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Crítica

Ouvimos: Spiritual Cramp – “Rude”

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Álbum do Spiritual Cramp, Rude mistura Clash, indie 2000s, reggae, The Hives e punk californiano em faixas afiadas, melódicas e sarcásticas, com energia de hino e zero paciência para padrões.

RESENHA: Álbum do Spiritual Cramp, Rude mistura Clash, indie 2000s, reggae, The Hives e punk californiano em faixas afiadas, melódicas e sarcásticas, com energia de hino e zero paciência para padrões.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Blue Grape Music
Lançamento: 24 de outubro de 2025

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O Spiritual Cramp é uma banda punk de San Francisco. Mas na maior parte do tempo, mais parece ter surgido em algum beco de Nova York – e não custa falar que a coletânea de EPs deles lançada em 2018, se chamava nada mais nada menos que… Television. Só que o que governa o som deles é mesmo a saudável mistura musical californiana: Rude, o segundo álbum, mostra uma banda que cruza indie rock anos 2000, hardcore novaiorquino, Ramones, The Hives e, em especial, estilhaços do Clash.

Sim: a banda do clássico álbum London calling (1979) paira como um fantasma camarada em cima do grupo. Um espectro que surge nas aberturas poderosas de músicas, na referência do titulo aos rude boys (ícones da Jamaica e da cultura de rua britânica), na ironia das letras, na imagem de capa (uma cena rueira, clicada na porta da prefeitura de San Francisco, com a banda portando um ghetto-blaster das antigas). E no clima de “aqui pode tudo!” que insere referências de reggae e power pop no som. Fuçando com calma, você acha um Hüsker Dü e um Bad Religion ali misturados. E vale falar que Michael Bingham, o carismático vocalista do grupo, soa quase sempre como um David Byrne rude boy, mais brigão, embora com vocais mais calmos.

Essa mistura de peso e melodia passa por todas as faixas: a curta I’m a an anarchist, o hino Go back home (com vocais numa onda meio oi! music), o reggae Violence in the supermarket, o pós-punk acelerado de True love, Crazy e Young offenders. People don’t change, no final, une indie rock a la Strokes e Arctic Monkeys, cordas, metais e energia punk.

Tem ainda a vibração poderosa de At my funeral, o Clash maquínico e new-wavizado de Automatic, o Hives acelerado de I hate the way I look… E as lembranças de David Bowie no punk elegante e sombrio de You’ve got my number, com Sharon Van Etten dividindo os vocais. Uma das faixas nas quais o produtor do disco, John Congleton, acostumado com uma lista bem eclética de artistas (de Lana Del Rey a The War On Drugs), certamente deixou marcas.

As letras de Rude oferecem imprudência, sarcasmo e observações existenciais típicas de quem só observa o buraco aumentando ao redor. O grupo caça encrencas em Young offenders, desce aos últimos limites da exclusão social em At my funeral (“no meu funeral / ninguém nem chorou / ninguém nem apareceu / porque eu sou um cara mau”) e I hate the way I look, se assume como um caso perdido em People don’t change, e reclama, na curta e grossa I’m an anarchist, que os “occupy” da vida já viraram coisa de facho (“agora todo mundo é igual / dizem que não há regras / marchando pelas ruas com crianças, protestando contra as escolas / eu sou anarquista / então me deixem em paz”).

O Spiritual Cramp também defeca solenemente nos padrões e expectativas de qualquer pessoa. Rola em boa parte de Rude, mas rola mais ainda no hino True love (Is hard to find). Uma música de versos como “acho que perdi o interesse pela luxúria / acho que estou me interessando mais em encontrar o amor verdadeiro /(…) como seria minha vida se eu tivesse o que quero? / como seria minha vida? / acho que não ia querer”. E de comentários sobre as celebridades de San Francisco e seus “hábitos nojentos”. Um compêndio de hinos punk.

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Crítica

Ouvimos: Catïça – “Cereja de xuxu”

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Resenha: Catïça - "Cereja de xuxu"

RESENHA: Em Cereja de xuxu, a banda Catïça, de Londrina, mistura punk, crossover e grunge em dez faixas rápidas, com humor ácido e críticas sociais.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Deck
Lançamento: 23 de outubro de 2026

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Tinha uma lenda de que algumas sorveterias e lojas de doces, sem grana pra comprar cerejas, usavam o chuchu para produzir uma imitação horrenda da iguaria, que servia apenas de enfeite. Vindo de Londrina, o Catïça decidiu partir para a zoeira chamando seu segundo disco de Cereja de xuxu (e não “chuchu”). Mas não tem só gozação – ou melhor, ela vem filtrada em temas como cena underground, política e até playboyzices do dia a dia (devidamente sacaneadas no pós-punk Petit comité).

