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Crítica

Ouvimos: Hayley Williams – “Ego death at a bachelorette party”

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Hayley Williams manda recados bem endereçados nas 17 faixas de seus novos singles - que, coletivamente, estão sendo chamados por fãs e jornalistas de Ego. E musicalmente, tudo se sustenta muito bem.

IMPORTANTE: A resenha abaixo foi escrita quando Hayley Williams lançou os 17 singles que ficaram conhecidos coletivamente como Ego. Depois o conjunto foi lançado como Ego death at a bachelorette party, um álbum com 20 músicas – as 17 dos singles, mais três extras. Ouvi o disco, mantive a nota dada ao conjunto de singles e achei perda de tempo re-resenhar tudo. Fica aí o texto original como lembrança dos singles.

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Bom, pra começar, não existe nenhum disco de Hayley Williams chamado Ego. O nome – originalmente usado numa tintura de cabelo lançada em tiragem limitada pela empresa dela, Good Dye Young – está sendo usado pelos fãs da cantora do Paramore (e por alguns jornalistas) para chamar a coleção de 17 singles que ela soltou de repente.

O lançamento dos singles é um trabalho que merece nota 10 em marketing e vendas, enfim. Hayley abusou do senso de comunidade, soltando primeiro as faixas de graça no site dela – quem era cliente da Good Dye Young teve acesso a uma senha de acesso, depois compartilhada por eles com os outros fãs. O material chegou só bem depois, com uma qualidade sonora melhor (e capas), às plataformas.

No todo, a história aponta para vários lados: mistério (o que era a tal mensagem em áudio que havia na pasta com as músicas?), quentinho no coração (para o lançamento, o site de Hayley ganhou um visual de desktop bagunçado dos anos 1990, com direito a Winamp), vendas (as músicas estão associadas a uma tintura e são um presente da Good Dye Young!), convergência (em tempo de algoritmos, ora vejam só: uma estratégia que envolve e-mail, site e senhas espalhadas por fóruns).

Também aponta para um, vá lá, respeito à experiência dos fãs: ouça as faixas como bem entender, não é um álbum com um programa de audição fixo. Nem sequer há um hit single porque tudo é single. Já musicalmente, o conjunto de faixas atualmente conhecido como Ego tem um conceito, ou quem sabe, vários – e todos se misturam com o lado business da coisa. Hayley agora é uma artista independente, faz pop enrockado em tempos de indie pop e de som-de-quarto, e nunca se sentiu tão à vontade para dizer o que vai pela cabeça.

  • Ouvimos: Halsey – The great impersonator
  • Ouvimos: Suki Waterhouse – Memoir of a sparklemuffin

Vai daí que na faixa Ice in my OJ, Hayley faz questão de falar de “um monte de idiotas filhos da puta que eu enriqueci”, da mesma forma que faz uma canção de amor aos antidepressivos na ótima Mirtazapine, esbraveja contra a América do Norte cristã e racista em True believer (dos versos “aja como se deus não estivesse olhando / mate a alma, tenha lucro” e “eles dizem que Jesus é o caminho, mas então eles deram a ele um rosto branco / para que eles não tenham que rezar para alguém que consideram menor que eles”).

Hayley também solta montes de frases ácidas em Brotherly hate – que, há quem diga, é uma zoeira cruel com os irmãos Josh e Zac Farro (o primeiro deles um ex-integrante do Paramore, o segundo ainda na banda). Ela também homenageia/desomenageia sua terra natal Nashville em Ego death at a bachelorette party, na qual avisa que “sou a maior estrela no bar deste cantor country racista”. Discovery channel, que traz uma bizarra interpolação de The bad touch, hit de 1999 da Bloodhound Gang (cujo refrão fazia referência ao canal), virou uma pérola das relações abusivas, com uma letra que tanto pode falar de sexo quanto de gravadoras adeptas da suruba econômico-corporativa (“vinte e poucos anos atrás, começamos a jogar um joguinho / e agora vamos todos sentar e terminar, e adivinha? / sua vez, a dor está escondida”).

