Crítica
Ouvimos: Paul McCartney e Wings – “Wings” (coletânea)

RESENHA: Coletânea Wings relembra a fase 1971–79 de Paul McCartney, quando liderou a banda que dá nome ao disco. É pop-rock brilhante entre caos criativo, hits abundantes e a busca de um novo caminho pós-Beatles.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: MPL / Universal
Lançamento: 7 de novembro de 2025
- Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.
Não bastasse ter formado os Beatles e ter sido o grande responsável pela virada artsy e psicodélica do grupo – que gerou o clássico Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) – Paul McCartney foi responsável por um dos maiores “isso não vai ficar assim!” da história do rock. Foi o primeiro a anunciar publicamente que a banda estava acabando e ainda completou a vingança montando uma outra banda poucos anos após deixar o grupo. Tudo bem à moda do ego enorme do ex-beatle, que queria provar ser capaz de fazer parte de duas bandas de rock históricas e importantes.
Na real, não é bem assim: o Wings, grupo que Paul montou para ser o dono da bola – e para fazer tudo que ele já queria fazer nos Beatles, só que sem os outros três na cola dele – mal pode ser chamado de “grupo” de fato. Era uma turma cujo núcleo duro era concentrado em Paul (voz, baixo, guitarra, teclados), Denny Laine (guitarra), Linda McCartney (voz e teclados) e, por uns tempos, Denny Seiwell (bateria).
- Ei, temos um episódio do nosso podcast Pop Fantasma Documento sobre Paul McCartney e o começo da era dos Wings.
Essa galera era complementada por outros excelentes músicos que saíam/eram saídos à medida que batiam de frente com o patrão. Paul era um grande rockstar, um amigo camarada e… um chefe abusivo, do tipo que confundia trabalho com diversão. Certa vez, marcou uma viagem relax com os músicos e suas famílias na sua fazenda na Escócia. Só que as esposas não foram avisadas de que aquilo na real era um ensaio disfarçado, e o convescote logo virou trabalho.
Tinha mais: as gravações de Band on the run (1973) foram marcadas em Lagos, na Nigéria, porque Paul queria pegar uma praia com a galera antes de ensaiar – ele só não sabia que o país estava na época lamacenta das monções, muito menos da pobreza e violência locais. Além disso, ex-colaboradores fofocavam que Paul pagava pouco e ainda por cima não permitia que músicos-estrela como Seiwell e Henry McCullough (guitarra) descolassem freelas. Vale dizer que o caos conceitual já começava nas nomenclaturas que mudavam a cada álbum (Paul McCartney, Paul e Linda McCartney, Paul e Wings, Wings… até a EMI e os fãs ficavam de saco cheio).
Se Paul tinha lá seus (inúmeros) momentos de confusão como gestor de sua própria banda, musicalmente sua discografia entre 1971 e 1979 é puro ouro – com a vantagem de que sempre parecia acontecer alguma coisa em meio àquele som. Como aconteceria depois com os discos de Rita Lee e Roberto de Carvalho, álbuns como Wild life (1971), Red Rose speedway (1973), Band on the run (1973) e Venus and mars (1975) faziam vir à mente a imagem de turnês lotadas, viagens pelo mundo, entrevistas reveladoras, dias na fazenda, crianças e cães brincando em meio às gravações.
O som não apenas dos LPs, mas também dos singles com músicas exclusivas, era rock, mas era pop até a medula. Entre os hits, Band on the run, Let ’em in, Silly love songs, Junior’s farm, Hi hi hi, Live and let die, Love is strange, Mamounia, Listen to what the man said. Todos habitando um local entre o rock originário, o soul, o doo wop, a fanfarra jazzística, o power pop e os beats africanos que Paul foi aprendendo a amar.
Essa época acaba de ser relembrada em Wings, coletânea do segundo grupo de Paul, com 32 faixas (na versão deluxe, que pode ser ouvida nas plataformas) e todos esses hits e mais alguns. O ex-beatle decidiu entrar num mercado concorrido, inchado, repleto de obras de elaboração caríssima e de turnês nababescas, só que oferecia uma visão em que rock e música pop coexistiam – com evocações dos próprios Beatles e de nomes como The Who, Elton John, Stevie Wonder e Steely Dan.
