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Jogaram no YouTube o áudio do primeiro show do Metallica com Cliff Burton

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Jogaram no YouTube o áudio do primeiro show do Metallica com Cliff Burton

A ausência do baixista Cliff Burton (1962-1986), responsável pela fase inicial do Metallica a atingir o mercado fonográfico, é sentida por vários fãs da antiga até hoje. Um fã do grupo resolveu dar um presente de Natal para os admiradores do músico: jogou no YouTube o áudio do primeiro show que o Metallica fez com o músico, realizado em 5 de março de 1983 no The Stone, em San Francisco.

Burton tinha entrado para substituir o ex-baixista Ron McGovney, que saiu da banda em dezembro de 1982. E quem ainda andava pelo Metallica naqueles tempos era ninguém menos que o futuro líder e criador do Megadeth, Dave Mustaine. Kirk Hammett, que ainda estava longe do Metallica, era um integrante do Exodus naquele período.

Repertório:
The mechanix
Phantom Lord
Jump in the fire
Motorbreath
No remorse
Seek & destroy
(Anesthesia) Pulling teeth
Whiplash
Am I evil?
The Prince
Blitzkrieg
Metal militia

Pega aí.

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Àiyé: experimentalismo 100% solo, ao vivo no Rio

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Àiyé: experimentalismo 100% solo, ao vivo no Rio (na foto: Larissa Conforto)

Baterista, compositora e produtora, Larissa Conforto é a única integrante do projeto experimental Àiyé. Única mesmo: nesta sexta (3), ao abrir o show de Céu no Circo Voador (aqui no Rio), ela deverá estar sozinha na apresentação, cantando e operando a aparelhagem que leva para o palco.

Mais conhecida anteriormente por seus trabalhos no rock (com a Ventre, banda que chegou a tocar no Lollapalooza em 2018) e na MPB (toca com artistas como Paulinho Moska), Larissa se recriou musicalmente na Àiyé, que lançou seu primeiro disco, Gratitrevas, em 2020, pouco antes do isolamento ser decretado no Brasil. O repertório traz o encontro dela com ritmos latino-americanos, experimentalismos musicais e religiosidade afro-brasileira (esse último, um tema que amarra todo o álbum, destacado em faixas como Terreiro).

Criada como um projeto musical prático (“que cabe numa mochila”, diz ela), a Àiyé foi concebida em meio a trabalhos musicais de Larissa em vários lugares, e envolveu mudanças dela para Portugal e para São Paulo. Gratitrevas já estava com uma turnê agendada para o Japão, que não rolou por causa da pandemia. A artista aproveitou para fazer uma turnê de lives, mostrando o trabalho direto do seu estúdio, em casa.

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Batemos um papo rápido por Larissa, ao telefone, sobre o show no Circo, a volta aos palcos e sobre como está sendo trabalhar 100% solo.

Como estão sendo os ensaios aí? E como está sendo sua expectativa para o show no Circo Voador?

Cara… pandemia, né? Eu montei uma estrutura aqui em casa. Montei um pequeno estúdio e ensaio tudo no fone. Como sou só eu, é assim que eu ensaio. Deixo montado, às vezes passo todo o show, às vezes volto. O show tem muito improviso, mas para ter improviso você tem que ensaiar muito mais, para conseguir ficar à vontade. Hoje dei uma choradinha, fiquei emocionada (rindo), pensei: “Meu deus do céu, vou tocar tudo isso no Circo Voador sozinha no palco”.

No palco, deve ter muita coisa para ser dita além da música, não? Porque esse tempo todo que a gente passou, nesse desgoverno e em casa… Como você está se preparando para isso?

Eu não sou do tipo que deixa só a música falar, apesar das minhas músicas falarem por si próprias. Eu não programo muito as coisas que eu vou falar, tenho uma ideia do que precisa ser dito para um Circo Voador lotado em tempos de muitas trevas. Temos um fascista no poder, estamos no pós-pandemia, tá vindo outra variante aí, as pessoas querendo ir para o Carnaval… São muitas questões envolvidas, mas sinto que tem muita coisa para ser dita. Talvez tenha mais coisas para serem ditas do que tempo de show (rindo). Mas dei uma organizada nas horas de falar, o que é essencial. Na hora vai sair do coração. Botei alguns temas, mas a emoção vai falar mais forte.

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Como você se descobriu como artista solo? Você vinha da Ventre, que foi uma banda independente bem sucedida, tocou no Lollapalooza… E no caso é solo mesmo, porque é você sozinha.

É como se eu fosse uma one woman band. Eu tento explicar isso no release: que eu toco sozinha, que não é só carreira solo com uma banda, que eu realmente toco sozinha. Eu nunca sei explicar sem ser usando essa palavra, apesar de eu achar meio esquisito falar em inglês. Mas eu acho que existe toda uma trajetória, uma história do fazer coletivo. Eu sempre estive em coletivos, comecei a tocar como instrumentista em carreiras dos outros, sempre ajudando os outros a fazer nascer um projeto, um disco, uma turnê.

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Chegou uma hora que… Bom, o retorno de Saturno chega para todo mundo. Mas acho que no fim da Ventre que eu senti isso no peito. Essa necessidade de colocar as minhas ideias, de expressar as minhas coisas. Tudo isso veio quando eu compus a primeira música. Tem a ver com essa necessidade de expressar. E com falta de recursos, porque aí eu fui fazendo em casa, e as músicas eu fui fazendo entre turnês. Quando eu estava no avião e não estava pegando internet, eu ligava o computador, abria o Ableton Live e ia produzindo as músicas. Ia compondo, escrevendo, sempre nesse momento, no ônibus. Viajei para Portugal, fui fazer uma turnê lá. Levei minhas coisas, fiz um show lá meio doideira, instrumental. Acabei me mudando para lá, fiquei seis meses morando lá, terminei o disco lá.

Mas o processo de ser sozinha teve duas vias. A primeira veio do “preciso fazer, e preciso fazer agora, e a única forma que tenho de fazer agora é essa, não vou esperar que venham pessoas!” E a segunda veio do fato de eu precisar fazer de forma viável. Eu precisava de um projeto que coubesse numa mochila, que eu não precisasse nem despachar essa mochila, para eu levá-la comigo em toda em qualquer turnê que eu for fazer com outros artistas. E que assim eu possa levar meu show para outros lugares. Foi assim que eu toquei em Portugal, toquei em Nova York. Aproveitava que estava indo fazer uma turnê, levava o meu projeto na mochila e ia fazendo mais shows. Isso viabilizou também o próprio disco, viabilizou tudo acontecer.

