Crítica
Ouvimos: Home Front – “Watch it die”

RESENHA: O Home Front mistura punk e synthpop com criatividade rara: teclados, vibe pós-punk e referências 80s dão forma ao potente Watch it die.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: La Vida Es Un Mus
Lançamento: 14 de novembro de 2025
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O Home Front não vem da mesma cena do Turnstile. É uma banda canadense (o Turnstile é estadunidense do Baltimore), que grava por um interessantíssimo selo londrino chamado La Vida Es Un Mus. Há um certo contexto que une os dois grupos, e que passa pela busca pela elaboração e por uma linguagem diferente para o bom e velho punk rock, além do uso de elementos que, há uns trinta anos, causariam tristeza em qualquer punk – referências pop, uso de teclados e eletrônica, etc.
Se rolasse uma disputa entre as duas bandas, o Home Front sairia disparado na frente, por causa de seu som bem mais criativo e elaborado, e pela disposição para chutar as barreiras mantendo uma certa unidade conceitual. Watch it die, segundo disco da banda, opera numa esquina improvável entre Orchestral Manoeuvres In The Dark e The Clash – ou entre Human League e Ramones. E responde à podrérrima onda eggpunk, marcada por teclados mal ajambrados e espaciais, com uma categoria synthpunk de surpreender.
- Ouvimos: Negative Blast – Destroy myself for fun
Tem um lado emo forte em algumas músicas de Watch it die, mesmo quando a disputa aqui é entre as referências de Devo e as de Ramones. Isso rola na faixa-título, no eletropunk de New madness, na depressão de divã de terapeuta de Light sleeper (com frases como “um pedaço do meu espírito morre a cada dia” e “nascemos sozinhos, morremos sozinhos”). Rola um pouco na beleza despojada de Between the waves, aberta com teclado lembrando Ultravox, prosseguida com ar pós-punk e selada com o encontro entre teclados e uma base punk herdada de Sex Pistols. Young offender faz uma espécie de eletro-Motörhead, mas desembocando em lembranças de Havanna affair, dos Ramones.
Recordações de OMD e até de Kraftwerk pairam sobre Eulogy e The vanishing, enquanto Kiss the sky mais parece uma mescla de Human League, Depeche Mode e Offspring – sim, é possível. E o clima do Clash bate ponto na realista For the children (Fuck all). Mais: Always this way é rock nostálgico curtido no punk e no synthpop (mas com recordações de Why is it always this way?, dos Ramones). Dancing with anxiety une vocais falados à Ministry e qualquer coisa a ver com o disco Feline, dos Stranglers (1982). Os cinco minutos da épica Empire tem tristeza herdada de The Cure e das menos animadas do Human League.
Nas letras… O Home Front parece ter certa obsessão por aquele estado de espírito que Gilberto Gil resumiu num verso de Tempo rei (“não se iludam / não me iludo / tudo agora mesmo pode estar por um segundo”), mas sem nenhuma vibe zen. Falam de agressividade masculina e de heranças do patriarcado na faixa-título, discorrem sobre heranças de sangue e morte (e impérios caindo) em Empire, tentam lidar com raiva e dor em Light sleeper, lembram do que não será como antes em Between the waves, e fazem o balanço da bancarrota em For the children.
A vida entre remédios controlados, por sua vez, vira assunto em Dancing with anxiety. E Eulogy, um tributo a amigos que se foram, resume as pedradas do dia a dia com um verso lapidar: “não tenho medo de morrer / a parte em que eu estou vivo é que é dureza”. Atitude, emoção e som.
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Crítica
Ouvimos: Catïça – “Cereja de xuxu”

RESENHA: Em Cereja de xuxu, a banda Catïça, de Londrina, mistura punk, crossover e grunge em dez faixas rápidas, com humor ácido e críticas sociais.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Deck
Lançamento: 23 de outubro de 2026
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Tinha uma lenda de que algumas sorveterias e lojas de doces, sem grana pra comprar cerejas, usavam o chuchu para produzir uma imitação horrenda da iguaria, que servia apenas de enfeite. Vindo de Londrina, o Catïça decidiu partir para a zoeira chamando seu segundo disco de Cereja de xuxu (e não “chuchu”). Mas não tem só gozação – ou melhor, ela vem filtrada em temas como cena underground, política e até playboyzices do dia a dia (devidamente sacaneadas no pós-punk Petit comité).
O disco do Catïça tem lá suas semelhanças com Magia, estreia do Budang – a saber: união de várias vertentes do punk em torno do crossover, uso de expressões locais (embora o disco dos catarinenses do Budang seja cantado quase em dialeto), porrada sonora destacando o baixo, músicas rápidas (são dez faixas em 15 minutos). O grupo fala do amor à música e à estrada em Sofá cubista e Em todos esses anos nessa indústria vital, essa é a primeira vez que isso me acontece (sim, o título foi tirado daquele desenho do Pica-Pau), lembra histórias de sua terra em Pé vermei e avisa que a taxação de grande fortunas vai rolar nem que seja na porrada (em Surpresinha).
O crossover bate mais forte em faixas como Chosen e Sofá cubista, além da sacanagem religiosa Crente canibal. A curiosidade aqui é Vixvéi, grunjão da massa em que o Catïça soa como uma banda fanática por Alice In Chains (!).
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Crítica
Ouvimos: Sophia Stel – “The greatest album of all time”