- Ouvimos: Paul McCartney e Wings – One hand clapping
Apesar dos beatlemaníacos radicais indignados e dos haters colecionados ao longo do caminho, aquela nova fase era barbada. Paul conseguia ser genial até mesmo quando o caos tomava conta – e isso acontecia muitas vezes. As extensas turnês mostravam que, mais do que tudo, havia demanda: de fãs antigos, de gente que não se reconhecia nas provocações do pré-punk e dos próprios Rolling Stones (e na própria incerteza de John Lennon), de entusiastas do formato arena que bandas como Queen levariam bastante a sério. E de gente que preferia ouvir baladas sonhadoras e imagéticas como London Town ou a nostalgia de Mull of Kintyre. Wings, o disco, traz todo esse universo de volta.
- Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
- E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.
Crítica
Ouvimos: Body Type – “Tally”

RESENHA: Em Tally, o Body Type mistura noise rock, pós-punk, indie pop e harmonias vocais inspiradas nos anos 1960, criando um álbum melódico, ruidoso e influenciado por Pixies, Breeders e Warpaint.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: p(doom)
Lançamento: 24 de julho de 2026
- Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.
Lançada pelo selo do King Gizzard and The Lizard Wizard, p(doom), essa banda da Austrália faz noise rock doce, se é que isso é possível – e no caso delas, é. É um som que teria tudo para ser mais ruidoso, e até que tem ruídos de guitarra (herdados de bandas como Pixies, Breeders, Warpaint) na argamassa sonora. Mas o “noise” é mais imaginário do que verdadeiro. No geral, o Body Type é uma banda com heranças do pós-punk, do rock alternativo da virada dos anos 1980 para os 1990, e das Shangri-Las.
Sim, porque as harmonias vocais e a noção de que toda música tem que esconder um drama, Tally, o terceiro álbum, herdou delas. Esse clima surge nas inseguranças amorosas de And what else?, no drama do amar-sem-ser-amada de Sick bag, na bela melodia de Mulberry, na brincadeira sonora a la Yoko Ono de Eye is a mouth is a face. A vibe geral é de um rock que não existiria sem que os anos 1960 tivessem acontecido, mas que deve igualmente ao punk, e que passeia também por uma noção bruxesca de vocal que chega perto de B-52’s. As tais referências de Warpaint, acháveis em todo o disco, não vêm à toa: Stella Mozgawa, baterista do grupo, produziu o disco.
- Ouvimos: Ian Sweet – Shiverstruck
Tally tem algo entre Television, Clash e Rolling Stones na faixa-título, enquanto To give a rose, levada adiante por baixo e base simples de guitarra, chega a ameaçar um shoegaze – e no geral é uma canção que deve tanto a Pixies quanto a Strokes. Planet 8 une punk e indie pop, usando os anos 1960 como cola. Mesma coisa em Do you want to cry your eyes out?, que soa como o Lou Reed de New York (1989), mas tentando soar como um girl group dos anos 1960.
O final, com Everything all in a row, tem algo forte de soft rock nos vocais e na composição – mas tem riffs análogos aos de River Euphrates, dos Pixies. É nessa mistura de épocas (e convenhamos, nessa suposta adoração ao grupo de Black Francis) que reside boa parte da identidade do Body Type. Ainda há o que percorrer, mas Tally é um disco legal e bem divertido de ouvir, mesmo quando fica meio deprê.
- Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
- E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.
Crítica
Ouvimos: Horney – “Anti-raso” (EP)

RESENHA: No EP Anti-raso, a banda paulistana Horney mistura punk, pós-punk, shoegaze e rock alternativo para abordar hiperconectividade, relações humanas e profundidade emocional.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Algohits
Lançamento: 30 de julho de 2026
- Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.
Quarteto paulistano com vibe punk e clima intenso nas composições, o Horney tem dois EPs e alguns singles gravados, e vê a era atual como um universo em que todo mundo anda hiper conectado, mas as conexões entre pessoas são poucas – entre as pessoas e a realidade, então, aí é que a coisa complica. Certíssimo, e um EP como Anti-raso já comunica esse mundo obscuro a partir de seu título.
- Ouvimos: Atmos Bloom – Everythingness
“Ser Anti-raso é escolher olhar para dentro de si e cultivar profundidade nas relações com quem está ao seu redor. É um convite para irmos além da superfície e vivermos essa existência de forma mais intensa”, diz a banda no texto de lançamento do EP, que é seu primeiro disco feito 100% em português. A sombria e ágil Off! fala do vício em ficar scrollando a tela do celular – e de como tentar ficar “fora” num mundo que está o tempo todo online. Quebra-cabeça, com Dani Buarque da banda The Mönic, põe climas eletrônicos, noturnos e existenciais no EP – antes do clima punk-metal-experimental começar, rola uma vibração que pode gerar até algo próximo a um trip hop, ainda que mais acelerado.