E não à toa, eu dei muito azar mas também dei muita sorte de ter lançado o disco logo no começo da pandemia. Lancei na primeira semana que o Brasil declarou lockdown, dia 20 de março. Caíram todos os shows…

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Você tinha uma turnê marcada para o Japão, não era isso?

Exatamente. Eu ia tocar num festival. Enfim: um monte de datas surgindo, eu estava marcando turnê na Europa, ia tocar em três festivais no Brasil. E além de tudo cair, tem a questão das pautas, da assessoria de imprensa… Demora um tempão para se organizar tudo isso, para investir. Eu nem estava mais morando no Brasil, mas estava aqui porque queria lançar o disco aqui, com todo o mundo. De repente tudo fechou, todas as pautas eram sobre covid. Mas por sorte eu tinha um show solo montado. Que eu conseguia fazer de dentro da minha casa. Então eu fiz uma turnê internacional de lives (rindo).

Fiz tudo da minha casa, toquei em Lisboa, Rondônia, Amazonas, no Sul, em tudo quanto era estado do Brasil. E foi meio que me reinventando. Tudo foi meio assim, usando as ferramentas que tinha e surfando na onda do jeito que dava.

E é um projeto que é muito marcado pela reinvenção: você percebe isso nas letras, nas músicas, nas interpretações e na maneira de você fazer, também…

Completamente. Eu também saí de um lugar de baterista, e fui pro lugar de compositora, de protagonista, falando sobre as minhas questões, as coisas que me interessam. Porque muitas vezes me chamavam para fazer coisas de rock. E eu pesquiso ritmos latino-americanos, a identidade latino-americana através dos ritmos e não tinha onde botar isso, escoar as minhas ideias, as minhas pesquisas. Foi tudo para o projeto.

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Como você se descobriu produtora? Quando começou a tocar profissionalmente, já pensava em produção?

Eu me formei em Produção Fonográfica. Entrei na faculdade com 18 anos e me formei com 20. E fui trabalhar em gravadora, então sempre trabalhei em produção. Já me formei e fui trabalhar na Biscoito Fino, já estava ali envolvida na produção, no estúdio, na montagem, na gravação. Tive a bênção de acompanhar muito artista grande, medalhão: Maria Bethânia, Gilberto Gil, Moraes Moreira… Depois fui para a Deck, que era uma gravadora muito independente, você tinha que levantar muito mais recursos, e lá fui para A&R mesmo.

Na Biscoito Fino eu era da produção artística e da produção executiva. Estava junto com o A&R, mas não era eu que fazia curadoria ou escolhia repertório. E daí eu acho que sempre meio produtora das minhas bandas também. Comecei a trabalhar como baterista, profissionalmente, aos 17, 18 anos, também. Estava entrando para a faculdade, aprendendo a gravar, comecei a ser DJ porque queria ter um estúdio para poder gravar as bandas. Já tinha essa vontade de tirar som, de fazer as coisas. Mas também por ser mulher, naquela época, eu não conseguia emprego num estúdio. Então fui para o lado da produção, só que sendo assistente.

Mas em todos os projetos em que eu estava, eu sempre fui muito a arranjadora. Mesmo na Ventre, tinha música em que eu fazia as guitarras, pensava nos arranjos, mudava tudo. Sempre gostei muito de interferir nas coisas. Acho que o olhar da instrumentista Larissa já é um olhar de produtora. Mas claro que a realização das ideias, de pegar e botar a mão na massa, foi mesmo com o meu projeto e ele abriu portas para fazer um monte de coisas. Já tinha feito uma trilha ou outra, antes. Mas foi depois que eu fiz um disco inteiro, que eu me coloquei pra produzir outros artistas mais firmemente.

Tem algum trabalho seu vindo aí, de trilhas sonoras, produção?

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Tem uma trilha sonora que eu estou fazendo com a Natália Carreira (Letrux), para um série do canal Disney+ chamada Não foi minha culpa, sobre feminicídio. Deve sair no começo do ano. É uma aposta tem forte, tem Malu Mader, Elisa Lucinda. Tem também a carreira solo da Ju Strassacapa, da Francisco El Hombre. O projeto se chama Lazúli, eu produzi uns beats, a Ju animou e acabamos fazendo uma banda. Fizemos eu, a Cris Botarelli, do Far From Alaska, e a Lena Papini, também da Francisco. E tem um monte de pequenos feats, um single ou outro. Também estou produzindo a carreira solo da Roberta Dittz, da Canto Cego. Inclusive mandei pra mix hoje, vai sair ano que vem.

Falando um pouco mais do Gratitrevas, queria que você falasse de O mito e a caverna, que tem um clipe impressionante e é também uma música impressionante. Como surgiram clipe e música?

A música começou a ser feita em 2018. A gente já podia sentir o cheio de enxofre, né? (era a época da última eleição presidencial) A Ventre acabou e eu topei fazer uma turnê com o Vitor Brauer (da banda mineira Lupe de Lupe) que é meu parceiro nessa música. A gente fez uma turnê de três meses num Corsa 96, que foi apelidado de Interceptor (rindo). Fizemos o Brasil inteiro, de Norte a Sul. Foram 36 datas em dois meses e meio, quase três.

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Foi muito forte, fizemos a turnê todos vestidos de vermelho, foi bem político. Em cada cidadezinha do interior, de cada estado, fomos falando, “a gente tem que se unir, a gente tem que fazer rede, tem que estar junto, olha isso que tá acontecendo?”. A turnê foi nessa onda, de música de resistência. Eu trouxe várias músicas diferentes que já havia tocado na carreira, não só da Ventre. O Vitor também, e fizemos um show bem assim.

Num desses percursos, se não me engano de Goiânia voltando para Minas, a gente viu um incêndio. Foi uma estrada inteira pegando fogo. Provavelmente era cana, eucalipto que eles botam fogo. Era muito fogo, muito quente. A gente ficou com aquela cena do fogo na cabeça. Passou um tempo, eu fiz essa base, estava produzindo o disco, e falei: “Vitor, bora fazer uma música? Acho que tem que ser meio nervosa, lembra do episódio do fogo?”.

Ele me mandou uma letra, que começava com “corpo sobre corpo”. Eu perguntei: “O que você acha da gente relacionar isso com o mito da caverna? (de Platão)“. Porque a gente passou a turnê inteira ouvindo audiobooks, podcasts e discos, e a gente ia discutindo, era muita filosofia na conversa. Éramos só eu e ele, a gente ia dirigindo às vezes nove, dez horas por dia. E aí mudei grande parte da letra nesse sentido, já relacionando com o mito da caverna. É impressionante como a letra vai ficando mais contemporânea a cada dia que passa.

