma cidade pequena, com violão pendurado como se fosse mochila – e boa parte do material soa como um fluxo de consciência que, com raras exceções, funciona a favor da dupla.
Perto do fim do disco, dá super certo, por exemplo, na solitude contemplativa de Better truth, que lembra Nick Drake (influência deles, que chegaram a cantar covers de Nick), ou na beleza de Lullaby, uma curtinha canção de ninar. Homesick in LA põe vibe de folk urbano no disco, com comentários sobre a Sunset Boulevard e o sol de Los Angeles, e encerra Sweet thief com um pouco de ruído e fantasmagoria.
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