O disco do Catïça tem lá suas semelhanças com Magia, estreia do Budang – a saber: união de várias vertentes do punk em torno do crossover, uso de expressões locais (embora o disco dos catarinenses do Budang seja cantado quase em dialeto), porrada sonora destacando o baixo, músicas rápidas (são dez faixas em 15 minutos). O grupo fala do amor à música e à estrada em Sofá cubista e Em todos esses anos nessa indústria vital, essa é a primeira vez que isso me acontece (sim, o título foi tirado daquele desenho do Pica-Pau), lembra histórias de sua terra em Pé vermei e avisa que a taxação de grande fortunas vai rolar nem que seja na porrada (em Surpresinha).

O crossover bate mais forte em faixas como Chosen e Sofá cubista, além da sacanagem religiosa Crente canibal. A curiosidade aqui é Vixvéi, grunjão da massa em que o Catïça soa como uma banda fanática por Alice In Chains (!).

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Crítica

Ouvimos: Sophia Stel – “The greatest album of all time”

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Resenha: Sophia Stel - “The greatest album of all time”

RESENHA: Em The greatest album of all time, a canadense Sophia Stel mistura electropop, trip-hop e dream pop para falar de solidão, insegurança e vida noturna.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: A42 Music
Lançamento: 16 de outubro de 2026

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Nem tudo na música eletrônica é feito pra dançar, e nem tudo que é feito pra dançar é alegre e eufórico. Mais: estilos como electropop muitas vezes falam mais de tristezas e porradas da vida – ou são perfeitos para falar daquele momento em que a festa acaba e só resta você, suas circunstâncias e questões para resolver.

The greatest album of all time, estreia em álbum da canadense Sophia Stel, de 27 anos, vai bastante por esse caminho. Sophia cresceu numa família religiosa de 11 filhos, já lançou dois EPs e gravou quase todo o disco sozinha, em hotéis e apartamentos alugados durante turnês. O título começou como uma brincadeira e acabou virando uma maneira de espantar a síndrome da impostora.

O som é indietronica com estiileiras trip-hop, electropop, dream pop … Sophia canta como se estivesse meio entorpecida, alternando sussurros, falas melódicas e uma espécie de rap arrastado. Em vários momentos, a voz soa quase robótica, como se tivesse sido programada para cantar daquele jeito – e o auto-tune ajuda bastante nisso. Mesmo quando fala de sentimentos intensos, ela parece não estar nem aí.

O disco fica melhor quando Sophia consegue fazer música sombria e dançante ao mesmo tempo. On my dick, cuja letra soa como uma confissão de autoconfiança bastante exagerada e sarcástica, abre com um pop eletrônico quase psicodélico e escuro. Molly in the club, sobre a solidão e a confusão emocional provocadas pela vida noturna. tem algo de trip-hop, mas a viagem fica por conta dos vocais cheios de eco. Em Like a kite, uma batida que lembra um relógio vai ganhando teclados que mudam completamente o clima da música. Já I’ll walk começa com cordas tensas e piano grave, antes de cair num trip-hop tranquilo, cheio de teclados.

Tem ainda a dance music discreta de Better believe it, o dream pop de 15 hours away e o canto quase falado de Now I’ve got a lot you know, que depois ganha até uma batida próxima do reggaeton. O problema é que, com 12 faixas, o álbum acaba ficando um pouco inchado, e nem todas as ideias funcionam tão bem.

Mas quando Sophia acerta, faz uma eletrônica ótima para dançar com a cabeça cheia de problemas. O final, com o batidão tímido de Burn, é a conclusão positiva e sarcástica do disco: Sophia fala que quer viver intensamente – só faz questão de lembrar que na idade dela (27), uma renca de gente partiu.

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Ouvimos: Jardim Depressa – “O pequeno deus do sol” (EP)

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Resenha: Jardim Depressa – “O pequeno deus do sol” (EP)

RESENHA: No EP O pequeno deus do sol, a banda paulista Jardim Depressa mistura pós-punk, shoegaze e psicodelia em quatro faixas de tensão e angústia existencial.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 29 de setembro de 2026

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Pós-punk e psicodelia já se encontraram muitas vezes. E já tiveram um casamento consumado por estilos como o shoegaze. No EP O pequeno deus do sol, a banda paulista Jardim Depressa celebra a união em clima de tensão sonora, sombras e experimentalismo, como no spoken word percussivo da faixa-título e no clima soturno, quase post-rock, de Em seu lugar – música que depois vai ganhando uma onda venturosa.

Curto, o disco tem quatro faixas separadas por uma vinheta, Vênus, com dedilhados e clima sonhador. Diabo, lançada em single, é ágil, melancólica e tensa, com uma gravação meio lo-fi (você pode achar que se trata de uma banda dos anos 1980) e uma parede simples de guitarra que encobre os vocais. Quando comentamos sobre essa faixa, vimos referências de bandas como Kitchens Of Distinction e House Of Love.

No final, Tempestade vem com clima angustiado e acústico. Na letra, pensamentos sobre o mal, o tempo, e a maldade que nunca dorme. Sonzeira existencial e perturbadora.

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