Para o clipe, eu já tinha essa ideia. Quando a Àiyé nasceu, a primeira coisa que fiz foi uma residência artística a convite do Alexandre Matias (jornalista, criador do site Trabalho Sujo), que fiz no Centro da Terra (espaço cultural independente em São Paulo). Foram quatro segundas-feiras, e foi a primeira vez que eu apresentei a Àiyé. Chamei meus amigos para tocar e cada dia era uma fase da lua no show. Nessa performance, nesses quatro dias, eu já estava com essa ideia de pegar o tema da fase da lua, jogar no Google e projetar tudo o que ia aparecendo. Era uma pesquisa de Google, ia jogando uma por cima da outra, como se fosse uma edição, mas era uma pesquisa. Colocava poesia, imagem, coisas que iam me remetendo, e ia cantando, tocando e improvisando em cima. Fiz todos os dias dez minutos disso, virou uma performance da Àiyé.

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Eu queria que o clipe fosse assim, queria levar essa performance para o clipe. E foi isso, chamei o André, que montou o clipe – na quarentena, fiquei hospedada na casa dele. A gente selecionou um monte de arquivos, notícias. Ele fez de maneira brilhante. Teve um parceiro que fez uns 3Ds, mas ele pegou minha ideia bruta e lapidou. Ficou bem poderoso. Gostei muito também! (rindo)

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Djangos mexem no baú e regravam demo de 1997 aos poucos

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Djangos mexem no baú e regravam demo de 1997 aos poucos

Mesmo sem conseguir dar shows e sem conseguir ensaiar por causa da pandemia, a banda carioca Djangos voltou, discretamente, com um lançamento comemorativo. Lyle Diniz (baixo), Jj Aquino (bateria) e Marco Homobono (guitarra e voz) mexeram no baú, voltaram à sua demo de 1997, 100 cortes – cujas músicas ainda não haviam sigo gravadas em discos do grupo – e estão regravando as quatro canções do K7, aos poucos. Em 2021 já saíram dois singles do projeto 100 cortes revisitado, com as músicas Bibliografia (lançada em março) e Aeroporto internacional (em outubro).

Batemos um papo com Homobono, que também vem lançando vários materiais off-Djangos (solo, ou acompanhado de amigos como Gilber T) e ele contou sobre como Aeroporto internacional é ligada à sua vivência como ex-morador de um bairro muito pouco citado do Rio de Janeiro. E relembrou a época de Raiva contra oba-oba, a estreia do grupo, de 1998

Como Aeroporto apareceu na sua vida e na do Djangos?

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Essa música está numa demo que a gente lançou em 1997, chamada 100 cortes. É uma demo muito importante pra gente porque foi gravada na década de 1990 lá em Curitiba. A gente tinha uma certa facilidade para viajar porque os eventos que aconteciam geravam um dinheiro que dava para pagar a passagem de ônibus, estadia… A gente não ganhava cachê, mas viajava.

Eu nunca tinha nem pensado em ir para lá, mas fui duas vezes no lançamento da coletânea Paredão, que foi no Aeroanta, e depois voltamos porque o Rodrigo Cerqueira, que era baterista do Skuba, fez um evento lá e chamou a gente para tocar. Fomos lá, o Pedro de Luna (jornalista, escritor e autor da biografia do Planet Hemp, Mantenha o respeito, entre outros livros) fez essa ponte para a gente. O Pedro inclusive foi com a gente.

E aí esse show foi até bem importante para a gente porque eu vi uma banda de ska com metais tocando lá. E isso determinou que usaríamos metais, porque eu fiquei encantado com aquilo. Enchi o saco da banda: “A gente tem que ter metais, tem que ter metais!”. O João era muito partidário do esquema de ser só o trio. Mas isso serviu para a gente fazer a parada desse jeito. O 100 cortes, como a gente gravou numa mesa e transformou numa demo, ela vendeu bastante, a galera vendia muito essa demo.

Havia um mercado grande de demos, não?

Havia um mercado aquecido, você vendia demo, mandava pelo correio, era um negócio movimentado mesmo. A galera que trabalhava no Garage – o Max, o Ricardo, o Panda, o Ronald – eles tinham essa sociedade e comercializaram essa fita. O Djangos ia começar a gravar, a compor músicas novas, a gente estava se encontrando em 2020. Mas aí veio a pandemia e a gente parou total. Nesse meio-tempo, começaram a rolar aquelas gravações que cada um fazia uma coisa no seu canto, assim… com vídeos com quadradinhos dividindo, cada um no seu ambiente de casa.

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Fizemos um justamente com a música Aeroporto internacional, mas o resultado não ficou bom. Acho que aí tivemos a ideia de pegar a demo, porque ela tem quatro músicas que nunca foram gravadas em lugar nenhum. Pensamos: “Vamos fazer um projeto, 100 cortes revisitado“. Escolhemos duas músicas para começar, que foram Bibliografia e Aeroporto internacional.

Essa música apareceu porque na época, isso lá em 1996, 1997, eu estava escutando o Casa babylon, disco do Mano Negra. Tinha lá uma música chamada El Alakran (La mar esta podrida), que é muito maneira, tem um coral de crianças. E esse disco é cheio de colagens, ele usava muito sampler. Depois o Mano Chao (vocalista) usou isso no disco dele de estreia. Essa música me chamou muito a atenção, porque vem uma voz que diz “aeroporto Mano Negra!”.

Isso ficou na minha cabeça e eu: “aeroporto, aeroporto…”. Eu comecei a falar do Galeão e imaginei o entorno, que era um lugar que eu visitava  bastante quando era criança. Eu morava ali onde o pessoal fala que é Higienópolis, perto de Del Castilho, do Complexo do Alemão…

Sim, sim. Um bairro que o carioca não conhece, por acaso. Você fala em Higienópolis e o cara pensa em São Paulo, não no Rio…

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Verdade! Mas existe esse bairro, ali perto de Del Castilho, do Jacarezinho. Cresci ali, conheci bem aquela região. Comecei a falar de uma comunidade fictícia que ficava à beira do aeroporto. Não sei posso considerar que a Maré está na cabeceira, pode ser que ela esteja bem distante. Mas imaginei a comunidade em que o pessoal tomava banho na Maré poluída. Fui numa onda que eu acho que é bem Alagados (Paralamas), a mesma geografia que o Herbert Vianna contemplava quando ia para o fundão… foi a mesma que me inspirou ali. Comecei a falar dessa comunidade aí, da coisa de trabalho assalariado, trabalho escravo, “quero minha carta de alforria”…

Tem uma onda parecida mesmo!

