Crítica
Ouvimos: Magdalena Bay, “Imaginal disk”

- Imaginal disk é o segundo álbum da dupla norte-americana Magdalena Bay, formada por Matt Lewin e Mica Tenenbaum. Tido como um disco conceitual por vários críticos (a dupla não concorda integralmente), ele fala sobre um bizarro hardware usado nas cabeças dos seres humanos – leia tudo sobre isso na resenha.
- “Eu diria que é como um álbum conceitual solto. Não é como uma situação do Tommy onde as músicas descrevem a história. Acho que há temas ao longo do álbum, mas sinto que é o mesmo com Mercurial world (disco de estreia da dupla, de 2021). É conceitual, mas eu não necessariamente o chamaria de álbum conceitual”, contou Matt à Vogue.
- Mica, que fez várias pesquisas para escrever a música junto com Matt (leu até sobre metamorfose em animais), foi impactada, na época da composição do disco, por um fato recente de sua vida. “Eu tinha reiniciado a terapia. É interessante, porque quando eu estava no ensino médio eu ia ao mesmo terapeuta, então eu voltei para ela um bilhão de anos depois — eu sou da Argentina, e o terapeuta que eu vou é de uma escola lacaniana de psicanálise, que está muito na moda agora”, contou à Vogue.
Todo mundo, aparentemente, já lançou sua lista de melhores álbuns de 2024, MENOS o Pop Fantasma – ainda temos discos concorrentes à lista sendo resenhados, e nossos “melhores” saem lá pela segunda ou terceira semana de fevereiro. Pior que se você já fez sua lista e não incluiu Imaginal disk, do Magdalena Bay, vale a pena ir lá e inserir de levin… Não, pera, não somos nós que vamos incentivar a maquiagem de resultados. Mas que o disco-espetáculo da dupla de indie pop indica que 2024 foi um ano de viagens musicais bastante ousadas, foi sim.
Imaginal disk não deixa de ser uma zoação com o fato de muita gente hoje em dia preferir ouvir músicas em plataformas digitais – e, enfim, o termo “disco” parece até brincadeira numa hora dessas. Mas o principal é que a dupla formada por Mica Tenenbaum e Matthew Lewin (não, Magdalena Bay não é nome de nenhuma artista solo) faz uma mescla certeira de rock anos 1980, house music, pós-disco, disco camp na onda do ABBA, synth pop e dream pop – um som que desafia qualquer tipo de catalogação e que, por causa das manhas de produção, às vezes pode ser colocado no escaninho da neo-psicodelia pop.
É o que já rola no começo do álbum, com She looked like me, uma dance music com peso de rock e clima de spiritual. E em Killing time, um soft rock com piano Rhodes e estileira jazzística, que dá até para pensar em Steely Dan – mas que vai ganhando aos poucos algo de sonhador e mágico. Image, com teclados cintilantes como numa música do Kraftwerk, cria relações entre o Magdalena Bay e o lado espacial da disco music. Death and romance até parece com um soul de piano, ou com uma música que poderia estar no repertório de Billy Joel ou Bruce Hornsby, mas vai virando algo mais pesado ao longo do tempo. Watching TV é r&b mágico, psicodélico e relaxante, quase vaporwave, com um synth que gruda na mente.
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Importante citar que o “disco imaginário” do título indica que o novo álbum do Magdalena Bay conta uma história, com a qual você já toma contato a partir da capa. É a história de um certo “disco laser” que é inserido na testa dos seres humanos, e os torna diferentes dos primatas. True, personagem interpretada por Mica, vai fazer uma atualização de hardware, e seu corpo rejeita as modificações – enfim, uma espécie de Lifehouse (aquela ópera do Who) que saiu na época certa e faz sentido em tempos de brain rot, redes sociais e pânicos no sistema.
True vai ter que empreender uma jornada para entender o que é ser um/uma humano (a) – um tema bastante existencial, que às vezes se perde na narrativa (e vale dizer que a dupla não o considera um disco verdadeiramente conceitual). Mas que rende bons momentos de entendimento e estranhamento, sempre acompanhados pela melodia. Prosseguindo no álbum, Tunnel vision vai do synth pop ao quase progressivo, e tem um lado jazz pop irresistível. Cry for me parece ter saído do estúdio de Giorgio Moroder (e lembra uma mescla de Madonna anos 1980 + Queen anos 1980 + Erasure). Angel on a sattelite é uma balada celestial, aberta com piano, percussão e violão e seguida com cordas – lembra algo que o ABBA poderia ter gravado se existisse nos anos 1990.
No final, os atores saem na frente dos personagens e surge The ballad of Matt & Mica, uma balada que se torna uma espécie de house music lenta e marolada – ganhando um tom mágico no final por causa dos teclados e da orquestra. Imaginal disk vai tomar 50 minutos do seu dia e vai levar magia, contestação e dança à sua vida no começo do ano.
Nota: 9
Gravadora: Mom + Pop
Lançamento: 23 de agosto de 2024.
Crítica
Ouvimos: Blackwater Holylight – “Not here, not gone”

