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Crítica

Ouvimos: Hot Chip – “Joy in repetition” (coletânea)

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Coletânea do Hot Chip reúne 20 anos de indietronica dançante, entre soul, disco, krautpop e repetição criativa de pista.

RESENHA: Coletânea do Hot Chip reúne 20 anos de indietronica dançante, entre soul, disco, krautpop e repetição criativa de pista.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Domino
Lançamento: 5 de setembro de 2025

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Grupo britânico e branquelo de indietronica, o Hot Chip agiu inúmeras vezes daquela maneira típica que artistas brancos agem quando se veem diante de todo um universo musical criado originalmente por artistas pretos: foi lá e tentou recriar tudo da maneira que lhes foi mais confortável. Uma apropriação cultural daquelas, mas que, a rigor, pôs a música do grupo londrino mais próxima do psych-pop, e de uma espécie de krautpop, dançante e ate suingado, ainda que com certo endurecimento típico de pesquisador.

Não é por acaso que essa coletânea se chama Joy in repetition (“prazer na repetição”) – muito embora, no material de divulgação, o grupo faça questão de falar que a frase refere-se ao fato de estarem juntos há vinte anos fazendo discos, produzindo grooves e fuçando coisas. Há um certo tédio, às vezes até compreensível e bem-vindo, na pesquisa e na criação de estúdio. É algo que faz parte do dia a dia de gravações, remixes, produções e até da hora de levar toda a traquitana para a estrada.

  • Ouvimos: Peter Murphy – Live Volume 4 Metro Chicago 1990 / Live Volume 3 4th & B San Diego 2000 (ao vivo)

Interpretações à parte, o Hot Chip sai engrandecido e cheio de contornos diferentes de Joy in repetition. Em entrevistas, o grupo já falou que, ao começar, tinha objetivos pop bem mais ambiciosos do que seguir o manual do cruzamento dance-rock (aliás, uma ousadia parecida com o que o Tame Impala vem fazendo nos últimos anos). Não era simplesmente fazer o que New Order, Depeche Mode e The Cure já haviam feito, até porque as raízes tinham que estar bem mais à mostra – e vale citar que o próprio nome Joy in repetition foi tirado de uma música de Prince.

Vai daí que o que surge na coletânea são estilhaços de sons quase industrais, mas que ganham a aparência de um doo wop selvagem e acelerado (Ready for the floor); felicidade pop herdada do soul e do pós-disco (Boy from school); melodias herdadas do soul e combinadas a cortes rápidos e secos, típicos de quem ouviu muto krautrock (One life stand). Também rola na disco music maquínica de Need you now, com vocais entre o soul e o soft rock. E na alegria triste de Positive, canção dançante sobre pessoas discriminadas e solitárias, em que uma amizade separada pelo tempo surge como pano de fundo (“andamos juntos às vezes / não sei como vou conseguir viver se você for positivo”).

  • Ouvimos: Paul McCartney e Wings – Wings (coletânea)

Essa ourivesaria pop abarca em sua maioria canções que parecem ter sido criadas para favorecer seus passos na pista. Isso também rola em Night and day, na baleárica Eleanor, na quase cerimonial Flutes, no soul-disco etéreo de Hungry child, e na lisergia imaginativa de Over and over, com percussão de madeira, caixinha de música, riffs de teclado, samples de guitarra, tudo junto e misturado. Há um clima de viagem dance em Huarache lights e muita introspecção em Melody of love – música que faz lembrar Everything But The Girl, e ganha ares de pista vazia e etérea.

Completando a farra de Joy in repetition, tem ainda o novo single, Devotion, uma espécie de indie-disco-rock, com vibe meio gospel, meio psicodélica na abertura, seguida por um teclado balançante. Se fosse na era do vinil ou do CD, essa coletânea marcaria época – mas ainda está em tempo das pessoas descobrirem que compilações mudam vidas.

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Crítica

Ouvimos: Ed O’Brien – “Blue morpho”

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Resenha: Ed O'Brien - "Blue morpho"

RESENHA: Ed O’Brien mistura prog, psicodelia e influências brasileiras em Blue morpho, disco introspectivo que supera expectativas sobre sua carreira solo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Trangressive Records
Lançamento: 22 de maio de 2026

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Já vi gente comparando a carreira solo de Ed O’Brien, guitarrista do Radiohead, às “crises de diarreia” solo de George Harrison fora dos Beatles – calma aí, né? Não dá pra comparar uma coisa com a outra de jeito algum, nem Thom Yorke é um gênio do rock como John Lennon e Paul McCartney. Pode ser que, ao adotar uma vibe meio zabelê para seu novo disco solo, Blue morpho, Ed esteja trabalhando na cabeça de fãs e crítica uma imagem “espiritualizada” que ele quer que funcione como a de Harrison.

Aí é com ele. Blue morpho, basicamente um disco progressivo, surgiu de matutações e depressões durante a pandemia, e tem entre suas inspirações, uma frase do poeta e agricultor Wendell Berry (“para conhecer a escuridão, vá até ela”) e as práticas de respiração e exposição ao frio do palestrante motivacional holandês Wim Hof. O som do álbum é frio e até meio sombrio – mas parece uma sombra que você procura, nada a ver com as trevas que aparecem na vida de vez em quando.