É uma filha de Alagados. Eu tava até lembrando aqui que essa música aí… Os Djangos são uma banda independente, a gente faz o que pode em termos de verba para gravar. E essa música levou muito tempo para ser feita. Aconteceram várias coisas, desde computador quebrado, a gente teve que consertar computador para terminar a música. Fiquei duas semanas sem fazer nada nela… O João (Jj Aquino, baterista) eu não vejo há tempos, até mandei uma mensagem para ele e falei: “A gente tem que se encontrar, cara!”. Porque nunca mais eu encontrei com ele.

Desde 2020?

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Desde 2020, foi nosso último ensaio. O pai do Lyle morreu há pouco mais de um mês, e o pai dele era meu vizinho, era um grande apoiador da banda desde o começo. Eu tô aqui em Niterói hoje e eu lembro que ele vinha trazer a gente em Niterói, no Gato Preto, no Farol. Foi um cara que ajudou muito a gente. Estive com Lyle e o João não vejo desde aquela época. E aí a gente fez isso tudo separado, o João foi num estúdio, com o maior cagaço, no meio da pandemia. “Vai ter só eu e o cara na outra sala…”, ele disse. Foi lá e gravou duas músicas na bateria.

O Lyle não tinha onde gravar e foi lá em casa. Depois que o Lyle gravou fiquei duas semanas parado, apático. Foi na semana que o Paulo Gustavo (ator) morreu, e aquilo mexeu bastante com muita gente, a perda. E depois na mesma semana teve a matança no Jacarezinho… Cara, eu fiquei deprê, sem atitude, para fazer certas coisas. Isso atrasou um pouco as coisas. A gente não tinha um prazo, não sei se isso é bom ou se é ruim, porque a gente é nosso próprio coordenador, produtor, a gente tem que se cobrar. Mas sempre fui defensor dessa música, falava “tá demorando, algumas coisas são mais cagadas mesmo que as outras, mas essa música é boa!”. E a galera curtiu, muita gente tá falando da música. Bibliografia passou meio em branco…

Eu fui ouvir Bibliografia outro dia, não tinha escutado quando saiu. A letra é bem legal, cita o nome de um monte de artistas, me lembrou até uma playlist do Ronca Ronca

Pois é, podia ter botado o Ronca Ronca no meio! A letra foi um dos releases que eu escrevia na época. Tinha várias outras coisas, “subwoofer do DJ Marlboro”, mas na hora de fazer a música botei o que dava mais musicalidade. Era um release da banda resumido, de coisas que influenciavam a gente.

Tem mais algo do 100 cortes vindo aí? 

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A ideia é terminar! Porque tem mais duas músicas. Uma era uma adaptação que a gente fez do “trem maluco quando sai de Pernambuco, vai fazendo tchucotchuco até chegar no Ceará”, a gente cantava em versão mais punk. A galera gostava, pelo apelo da música infantil. E tem um hardcore misturado com reggae que são as duas últimas músicas. A gente quer gravar e botar num EP. Estamos cumprindo o script de lançar singles. Mas a gente é uma banda do milênio passado, a gente gosta mesmo é de álbum, né, cara?

Só que tem uma questão financeira aí, pra você gravar um disco legal precisa de uma grana. A gente é independente, tá correndo atrás aí de editais para bancar um EP num estúdio bem gravado, com uma produção maneira. Ou até um disco mesmo, vamos ver o que vai acontecer. Ou quem sabe alguém da banda ganha na Mega Sena! (rindo)

Eu dei a ideia da gente voltar a ensaiar em casa mesmo, retomar as músicas que a gente estava fazendo, que seriam para um terceiro disco. E pensar em voltar a tocar, né?

Os shows estão voltando, tem o Circo Voador, Audio Rebel… Como você tá vendo esse retorno aí?

Com muito receio. Fui ver um show da banda DKV aqui em Niterói, foi cobrada carteira de vacinação, todo mundo de máscara, tinha distanciamento. Mas esse vírus é traiçoeiro e o pessoal fica falando das ondas, “lá fora já tá na quarta onda, surgiram casos em Londres…” E às vezes as pessoas se comportam como se já tivesse passado, né? Eu tenho muito receio, tipo “ah, vamos ver o Djangos sei lá onde”, aí a pessoa pega covid é entubada e morre. Eu ficaria bolado com isso.

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Quero mais segurança para todo mundo, isso só vai vir com o tempo. Vamos ver como as vacinas vão se comportar ao longo do tempo. Esse show que eu fui foi na Sala Nelson Pereira dos Santos, um espaço enorme, um palcão. Pensei: “Isso é o que eu gosto de fazer, mas eu tenho medo”. Prefiro ser prudente nessa hora aí.

Raiva contra oba oba, o primeiro disco de vocês, lançado em 1998 pela Warner, completa 25 anos em 2023, daqui a pouquinho. Como foi a experiência de estar numa gravadora grande? 

A experiência da gravadora foi boa para a gente ter acesso a um estúdio, a uma produção, a uma estrutura boa. A gente gravou num estúdio da Barra, de 18h até a madrugada. Fizemos isso durante um mês, todos os dias da semana de segunda a sexta. O João Barone e o Tom Capone (produtores) com a gente. Eu nunca teria estrutura para bancar dois produtores desse porte. Esse fim do ciclo das gravadoras, a gente pegou uma última fase onde a estrutura fonográfica tinha a coisa do advance, que era um dinheiro que a gravadora te pagava baseado numa previsão do quanto você poderia vender. Eles te adiantavam dinheiro, a gente aproveitou essas possibilidades.

Mas eu acho que a banda era muito imatura, falo por mim. A gente não conseguiu se impor, e ao mesmo tempo que a gravadora fez tudo isso, na hora de promover foi alegada falta de verba. Viajamos com dinheiro da gravadora algumas vezes, mas foi um trabalho pequeno, não foi maciço. Teve essa imaturidade, teve a mudança do diretor artístico – porque quem contratou a gente foi o Paulo Junqueiro, e ele depois saiu. O Tom Capone entrou. Às vezes isso pode acontecer, você não está no projeto empresarial de um diretor artístico.

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Ele produziu a banda, mas aí ele mudou para a direção artística, e mudou a política do selo?

Mudou. Não tinha nada garantido, a gente era uma banda iniciante. Não recebemos muito apoio para divulgar, ainda mais levando em conta a estrutura empresarial ali. E teve a imaturidade, acho que a gente não conseguiu se impor. Eu era uma pessoa muito sem autoestima, apesar de acreditar nas minhas músicas. Isso dificultou muito. Mas teve seus momentos ótimos. Foi, de qualquer maneira, um grande momento, sou grato por ter tido essa experiência.

E como foi ser produzido pelo João Barone?

Paralamas para mim é paradigma de banda de rock, acompanhei os shows, os discos. E ele tava ali, exigindo da gente, coordenando a execução, comandando coisas nas letras, “isso não tá bom, não, muda!”. Eu lembro até que uma música que fazia relativo sucesso nos shows não foi pro primeiro disco, porque o Barone não curtiu muito. Faz parte da produção.

