Crítica
Ouvimos: Hot Chip – “Joy in repetition” (coletânea)

RESENHA: Coletânea do Hot Chip reúne 20 anos de indietronica dançante, entre soul, disco, krautpop e repetição criativa de pista.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Domino
Lançamento: 5 de setembro de 2025
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Grupo britânico e branquelo de indietronica, o Hot Chip agiu inúmeras vezes daquela maneira típica que artistas brancos agem quando se veem diante de todo um universo musical criado originalmente por artistas pretos: foi lá e tentou recriar tudo da maneira que lhes foi mais confortável. Uma apropriação cultural daquelas, mas que, a rigor, pôs a música do grupo londrino mais próxima do psych-pop, e de uma espécie de krautpop, dançante e ate suingado, ainda que com certo endurecimento típico de pesquisador.
Não é por acaso que essa coletânea se chama Joy in repetition (“prazer na repetição”) – muito embora, no material de divulgação, o grupo faça questão de falar que a frase refere-se ao fato de estarem juntos há vinte anos fazendo discos, produzindo grooves e fuçando coisas. Há um certo tédio, às vezes até compreensível e bem-vindo, na pesquisa e na criação de estúdio. É algo que faz parte do dia a dia de gravações, remixes, produções e até da hora de levar toda a traquitana para a estrada.
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Interpretações à parte, o Hot Chip sai engrandecido e cheio de contornos diferentes de Joy in repetition. Em entrevistas, o grupo já falou que, ao começar, tinha objetivos pop bem mais ambiciosos do que seguir o manual do cruzamento dance-rock (aliás, uma ousadia parecida com o que o Tame Impala vem fazendo nos últimos anos). Não era simplesmente fazer o que New Order, Depeche Mode e The Cure já haviam feito, até porque as raízes tinham que estar bem mais à mostra – e vale citar que o próprio nome Joy in repetition foi tirado de uma música de Prince.
Vai daí que o que surge na coletânea são estilhaços de sons quase industrais, mas que ganham a aparência de um doo wop selvagem e acelerado (Ready for the floor); felicidade pop herdada do soul e do pós-disco (Boy from school); melodias herdadas do soul e combinadas a cortes rápidos e secos, típicos de quem ouviu muto krautrock (One life stand). Também rola na disco music maquínica de Need you now, com vocais entre o soul e o soft rock. E na alegria triste de Positive, canção dançante sobre pessoas discriminadas e solitárias, em que uma amizade separada pelo tempo surge como pano de fundo (“andamos juntos às vezes / não sei como vou conseguir viver se você for positivo”).
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Essa ourivesaria pop abarca em sua maioria canções que parecem ter sido criadas para favorecer seus passos na pista. Isso também rola em Night and day, na baleárica Eleanor, na quase cerimonial Flutes, no soul-disco etéreo de Hungry child, e na lisergia imaginativa de Over and over, com percussão de madeira, caixinha de música, riffs de teclado, samples de guitarra, tudo junto e misturado. Há um clima de viagem dance em Huarache lights e muita introspecção em Melody of love – música que faz lembrar Everything But The Girl, e ganha ares de pista vazia e etérea.
Completando a farra de Joy in repetition, tem ainda o novo single, Devotion, uma espécie de indie-disco-rock, com vibe meio gospel, meio psicodélica na abertura, seguida por um teclado balançante. Se fosse na era do vinil ou do CD, essa coletânea marcaria época – mas ainda está em tempo das pessoas descobrirem que compilações mudam vidas.
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Crítica
Ouvimos: E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante – “Lembrança” (EP)

RESENHA: Gravado entre São Paulo, Nova York e Berlim, Lembrança transforma o afastamento dos integrantes do E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante em cinco instrumentais entre post-rock, psicodelia e shoegaze.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Balaclava Records
Lançamento: 15 de setembro de 2026
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Não é só a Terra que anda meio distante: Lucas Theodoro (guitarra e sintetizador), Luccas Villela (baixo), Luden Viana (guitarra) e Rafael Jonke (bateria), os quatro integrantes do E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante andaram meio separados nos últimos anos, com Villela vivendo em Berlim desde 2023 e Viana tendo passado o último ano em Nova York.
Lembrança, o novo EP, é fruto desse afastamento, que levou a banda a compor as canções sem o baixo – Luccas precisou incluir o instrumento posteriormente, e as gravações contaram com sessões dos integrantes em seus estúdios particulares, entre SP, NY e Berlim. Lidando com uma “sombra” de instrumento, o grupo acabou criando um conceito sonoro de “lembrança”, que acaba atravessando as cinco faixas instrumentais do disco.
O clima voador, conhecido da banda, já surge na abertura, com a vinheta O passado é mais infinito que o presente – e dá um tempinho com o pé no chão de Aos poucos, aberta com aro de caixa e seguida com riff circular, além de um beat quase latino, numa onda próxima do post-rock. Lá pelas tantas, a guitarra ganha eco e surge uma parte 2 mais pesada, com guitarras distorcidas. Reprise, que dura um minuto, é literalmente uma vinheta – poderia ser até um “estamos apresentando” antes de um intervalo, com violão psicodélico e teclados numa onda meio new age.
Sem margem, em clima de transe instrumental, tem beat leve de maracatu. Já Antes que eu me esqueça, no fim do EP, é o som mais cara progressiva no disco, com uma batida que lembra um corte feito num drum’n bass e um clima bem viajante – até que cai no shoegaze, com guitarras bem emparedadas.
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Crítica
Ouvimos: Julia Jacklin – “The gem”

