Crítica
Ouvimos: Sabrina Carpenter – “Man’s best friend”

RESENHA: Man’s best friend mostra Sabrina Carpenter afiada: pop leve e irônico, entre soft rock e dance, criticando homens perdidos e relações falhas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Island
Lançamento: 29 de agosto de 2025
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E esse papo de que Sabrina Carpenter anda sendo alimentada pela indústria musical como uma possível substituta pra Taylor Swift? Olha que é fácil acreditar nisso – mas eu prefiro nem dar mole para acharem que Sabrina é um simples fantoche do mercado musical, já que ela vem lançando discos bem legais nos últimos tempos. Tanto que mesmo quando ela faz um pop mais ou menos genérico, como rola em vários momentos desse Man’s best friend, ela consegue garantir interesse graças à abordagem das músicas – uma combinação de vocal, letra, arranjo, charme, tudo junto e quase na mesma proporção.
O núcleo duro de Man’s best friend é pequeno. Sabrina convidou Jack Antonoff pra trabalhar e a produção girou em torno dos dois e de John Ryan, que fez coisas com o One Direction. Amy Allen juntou-se ao trio para colaborar na composição de algumas faixas. Entre os músicos, integrantes dos Bleachers, banda de Antonoff. E o disco tem um lance irônico e zoeiro que muita gente não sacou de primeira – falaram mal da capa original, dos títulos das faixas, etc etc. Manchild mete o pau em homens dependentes. Tears acaba soando como uma piada mortal com homens que se acham fodas por fazerem o básico. My man on willpower fala sobre um sujeito que passou a ser o rei da autoestima e do autocontrole e, de repente, começou a dar altos perdidos na namorada. Vai por aí.
De modo quase geral, Sabrina surge no disco como uma mulher perdida em meio a homens mais perdidos ainda, o que gera faixas sobre relacionamentos cagados (Goodbye e We almost broke up again last night), extremamente cagados (Never getting laid), autoestima cagadinha (Nobody’s son), homens que eram feios e ficaram bonitos (When did you get hot?) e papos no estilo “bebi, liguei” (Go go juice) além da loteria emocional de Don’t worry, I’ll make you worry. Man’s best friend, na real, é um disco sobre o estilo de vida movimentado de uma mulher de 25, 26 anos e acaba soando como um comentário do tipo: caceta, por que tanto esforço pra agradar homens se eles só fazem merda?
Bom, musicalmente, Sabrina e seus parceiros fizeram um disco pop e alegre, balizado por canções entre o soft rock e a dance music. Os dois estilos se alternam ou se complementam, em faixas como Tears, My man on willpower, o pós-disco + r&b Sugar talking, a baladinha triste e breguinha We almost broke…, o soul levemente lo-fi Never getting laid (com refrão bacana, vale dizer), a dance music com jeito de ABBA Goodbye, etc.
No geral, Man’s best friend parece um disco feito pra soar pop sem muitas encucações, e que ganhou recentemente a presença de Such a funny way como faixa bônus – uma faixa em duas partes, com clima ligeiramente hollywoodiano, sobre um namorado mais liso que quiabo, e que vive presenteando Sabrina com chifres (“é engraçado você estar bebendo por aí, engraçado eu estar em casa / é engraçado que todo mundo saiba de algo que eu não sei”). Dá pra dizer que Sabrina está vendo brincadeira demais onde o buraco (da violência, do machismo) é bem mais embaixo, mas Man’s best friend não parece tão desconectado da realidade assim.
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Crítica
Ouvimos: Central Cee – “All roads lead home” (EP)

RESENHA: Central Cee mistura drill sombrio, relatos da fama e vivência de rua com vibe motivacional em EP versátil e cheio de ideias.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: 27 de março de 2026
Lançamento: Columbia / Sony Music
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Fama, pressão, silenciamento, drogas, armas, sexo, e todo mundo de olho em você – tudo rappeado numa base de drill britânico, aquele estilo marrento, ameaçador, caótico, mas que sempre soa mais “frio” e sombrio do que outras leituras do drill por aí afora. Curiosamente, começando a ouvir o novo EP de Central Cee, All roads lead home, chega a dar impressão de que as ruas de Londres nem são tão diferentes do que acontece em Chicago ou Nova York.
Faz sentido quando se pensa na vivência de periferia que é igual em qualquer lugar (já diziam os Racionais MCs), mas tem um “algo” diferente que surge só depois de alguns momentos, quando dá pra perceber que Central Cee é bom em unir storytelling rueiro e vibe motivacional. Tanto que All roads é um disco de ótimas ideias, como no clima triste de Iceman freestyle, música em que ele reflete sobre as mudanças em sua vida depois da fama, recorda histórias do passado e fala de manos que ainda estão na luta (“no final tudo fará sentido quando todos estivermos fora das ruas”, finaliza). O rap latino Slaughter, com participação de outro rapper londrino, J Hus, une um irresistível “hum hum” que dá a melodia, a vocais mais cantados do que falados.
Central Cee invade até a área do trap em Wagwan, que propõe um diálogo entre o topo do pop, as ruas e o outro lado das grades (“libertem todos os caras presos / eles não aprendem nada, só cortam cabelo / não confie em ninguém, eu vi o pastor pecando / você acha mesmo que se eu colocar 100 mil na mesa, meu mano não vai matá-lo?”). E põe vibe de soul anos 1970 em Feelings, música que busca conversar com os amigos que estão na luta.
- Ouvimos: Heavensouls – Westside trapped
Essa conversa de Feelings gera momentos bacanas (“você tem um sonho e ninguém acredita em você, é, eu sei como é essa sensação / planejando até tarde da noite, ultimamente você não tem dormido, querida, eu sei como é essa sensação”) e outro que dão nervoso (o verso inacreditável “podemos ir ao banco e pegar um empréstimo / mas não podemos pegar tempo emprestado” – não, não podemos fazer nem uma coisa nem outra). Mas tem ainda o som tenso, guerreiro e rápido de DC10 e Maka.
Essa última, por acaso, dá uma boa cláusula de localização, lembrando dos tempos em que traficantes “enterravam pacotes” de crack e heroína no movimentadíssimo Parque Cathnor em Londres. Central Cee também aproveita para informar que “ainda mantenho minha arma na mão quando estou usando Supreme ou Palace (grifes famosas entre skatistas e rappers) / tenho treta, mas não vou mover um dedo”. É pra levar a sério.
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Crítica
Ouvimos: GUV – “Warmer than gold”