A gente teve que escolher repertório, o Barone escolheu o que ia entrar. Tem a convivência, de ele escutar a história da gente, a gente ouvir histórias dele. Sou muito fã dele e do Capone, mas na época eu não tinha consciência da magnitude do que estava acontecendo. Hoje eu olho para trás e penso: “Passei um mês convivendo com o Barone!” (rindo). E todo dia. Ele é um grande ídolo do João, que admira muito o Barone. Foi demais.

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E acho que a gente conseguiu não ter uma reverência total, tanto que conseguimos discutir coisas dos arranjos. Sempre debati com produtor e tivemos essa liberdade de debater, ele estava aberto. Não iria rolar nada no esquema do Phil Spector, que quando alguém reclamava de alguma coisa, o cara abria a gaveta e mostrava uma arma (risos). Não rolou nada disso nem com ele nem com o Capone, foi um sonho de criança. E a gente era muito novo, eu tinha 24 para 25 anos, só pensava: “Que coisa boa que aconteceu!”

A última vez que a gente conversou foi na época da música Subcarioca, um single solo seu, que falava da situação atual do Rio de Janeiro. De lá para cá, como está sua visão sobre a cidade? Mudaram prefeito, umas outras coisas…

Eu sou pessimista. Você tira os personagens que protagonizam a vida pública, a máquina, o executivo, o legislativo… mas a mentalidade continua. O povo… bom, nós, né? Nós somos alienados. A gente não sabe o que está acontecendo. Isso facilita para que Bolsonaro seja eleito presidente, por exemplo. Essa mentalidade continua, e estamos nessa situação.

Eu prefiro ser realista: a gente vai evoluir sim, mas vai levar décadas para a gente chegar no “o Brasil é uma superpotência que dá valor a seu próprio povo”. Vai demorar muito para reverter isso. Eu costumo dizer que sou uma pessoa muito deprimida e muito feliz, porque qualquer pessoa que seja observadora atenta aos fatos vai olhar para o mundo e dizer que a gente tá fodido. Mas tenho minha mulher, minha família, minha banda, minha música. Isso me faz ser feliz dentro dessa realidade.

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Figurótico: 20 anos de rock em Barra Mansa (RJ), comemorados com EP

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Figurótico: 20 anos de rock em Barra Mansa (RJ), comemorados com EP

Banda independente de Barra Mansa, município do interior do estado do Rio, o Figurótico completou vinte anos em 2021. O grupo teve namoros com a cena carioca (com direito a shows em festivais como as Seletivas do MADA) e o vocalista Figurótico chegou a virar músico contratado do Biquini Cavadão por alguns tempos. Pegou a vaga inclusive sendo testado pelo próprio Bruno Gouveia (vocalista), que após uma sessão de estúdio, o desafiou a cantar clássicos de bandas dos anos 1980, durante um almoço.

Hoje o grupo é um trio formado pelo cantor, ao lado de Eduardo Pança (baixo) e Paschoal Júnior (bateria). As duas décadas de rock na cidade são comemoradas pelo Figurótico (que o vocalista faz questão de esclarecer que é uma banda, não um trabalho solo) com o EP Arquitetura noturna, com sete músicas, e que vai ganhar continuação com outro EP em breve. Como primeiro single, o disco traz uma recordação da região da banda – Pois é, poesia, com letra da lenda da poesia do Médio Paraíba, Marco Poeta, e tom folk, bem diferente do som herdado do rock nacional anos 1980 do grupo.

Batemos um (longo!) papo com Figurótico sobre disco novo, a história da banda, rock em Barra Mansa, Biquini Cavadão e outros temas.

Como surgiu a opção por um som mais acústico na música nova?

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Por ser muito calcada no violão de aço sempre a imaginei assim, folk. Aquela para tocar e ouvir em meio à natureza. Porém toda música é uma coisa antes de ser gravada e outra após ser. Elas se resolvem em definitivo mesmo é no estúdio. Então antes ainda pairava no ar a dúvida entre ter a banda completa ou deixa-la somente ao violão.

Diante da pandemia passamos meses sem encontrar nosso baterista pessoalmente. Ela foi a primeira “pré” a ser registrada de modo caseiro no estúdio que meu irmão adaptou aqui num quarto do terraço, durante a quarentena de 2020. Registrei apenas em voz e violão e encaminhei para o amigo e guitarrista Rodrigo Novaes. Nós dois já tínhamos feitos alguns shows em duo num bar de Volta Redonda (RJ), tocando um set totalmente acústico, onde ele usava um violão dobro.

Então naqueles shows eu já havia dito que “tinha algumas músicas com bastante violão e que se gravássemos um dia, pediria a ele pra colocar aquela sonoridade”. Ele não só gravou um dobro na música (trazendo uma frase que tinha só no fim da canção para a introdução da música) dando uma bela chamada logo na intro, como preencheu com bandolim e ainda fez as vozes de teclado que acompanhariam o solo (criado por ele) no meio da música. Pronto, naquela pré-gravação a música já tinha pra mim um aspecto totalmente definido.

Gostei de imediato. Meu irmão ouvindo-a e encaixando no computador as partes que o Rodrigo mandou, disse “é, nem vou gravar baixo nessa não”. Tudo isso sem nem ter aparecido ainda a Lei Aldir Blanc, que foi a responsável pelo EP sair do papel depois. Naquele clima de confinamento geral ainda cogitei “vamos soltar essa gravação caseira
pro público!”. Mas refleti melhor e decidi esperar um pouco pra gravá-la valendo.

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Mais tarde quando já reencontramos nosso baterista pros ensaios das músicas, meses após, chegamos a testar uma levada de bateria nos refrãos e na parte do solo, mas foram descartadas. A palavra do Rodrigo teve um papel importante também. Quando gravou disse: “Meu irmão, não ponha bateria nessa faixa não, ela tá pronta”. Ele tinha razão.

Das sete músicas do EP, outras duas contam com esses instrumentos acústicos, porém a banda tocando junto. Terá momentos nessa onda, mas acústica mesmo só essa. Não chega a ter aquela coisa do Na calada da noite, do Barão Vermelho, que a gente chamava de “o disco dos violões”, mas resolvemos trazer pra este algumas que tinham essa aura e que eram mais melodiosas. Já nas outras quatro faixas restantes não tem nada de violão.

De onde vem esse nome Figurótico? Era o nome da banda e virou um apelido?