Levando em conta que Hayley batizou seu selo como Post Atlantic, tudo em Ego tem endereço certo. Já musicalmente, ela e seu parceiro-produtor Daniel James apostam em climas análogos ao dream pop (Zissou é bem isso), visitam a mesma onda glam-sixties de Suki Waterhouse e Halsey (True believer, Brotherly hate), proporcionam novos horizontes ao soft rock (Won’t quit on you, Love me different), recordam a barulheira dos anos 1990 (Kill me, Mirtazapine e a alanismorissettização de Different man) e jogam no time do indie pop (Ego death, Blood bros, Negative self talk e todo o repertório). O conjunto todo acaba soando bem mais instigante do que se fosse apenas um álbum.

Se você nunca ouviu nada de Hayley Williams ou do Paramore, ouça Ego correndo. Se já ouviu tudo, resista à tentação de comparar Ego com o raivoso Petals for armor (lançado por ela em 2020) e ouça como se nem soubesse quem é Hayley.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10 (vou tratar como álbum)
Gravadora: Post Atlantic
Lançamento: 1 de agosto de 2025

Crítica

Ouvimos: Actress – “Radical frame”

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Resenha: Actress – “Radical frame”

RESENHA: Em Radical frame, Actress parte da ideia de vanguarda negra para criar uma eletrônica entre soul, R&B, ambient e drum’n bass, feita mais para imaginar outros mundos do que para dançar.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Ninja Tune
Lançamento: 18 de setembro de 2026

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Certa vez, o humorista e cartunista Henfil (1944-1988) foi fazer uma cartilha em formato de HQ para o movimento sindical do ABC (com Lula negociando tudo com ele). Reuniu sua equipe – que incluía gente como Laerte, Glauco e Angeli em começo de carreira – e fez questão de lembrar à turma algo muito importante: “Nós não somos a vanguarda. Os trabalhadores é que são”.

Associado ao trabalho do criador Darren Cunningham – que usa o pseudônimo Actress – o termo vanguarda negra ganha uma observação do teórico cultural Fred Moten no release desse álbum Radical frame: “A ideia da vanguarda negra existe, por assim dizer, de forma oximorônica – como se o negro, por um lado, e a vanguarda, por outro, dependessem, para sua coerência, da exclusão do outro… parte do que busco agora é isso: uma afirmação de que a vanguarda é algo negro”.

Ou seja: um entendimento de que o racismo faz com que “vanguarda” seja um termo branco. Mas que também considere que a vanguarda parte de um lugar diferente quando é feita por artistas negros. E entenda também que a arte preta sempre foi vanguarda – ainda mais num mundo em que a própria documentação cultural está impregnada de branquitude. Radical frame, décimo-primeiro álbum do projeto, meio que parte disso aí, fazendo um tipo de som ligado a r&b, soul, ambient, mas sempre apontando para a criação de universos na mente, como se tudo fossem trechos de filmes.

Com oito faixas no disco, o Actress parte de diálogos (as vinhetas The experiment e Gimme tha fuckin money man) para chegar no soul frio de Live by you, com os vocais de CASISDEAD soando como se houvesse um filtro entre a música e o ouvinte – aquilo é a realidade, mas ao mesmo tempo não é. Overchord, com Naomi Kimpenu nos vocais, é uma dance music que perdeu os beats e se tornou uma bela onda sonora. Um som bonito e meio frio. Cosmo parece o eterno início de uma canção do New Order da fase Technique (1989). Paris e Withending são exemplos de dance music tranquilizada e distorcida, feitas mais para o sonho do que para a dança.

Sheets, no final, é um disco dentro do outro – 16 minutos de uma cena narrada por Rainy Miller, em meio a um drum’n bass leve. Soa como uma vida passada em meio ao agito urbano e ao estresse diário, com Rainy parecendo exausto e prestes a desaparecer. Um corte bem radical na realidade, de fato.

