Crítica
Ouvimos: Lady Gaga, “Mayhem”

Tudo que é mais difícil de explicar, é mais complicado de entender – mesmo que as intenções sejam as melhores possíveis e haja um verniz cultural-intelectual robusto por trás. Isso vale até para desfiles de escolas de samba, quando a agremiação mais armada de referências bacanas e pesquisas exaustivas não vence, e ninguém entende o que aconteceu.
Carnaval, injustiças e polêmicas à parte, o novo Mayhem foi prometido desde o início como um retorno à fase “grêmio recreativo” de Lady Gaga. E sim, ele entrega o que promete: Gaga revisita sua era inicial, piscando para os fãs das antigas, trazendo clima de sortilégio no refrão do single Abracadabra (que remete ao começo do icônico hit Bad romance), e mergulhando de cabeça em synthpop, house music, boogie, ítalo-disco, pós-disco, rock, punk (por que não?) e outros estilos. Todas essas coisas juntas formam a Lady Gaga de 2025.
Algo vinha se perdendo ou sendo deixado de lado na carreira de Lady Gaga há algum tempo, e algo que sempre foi essencial nela: a capacidade de usar sua música e sua persona para comentar o próprio pop. David Bowie fazia isso o tempo todo – e ele, que praticamente paira como um santo padroeiro sobre Mayhem, é uma influência evidente em Vanish into you, uma das faixas que melhor representam o disco. Aqui, Gaga entrega dance music com alma roqueira, um baixo irresistível e um batidão que evoca tanto a fase noventista de Bowie quanto o synthpop dos anos 1980.
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Mais coisas foram sendo deixadas de lado na carreira dela que… Bom, sao coisas quase tão difíceis de explicar quanto as razões que levaram Gaga a criar um álbum considerado “difícil” como Artpop (2013), enquanto simultaneamente mergulhava no jazz com Tony Bennett e preparava-se para abraçar o soft rock no formidável Joanne (2016), um disco autorreferente que talvez tenha deixado os fãs da primeira fase perdidos. Em outro tempo, Madonna parecia autorizada a mudar como quisesse, mas quando Gaga fazia o mesmo, deixava no ar notas de desencontro e confusionismo. O pop mudou, as décadas passaram, o público mudou – e todas as certezas evaporaram.
É nesse cenário que Mayhem equilibra as coisas, entregando um pop dançante, consciente e orgulhoso de sua essência, mas ao mesmo tempo sombrio e marginal. Há momentos de caos organizado, como em Disease e Perfect celebrity – esta última começa soando como Nine Inch Nails, mas, se você mexer daqui e dali, pode até enxergar um nu-metal na estrutura. Killah traz uma eletrônica suja, um refrão meio soul, meio rock que caberia num disco do Aerosmith, enquanto Zombieboy aposta no pós-disco punk, evocando terror e êxtase na pista (por acaso, Gaga chegou a dizer que o disco tem influências de Radiohead, e confirmou o NiN como referência).
Na reta final, o álbum se aventura por outros terrenos: How bad do U want me e Don’t call tonight flertam com o pop dinamarquês dos anos 90 (e são, por sinal, as únicas faixas pouco inspiradas do disco); The beast tem cara de trilha sonora de comercial de cerveja; e Lovedrug mergulha na indefectível tendência soft rock que surge hoje em dia em dez entre dez discos pop. Essa faixa soa como um híbrido entre Fleetwood Mac e Roxette – como se Gaga estivesse pensando também na programação das rádios adultas de 2035.
O desfecho de Mayhem chega como um presente para o ouvinte: Blade of grass é uma balada melancólica de violão e piano, que ecoa tanto a tristeza folk dos anos 70 quanto a melancolia do ABBA, crescendo em inquietação à medida que avança. E então, como quem perde um pouco o tom, o álbum termina com… Die with a smile, a já conhecida balada country-soul gravada em parceria com Bruno Mars, lançada há tempos como single. Dentro do contexto do disco, ela soa mais como um apêndice do que como um encerramento – uma nota de rodapé onde se esperava um ponto final. Nada que chegue a atrapalhar a certeza de que Lady Gaga conseguiu, mais do que retornar ao passado, unir quase todos os seus fãs em Mayhem.
Nota: 8,5
Gravadora: Interscope
Lançamento: 7 de março de 2025.
Crítica
Ouvimos: Pitty – “Pitty”