O inverso. Apelido criado pelo meu saudoso professor de violão/guitarra e das maiores referências de músico que tivemos aqui em Barra Mansa (RJ), Luiz Paulo, o Gordo. Tinha mania de apelidar os alunos. Alguns vingaram e persistiram até hoje: como o do meu irmão e baixista da banda, Pança; e do Setas, amigo de infância, músico e dono do Setas Studio (que hoje está localizado justamente onde era essa “academia de música instrumental” do Gordo), onde foi gravado a maioria do EP.

O meu era algo relacionado a ele me achar uma “figura”. De tanto eu chegar imitando os outros alunos ele dizia “chegou aquela figuraça: chegou a figura exótica, a figura erótica, isso é um Figurótico!”. Não tinha um significado exato. Aos poucos levaram para o colégio e pegou. Quando precisei usar um nome artístico fiquei num dilema entre usar um dos meus nomes/sobrenomes (Edson Flávio Pineschi de Souza), ou o apelido. Portanto é meu apelido que virou o nome da banda.

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E fui sendo chamado assim desde que passei a dar aulas de violão aos iniciantes nessa escola de música; ou quando era o guitarrista do Madeira de Lei, de 1991 a 1995; e de 1996 à 2001 integrante da dupla Toni Madeira e Figurótico. Foi quando meu apelido se popularizou mesmo por aqui, pois todas as semanas gravávamos spots de rádio pros shows que fazíamos na noite, tocando de terça a domingo.

Daí quando montamos a banda em 2001 e larguei essa dupla, foi natural optarmos por este apelido, pois assim não haveria chance de ter uma outra banda com tal nome. Até um dia receber um telefonema suspeito de um cara querendo registrar este nome, perguntando se eu tinha o registro e tal, então corri atrás do trabalhoso processo de registrar a marca no INPI. Desde então temos o registro.

Fala um pouco da gravação do EP. Rolou alguma coisa diferente em relação aos outros álbuns em termos de produção?

Sim, muita. Os dois álbuns anteriores foram gravados por nosso ex-baterista Erick Leal e todo o processo de gravação daqueles se deu no estúdio dos irmãos Diogo e Tuta Macedo, o Emestudio (originalmente localizado em Volta Redonda quando gravamos o primeiro disco em 2006; e posteriormente na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro (RJ), onde gravamos o segundo, em 2012).

Agora com o baterista Paschoal Jr., registramos a bateria neste mesmo Emestudio e o restante aqui em Barra Mansa, no novíssimo Setas, do nosso amigo já citado acima que está com o que há de melhor em equipamentos. Além de ser um cara que convivemos por décadas. O local é um templo da música em Barra Mansa pra nós. Fica praticamente  ao lado de casa e no contexto pandêmico caiu como uma luva. O EP só voltou para a mão do Diogo Macedo pra ser mixado e masterizado. Visto que ele tinha feito esse processo nos dois anteriores, achamos que isso também daria identidade ao resultado final. Ter ao final do processo todas essas pessoas queridas reunidas, foi espetacular.

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O que mais se difere dos álbuns anteriores é que abrimos o leque pra outros instrumentos, chamando músicos-amigos convidados (Rodrigo Novaes, ex-guitarrista do Yahoo e Gori, toca dobro e slide no disco; Dario Aragão Neto, teclados e ex-músico de Tunai; Walmer Carvalho, saxofonista do Biquini Cavadão). Se nos dois primeiros discos eu já sentia essa vontade, pensando “esse solo de guitarra poderia ser um sopro, uma flauta, etc”, mas me prendia na ideia fixa de fortalecer a identidade da banda por sermos um power trio, nesse abrimos a porteira. Até então só tínhamos experimentado o quarteto de cordas (e que quarteto!) em Amanheceu no segundo disco e a voz da Tay Cristelo numa versão em inglês Sinning by omission, que fecha aquele.

Rodrigo e Walmer gravaram de suas casas, em seus estúdios caseiros. O primeiro, de Volta Redonda (RJ); o segundo, de Juiz de Fora (MG). Dario registrou no Setas Studio. O que não mudou nada no processo foi a produção das músicas, que sempre chegaram para serem gravadas com os arranjos prontos, feitos por nós mesmos, cada um no seu instrumento e/ou decidindo em conjunto. Meu irmão Eduardo Pança e o Paschoal Júnior já na primeira audição desenvolvem suas linhas. Nunca tivemos produtores.

Apenas duas músicas do EP não contam com participação de outros músicos: a que abrirá o EP (Pra me reparar); e a que fechará (Arquitetura noturna), mas mesmo assim ambas não escaparam de ter um convidado. O amigo Altino aparece em duas frases em cada música dando sua interpretação única com sua inconfundível voz. Uma dica do Setas, que ao me ouvir gravando tais trechos disse “você está cantando igual ao Altino!”, e caímos na risada. Convocamos o Altino.

A pré-produção deste foi interessante, porque devido à pandemia acabamos tirando do papel um desejo de anos, o de fazer um home studio num quartinho de nosso terraço apenas pra ensaios e gravações caseiras. Com tudo parado, meu irmão que é arquiteto também, em poucos dias organizou a bagunça que lá estava e viabilizou um bem básico pra registros de áudio.

A pandemia acabou nos permitindo mais tempo pra testar essas coisas com calma, pois nos álbuns passados as gravações eram marcadas de acordo com a disponibilidade do estúdio e de nossa agenda de shows. Sem shows, podíamos gravar com tranquilidade. E com o anúncio da Lei Aldir Blanc, vimos finalmente que daria pra iniciar a gravação. A ideia há uns anos atrás que esse disco fosse um álbum intitulado Arquitetura noturna (e a Batalha dos Espumas). Mas analisando a era do streaming vimos que lançar álbuns já não tinha o mesmo impacto. Então o desmembramos em dois EPs. Este agora, e no futuro um outro, que se chamará A batalha dos espumas.

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E só pra finalizar sobre este tema, foi um disco gravado com máscara! Só na hora de pôr as vozes definitivas na sala sozinho é que tirei. De resto, todo o processo dentro do estúdio foi assim. Nove horas gravando a primeira sessão de guitarra das músicas, por exemplo, sozinho na sala e de máscara. Paranoia total. Assim como na sessão de bateria no Rio ao tocarmos a guia pro baterista gravar, todos de máscara por oito horas seguidas de gravação.

São vinte anos de banda em 2021. Como tudo começou?

Como disse, começou bem antes de 2001. Somos da mesma faixa etária (eu 46 anos, meu irmão 45, e Paschoal 48) e todos começaram estudando loucamente seus instrumentos após o primeiro Rock in Rio e no boom do Rock Brasil. Para no início dos 1990 já estarmos nas primeiras bandas nos apresentando em colégios, praças, etc. Nossa primeira banda foi a Cheque-Mate, em 1988, entre parentes. Além de meu irmão no baixo, nosso primo Élcio Pineschi que morava no Rio vinha passar finais de semana aqui, trazia sua bateria Pinguim e tocávamos (recentemente ele reapareceu na cena tocando na sua banda de metal carioca, Unmasked Brains). Não chegamos a fazer show.