RESENHA: Blackwater Holylight mistura doom, black metal e shoegaze em Not here, not gone, álbum denso, melancólico e introspectivo, unindo peso e delicadeza.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Suicide Squeeze
Lançamento: 30 de janeiro de 2026
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Banda feminina BEM pesada e intensa, vinda do Oregon (mas vivendo agora em Los Angeles), o Blackwater Holylight faz metal, mas não apenas isso. O som é doom + black metal, só que o design sonoro é de shoegaze, com vocais delicados e melodias de beleza introspectiva. A vocalista e guitarrista Sunny Faris não explode: canta como se desse valor a cada palavra e como se quisesse realmente ser ouvida, ainda que os vocais venham do fundo de uma caverna cheia de eco.
Bandas que unem peso e sensibilidade existem desde os anos 1960, mas esse caso é realmente digno de nota: quem é fã de noise rock e não curte metal, mas tem a cabeça aberta, vai achar muita diversão no terceiro álbum do Blackwater Holylight, Not here, not gone. O título é fantasmagórico, a capa soa como entranhas emocionais prestes a serem expostas, e o conteúdo une guitarras pesadas e distorcidas a sensações de ausência. Tipo em How do you feel, basicamente uma canção de fim de amor, mas em vibe intensa. O mesmo rola na impactante Void to be, que fala de abismos relacionais enquanto o trio soa como um Cocteau Twins metálico e uterino (literalmente: as guitarras dão sensação de acolhimento).
- Ouvimos: YHWH Nailgun – Magazine
Vai daí que boa parte de Not here, not gone é esse “ausente”, só que transformado em música, como no peso de Spades, na introversão demorada de Poppyfields (com sete minutos), ou na ansiedade transformada em letra de Heavy, why? (“acalme-se, você sente isso pesado / mas por que?”). Bodies abre com distorção e peso intensos a ponto de lembrar um My Bloody Valentine motorbiker e estradeiro – com vocal perdido no horizonte.
Fade dá realmente uma curiosa sensação de desaparecimento, e é uma das faixas mais voltadas à noção comum de shoegaze ou dream pop no álbum – parece Mazzy Star pesado, em vibe apocalíptica (“você tinha tudo e sofreu o seu destino / você sente minha falta, não é?”, canta Sunny, remetendo mais uma praga de madrinha, ou de ex, a alguém). Já a funérea Mourning after, uma mescla de Slowdive e Black Sabbath, fala sobre quando o amor vira asco (“estou de luto pela época / em que eu deveria ter permanecido uma mosca em sua janela por um dia”).
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Crítica
Ouvimos: Wills Tevs – “Infinitas___lacunas” (EP)

RESENHA: Power pop com sotaques de punk, britpop e country: em Infinitas___lacunas, Wills Tevs transforma inseguranças e rupturas em canções.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 7
Gravadora: Independente / Tratore
Lançamento: 26 de maio de 2026
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Com sete faixas, Infinitas___lacunas mostra o paulistano Wills Tevs girando em torno do power pop na maior parte do tempo. O estilo ocupa músicas como a ótima Parque de diversão (Se um vazio te encontrar), o punk pop Que dilema!, e um pouco da suingada Eu gosto de arriscar, gravada com o duo paulistano Side.
O disco ainda traz um country feito com linguagem punk-pop, Mensageiro, uma balada britpop, Impostor (Me diz o que é que falta), e um curioso pop latino, (Fôrma) (Molde), com participação do argentino Agustín Dettbarn. Na letra, convites para abandonar os padrões e sair da rotina, em espanhol e português.
Esse é um tema que, no geral, passa pelas letras do EP, já que as “infinitas lacunas” cantadas por Tevs parecem vir quase sempre de inseguranças pessoais e conservadorismos – como na letra de Parque de diversão, que em clima quase infantil, fala sobre um adulto que nega totalmente a realidade (dos fatos, do dia a dia, da ciência, etc). No geral, um EP variado e com bastante assunto nas letras.
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Crítica
Ouvimos: The Bad Actors – “Act your age” (EP)

RESENHA: The Bad Actors mistura funk-punk e metal em Act your age, EP irreverente que alterna crítica, zoeira e muito balanço.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: The Jack Records
Lançamento: 7 de novembro de 2025
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Ao que consta, o duo The Bad Actors é conhecido pelos shows bacanas e não apenas pela presença na internet – o som de K-Dogg (voz, guitarra), Jay (bateria) e dos músicos que sobem ao palco é um funk-punk pesado, zoeiro, e com lembranças que vão de Funkadelic a Red Hot Chili Peppers, passando por Mother’s Finest.
O EP Act your age, além de investir no balanço, cai pra cima de temas de fácil identificação em alguns momentos. A faixa-título, um metal funk que lá pelas tantas ganha ares quase metal-progressivos, fala sobre os limites que o tema “amadurecimento” ganha na mente de uns e outros: mudar de visual, parar de se envolver com música e parar de protestar. “Eles me disseram que você não sabe tocar guitarra / quando você trabalha para a Ordem dos Advogados do Estado / você não acha que está na hora de desistir disso?”, diz a letra.
- Ouvimos: Headfooter – Boo hoo (EP)
Tem um lado meio Viagra Boys (ou seja: sexista cool e com tendências a baixar o nível) em algumas coisas de Act your age – tipo em My motorola, metal-funk anos 1970 cuja letra traz as lembranças da primeira paixão, que era a babá do personagem. Ou M.I.L.F., que fala de uma mulher que continua sedutoras aos 50 / 60 anos.
Já Offside clarity, que tem algo de The Police e da virada new wave, fala de crises e turbulências emocionais (um tema que vem surgindo em várias músicas atuais, do rock ao pop). Esse lado meio safadinho do Bad Actors pode ofuscar outras características legais do grupo, vá lá. Musicalmente, vão para um lado que os fãs antigos dos Red Hot amavam na banda, mas que foi desaparecendo – e vale a audição.
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