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Ouvimos: Husker Dü – “1985: The miracle year” (box set)

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Em 1985, o Hüsker Dü vivia uma fase prolífica, com shows incendiários e transição do indie à Warner - uma época que ganha um registro bruto e emocionante na caixa 1985: The miracle year.

RESENHA: Em 1985, o Hüsker Dü vivia uma fase prolífica, com shows incendiários e transição do indie à Warner – uma época que ganha um registro bruto e emocionante na caixa 1985: The miracle year.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: Numero Group
Lançamento: 7 de novembro de 2025

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Parece até um trecho de Quadrophenia, a ópera-rock do The Who: havia quatro Hüsker Dü diferentes convivendo naquele trio punk de St Paul (Minnesotta) em 1985. Bob Mould (voz, guitarra), Grant Hart (bateria, voz) e Greg Norton (baixo) eram simultaneamente a banda indie do selo SST, a banda que no fim do ano seria contratada pela grandalhona Warner, a banda que lançou em janeiro o venturoso terceiro álbum, New day rising, e a banda que em setembro soltou o poderoso Flip your wig – um disco no qual pouco se percebe da lascação sonora do início do grupo, substituída por um rigor power pop desenvolvido ano após ano.

Havia milhões de outros universos convivendo naquele grupo há 40 anos: Bob, Grant e Greg eram ambiciosos o suficiente para entender que uma grande gravadora seria fundamental para espalhar o som do trio – ao mesmo tempo, havia a ligação umbilical com a cena indie (a banda chegou a recusar pagamentos do selo SST para não prejudicar a gravadora). Tinham feito uma ópera-rock ruidosa e sensível, o álbum duplo Zen arcade (1984), que mesmo sendo gravada em condições adversas e com qualidade de gravação sofrível, mudou vidas – inclusive as deles próprios.

Unindo todas essas facetas, havia uma cola fundamental, que era a obrigação que o Hüsker Dü se impunha a cada show: tocar de forma incendiária. Como fizeram no dia 30 de janeiro de 1985, lançando New day rising no palco da casa de shows First Avenue, lá mesmo em Minneapolis, epicentro punk do Minnesotta. Atacando os instrumentos, com Mould aos berros, a banda apresentou pérolas da emotividade e da sensibilidade punk-hardcore: Everything falls apart, It’s not funny anymore, Books about UFOs, Pink turns to blue. Além de versões para Helter skelter (Beatles), Eight miles high e até para Love is all around (Sonny Curtis), o tema da sitcom Mary Tyler Moore – que se passava em Minneapolis.

  • A fase final do Hüsker Dü no podcast do Pop Fantasma
  • Relembramos: Warehouse: songs and stories, do Hüsker Dü?
  • Ouvimos: Bob Mould – Here we go crazy

É justamente esse show que abre 1985: The miracle year, caixa de LPs ou CDs recém-lançada (e já esgotada) pelo selo Numero Group. Quem não conseguir adquirir um exemplar físico pode ouvir tudo nas plataformas digitais – o primeiro disco, que traz o show, pega o/a ouvinte pela mão e exibe um pedaço da história do rock alternativo norte-americano e do punk local, passando pelo estranhamento hardcore, pela porradaria melódica, pelas referências de anos 1960 que Mould e Hart, os compositores da banda, eternos rivais, inseriam no som do HD.

Esse material foi gravado pela própria banda, de forma independentaça, usando equipamento de outro grande selo local, Twin/Tone – a ideia era lançar um disco ao vivo, que nunca foi publicado e só sai agora em The miracle year. Não para por aí: as demais 20 faixas de The miracle year passeiam por outros shows feitos ao longo de 1985, já adiantando o que seria Candy apple grey, primeiro disco da banda na Warner (1986). Era o álbum que parecia dar a vitória a Hart na disputa de quem-compõe-melhor: as excepcionais Sorry somehow e Don’t want to know if you’re lonely, ambas do baterista, estão lá. Só que Mould contrapunha I don’t know for sure, Eiffel Tower High e outras pérolas que também estão no disco ao vivo.

Há mais surpresas: Miracle year recupera, ao vivo, o lado B do single Don’t want to know if you’re lonely, que é All work and no play – e cujo refrão é aquela mesma frase do filme O iluminado, de Stanley Kubrick (“all work and no play makes Jack a dull boy”). A canção ganha sete minutos, com Bob descendo até a plateia para cantar com o público. O Hüsker faz bastante barulho com uma faixa de Flip your wig, que é The wit and the wisdom, e apresenta o out-take Misty modern days – cujo título parece uma paródia de Misty mountain hop, do Led Zeppelin, e cuja estrutura soa como uma refação punk na introdução de War pigs, do Black Sabbath. Ruído, melodia, confissões e emoções à mostra, para mudar vidas.