Meu primeiro “show” se é que podemos chamar de, foi com uma banda num aniversário de um amigo, em 1988, já com outro grupo de amigos. O segundo, em 1990, no dia do estudante no Colégio Verbo Divino onde estudávamos, com o nome (roubado da primeira) Cheque-mate (ao lado do meu irmão Eduardo Pança, o Setas e mais três amigos de sala).

Em 1991 entrei para o grupo de rock Madeira de Lei, onde comecei a gravar finalmente com uma banda, tinha repertório para um disco. Gravamos, mas não foi lançado. Fizemos muitos shows até 1995, incluindo uma participação no extinto Fest Valda, no Imperator em 1992. Paralelamente fui tocando com músicos mais velhos noutros projetos. Foi quando as bandas de rock daqui praticamente morreram por falta de local pra tocar, e o rock passou a ser coisa do underground.

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Montamos uma dupla então. Era o vocalista dessa banda, Toni Madeira e eu no violão. Fizemos o circuito dos bares, tocando de tudo: MPB, rock e até outras coisas mais “radiofônicas” do período… rs. Ficamos muito conhecidos no sul do estado rapidamente, fazendo de 5 a 6 shows por semana, enchendo lugares. Parei de dar aulas de violão nesse período (vinha desde os 14 anos) por conta do volume de shows.

Nisso incluímos uma banda pra dar vazão à pista de dança pois tínhamos de manter as pessoas “dançando…”. Foi então que logo após o Rock in Rio 3, em 2001, eu resolvi voltar ao que tinha me posto nessa vida musical, ao rock (por isso o nome do primeiro disco). E montamos a banda com meu irmão e o baterista Erick, ambos já músicos
concorridíssimos pelos artistas daqui e que integravam a banda que servia de base à Toni Madeira e Figurótico.

Começamos num boteco chamado Sindicato do Porre e pela primeira vez eu era a voz principal de alguma banda, antes só fazia backing. Fizemos uns testes nesse bar de um amigo por um mês, fazendo shows abertos pra ver se eu aguentava o tranco de tocar e cantar uma noite inteira, assim fomos testamos um novo repertório de covers.

Logo viramos residentes uma casa em Volta Redonda (RJ), Zappata Café, tocando semanalmente e reconstruindo um público. O lema era “vamos tocar somente covers de que gostamos, sem fazer média ou aderir a qualquer tendência, apenas rock”.

Rapidamente o local fervilhou de gente e mudamos pra outra casa ao lado onde permanecemos por incríveis 5 anos ininterruptos às sextas-feiras, Cana Café. Na labuta da noite íamos buscando nossa sonoridade, tocando sem parar. Fomos achar a sonoridade mesmo durante a gravação de nosso primeiro disco, em 2004. Antes disso tínhamos apenas 4 músicas de minha autoria que pudessem ser gravadas. Essas 4 acabaram fora do primeiro disco por já termos sacado que aquilo ainda era resquício de outra época.

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Foi entrega total. Entrei na faculdade de jornalismo no Rio em 2002 pra justamente me aproximar das palavras, pois queria poder escrever sozinho as letras da banda. E assim tem sido desde então, tendo sempre um ou outro parceiro nas letras, mas acabei encontrando sozinho uma forma de escrever pra banda. Tocamos em qualquer palco, desde o início. Nossa sequência de shows só foi interrompida pela pandemia. No ano de 2019, por exemplo, batemos um recorde pessoal de 217 shows, entre completos, com a banda e acústico em bares.

Os primeiros discos tinham uma sonoridade que me lembrava muito Titãs em vários momentos, e uma onda meio punk, mas dosada…

Somos uma banda de “rock brasil”, costumo dizer. Crias do brock, basicamente. Embora todos nós temos nossas peculiaridades em termos de influência no instrumento de cada um, coisas que fomos buscar lá atrás nos músicos do Deep Purple, no Clapton, Hendrix, Police, nos instrumentistas Al Di Meola, Larry Carlton, Stanley Clarke, Chick Corea, etc. Estudamos muito até nos tornarmos músicos. Todos os outros músicos da banda, por exemplo, possuem trabalho paralelo com música instrumental. Eu sou a exceção, só toco na banda mesmo.

Meu irmão, Eduardo Pança, lançou recentemente com o Setas e nosso ex-baterista, Erick, o álbum Pegadas jazz 20 anos (onde participei com uma faixa instrumental minha, Faisão), também pela Lei Aldir Blanc. E nosso baterista atual, Paschoal, toca também com a Jazz4 Band, tocando… baixo. Sim, ele toca bateria, baixo e guitarra.

Mas voltando à sonoridade da banda… você tem toda a razão! Temos muito de rock paulista sim: um pouco de Titãs, de Ira!, de Ultraje; e por consequência natural Ramones, Clash, até Surf Music. Tudo – muito bem destacado por ti – dosado, em pequenas passagens.

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Ouvi de amigos agora que escutaram o EP, que “tem um Ira! aí, um Titãs ali, ou um ‘acorde’ Lobão”. Minha mãe quando ouviu Pois é, poesia gravada falou que lembrou Raul Seixas. Não posso discordar, tenho Raul e Camisa de Vênus no DNA também. Fazendo um exercício rápido, influência de surf music na banda aparece em A melhor batida de amor, Eu hospedei o meu trabalho e O trabalho me chama.

Já a de Rush, do Erick, aparece em Pasmaceira (cujas partes melódicas fiz inspirada no The Doors); e EnTerra Brasilis (cujo final fiz inspirado no Clash). Já em Pecando por omissão a influência em trechos da voz e na levada, tem um pouco de Arnaldo Brandão, outras passagens inspiradas no Clash também. Tudo sutilmente.

Como começou sua história com o Biquini Cavadão e como foi ter o Bruno Gouveia na música?

O Biquini chegou até o Emestudio, na Barra da Tijuca em 2012, por indicação de um roadie deles, o Marcos Almir, se não me engano. E ali gravaram o CD Roda gigante. Quando da pré-produção pro DVD Me leve sem destino em 2014, que comemoraria os 30 anos da banda, eles faziam uns testes pra alguém que fizesse os backings que o Bruno queria, Tuta e Diogo me indicaram.

Marcamos o teste e fui no dia seguinte. Montei um CD com as melhores do Biquini e fui ouvindo no caminho de Barra Mansa ao Rio no carro. Lá chegando Bruno pediu que eu fizesse e gravasse uns vocais e que a música que mais estavam com dificuldade de dobrar a voz era Em algum lugar no tempo. Bruno a cantou sem microfone na minha frente e aquela voz tomou conta do ambiente com uma força que eu pensei que estaria ferrado. Fiquei assustado com o poder de uma voz sem estar microfonada.

