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Crítica

Ouvimos: Katy da Voz e As Abusadas – “A visita”

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Álbum novo de Katy da Voz e As Abusadas, A visita mistura funk, punk, metal e synthpop em faixas violentas, sexuais e empoderadas, homenageando Claudia Wonder com energia feroz.

RESENHA: Álbum novo de Katy da Voz e As Abusadas, A visita mistura funk, punk, metal e synthpop em faixas violentas, sexuais e empoderadas, homenageando Claudia Wonder com energia feroz.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: Independente
Lançamento: 22 de outubro de 2025

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Travesti ativista do underground paulistano oitentista, Claudia Wonder era chegada em doideiras como cantar banhada de sangue, ou numa banheira de groselha – numa ocasião, a groselha foi parar no olho de João Gordo, segundo o próprio contou em entrevistas. Também esteve à frente de bandas de rock como o Jardim Das Delícias, grupo com sonoridade pós-punk (a música-título Jardim das delícias, que está no YouTube, lembra o Teardrop Explodes) que contava com integrantes do grupo paulistano Kafka na formação.

  • Ouvimos: Mia Badgyal – Mucho sexy

Daí que Claudia é bastante lembrada como inspiração em A visita, novo álbum do trio Katy da Voz e as Abusadas – basicamente uma união azeitada de funk, house music, punk e metal, indo além de nomenclauras como electroclash e outras coisas. O disco começa com Santo, synthpop com bateria de escola de samba, spoken word, participação de Lynn da Quebrada, guitarra pós-punk e uma anti-oração na letra (“me traga saúde, saudade, dinheiro / você está me escutando, santo?”). Navalha une metal, funk e batidão dance, numa porrada existencial e musical. Na força do ódio mantém um clima unindo batida forte, sexo e zoeira.

Existencialmente, A visita não é putaria pura e simples – como rola no disco de Mia Badgyal, Mucho sexy, é afirmação, empoderamento, sexo e uma estranha vontade de devolver os maus-tratos do mundo numa moeda bem mais violenta e sexualizada. Daí tem a dance music derretida e pesada de Sufocunty e o metal dance de Salto (com MC Taya, que ajuda a música a quase se transformar em algo parecido com um Ministry Miami-bass).

Tem também a zoação de rolar de rir de QRcude – esta, um funk violento que lembra Cabaret Voltaire e Alien Sex Fiend, e que pede que você escaneie “seu cu na porra do Qrcude / cria um código / põe um foto / para ver sua nude (…) / e já podemos foder ele / a partir de hoje”. No final, Disco inferno, um synthpop vingativo e cheio de altas energias, que preconiza: “eu vou pro inferno / e quando eu achar essa vagabunda no inferno / eu vou matar ela de novo”.

Pode ser que não aconteça com Katy da Voz, Palladino Proibida e Degoncé Rabetão o que elas pedem no funk pesado Famosa (“famosa eu quero ser / acordar às 8h / e aparecer no Mais você”, gritado entre samples do “top de 5 segundos” da Rede Globo). Quem perde é a televisão matinal brasileira, por não programar essa afronta musical e underground.

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Crítica

Ouvimos: Ed O’Brien – “Blue morpho”

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Resenha: Ed O'Brien - "Blue morpho"

RESENHA: Ed O’Brien mistura prog, psicodelia e influências brasileiras em Blue morpho, disco introspectivo que supera expectativas sobre sua carreira solo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Trangressive Records
Lançamento: 22 de maio de 2026

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Já vi gente comparando a carreira solo de Ed O’Brien, guitarrista do Radiohead, às “crises de diarreia” solo de George Harrison fora dos Beatles – calma aí, né? Não dá pra comparar uma coisa com a outra de jeito algum, nem Thom Yorke é um gênio do rock como John Lennon e Paul McCartney. Pode ser que, ao adotar uma vibe meio zabelê para seu novo disco solo, Blue morpho, Ed esteja trabalhando na cabeça de fãs e crítica uma imagem “espiritualizada” que ele quer que funcione como a de Harrison.

Aí é com ele. Blue morpho, basicamente um disco progressivo, surgiu de matutações e depressões durante a pandemia, e tem entre suas inspirações, uma frase do poeta e agricultor Wendell Berry (“para conhecer a escuridão, vá até ela”) e as práticas de respiração e exposição ao frio do palestrante motivacional holandês Wim Hof. O som do álbum é frio e até meio sombrio – mas parece uma sombra que você procura, nada a ver com as trevas que aparecem na vida de vez em quando.

  • Ouvindo: Modest Mouse – An eraser and a maze

As faixas surgem da simplicidade e da repetição, e vão crescendo aos poucos, como acontece com Incantations, na abertura, e Sweet spot – esta, algo entre O Terço e as passagens de violão do Pink Floyd, encerrando com um clima meio cigano no arranjo de cordas. Mas Blue morpho vai seguindo todo trabalhado na exuberância, em músicas como a faixa-título, um monolito orquestral de seis minutos (e que, só pra ficar no prog verde-e-amarelo, lembra demais Milton Nascimento e Lô Borges, por sinal). A psicodélica Teachers tem pegada funkeada e clima “tóinnnn” na onda de bandas como Gong e Can.