Na segunda metade de Anti-raso, Mergulhar põe tons entre o pós-punk e o shoegaze no som do grupo – e insere na roda o mergulho pessoal no amor, ou em qualquer coisa, sem medir a profundidade. Romântica parte do “ai de mim que sou romântica” de Rita Lee, e cria uma música de amor platônico que deve tanto a Slowdive quanto a Wolf Alice. Um som bem criativo.
- Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
- E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.
Crítica
Ouvimos: Ian Sweet – “Shiverstruck”

RESENHA: Em Shiverstruck, Jilian Medford, ou Ian Sweet, mistura indie pop, dream pop e soft rock para transformar ansiedade, desilusões amorosas e amadurecimento em canções melódicas, íntimas e emocionalmente intensas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Polyvinyl
Lançamento: 24 de julho de 2026
- Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.
Ian Sweet é o projeto musical + codinome da cantora e compositora Jilian Medford – um projeto, aliás, que já passou pelo dream pop, pelo shoegaze, pelo som derretido, pelo rock alegre lembrando Yeah Yeah Yeahs. E que vem se estabilizando numa onda quase soft rock, em que as melodias (bonitas) servem de moldura para histórias de amores cagados, ficações monumentais, beijos e mais cagação amorosa – e o ciclo volta.
Sucker (2023, resenhado aqui), disco anterior, veio pouco após Ian participar de um programa de terapia para ansiosos – e a história penetrou boa parte das letras do álbum, em que Jilian falava de sentimentos bem complexos, mas de uma maneira em que tudo parece mais uma daquelas seleções de tweets feitos pelo Chico Felitti ou pelo Sebastião Salgados.
Shiverstruck é meio que a continuação (hum) amadurecida do álbum anterior, como se pelo menos ela estivesse acostumada a tudo, em faixas como a balada sussurrada 987, o soft rock + dream pop Crimimal kissing, ou Silver Screen, uma balada “nas nuvens” a la Suki Waterhouse. Essa visão mais ensimesmada das coisas é tão séria que o disco tem até uma faixa chamada… Jilian, basicamente uma anotação mental em que diz que está bem sozinha e zoa sua própria imagem pública: “Jilian, vá em frente e diga a eles que você está farta disso / cantora triste, tão idiota / sexo ruim e cigarros / oh, é um mundo cruel em que você vive”.
Pois é: não deve estar sendo fácil falar de porradas amorosas e de pequenos venenos do dia a dia numa época em que todo mundo está fazendo o mesmo – você vai ter que arrumar o seu próprio jeito, talvez o seu próprio veneno. Se Jilian perder a visão meio ansiosa pela qual vê as coisas (repare: ela fez terapia especial para pessoas ansiosas…) talvez ela vire algo parecido com essa autoconfiança meio “gente como a gente”, que parece ter virado padrão – da já citada Suki a Phoebe Bridgers, passando até por alguns homens, é quase uma modinha.
Ok, imagina se a gente vai falar algo como “Jilian, o mundo precisa de sua ansiedade, não se cure!” – até porque de modo geral as letras de Shiverstruck mostram Ian Sweet lidando com todas as mudanças ao seu redor, como no indie-pop Deadweight e no folk montanhês da faixa-título (duas músicas nas quais ela admite que pode arrumar uns problemas para a vida de umas pessoas apaixonadas por aí). O pós-punk dreamy de Hired gun, por sua vez, é vitória pura: “Fuja agora, com o rabo entre as pernas / você sabe que fez algo ruim, nunca pensou que eu revidaria / e agora, mostrando seus dentes, o maior sorriso que você já viu / oh-oh-oh, você esperava o antigo eu? / bem, cinco anos podem mudar tudo”.
No final, um indie pop com clima sessentista e ruidoso (La la love) e um som sonhador (a marcial e etérea Wild heart) aguardam o / a ouvinte – tem ainda o folk Speed demon, no encerramento, quase uma música para o rolar de créditos. No geral, Jilian / Ian Sweet soa em Shiverstruck como o garoto que cansou de apanhar e chutou a bunda do valentão da classe. Musicalmente, o clima acompanha a viagem.
- Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
- E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.


