RESENHA: Em The greatest album of all time, a canadense Sophia Stel mistura electropop, trip-hop e dream pop para falar de solidão, insegurança e vida noturna.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: A42 Music
Lançamento: 16 de outubro de 2026
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Nem tudo na música eletrônica é feito pra dançar, e nem tudo que é feito pra dançar é alegre e eufórico. Mais: estilos como electropop muitas vezes falam mais de tristezas e porradas da vida – ou são perfeitos para falar daquele momento em que a festa acaba e só resta você, suas circunstâncias e questões para resolver.
The greatest album of all time, estreia em álbum da canadense Sophia Stel, de 27 anos, vai bastante por esse caminho. Sophia cresceu numa família religiosa de 11 filhos, já lançou dois EPs e gravou quase todo o disco sozinha, em hotéis e apartamentos alugados durante turnês. O título começou como uma brincadeira e acabou virando uma maneira de espantar a síndrome da impostora.
O som é indietronica com estiileiras trip-hop, electropop, dream pop … Sophia canta como se estivesse meio entorpecida, alternando sussurros, falas melódicas e uma espécie de rap arrastado. Em vários momentos, a voz soa quase robótica, como se tivesse sido programada para cantar daquele jeito – e o auto-tune ajuda bastante nisso. Mesmo quando fala de sentimentos intensos, ela parece não estar nem aí.
O disco fica melhor quando Sophia consegue fazer música sombria e dançante ao mesmo tempo. On my dick, cuja letra soa como uma confissão de autoconfiança bastante exagerada e sarcástica, abre com um pop eletrônico quase psicodélico e escuro. Molly in the club, sobre a solidão e a confusão emocional provocadas pela vida noturna. tem algo de trip-hop, mas a viagem fica por conta dos vocais cheios de eco. Em Like a kite, uma batida que lembra um relógio vai ganhando teclados que mudam completamente o clima da música. Já I’ll walk começa com cordas tensas e piano grave, antes de cair num trip-hop tranquilo, cheio de teclados.
Tem ainda a dance music discreta de Better believe it, o dream pop de 15 hours away e o canto quase falado de Now I’ve got a lot you know, que depois ganha até uma batida próxima do reggaeton. O problema é que, com 12 faixas, o álbum acaba ficando um pouco inchado, e nem todas as ideias funcionam tão bem.
Mas quando Sophia acerta, faz uma eletrônica ótima para dançar com a cabeça cheia de problemas. O final, com o batidão tímido de Burn, é a conclusão positiva e sarcástica do disco: Sophia fala que quer viver intensamente – só faz questão de lembrar que na idade dela (27), uma renca de gente partiu.
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Crítica
Ouvimos: Jardim Depressa – “O pequeno deus do sol” (EP)

RESENHA: No EP O pequeno deus do sol, a banda paulista Jardim Depressa mistura pós-punk, shoegaze e psicodelia em quatro faixas de tensão e angústia existencial.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 29 de setembro de 2026
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Pós-punk e psicodelia já se encontraram muitas vezes. E já tiveram um casamento consumado por estilos como o shoegaze. No EP O pequeno deus do sol, a banda paulista Jardim Depressa celebra a união em clima de tensão sonora, sombras e experimentalismo, como no spoken word percussivo da faixa-título e no clima soturno, quase post-rock, de Em seu lugar – música que depois vai ganhando uma onda venturosa.
Curto, o disco tem quatro faixas separadas por uma vinheta, Vênus, com dedilhados e clima sonhador. Diabo, lançada em single, é ágil, melancólica e tensa, com uma gravação meio lo-fi (você pode achar que se trata de uma banda dos anos 1980) e uma parede simples de guitarra que encobre os vocais. Quando comentamos sobre essa faixa, vimos referências de bandas como Kitchens Of Distinction e House Of Love.
No final, Tempestade vem com clima angustiado e acústico. Na letra, pensamentos sobre o mal, o tempo, e a maldade que nunca dorme. Sonzeira existencial e perturbadora.
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