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Crítica

Ouvimos: Joe Jackson – “Hope and fury”

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Resenha: Joe Jackson – “Hope and fury”

RESENHA: Em Hope and fury, Joe Jackson cruza jazz, rock, soul e ritmos latinos para contar histórias sobre envelhecimento, identidade, gente esquisita e a velha ilusão de controlar a vida.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: earMUSIC
Lançamento: 10 de abril de 2026

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Joe Jackson é inglês, mas acho que quase todo mundo pensa que ele é de Nova York. Mesmo que ele tenha começado imerso na new wave, ele tem um “cheiro” novaiorquino em suas composições: letras, arranjos, influências, atitude pop. De certa forma, é algo que acomete também seus ex-colegas de gravadora do Squeeze: a contação de histórias é urbana, direta e repleta de imagens, o tipo de coisa que ou se parece com Hollywood ou com sitcoms. O som é jazz mesmo quando é rock, ou punk.

Hope and fury, 22º disco de Joe, tem a mesma questão: um pé em Nova York e o outro em algum canto da Inglaterra – a ponto de Welcome to Burning-By-Sea falar de uma cidade inglesa fictícia, usando tons de soul e cinismo, sempre falando como seu país de origem é um “lugar infernal”. I’m not sorry vai pro lado do jazz rock, com ritmo latino, percussões, e mantém a zoeira, falando de críticos, fãs ocasionais, pessoas que seguem qualquer tipo de moda e outros seres estranhos – concluindo com dois ditados: “Não passe os fósforos quando alguém estiver queimando uma bruxa / e não peça desculpas quando alguém só quiser te usar como escrava”.

Isso é só o começo de um disco que poderia ser transformado numa série de TV, até pelas escolhas musicais – tipo na balada soul-roqueira Make god laugh, com guitarra herdada de True, do Spandau Ballet, e letra falando sobre nossa ilusão de controlar a vida. Joe dá uma ligeira parodiada em Twist and shout na latinesca e nostálgica Do do do, e faz boogie atualizado na sacolejante Fabulous people. E cria um verdadeiro ET com After all this time, rock com groove e um clima próximo do Steely Dan, só que com uma melodia que lembra nada menos que Monsters in the parasol, do Queens Of The Stone Age (possivelmente Joe nem deve ser fã deles, mas que é parecido, é).

Tem algo até de Clube da Esquina e Ivan Lins nas belas The face (outra a lembrar Steely Dan) e See you in september, mas o que chama mais a atenção é o compromisso de Jackson em contar histórias normais, reais e diretas nas letras. Fabulous people traz uma pessoa que se descobre na cultura queer, See you in september é a aceitação da passagem do tempo, The face é a sensação conhecida de ser “apenas mais um na multidão”. Hope and fury é um exercício de música e de identificação pessoal – em cuja capa, Joe posa tomando chá, na maior fleuma britânica, enquanto o mundo pega fogo.

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Crítica

Ouvimos: Clara Ribeiro – “Outras ondas, mesmas cores”

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Resenha: Clara Ribeiro – “Outras ondas, mesmas cores"

RESENHA: Na mixtape Outras ondas, mesmas cores, Clara Ribeiro cruza grime, house, city pop, UK garage, funk e drum’n bass em canções sobre amores, cotidiano e afirmação pessoal.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Deck
Lançamento: 25 de setembro de 2026

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Com alguns EPs voltados para o indie pop brasileiro e eletrônico, Clara Ribeiro decidiu fazer de seu primeiro lançamento “cheio” uma mixtape. Outras ondas, mesmas cores, justamente por isso, segue os lados mais experimentais e criativos de lançamentos como Desabafos, EP do ano passado gravado e composto com Chediak. São canções voltadas para estilos como house, city pop, UK garage e grime – uma onda bem pop e quase conceitual, no sentido que amores idos e vindos são contados e recontados à luz do empoderamento.

Tons de city pop surgem na urbana Não lembro seu nome (com Taleko) e um clima derretido, dançante e solar em Mar azul, além da dance music leve e bacana de Porto Seguro – música positiva e bonita, sobre encontrar beleza nas banalidades do dia a dia. Nos seus sonhos é um interlúdio, mas sem a onda de “interlúdios” como vinhetas ou introduções – é uma canção sonhadora e viajante, com clima voador nos teclados.

Clara une ondas de samba e funk em faixas como Vital e Ligação, e cria um DR musical em clima de rap e dance music em Nonchalant, com participação do rapper mineiro-niteroiense Joca. No final, a beleza quase meditativa do drum’n bass Mantra. Pop feito com tempo para experimental e criar.

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