Crítica
Ouvimos: White Lies – “Night light”

RESENHA: Em Night light, o White Lies mergulha no pós-punk com krautrock, soul e elegância à la Roxy Music, entregando um disco enxuto, inventivo e sempre bem encaixado.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Play It Again Sam
Lançamento: 7 de novembro de 2025
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Estranho que ninguém tenha resolvido implicar com o nome desse trio londrino (o termo “mentiras brancas”, usado geralmente para definir mentiras inofensivas, costuma causar polêmica). Independentemente de qualquer galho, difícil achar uma música menos do que ótima em Night light, sétimo álbum de Harry McVeigh, Charles Cave e Jack Lawrence-Brown. O novo álbum, mais do que seguir a onda do revival pós-punk, vai nas lembranças de uma época em que discos tinham poucas faixas, algumas músicas eram verdadeiros módulos sonoros e repetitivos, e o experimentalismo era a marca do estilo.
- Ouvimos: After Geography – A hundred mixed emotions
Night light já começa com Nothing on me, som oitentista, mas bem mais agitado e frenético, e que lembra a musicalidade do krautrock passada direto para o idioma do pós-punk, sem filtro. All the best surge emendada na faixa anterior, mas pula para o quase-reggae robótico, com clima apocalíptico – só que com vocal soul e com uma guitarra curiosa, que faz lembrar (pode acreditar) Mark Knopfler. O que poderia parecer uma mistura dura de engolir, no entanto, é uma marca da banda e do disco: guitarras com ar blues surgem em meio a sonoridade gélidas e robotizadas, como acontece também no soul fake de Everything is OK. Já Juice é krautrock transformado em algo romântico, existencialista e maior do que a vida – algo que o U2 já fez, o New Order também e o Joy Division se sentiu obrigado a fazer em alguns momentos. E a faixa-título une violão, programação simples e retrô, vocal soul e teclados celestiais.
Night light é um disco bem bonito – o experimentalismo surge a favor da beleza, e não como um desafio a ela. O WL traz elegância herdada de bandas como Roxy Music, Psychedelic Furs e Japan em faixas como Going nowhere e In the middle – esta, com flautas no final, e guitarras que vão ganhando aspecto distorcido e derretido. O beat dançante de Keep up é fluido como numa música dos Stone Roses. Já I just wanna win in time abre com um pianinho triste, e bem que parece que vem por aí uma balada tristonha – só que o que surge é um pós-punk com cara de John Cale e Public Image Ltd fase Happy?, e com clima pop dado pelos vocais. Tudo sempre muito bem encaixado.
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Crítica
Ouvimos: Martin Carr – “What future”

RESENHA: Martin Carr troca o britpop dos The Boo Radleys por eletrônica, dub e experimentalismo político em What future.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Sonny Boy Records
Lançamento: 1 de maio de 2026
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Principal letrista dos Boo Radleys até 1999 (ano em que deixou a banda), Martin Carr lembra bem pouco o som do grupo em seu trabalho solo – que é predominantemente eletrônico e experimental. What future, o novo álbum, segue a trilha do radicalismo sonoro e da porrada política, misturando notícias de TV, gravações aleatórias, beats eletrônicos e ondas que chegam perto do reggae e do dub. Ele diz inclusive que o disco surgiu da necessidade de mostrar em vez de contar, e que percebeu que suas letras sempre foram sobre a mesma coisa.
- Ouvimos: Aluminum – Fully beat
Martin passou um bom tempo trabalhando com trilhas pra TV e dá pra sentir um pouco disso no clima telejornal de Amerikkka is not your friend, tema eletrônico e experimental que ganha ares de dub e post rock, e no loop de percussões e sons melódicos de Canton rockers. Connie Converse is playing at my house, por sua vez, abre lembrando um teste sonoro, mas vai ganhando um beat de soul andarilho, e uma onda de beleza musical do meio para o fim. Diana F e Hex vão do pot rock eletrônico ao blues infernal e distorcido.
What future tem ainda as sombras e luzes de In the hall e New Brighton Baths 1983, mas une dub, ambient e festa soul em She came in through the Overton window e Strange now, encerrando com o synth-não-pop da faixa-título, uma música dançante e fria. Mal dá pra reconhecer o britpop dos Boo Radleys aqui, e Martin Carr busca um caminho bem novo pra sua música.
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Crítica
Ouvimos: Ghost Valley – “Ghost Valley” (EP)

RESENHA: Post-rock minimalista e doce: Ghost Valley mistura ambient, pós-punk e synth pop em climas belos e hipnóticos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Bud Tapes
Lançamento: 4 de abril de 2026
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“Vale Fantasma” é um ótimo nome. O Ghost Valley vem de Portland, Oregon, e faz algo próximo do post-rock. É um som (vá lá) experimental, sem dúvida, mas é bonito, doce e minimalista. Como na abertura com El matador e na onda ambient de Glass nebula / Furnace creek, com teclado ambient na introdução, e toques musicais que lembram o Kraftwerk da era Autobahn (1974), em que a banda ainda usava guitarras. Aos poucos, essa música vai ganhando dedilhados e até uma guitarra slide tipicamente pinkfloydiana.
Vão rolando modificações aos poucos no contexto do Ghost Valley: Vampyre é pós-punk introvertido e chuvoso, com beat mais do que minimalista e guitarra circular – uma música que parece ter sido gravada num quarto. Fear & loathing é quase progressiva, com guitarras em clima relax e um baixo que ajuda a dar sensação de completude no arranjo – até que ganha mais peso, intensidade e ar de interferência sonora. Tem ainda o synth pop doce de Topanga e o drone celestial de Airline sunset, com oito minutos. Uma beleza.
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Crítica
Ouvimos: Tears Of A Martian – “Light II dark”

RESENHA: Tears Of A Martian mistura neo soul, indie e pop punk em estreia nostálgica, densa e elegante, com ecos de Amy Winehouse, Smiths e Khruangbin.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 8 de maio de 2026
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O Tears Of A Martian é um projeto musical criado por uma cantora e compositora de Detroit chamada Arianna Bardoni. O nome é usado por ela desde 2018, já rendeu alguns singles e EPs, e Light II dark é o primeiro álbum. Apesar do clima meio punk da capa, o som tem uma onda bem mais variada. Arianna, na voz e na guitarra, e a turma que toca com ela faz uma espécie de neo soul + jazz + pop punk, quase como se o disco fosse pensado para ser lançado em 1997 ou 1998, mas esperando para ser complementado por algum produtor mainstream. Faixas como o soul esparso Knock me down e o r&b indie e minimalista Dik têm clima de época, mas simultaneamente têm arranjos cheios de eco e ambiência, que apontam até para bandas como Khruangbin.
Músicas como Tower e Spotless mind fazem com guitarras quase limpas, baixo e bateria uma recriação da estileira soul-folk que tornou Corinne Bailey Rae famosa, enquanto Men é um rock + r&b oitentista com guitarras lembrando Smiths e interpretação análoga à de Amy Winehouse, mas bem mais contida. Um lado mais roqueiro, denso e tenso se avizinha do Tears Of A Martian em duas músicas que não abandonam o lado neo soul do projeto, Litltle blue flowers e Reel / Real. Nas letras, Arianna vai do amor ao humor em poucos minutos.
Light II dark é um disco bem underground e o Tears Of A Martian são o tipo de banda que ainda não foi abraçada pela coolzice indie. É a melhor hora pra se descobrir uma banda – mas por enquanto o som esparso e as guitarras tranquilas (na maior parte do tempo) são a cara do grupo, e algo a não ser perdido na mão de algum produtor.
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