RESENHA: Ben Cook, chefe do GUV, mistura jangle pop, Madchester e shoegaze em Warmer than gold; bom som, mas letras repetem melancolia sem virar grandes hinos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Run For Cover Records
Lançamento: 30 de janeiro de 2026
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“Minha avó ajudou a criar a minissaia em Londres no anos 1960. Meus pais se conheceram num squat em Brixton. Meu pai era o traficante, minha mãe era a fugitiva hippie”. Quem diz isso é um sujeito chamado Ben Cook, músico que se criou entre o Canadá e a Inglaterra, artífice do projeto musical GUV, que já se chamou Young Guv – referência ao codinome Young Governor, usado por ele quando tocava na banda punk canadense Fucked Up.
Sei lá de quem Ben herdou mais traços psicológicos, se do pai ou da mãe – mas sua carreira é marcada pelo procedimento de fuga (opa, isso veio da mãe?) e por namoros-casamentos com a psicodelia (ih, olha o pai aí!), tanto que ele já mudou bastante de estilo. Warmer than gold, disco novo do GUV, cai dentro de uma mescla de jangle pop, som de Madchester (o álbum tem pérolas indie-dance que poderiam ter sido feitas em 1987) e shoegaze original – ou seja, o shoegaze “melódico” e sem grandes truques de emparedamento sonoro.
- Ouvimos: The Pale White – Inanimate objects of the 21st century
Antes que você pergunte: sim, o som do GUV lembra muito o do Jesus and Mary Chain, pelo menos o Jesus de discos como Darklands (1987) e Honey’s dead (1992). Faixas como Let your hands go, o pós-punk emparedado Blue jade, as dançantes e psicodélicas Out of this place e Oscillating vêm da mistura de beats dançantes, violões e guitarras em clima jangle e vibes sonoras que ora lembram Smiths, ora fazem lembrar The Cure. Rola até um Friday I’m in love em que os meses tomam lugar dos dias em Thorns in my heart, além de algo assemelhado ao The Sundays em Never should have said.
A beleza melancólica de músicas como a faixa-título e Hello Miss Blue merece destaque. Ben, na real, só não é um letrista dos mais carismáticos. O maior problema de Warmer than gold acaba sendo o excesso de músicas que seguem a rotina do “não tenho mais você, aí eu choro e sonho o tempo todo”. Falta a Ben, no momento, a capacidade de transformar tristeza em hino, algo que Robert Smith faz até hoje com versos simples, e que bandas como Oasis e Jesus And Mary Chain sempre tiveram como foco. Agora, musicalmente, há várias surpresas aqui.
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Crítica
Ouvimos: Gentle Millennials – “Fantastical waves, delusional surf”

RESENHA: Gentle Millennials resgata surf music experimental com shoegaze, psicodelia e referências pop, criando um disco estranho, variado e bem interessante.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Mandatory Book Club
Lançamento: 31 de outubro de 2025
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Surf music experimental, sinceramente, eu nunca mais imaginei que fosse ouvir na vida – pelo menos não além do som de bandas como Man Or Astro-Man?, que faziam isso lá pelos anos 1990, ou das ondas distorcidas do The Jesus and Mary Chain do começo. Mas Fay Funk (baixo) e David Allred (guitarra), a dupla que forma o Gentle Millennials, fez exatamente isso em seu álbum Fantastical waves, delusional surf, e são o mais novo projeto musical dedicado a esse tipo de som.
- Ouvimos: Hyper Gal – Our hyper
O disco tem referências musicais como as trilhas da série Twin Peaks e do filme Sharknado 3, além de Surfer rosa (1988), dos Pixies, e abre logo com Sunrise, faixa que leva as guitarras de faroeste para uma parada sonora bem espacial. Soa quase como um shoegaze desértico e vanguardista, digamos. Fantastical waves, delusional surf segue em frente unindo Syd Barrett e Dead Kennedys (Crowd surfing LinkedIn), fazendo soul-surf do espaço sideral (Camping on the beach) e balada sombria com cara psicodélica e pós-punk (Something coming). E isso só na primeira metade do álbum.
O Gentle Millennials também faz surf music distorcida na onda do Jesus and Mary Chain (mas sem o mesmo volume de microfonias) em Scourge, bang-bang à italiana psicodélico em Midday, sons submersos em Sunset e na vinheta Surf break, tema de duelo surfístico em In the speedboat e um curioso post-rock sobre as ondas (com direito a metais) em Steep surf. Ficou bem legal.
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