Lançamentos
Radar: Ebony, Marina Sena e Psirico, Tenório, Favourite Dealer, SantiYaguo, Zé Manoel

Hoje é o último Radar nacional do ano – em 2026 tem mais. O single novo de Ebony, que abre caminho para a versão deluxe do ótimo disco KM2, encabeça a lista, que está variadíssima como sempre. Ouça e passe adiante!
Texto: Ricardo Schott – Foto (Ebony): Emna Cost / Divulgação
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EBONY, “DONA DE CASA”. “Essa foi a primeira música escrita para KM2, e acabou ficando de fora da versão experimental. Ela foi pensada para ser uma forma de interlúdio, mas acabou sendo um dos versos mais potentes que já fiz na vida, e a escolhi para anunciar a versão completa do álbum”, conta Ebony, que lança em breve nas plataformas a versão deluxe de seu ótimo álbum KM2 (resenhado pela gente aqui).
Dona de casa, a tal música que ficou de fora, abre caminho para a nova versão do álbum, e detalha a luta de Ebony para chegar onde chegou – e o “onde chegou”, vale dizer, inclui datas já agendadas para divulgar o KM2 deluxe, levando seu rap feminista e aguerrido adiante. Aliás, confira abaixo as datas da KM2 deluxe, a tour.
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MARINA SENA feat PSIRICO, “CARNAVAL”. Em 2025, Marina Sena lançou seu terceiro disco, Coisas naturais – seu melhor lançamento até agora, conforme falamos em nossa resenha. E ela encerra o ano com um lançamento especial de verão, o EP Marinada vol. 1 – projeto multimídia que se estende ao audiovisual, cabendo um videoclipe oficial da versão estendida de Carnaval e cinco lyric videos, todos dirigidos por Marcelo Jarosz e Vito Soares. A tal nova versão de Carnaval ganha a participação de Marcio Vitor (Psirico), e mais foco ainda no batuque e na diversão.
TENÓRIO, “PEGA, MATA E COME”. Jazz também combina com perigo e tensão – a banda Tenório, que une improvisos, solos e experimentalismos, já havia mostrado isso com o single Pedra do rio não sabe que montanha é quente. Com Pega, mata e come, o segundo single, a coisa ganha contornos mais selvagens, soando como um bicho atrás de sua presa. Na formação do Tenório, Filipe Consolini (piano), Henrique Meyer (guitarra), Victor José (baixo) e Felipe Marques (bateria). Em 2026 sai o primeiro álbum.
FAVOURITE DEALER, “WAVES”. Destaque de uma cena de bandas nacionais que revitalizam o shoegaze, esse grupo curitibano já havia lançado dois singles em 2025, Frustrating e Drowning. O ano encerra para eles com Waves, faixa que destaca os vocais tranquilos, o clima quase psicodélico e as guitarras sujas – algo no meio do caminho entre o stoner e sons mais melódicos. E já tem clipe.
SANTIYAGUO, “T.O.C.”. Voltado para o metal + hard rock de terror, SantiYaguo (ou Santiago Miquelino, seu nome verdadeiro) pegou um blues-rock feito por ele com Tiago Teixeira, transformou em metal, e lá veio o single T.O.C.. A música ganhou um clipe bastante criativo, dirigido por Fabiano Soares, em que uma mulher é exorcizada por um padre fã de Black Sabbath (que usa Iron man, autobiografia de Tony Iommi, como Bíblia Sagrada).
ZÉ MANOEL, “CORAL” (CLIPE). Patrimônio Vivo de Pernambuco, o Samba de Véio da Ilha do Massangano surge em Coral, contrapartida audiovisual da faixa-título do novo disco de Zé Manoel – é até bem mais do que um clipe, com uma linguagem de curta-metragem. No vídeo, dirigido por Tiago Di Mauro, Zé Manoel chama a atenção para o corpo como território sagrado, casa da voz e da memória ancestral. “O corpo é o meu primeiro instrumento. Antes de qualquer canto, há o silêncio e o som da pele. O clipe de Coral é um ato de reconciliação com a própria natureza. É um renascimento, uma oferenda às águas e às minhas origens”, afirma. Tudo é bastante sensorial, e a água surge de maneira quase ritualizada ao longo do clipe (e resenhamos o álbum Coral aqui).
Crítica
Ouvimos: Bemti – “Adeus Atlântico”

