Crítica
Ouvimos: Sofia Freire, “Ponta da língua”

- Lançado em março de 2024, Ponta da língua é o terceiro álbum da cantora e compositora pernambucana Sofia Freire. No disco, ela cantou, compôs, produziu, editou e gravou todas as faixas. Por acaso, o estúdio dela se chama Eu Mesma Produções.
- Definido como dark pop, o disco veio de uma crise criativa da pandemia. “Fiquei abalada mesmo, uma vida em pausa. Sabe quando algo está na ponta da língua e não sai? Tive dificuldades de lidar e de entender meus sentimentos, quase uma crise existencial. De alguma forma transformei isso em letras e esse disco é fruto disso. Por isso, o nome”, reflete Sofia.
Tem quase um ano que Ponta da língua, terceiro álbum de Sofia Freire, chegou às plataformas. E como os bons discos de art pop fazem, ele aponta tanto para o futuro que parece um lançamento de 2025 ou 2026. Basicamente é um disco de MPB feito com base no synth-pop. Mas não pense na MPB dos anos 1980, porque o lance aqui é outro, unindo referências claras de música brasileira experimental, indie rock, indie pop, e até neo-soul – na viagem anti-letargia e pró-transformações de Autofagia, que abre o álbum.
Até mesmo o que poderia soar mais orgânico no disco, como a própria voz de Sofia, ganha tratamentos diferentes, e é inserido pela própria cantora como um instrumento a mais. Seja nas vozes sobrepostas que aparecem em quase todas as faixas – e que às vezes soam como Laurie Anderson – ou no design rítmico e ágil das interpretações de Sofia. É o que rola em Arrebento, que mescla ritmos orientais, synths que lembram músicas de Kate Bush e David Sylvian, e o próprio ritmo pessoal da cantora, na letra (“como uma criança/em sincera indisciplina/ri e chora estourando/os balões cheios de ar/quero logo estourar”, contando uma história que passa por feminismo, desejos e projetos).
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Ponta da língua tem uma espécie de tecno-reggae-brega, que é Minha imaginação, cuja sonoridade lembra o synthpop oitentista – os vocais que surgem como surpresas ao longo da música. Orlando lembra os lados mais experimentais do tecnopop. Big bang tem tom orientalista que lembra bandas como Japan e Ultravox, e uma letra que alude ao lado mais visionário e ficcionista-científico de Gilberto Gil. Na faixa-título, uma ótima marcação rítmica traz como surpresas micropontos de pop nacional oitentista, com destaque para versos como “não haverá mais dia/que se passe/sem que eu pense/sem que eu pulse de vontade/de tocar a minha liberdade/com a ponta da minha língua”.
Dentro de mim é outra pérola rítmica, com vocais quase mântricos e letra medindo os custos e benefícios das mudanças diárias (“dentro de mim/basta/ser quem eu sou/custa/ser quem vou ser”). Mormaço une pop sintetizado e Nordeste. E uma surpresa do álbum é Resta saber, que abre como um lounge anos 2000 e vai ganhando características de house music e de batidões dos anos 1990. Se por acaso você deixou escapar esse disco em 2024, ponha na lista do começo de 2025.
Nota: 9
Gravadora: Independente.
Lançamento: 1 de março de 2024.
Crítica
Ouvimos: Graham Coxon – “Castle Park”

RESENHA: Graham Coxon revisita o pop britânico dos anos 1960 em Castle Park, disco gravado em 2011 e lançado anos depois, fora do tempo e das tendências.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Trangressive Records
Lançamentos: 19 de junho de 2026
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Já que Damon Albarn hoje em dia se preocupa mais com o Gorillaz, restou para o guitarrista Graham Coxon o bastão do Blur. Ou pelo menos o bastão de uma ideia musical e estética associada à banda, que passa por rocks ganchudos e de inspiração sixties, e letras cheias de histórias, situações e personagens. Tanto que Castle Park, um disco anglicista desde o nome e a capa, já abre logo com o suingue quase mod de Billy Says, música com melodia cheia de surpresas e clima que passa por The Who, Beatles, Small Faces e sons afins.
Castle Park é curto se comparado aos clássicos do Blur – que é uma banda típica da “era do CD”, com álbuns já pensados para o formato digital e duração tão extensa que certos discos acabam parecendo mais caóticos do que realmente são. No caso do álbum de Coxon, são 36 minutos, dez faixas e uma vibe musical que lembra bastante aquelas coletâneas que o selo português Movieplay (lembra disso?) lançava no Brasil lá pelos anos 1990, tipo Good Morning Saigon Vol. 1 e 2 – ou a trilha sonora do filme Forrest Gump.
- Alex James (Blur): “Pet sounds, dos Beach Boys, é uma merda!”
Músicas como Alright são tão reverentes a Paul McCartney que acabam lembrando maravilhas dos anos 1960 que se refestelavam na mesma receita beatle, como Lovin’ Spoonful, Tommy James & The Shondells, ou bandas que lamentavelmente não conseguiram ficar tão ilustres quanto os quatro de Liverpool, como os Hollies.
É o mesmo esquema de palmas, violão e “vou contar uma história, só que rimada”, de muitas faixas do ex-beatle – e que parece ser uma espécie de medida para o álbum, em vários momentos. Na terceira faixa vem uma cover que se adapta tão bem ao conceito do disco que parece feita para Coxon. É When you find out, hit da banda de power pop estadunidense The Nerves – a mesma banda que criou Hangin’ on the telephone, música que se tornaria um hit com o Blondie.
Castle Park vai passando pelo lado sombrio do pop inglês dos anos 1960 (a psicodélica e fantasmagórica Isn’t it funny), pelo bubblegum sem culpa (There’s a little house, com Lucy Parnell dividindo os vocais, parece um grude musical feito por Lou Reed, a quem Coxon deve muito como cantor), pelo pop psicodélico herdado do folk (Easy, com uma lembrança ou outra de Harry Nilsson) e até pela chiqueza do pop francês (o sombrio tema orquestral Mélodie pour Christine).
Já a percussiva e cigana Dripping soul põe heranças do Fleetwood Mac inicial e do Jefferson Airplane na história, enquanto Forget today soa como uma balada dos anos 1950 relida pelos Rolling Stones de 1964 (sem Mick Jagger nos vocais, claro). O final, com All the rage, soa como uma demo de Donovan, algo feito num gravador amador, só pra registro, lá por 1968, e que ganhou uma refação com orquestra anos depois, para surgir num box.
Faltou contar que Castle Park estava no baú de Coxon há tempos: foi gravado em 2011, nas mesmas sessões que geraram outro solo dele, A+E (2012), com produção de Ben Hillier. Era para ele ter saído logo depois, como a contrapartida “nostálgica” (Castle Park é um parque da cidade de Graham, Colchester) do experimental e eletrônico A+E, mas outros projetos, como a volta do Blur, foram ganhando mais importância.
O músico temeu que Castle Park fosse apenas um disco “de arquivo”, sem importância, e o álbum ficou parado mesmo quando ele tinha tempo de mexer nas fitas. Ouvido hoje, parece literalmente feito hoje – até porque se fosse lançado em 2011, já não seguiria tendência alguma. Um disco com tempo e espaço próprios.
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Crítica
Ouvimos: Blackwater Holylight – “Not here, not gone”