RESENHA: No sexto álbum, Pitty mistura guitarras pesadas, alt-pop, pós-punk e até tecnobrega. Entre ecos de Arctic Monkeys e Queens Of The Stone Age, a cantora fala de separações, amadurecimento e recomeços.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Deck
Lançamento: 16 de outubro de 2026
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Pitty, sexto e novo álbum da cantora baiana, é bom. Não é o melhor disco dela – a estreia Admirável chip novo (2003) e Chiaroscuro (2009) ganham o posto tranquilamente. Mas tem um papel importante na carreira dela: num país diversificado musicalmente como o Brasil, mostra uma ótima transição para uma vibe musical mais alt-pop, mais voltada a um rock simultaneamente pesado e elegante, dançante e cheio de guitarras. Já era algo que aparecia nos discos dela faz tempo, mas ficou claro que ela está em busca de uma mudança sonora mais forte e permanente do que a do disco Matriz (o mais recente, de 2019).
Mesmo com o peso quase punk + metal de Sobremesa, single e música de abertura – uma canção renovada e juvenil, em que Pitty basicamente volta no tempo como precursora de bandas como The Mönic e Eskröta – Pitty tá mais próximo do som de bandas como Arctic Monkeys e Fontaines D.C., e da diversidade que faz com que estes últimos gravem com Rosalía. Na real, em alguns momentos Pitty parece estar de olho tanto no alinhamento sonoro de bandas como Queens Of The Stone Age quanto nas mudanças que Anitta foi tendo ao longo da carreira.
Quem é fã de músicas como Teto de vidro ou só conhece as músicas mais roqueiras dela, talvez estranhe o beat dançante (com argamassa pós-punk) de Armadura, ou o pop climático de Caminhada, ou o namoro com o tecnobrega de “Amiga,” (dedicada a um amiga falsiane secreta, o que já rendeu altos debates na bolsa de fofocas). A Pitty sinistra e pop do hit Me adora dá as caras no metal cigano de Desobediente, no blues a la Black Keys de Álbum de casamento (uma música sobre sua recente separação, revivendo amarguras mas encerrando com uma proposta de paz) e no rock elegante e épico de Nó.
Essa Pitty reside também no pop alternativo de Pileque de poeta, com coprodução de Felipe Vassão, e num curioso momento David Bowie + Michael Jackson do disco, a ótima Sobriedade seletiva. Mas a variedade do álbum inclui também flertes com o stoner rock (a “canção da inimiga” Madame), com o rap e com o grunge (Prazer, universo, que traz algo brasileiro infiltrado no suíngue) e mergulhos no punk (Não à deriva).
Já nas letras, Pitty decidiu fazer canções com reflexões bem mais diretas e literárias do que no passado, além de inserir amadurecimentos, ganhos, perdas e danos no rol dos assuntos – como em Cuidada, canção dedicada à mãe, e que fala basicamente de amor e entendimento. Basicamente a Pitty de 2026 compreende não só o público dela, mas o que andou acontecendo no pop e no rock no Brasil no últimos anos – e escolheu o novo disco para dar um testemunho disso.
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Crítica
Ouvimos: Eels – “Cookie happened”

RESENHA: Inspirado no Cookie Monster, o Eels mistura folk, power pop e rock dos anos 1960 em Cookie happened. Entre ecos de Lou Reed, Dylan e Lennon, Mark Everett fala de finitude, esperança e recomeços.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: E Works / PIAS
Lançamento: 16 de outubro de 2026
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Mark Oliver Everett, criador do Eels, decidiu fazer de Cookie happened um disco em que o mote principal é o Cookie Monster da Vila Sésamo – e sua frase “eu não choro porque o biscoito acabou, eu sorrio porque o biscoito aconteceu”. Ou seja: basicamente é um disco contemplativo e positivo, em que o Eels lida com uma espécie de magia quase infantil, quebrada apenas pelo vocal grave e rascante de Mark. Muitas letras falam sobre seguir em frente, não ter nada a perder, não chorar pelo leite derramado – e All forgotten fala sobre uma estranha sensação de encontrar paz na finitude, ou na sensação de que daqui a algum tempo nada mais vai existir.
Essa coisa de “daqui a algum tempo estaremos todos mortos”, vamos dizer… Bom, você precisa ser bastante evoluído (dependendo de sua visão de “evolução”) para não ficar tenso com isso. Em termos de som, Cookie happened é um disco de rock sessentista jangling, com cordas mágicas e clima celestial, cujo pé-na-Terra vem de uma onda bem indie rock que serve como argamassa pra tudo. Mesmo em canções mais folk como Clobbered e I’m on standby (esta, marcada pelo som circular de um sintetizador anos 1980).
All forgotten tem uma beleza quase bossa – e uma vibe meio Lou Reed. Taking pictures é uma balada soul de piano, com lembranças de John Lennon. – e o folk rouco de Bamboozled again tem muito de Bob Dylan. O power pop de New story se comunica bastante com Elvis Costello e com uma versão mais introspectiva e tristinha do Weezer. Uma curiosidade sobre as letras é que Mark parece disposto a falar sobre política sem citar a própria – e muitas vezes disfarçando os comentários numa capa de “espiritualidade”, em que surgem choques de opções (o blues country Dum dums e The way I was made) e independência diante do que chamam “destino” (New story). Um disco que fala de esperança e amor apesar de tudo.
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Crítica
Ouvimos: Anfiteatro Babel – “Eletromelodramas vol. 2” (EP)

RESENHA: Em Eletromelodramas vol. 2, Anfiteatro Babel, o projeto de André Nectoux explora drones, sintetizadores e krautrock em três faixas instrumentais que criam cenários imaginários, entre a contemplação e a inquietação.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Chupa Manga Records
Lançamento: 21 de setembro de 2026
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Anfiteatro Babel é um projeto musical de experimentação sonora idealizado pelo músico e produtor brasileiro André Nectoux, de Porto Alegre. Eletromelodramas, por sua vez, é uma série baseada em cenários musicais – algo que o ouvinte vai acabar completando com sua própria mente durante a audição. Pode servir tanto para relaxar quanto para funções mais, vamos dizer, psicodélicas – como o drone eterno de órgão da faixa de abertura Phós ópsis.
Basicamente Eletromelodramas vol. 2 é composto pelo que André chama de “um novo trecho da corredeira de um rio sonoro” – e ele até fala do “como usar” essas três músicas no texto de lançamento. Spiegel’s birds, a segunda faixa, tem cara krautrock (são basicamente sintetizadores circulando no ouvido e fazendo acrobacias) e soa como um experimento feito com quem ouve o disco – quais são as reações que alguém tem diante desse som, que às vezes parece ganhar contornos mais sombrios?
O final, Melodrama II, é mais kraut ainda – às vezes parece a visita a um palácio, ou a um museu, ou a uma sala enorme. Tem tanto cara de música urbana quanto de tema musical para acompanhar o que sobrou após a destruição. Essa dualidade de cenas vindas da música é o mais bacana de Eletromelodramas vol. 2.
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