RESENHA: Em The gem, Julia Jacklin transforma lembranças da educação católica em dúvidas sobre deus, fé e controle, num disco de folk rock, jangle pop e guitarras fantasmagóricas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: 4AD
Lançamento: 25 de setembro de 2026
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Dizem por aí, e faz todo sentido, que da vida das pessoas, o catolicismo não sai – você pode ter ido para o extremo oposto (satanismo? Ateísmo?), mas aquela quantidade de dogmas e aquele esquema de educação pela repressão entra no sangue. A australiana Julia Jacklin não é religiosa, nem vem de família católica, mas estudou em colégio católico em Melbourne, participou de corais, e muito de sua vida em meio a experiências religiosas acabou inspirando sua música. The gem, o novo disco, vem bastante desse universo, ou da resolução dele.
Existe um quinhão conhecido do pop e do rock ligado à iluminação – um “lance” religioso, mas que não necessariamente é ligado a nada organizado. De Madonna e Nando Reis, passando por Mutantes, Gilberto Gil e até Oasis (Champagne supernova é isso, não?), muita gente falou de transcendência sem citar deus, Jesus ou qualquer outra entidade. The gem fala de deus como uma eterna dúvida, que passa por temas como: é possível ser feliz de verdade com uma força superior te olhando? Por que alguém precisaria disso? Ainda mais levando em conta que o deus “onipotente e onisciente” não impede as maiores barbaridades de acontecerem?
Angel vision, por exemplo, usa símbolos religiosos para elencar questionamentos como “havia criaturas celestiais desesperadas para cantar para mim / braços frouxos, eu empurrava o teto / como ter certeza de que a fumaça que sai por baixo da porta não é de um incêndio?”. If I had the hand of god questiona: “se eu tivesse a mão de deus / será que o deus cuja mão eu tenho / seria do tipo que saberia a hora de desistir antes que a situação piore tanto?”.
Em alguns momentos, a impressão é a de que alguém MUITO religioso saberia o que responder a cada faixa de The gem – mesmo que fosse uma resposta baseada em algo muito intangível e fora da realidade. God sometimes, uma das letras mais realistas do disco, faria fanáticos religiosos espumar de raiva. Se Criolo perguntou “você vai querer mesmo se comparar com o Senhor?” em Ainda há tempo, Jacklin simplesmente passa por cima do assunto: “tente controlar o clima / mas às vezes você precisa ser um deus / force o momento a chegar / diferente das estações, isso não vai acontecer por si só”.
Musicalmente, The gem tem às vezes uma cara de folk rock + britpop puto e fantasmagórico, como em God sometimes e Brand new, em que ruídos surgem em meio às guitarras distorcidas e ao vocal sensível e controlado de Jacklin. If I had the hand of god é guitar country rock triste, e The hardest thing soa como jangle pop deprê e bonito – Get away from me (I think I’ll love you soon) é jangle de verdade, com um pé no pop sessentista.
Já Angel vision, I wish (com a participação da dupla folk de Melbourne, The Maes) e Real life trazem as belezas acústicas para o álbum – a segunda com uma batidinha indie dance e teclado celestial. You turned on the tap é voz e piano com cara de Lou Reed: som quase cerimonial e vibe contemplativa. Os vocais passam força e tristeza, e certo abandono – e mesmo nos momentos menos doloridos, há muita dor nos questionamentos de The gem.
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Crítica
Ouvimos: Throe – “II” (EP)

RESENHA: Em II, Vina Castro desmonta o metal melancólico do Throe em quatro faixas de drones, distorções e ambient sombrio, com sons que parecem ganhar corpo e virar fumaça.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 14 de setembro de 2026
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O Throe, projeto solo de Vina Castro, guitarrista da Huey e co-criador do site Sounds Like Us, já havia aparecido por aqui com Silver blue, álbum de metal introvertido, melancólico e chuvoso, com faixas longas e uma vocação ambient que aparecia em vários momentos. II, EP disponível apenas no Bandcamp, leva essa característica para outro lugar: sai um pouco a estrutura de “banda”, entram ruídos, drones, distorções e sons que parecem estar sempre prestes a se desfazer.
O release avisa que tudo foi gravado da maneira como foi composto – e dá pra notar que é música preservada no instante em que surgiu, inclusive com suas imperfeições. Às ondas, com nove minutos, abre com teclado e logo recebe uma guitarra sombria, que poderia apontar para o grunge, o pós-punk ou o stoner. Só que a faixa vai abandonando essas referências até virar praticamente uma onda sonora: dedilhados, drones e distorções se acumulam num clima hipnótico.
Agosto brinca justamente com uma das dualidades do EP. O início pode soar bonito e ambient ou anunciar alguma coisa bem menos palatável – e a segunda opção vai ganhando terreno quando entra a guitarra e os timbres assumem uma tensão fantasmagórica. Poro segue nessa direção com um drone tristonho, distorções e um clima que parece feito para arrepiar o ouvinte (será que o nome vem daí?).
Já Feedback abismo encerra o EP com um drone sombrio e repetitivo, quase um harmônio demoníaco – a primeira lembrança que vem à cabeça é The marble index, de Nico. A pressão aumenta, diminui e retorna num movimento circular, até o som começar a desaparecer no fim. Quatro faixas que parecem nascer, ganhar corpo e virar fumaça na frente do ouvinte.
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