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Ouvimos: Starly Kind – “Inferno (xe/xem)”

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Resenha: Starly Kind – “Inferno (xe/xem)”

RESENHA: Starly Kind mistura lo-fi, screamo, pós-punk e psicodelia em Inferno (xe/xem), EP sombrio sobre angústia queer e demônios internos.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: CorpoRAT Records
Lançamento: 8 de maio de 2026

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Musicista agênero do Oregon, Estados Unidos, que se radicou em São Paulo, Starly Lou Riggs criou a Starly Kind como veículo para uma música lo-fi e fantasmagórica. Um som que volta e meia ganha ares math rock, ou que se aproxima de um art rock em clima de pesadelo. Inferno (xe/xem) é um EP sobre demônios xamânicos, angústia existencial queer, dores acumuladas durante uma vida inteira – e sobre como é chamar o inferno de casa.

Starly kind, a faixa de abertura, é lo-fizaça, com glitches, clima dreamy e vocais torturados e gritados. Held me with soma a isso um clima mais ambient, em que vibrações screamo unem-se ao experimentalismo da música. Superanatural clutches fica entre a psicodelia e a no wave, com direito a uma guitarra próxima do som do Black Sabbath. Uma curiosidade e uma mudança de rumo vêm com Bloodlust rising, algo entre Beach Boys, Residents e Devo – seguida justamente pela onda reggae + dub + fantasmagoria de And the devil watched me dance in.

  • Ouvimos: Delmore – Tão logo cada poste se ilumina

Demon dreams, que encerra o disco, é pós-punk mais do que tudo, e é a música mais bonita do EP – aliás lida com uma noção mais tranquila de “beleza” na melodia, ainda que também invista na vibe sombria das outras faixas. Um disco bem instigante, em todos os momentos.

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Ouvimos: Duo Violeta – “Mar pequeno”

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Resenha: Duo Violeta – “Mar pequeno”

RESENHA: Duo Violeta mistura violão, escaleta e folk nordestino em Mar pequeno, disco contemplativo, viajante e cheio de imagens sonoras.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: The Citadel House
Lançamento: 22 de maio de 2026

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Se você for com muita sede ao pote no disco do Duo Violeta e chegar meio desavisado, pode acabar adorando o encontro do violão com a sanfona. Depois vai dar risada quando descobrir que André Sant’Anna e Rafael Campanaro, são na real, e respectivamente, o encontro da escaleta – teclado de sopro popularizadíssimo pelo reggae e pelo dub – com o violão. Mais que isso, as gravações tiveram vários testes de estúdio, que envolveram posicionamentos dos músicos, microfones diferentes e muitas experimentações sonoras.

Mar pequeno tá bem longe de ser um disco experimental, mas passa perto. É um disco brasileiríssimo e quase sempre nordestino, que parece seguir o curso de um rio e contar uma história – já que as músicas parecem encadeadas e evocam imagens que soam do mesmo modo. Será marés, Na rede e O boto, no começo, são folk nordestino – sendo que a última insere clima sombrio e efeitos de tremolo na escaleta. Para a ilha é forró + jazz, mas tem algo de indie rock na sonoridade, até algo de Beatles no meio da melodia. Inverno no mar é balada, blues e folk, com final contemplativo e várias partes diferentes.

Esse clima de viagem sonora, que insere segmentos diferentes em canções curtas, chega no ápice na última faixa do álbum, Emergiu. Até lá, André e Rafael proporcionam surpresas como a melodia de À deriva, que chega a lembrar um soul no final. Ou a recriação da folclórica Peixe vivo, cujas linhas melódicas só se tornam claras lá pelas tantas. Ou o clima folk brasileiro de Náufrago. Um disco muito bonito.

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Ouvimos: Soma Please – “Ballet” (EP)

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Resenha: Soma Please – “Ballet” (EP)

RESENHA: Soma Please mistura synth pop, pós-punk e dream pop em Ballet, um EP que cruza Queen, U2, LCD Soundsystem e até samba indie.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Skud & Smarty
Lançamento: 14 de maio de 2026

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O Soma Please é um duo luso-britânico, formado pelos músicos Nuno Bracourt e Rob Williamson. Não chega a ser um som muito inovador, mas tem detalhes que conquistam de cara, já que Ballet, o EP, soa às vezes como um encontro entre estilos e épocas. Tipo o que rola com I’m a fan, entre o synth pop e uma onda que lembra o Queen, ou Love, um dream pop com peso. Pockets on my sleeves é pós-punk com alma oitentista, e algo de Radiohead e LCD Soundsystem misturado.

As duas últimas faixas do EP são as mais diferentonas do disco: Alone é um curioso pop meio samba, meio bossa, com cara indie e solar. What’s the score é mais ruidosa, abre com clima sombrio fake, e depois chega a lembrar um blues rock eletrônico. Ballet é um pequeno apanhado do som deles, e uma demonstração de sonoridades que estão no arquivo deles.

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