O terço final de Blue morpho abre com Solfeggio e Thin places, músicas curtas, simples e instrumentais, trabalhadas tanto no progressivo quanto no post rock, mas que soam mais como fillers perigosos num disco de apenas sete músicas. A surpresa no final são os dez minutos de Obrigado, homenagem de Ed ao tempo em que viveu com a esposa e os filhos no Brasil, numa região rural próxima a Ubatuba (SP). Um simpático ijexá de gringo, herdado diretamente de Caetano Veloso (sim, a voz de Ed faz lembrar), e com algumas palavras em português – e que ganha pinkfloydismos no final.

Radiohead não é Beatles, Ed não é George Harrison, mas Blue morpho desce bem e soa bem mais interessante do que a atenção desmedida aos passos confusos de Thom Yorke.

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Crítica

Ouvimos: Big Special – “O’JOY!” (EP)

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Resenha: Big Special – “O’JOY!” (EP)

RESENHA: Em O’JOY!, o Big Special explora sombras, poesia falada e experimentalismos, ampliando o som ácido e inquieto do duo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: SO Recordings / Silva Screen Records
Lançamento: 5 de junho de 2026

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No excelente álbum National average, lançado ano passado, o Big Special soava como um EMF (lembra deles?) que entrou em órbita, ou como um desdobramento da receita doidona do selo Food, na virada dos anos 1980 para os 1990 – falamos exatamente isso quando resenhamos o disco. Agora chegou a hora de dar uma arrumada de respeito na casa: O’JOY! é um EP tamanho quase-família (dez músicas, meia hora de duração) em que Joe Hicklin e Callum Moloney dão uma reaproveitada no que não coube nos álbuns.

O material não coube pelas mais diversas razões – mas o Big Special não faz questão de facilitar nada pra ninguém e faz do disco um depositário de sombras e experimentalismos. Rola na poesia falada de ** e Only free when sleeping (essa, um soul gélido sobre bilionários cada vez mais bilionários), no funk-pós-punk de Plaintive native (cujo tema é a falta de esperanças, além do fim do mundo à vista), no folk punk de Lazarus e em todo o disco, que traz um design bem mais experimental que o álbum anterior.

Tanto que faixas como The wake e Family bones trazem sons como cenário – o que se desenvolve aí é a poesia crua e bem ácida do duo, sempre apontando para os momentos em que a humanidade parece virar geleia. Garden of fools é um ambient que aponta para um “ambiente” em que ninguém adoraria estar (“então continuamos atirando e semeando joias / para fazer brotar um jardim próspero de tolos / ao redor dos antigos túmulos / onde enterramos nossas ferramentas / depois que nos tiraram as mãos e a razão”).

Faixas como Slug life e Dragged up a hill são bem inesperadas – aliás, bem mais sérias, musicalmente falando, do que que tudo que o Big Special lançou até hoje, com belezas percussivas ou meditativas. O’JOY! vale como curtição, mas é um momento bem diferente na vida do duo.

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Crítica

Ouvimos: Tooth – “Restless in bloom” (EP)

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Resenha: Tooth – “Restless in bloom” (EP)

RESENHA: Punk, garage e pós-hardcore se cruzam no EP de estreia do Tooth, que entrega músicas intensas, sinceras e cheias de energia juvenil.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Soil To The Sun
Lançamento: 12 de junho de 2026

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Uma banda que se define como “suada e promissora”… Bom, seja lá o que queira dizer isso, o Tooth – autores aí da tal definição – se mostram exatamente isso em seu primeiro EP, Restless in bloom. Basicamente o som deles é punk e garage rock, herdado tanto do punk rock quanto do indie dos anos 2000, mas com uma tendência a surfar em torno dos ritmos. Ou seja: tem uma onda pós-hardcore sendo surfada por eles, igualmente.

  • Ouvimos: Sorosoro – Eu e você ou Tudo que eu não quero que você saiba

Rola logo na primeira faixa, Schoolyard, uma lembrança de tempos idos, reconhecendo que “a cidade engoliu a gente e cuspiu de volta”. O Tooth ainda margeia o pós-punk no arranjo funkeado e garageiro de The age of innocence, música falando de dores e traumas pessoais. Wallflower e Medicine chegam perto do emo, assumido como um dos estilos pelos quais a banda passa no disco.

A faixa-título, no final, une punk e power pop em torno de uma letra que, basicamente, fala sobre a chegada ao mundo adulto – o eterno “tenho 18 anos e não sei o que quero da vida”, que sempre rende música e letra. O Tooth promete mesmo, e tem muita verdade no som.

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