  • Ouvindo: Modest Mouse – An eraser and a maze

As faixas surgem da simplicidade e da repetição, e vão crescendo aos poucos, como acontece com Incantations, na abertura, e Sweet spot – esta, algo entre O Terço e as passagens de violão do Pink Floyd, encerrando com um clima meio cigano no arranjo de cordas. Mas Blue morpho vai seguindo todo trabalhado na exuberância, em músicas como a faixa-título, um monolito orquestral de seis minutos (e que, só pra ficar no prog verde-e-amarelo, lembra demais Milton Nascimento e Lô Borges, por sinal). A psicodélica Teachers tem pegada funkeada e clima “tóinnnn” na onda de bandas como Gong e Can.

O terço final de Blue morpho abre com Solfeggio e Thin places, músicas curtas, simples e instrumentais, trabalhadas tanto no progressivo quanto no post rock, mas que soam mais como fillers perigosos num disco de apenas sete músicas. A surpresa no final são os dez minutos de Obrigado, homenagem de Ed ao tempo em que viveu com a esposa e os filhos no Brasil, numa região rural próxima a Ubatuba (SP). Um simpático ijexá de gringo, herdado diretamente de Caetano Veloso (sim, a voz de Ed faz lembrar), e com algumas palavras em português – e que ganha pinkfloydismos no final.

Radiohead não é Beatles, Ed não é George Harrison, mas Blue morpho desce bem e soa bem mais interessante do que a atenção desmedida aos passos confusos de Thom Yorke.

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Crítica

Ouvimos: Big Special – “O’JOY!” (EP)

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Resenha: Big Special – “O’JOY!” (EP)

RESENHA: Em O’JOY!, o Big Special explora sombras, poesia falada e experimentalismos, ampliando o som ácido e inquieto do duo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: SO Recordings / Silva Screen Records
Lançamento: 5 de junho de 2026

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No excelente álbum National average, lançado ano passado, o Big Special soava como um EMF (lembra deles?) que entrou em órbita, ou como um desdobramento da receita doidona do selo Food, na virada dos anos 1980 para os 1990 – falamos exatamente isso quando resenhamos o disco. Agora chegou a hora de dar uma arrumada de respeito na casa: O’JOY! é um EP tamanho quase-família (dez músicas, meia hora de duração) em que Joe Hicklin e Callum Moloney dão uma reaproveitada no que não coube nos álbuns.

O material não coube pelas mais diversas razões – mas o Big Special não faz questão de facilitar nada pra ninguém e faz do disco um depositário de sombras e experimentalismos. Rola na poesia falada de ** e Only free when sleeping (essa, um soul gélido sobre bilionários cada vez mais bilionários), no funk-pós-punk de Plaintive native (cujo tema é a falta de esperanças, além do fim do mundo à vista), no folk punk de Lazarus e em todo o disco, que traz um design bem mais experimental que o álbum anterior.

Tanto que faixas como The wake e Family bones trazem sons como cenário – o que se desenvolve aí é a poesia crua e bem ácida do duo, sempre apontando para os momentos em que a humanidade parece virar geleia. Garden of fools é um ambient que aponta para um “ambiente” em que ninguém adoraria estar (“então continuamos atirando e semeando joias / para fazer brotar um jardim próspero de tolos / ao redor dos antigos túmulos / onde enterramos nossas ferramentas / depois que nos tiraram as mãos e a razão”).

Faixas como Slug life e Dragged up a hill são bem inesperadas – aliás, bem mais sérias, musicalmente falando, do que que tudo que o Big Special lançou até hoje, com belezas percussivas ou meditativas. O’JOY! vale como curtição, mas é um momento bem diferente na vida do duo.

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Ouvimos: Tooth – “Restless in bloom” (EP)

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Resenha: Tooth – “Restless in bloom” (EP)

RESENHA: Punk, garage e pós-hardcore se cruzam no EP de estreia do Tooth, que entrega músicas intensas, sinceras e cheias de energia juvenil.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Soil To The Sun
Lançamento: 12 de junho de 2026

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Uma banda que se define como “suada e promissora”… Bom, seja lá o que queira dizer isso, o Tooth – autores aí da tal definição – se mostram exatamente isso em seu primeiro EP, Restless in bloom. Basicamente o som deles é punk e garage rock, herdado tanto do punk rock quanto do indie dos anos 2000, mas com uma tendência a surfar em torno dos ritmos. Ou seja: tem uma onda pós-hardcore sendo surfada por eles, igualmente.

  • Ouvimos: Sorosoro – Eu e você ou Tudo que eu não quero que você saiba

Rola logo na primeira faixa, Schoolyard, uma lembrança de tempos idos, reconhecendo que “a cidade engoliu a gente e cuspiu de volta”. O Tooth ainda margeia o pós-punk no arranjo funkeado e garageiro de The age of innocence, música falando de dores e traumas pessoais. Wallflower e Medicine chegam perto do emo, assumido como um dos estilos pelos quais a banda passa no disco.

A faixa-título, no final, une punk e power pop em torno de uma letra que, basicamente, fala sobre a chegada ao mundo adulto – o eterno “tenho 18 anos e não sei o que quero da vida”, que sempre rende música e letra. O Tooth promete mesmo, e tem muita verdade no som.

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