RESENHA: Blackwater Holylight mistura doom, black metal e shoegaze em Not here, not gone, álbum denso, melancólico e introspectivo, unindo peso e delicadeza.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Suicide Squeeze
Lançamento: 30 de janeiro de 2026
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Banda feminina BEM pesada e intensa, vinda do Oregon (mas vivendo agora em Los Angeles), o Blackwater Holylight faz metal, mas não apenas isso. O som é doom + black metal, só que o design sonoro é de shoegaze, com vocais delicados e melodias de beleza introspectiva. A vocalista e guitarrista Sunny Faris não explode: canta como se desse valor a cada palavra e como se quisesse realmente ser ouvida, ainda que os vocais venham do fundo de uma caverna cheia de eco.
Bandas que unem peso e sensibilidade existem desde os anos 1960, mas esse caso é realmente digno de nota: quem é fã de noise rock e não curte metal, mas tem a cabeça aberta, vai achar muita diversão no terceiro álbum do Blackwater Holylight, Not here, not gone. O título é fantasmagórico, a capa soa como entranhas emocionais prestes a serem expostas, e o conteúdo une guitarras pesadas e distorcidas a sensações de ausência. Tipo em How do you feel, basicamente uma canção de fim de amor, mas em vibe intensa. O mesmo rola na impactante Void to be, que fala de abismos relacionais enquanto o trio soa como um Cocteau Twins metálico e uterino (literalmente: as guitarras dão sensação de acolhimento).
- Ouvimos: YHWH Nailgun – Magazine
Vai daí que boa parte de Not here, not gone é esse “ausente”, só que transformado em música, como no peso de Spades, na introversão demorada de Poppyfields (com sete minutos), ou na ansiedade transformada em letra de Heavy, why? (“acalme-se, você sente isso pesado / mas por que?”). Bodies abre com distorção e peso intensos a ponto de lembrar um My Bloody Valentine motorbiker e estradeiro – com vocal perdido no horizonte.
Fade dá realmente uma curiosa sensação de desaparecimento, e é uma das faixas mais voltadas à noção comum de shoegaze ou dream pop no álbum – parece Mazzy Star pesado, em vibe apocalíptica (“você tinha tudo e sofreu o seu destino / você sente minha falta, não é?”, canta Sunny, remetendo mais uma praga de madrinha, ou de ex, a alguém). Já a funérea Mourning after, uma mescla de Slowdive e Black Sabbath, fala sobre quando o amor vira asco (“estou de luto pela época / em que eu deveria ter permanecido uma mosca em sua janela por um dia”).
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Crítica
Ouvimos: Wills Tevs – “Infinitas___lacunas” (EP)

RESENHA: Power pop com sotaques de punk, britpop e country: em Infinitas___lacunas, Wills Tevs transforma inseguranças e rupturas em canções.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 7
Gravadora: Independente / Tratore
Lançamento: 26 de maio de 2026
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Com sete faixas, Infinitas___lacunas mostra o paulistano Wills Tevs girando em torno do power pop na maior parte do tempo. O estilo ocupa músicas como a ótima Parque de diversão (Se um vazio te encontrar), o punk pop Que dilema!, e um pouco da suingada Eu gosto de arriscar, gravada com o duo paulistano Side.
O disco ainda traz um country feito com linguagem punk-pop, Mensageiro, uma balada britpop, Impostor (Me diz o que é que falta), e um curioso pop latino, (Fôrma) (Molde), com participação do argentino Agustín Dettbarn. Na letra, convites para abandonar os padrões e sair da rotina, em espanhol e português.
Esse é um tema que, no geral, passa pelas letras do EP, já que as “infinitas lacunas” cantadas por Tevs parecem vir quase sempre de inseguranças pessoais e conservadorismos – como na letra de Parque de diversão, que em clima quase infantil, fala sobre um adulto que nega totalmente a realidade (dos fatos, do dia a dia, da ciência, etc). No geral, um EP variado e com bastante assunto nas letras.
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