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Fui pra sala de gravação e começou: “Faz essa, faça essa nota, agora essa frase…” e iam gravando tudo. Bruno explicava minuciosamente o que queria, abria vozes atrás de vozes – é mestre nisso! Em Janaína, antes que ele me indicasse onde seria o vocal eu já fiz, por conhecer a música e ter a mania de sempre ouvir os vocais. Afinal fiz muito isso no tempo com o Toni Madeira. Depois de algumas horas eles me agradeceram e disseram que iriam resolver entre os quatro que fizeram tal teste e avisariam no dia seguinte se rolou ou não. Eu os agradeci, disse que já tinha aberto muito shows deles em Volta Redonda e que já tinha sido um prazer fazer um teste de voz sendo eu um guitarrista de ofício. Eles iriam precisar que fosse guitarrista também, mas o que definiria era quem fizesse as vozes como o Bruno gostaria.

Desci, parei na loja de conveniência do posto na frente pra comer algo antes de retornar à Barra Mansa. Antes de comer o Tuta me liga, “peraí que o Bruno vai falar”. “É você mesmo, só precisava conversar com o Miguel. Pode ficar no Rio pra amanhã? Almoça com a gente agora?”. E assim foi. Sentamos no Horti-fruti para almoçar e o
Tuta pra quebrar o gelo, provocou: “Ele sabe tudo dos anos 80. Aí o Bruno: “Ah, é? Escola de Escândalos!”. E eu: “Nos seus sonhos, tudo era perfeito/Rodolfo Valentino não faria melhor” (canta Luzes). Miguel quis me testar também: “Kongo!”. E eu: “Biquini defunto, sai daí vagabundo/o rasta tava na praia, com a cabeça cheia de cana”, disparei (cantou Biquini defunto). Portanto, ter o Bruno eternizado numa faixa nossa é um sonho! Sou fã dele, pude ver de perto tudo o que ele faz pelo Biquini nos bastidores.

Além de cuidar da voz, cantar pra cacete, tem uma visão muito séria do que significa o fã pra uma banda, ele sabe de qualquer detalhe. Conhece muito de bandas inglesas, brasileiras, de literatura, de tecnologia, está atento a tudo o que cerca o mercado musical. Qual a engrenagem do streaming, dos algoritmos, etc. Quando eu e meu irmão começamos a aprender violão lá em 85, minha mãe dizia “Duardo já tá tocando aquela música, ‘sabe esses dias em que horas dizem nada?’…”. Bruno estava nos nossos cadernos de violão, agora está na nossa música, porra!

Como surgiu essa música Pois é, poesia, o primeiro single?

Essa música surgiu em 2007, quando morava no Rio pra cursar jornalismo durante a semana. Fiz muitas músicas na solidão do apartamento da Tijuca (voltava todos os fins de semana pra Barra Mansa e Volta Redonda pra tocar). Estava com um dos livrinhos de poesia do Marco Poeta (autor da letra) recém-lançado: Não demoro, só quando te olho. Musiquei um poema antes desse, gravei no meu gravadorzinho portátil. Na última folha do livro achei esse sob o título A uma mulher: “Descobrir o amor / É ser espinho e virar flor…”

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Musiquei numa paulada só, pois já vinha tocando aquela introdução e quando fui lendo em cima da harmonia bateu perfeitamente. Faltava um refrão e nem foi preciso gastar tempo, na página da esquerda havia esse outro verso solto: “Cada louco com sua mania / Pois é / Poesia”. Não levei 10 minutos pra fechar. Outra música do EP, o próximo single Parado na esquina, também é dessa leva, com a diferença de que levei 10 anos pra terminá-la.

Neste período também saiu a maioria das canções do segundo disco. Outra foram ficando pra depois, dentre elas Pois é, poesia. Eu sempre gostei dela, só achava naquele momento que ela destoaria das outras da
banda, principalmente se fosse para entrar no Nos bastidores da falácia, não caberia no contexto. Mas sabia que ela tinha de ser gravada algum dia. Que banda não experimentou outras sonoridades na carreira? Era só esperar a ocasião propícia.

Tenho muitas músicas feitas no violão porque fiz muito acústico na noite em lugares que não comportavam a banda toda, ou não podiam pagar, hehe. E como desde 1996 toco todo final de semana pra me sustentar, desenvolvi meu jeito de tocar, abusando do capotraste no braço pra tirar outras sonoridades ou, principalmente, das cordas soltas,
fazendo os acordes abertos pra preencher o vazio de se estar tocando sozinho às vezes.

Quem foi o Marco Poeta, autor da letra?

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Foi um ícone da região do Médio Paraíba, poeta mundano, amante da natureza, da noite, e como já li num trabalho sobre ele, “um artista da palavra, do fogo e da madeira”. Além de poesias fazia trabalho artesanal em madeiras, utilizando a técnica da pirografia. Era comum vermos em bares, restaurantes daqui um cardápio feito a mão por ele; ou um quadro, um chaveiro, todos estilizados com sua assinatura e mensagens de paz. Ele nasceu em Barra Mansa (RJ) mas era muito associado à Maromba, aquela vila que fica acima de Visconde de Mauá e Maringá, que vai parar na Cachoeira do Escorrega. Suas poesias ecoavam por lá e por cá. Era um ídolo na minha turma quando começamos a sair na noite, com sua aparência de hippie (quase sempre sem camisa), chamava a atenção de todos.

Repetíamos seus poemas pela madrugada, “eu te olho, tu me olhas/eu te molho, tu me molhas/e ficamos assim”, ou num enorme e clássico dele que terminava com “cara a cara/téte-a-téte/aconteceu, virou Manchete”. Tinha verborragia, amor, chamava a montanha de namorada (“quem mais entende de amor é meu deus/que é meu amigo do peito, amigo de verdade/amor de montanha é diferente de cidade”), uivava pra Santa Clara dando “bom diaaaa” ao acordar na sua humilde morada descrita em tantos poemas.

Cheguei a mostrar Pois é, poesia pra ele várias vezes. Infelizmente não deu tempo de vê-la gravada, e com a voz do Bruno ainda por cima… Mas a mãe dele viu, me ligou chorando de emoção com o resultado. Suas poesias estão nos livros Liberdade (1984), Poetanu escuro (1991), O outro lado da coisa (1992), Imagem e semelhança (1997) e Não demoro, só quando te olho (2003). Eram livros feitos em gráficas daqui, não por editoras. Mereciam um acervo e arquivo na web.

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