RESENHA: Bemti mistura MPB, alt-pop e alt-folk em Adeus Atlântico, disco moderno, arejado e criativo, com viola turbinada e pop sofisticado.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Independente
Lançamento: 22 de janeiro de 2026
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Discos de música pop saem aos borbotões por aí, inclusive no Brasil – mas parece que Bemti, mineiro mais ligado ao universo da MPB, é um dos raros nomes brasileiros que resolveram entender o que é que artistas ligados a estilos como alt-pop e alt-folk andam fazendo lá fora. Isso porque Adeus Atlântico, seu terceiro álbum, é antes de tudo um disco atualizado musicalmente. Além de ser um grande disco, claro.
Com músicas feitas entre Brasil, Portugal e Inglaterra, Adeus Atlântico responde de modo mineiro à onda de artistas jovens influenciados por soft rock, sons oitentistas, folk e country – quem curte nomes como Juanita Stein, Soccer Mommy e Blondshell não vai se arrepender se der uma ouvida no álbum. Conhecido por fazer músicas a partir da viola caipira, ele turbinou o instrumento com pedais, fazendo com que ele soe também como guitarra, como violão de 12 cordas, e como central de efeitos sonoros.
O lance é que Adeus Atlântico não é só resposta – é criação de estilo, a partir do encontro de gêneros e ritmos. Faixas como Nenhum tempo a perder, Lua em libra (com os vocais de Marissol Mwaba) e Só pra ter você (com os vocais da cantora Thu e do britânico Fyfe Dangerfield, vocalista dos Guillemots) arrumam soluções novas para a fusão alt-pop de estilos como soft rock, country e alt-folk, acrescentando percussões mineiras, beats ligados ao amapiano (da África do Sul) e detalhes sonoros que fazem lembrar Lô Borges e Sá & Guabaryra – ouvidos também em Quase sertão, parceria com Haroldo Bontempo, e no dream folk da faixa-título.
Ainda que, às vezes, a viola de Bemti – combinada com o piano ouvido no disco – aponte para um Radiohead do sertão mineiro, introspectivo, viajante e cheio de efeitos, Adeus Atlântico é um disco arejado. Euforia, single com os vocais de Luar e o rap de FBC, é soft rock oitentista numa estileira que lembra Paralamas do Sucesso. Miragem (com o luandense Alex D’Alva), a belíssima Metal (que tem uma surpresa melódica no fim) e o single Melhor de três põem Bemti no mapa do pop sofisticado, unindo detalhes de blues e country a experimentação com beats. Já as letras são uma verdadeira travessia emocional-existencial, falando de viagens, amores e corres. Pop para ouvir em alto volume.
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Crítica
Ouvimos: Westside Cowboy – “So much country till we get there” (EP)

RESENHA: Westside Cowboy mistura country, punk e indie no EP So much country till we get there, reforçando a onda “britainicana” com clima ruidoso, psicodélico e imprevisível.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Adventure
Lançamento: 16 de janeiro de 2026
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Isso é assunto para o Clima de Época, a seção exclusiva para assinantes do nosso Apoia.se, mas lá vai: outro dia a Dazed falou sobre um gênero chamado britainicana, defendido pela banda Westside Cowboy. Vamos combinar que “britainicana” é um nome tão maluco quanto “forró universitário”, mas é essa mistura saudável de country norte-americano e punk + indie rock britânico que vem marcando os discos desses ingleses de Manchester. E esse termo vem igualmente dando um sentido de coletividade ao som de bandas como Black Country, New Road e Geese (vale comentar que até o Dry Cleaning, sombrio e pós-punk até a medula, deixou entrar ares country em seu novo disco Secret love).
So much country till we get there, o novo EP do Westside Cowboy, põe mais algumas pedras no caminho dessa discussão. This better be something great, EP anterior (resenhei aqui), deixava entrever mais o lado slacker, herdado do Pavement, desse quarteto. Dessa vez abrem o disco com um country funéreo, Strange taxidermy, que faz lembrar a união de Johnny Cash e Velvet Underground – uma estranha viagem punk, ruidosa, country e psicodélica, como se cada estilo fosse uma porca ou um parafuso adicionado na máquina. A letra é pura marginália country, seguida pelo clima misterioso de Can’t see, pós-punk + country, com peso, abertura maníaca e versos de pura estranheza (“é como se tivéssemos sido forçados a ficar juntos / e você tenta me matar / o vento estava forte quando você virou as costas”) e pelo clima aventureiro de Don’t throw rocks, faixa que acha um lugar definitivo para a slide guitar no som indie.
Mesmo com dois bons EPs lançados, ainda fica meio complexo definir se o Westside Cowboy criou um estilo ou não – na verdade, talvez a vibe de “aqui tudo pode acontecer” do som deles, ou a esquina entre country e noise rock que marca uma parte boa do repertório, já formem um estilo. Essa onda toma conta do EP de vez nas duas últimas faixas: o belo e ruidoso pós-punk The wahs, com emanações de Pixies e Sonic Youth, e a caseira In the morning, música de voz, violão, percussões, e guitarra, gravada de modo despojado, como numa viagem de amigos – e cuja letra lembra uma canção tradicional de escárnio.
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Crítica
Ouvimos: Lemondaze – “Subtext” (EP)

RESENHA: Lemondaze cruza pós-punk e post-rock em Subtext: faixas hipnóticas, guitarras em nuvem, peso crescente e climas cerebrais à la Brian Eno.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Venn Records
Lançamento: 5 de dezembro de 2025
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Um dos orgulhos do selo britânico Venn Records (especializado em eletrônicos e noise rock), o Lemondaze vem de Cambridge, tem base em Londres e é basicamente uma união de post-rock e pós-punk. Subtext sai quatro anos após o EP de estreia, Celestial bodies, e investe no cruzamento de vibes cerebrais e emocionais em poucos segundos.
Polari, faixa de abertura, é som hipnótico que poderia até parecer shoegaze, graças às guitarras e ao vocal, ambos em meio a nuvens – mas tem um peso diferente, que vai crescendo ao longo da audição. C=bain, na sequência, é a maior faixa do disco (quase seis minutos) – uma faixa lenta, marcada por guitarras que vêm lá de longe e por um vocal mântrico, quase indianista.
Já O (type) e Gravemind são músicas quase espaciais, cheias de ruídos de guitarras e com uma arquitetura quase progressiva. O mesmo rola na lindíssima Terra (o nome da faixa é esse mesmo), que encerra o EP: nuvens de guitarra, saturações musicadas e um clima de música produzida por Brian Eno. Uma beleza para se curtir no último andar, e no último volume.
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