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Crítica

Ouvimos: Lola Young – “I’m only fucking myself”

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Com I'm only fucking myself, Lola Young afronta o puritanismo pop com um disco caótico e confessional, misturando gêneros, rehab, sexo e desilusões num pop tão irregular quanto intrigante.

RESENHA: Com I’m only fucking myself, Lola Young afronta o puritanismo pop com um disco caótico e confessional, misturando gêneros, rehab, sexo e desilusões num pop tão irregular quanto intrigante.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 6,5
Gravadora: Island
Lançamento: 19 de setembro de 2025

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Nos últimos anos, o mercado fonográfico do eixo EUA-Inglaterra se tornou bastante puritano (Taylor Swift não entrou pela porta principal à toa, enfim). E na real, como todo puritanismo, o da indústria fonográfica é seletivo, ajudando a criar figuras estranhas, a alimentar ódios e evitando mover qualquer tipo de palha para acabar com machismo, racismo, padrões. Ou enfim, só tomando alguma atitude quando dá para ganhar rios de dinheiro – quase o mesmo que não fazer nada.

Daí corta pra Lola Young, uma cantora britânica nascida em 2001, cuja carreira começou em 2019, e que vem lançando praticamente um álbum por ano desde 2023 – Messy, do ano passado, é um de seus maiores hits. É até possível que muita gente tenha prestado atenção de verdade nela com seu terceiro álbum, I’m only fucking myself, lançado há pouco. Rolaram motivos extra-música: ela recentemente desmaiou quando fazia um show no festival All Things Go, em Nova York, e anunciou uma pausa na carreira para tratar do estresse. Justamente por causa disso, o show que ela iria fazer no Festival Lollapalooza Brasil em 2026 já rodou de sua agenda.

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O que importa é que Lola, de certa forma, é a anti-puritanismo: tascou um palavrão na capa do disco (na foto, aliás, ela posa com uma “sósia” inflável) e passa boa parte de I’m only fucking myself falando de reabilitações, drogas, sexo, relacionamentos cagados e tóxicos, ex-namorados que deixaram saudades e gente que faria melhor se admitisse que torce contra. Ela passou por um rehab há pouco e o tema “redenção após as drogas” também toma conta de boa parte do disco. Já existe gente comparando Lola com Amy Winehouse – nada a ver em nenhum dos sentidos, apesar da gravadora (Island) e até do empresário (Nick Shymansky) serem os mesmos.

Boa parte das resenhas de I’m only fucking myself bate numa tecla que faz sentido: o disco tem um considerável grau de confusão conceitual, como se Lola e sua turma quisessem agradar todo mundo ao mesmo tempo. É um disco pop que abre com um eletroshoegaze (Fuck everyone), segue com um reggae-pop que lembra um Ace Of Base sujismundo (One thing, com letra romântica quase padrão, a não ser pelo fato de que Lola fala mais de sexo do que de amor) e lá pelas tantas tem até um soft rock meio esquisitão (a provocativa Penny out of nothing), uma baladinha soul (o círculo de abusos de Why do I feel better when I hurt you?).

Tem até partículas de alt-folk – em Post sex clarity, na ligeiramente dançante, em Walk all over you e no bittersweet Sad sob story, que manda um ex-namorado maluco pro inferno e reclama que o sujeito nunca quis fazer terapia. E, claro,há pelo menos uma baladinha de violão com ponte de borracha (a legalzinha – e apenas isso – Who fucking cares?). Acaba que o melhor lado de Lola, o mais bem produzido e acabado, é o da nostalgia pop-rock, com o eletrorock anos 1980 de D£aler, a saturação sonora de Spiders, a estileira meio Hole de Can we ignore it? e Not like that anymore. O lado mais moderninho de Lola é justamente a faceta mais “já ouvi isso antes” dela – e soa mais como a tentativa de adequar a padrões quem anda lutando bastante contra eles.

O New Musical Express levantou uma lebre interessante: a de que muita coisa que pode ser ouvida em I’m only fucking myself é diretamente ligada ao disco Big ideas (2024), da norte-americana Remi Wolf, uma outra cantora lançada pela Island e que divide até um co-produtor com Lola, Solomonphonic. Faz até sentido, mas nem tanto – e Big ideas é um disco excelente, bem melhor resolvido do que o novo de Lola Young. No geral, você perde mais NÃO ouvindo I’m only fucking myself do que ouvindo, mas o desequilíbrio chama a atenção.

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Crítica

Ouvimos: Curva do 90 – “Não feche o cruzamento” (EP)

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Ouvimos: Curva do 90 – “Não feche o cruzamento” (EP)

RESENHA: Curva do 90 estreia com Não feche o cruzamento, EP que mistura prog, pós-rock e punk com sons brasileiros, criando um rock experimental que desafia limites do pop.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Brisa Rec
Lançamento: 17 de abril de 2026

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Se bandas como Geese e o (tá, mais uma chance ao hype) Angine de Poitrine fizeram um favor para todo mundo, foi o de aguçar o gosto de uma turma enorme para a música estranha. Não que tenham virado grandes nomes do rock por causa disso, ou que o pop tenha virado de cabeça pra baixo, mas 2026 já é um ano que vai crescendo marcado por uma vibe bem diferente, que deve ajudar a tirar vários projetos da garagem.

A banda maranhense Curva do 90, surgida em 2022, lança seu primeiro EP justamente agora – e se dedica a uma curiosa mistura de rock progressivo, post rock e estilhaços de punk, além de sons do Norte-Nordeste espalhados nos arranjos. Não feche o cruzamento tem um som que não esconde as referências de bandas como Black Midi, além de um ou outro clima herdado do Radiohead e dos projetos musicais de Thom Yorke. Não há limites: o trio – Arthur Felipe (guitarra), Guilherme Campos (baixo) e Arthur José (vocal e guitarra) – propõe uma “construção ao longo da escuta”, e as faixas são longas (a maior tem oito minutos), cheias de solos e passagens extensas.

Esse clima surge no prog-forró-stoner de Expresso Mauritânia, com vibe raulseixista lá pelas tantas (“já é hora do trem descarrilhar / já é hora de quem é doido assumir”). E na onda afro-Nordeste-rock de Vira canoa, aberta com base de guitarra lembrando forró, além de uma onda high life na guitarra do canal esquerdo. O pós-punk Sai do celular é a faixa mais próxima do formato comum de “rock”, mas se divide em diferentes partes, ganhando ares psicodélicos em seguida.

Pipolândia, Estática e Reflexos de vidro (esta, gravada ao vivo), trio de músicas que encerra o disco, investem numa noção mais maníaca de rock progressivo, invadindo bastante a área do pós-punk e até do punk – com direito a uma parte hardcore que surge em Estática. Um som diferente e feito para contestar os limites do pop e até do rock.

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Ouvimos: Carlinhos Carneiro & Os Excelents Animais – “Hotel Ritz”

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Ouvimos: Carlinhos Carneiro & Os Excelents Animais – “Hotel Ritz”

RESENHA: Carlinhos Carneiro estreia solo com Hotel Ritz: disco irônico e inventivo que mistura estilos e retrata infernos cotidianos com humor e boas ideias pop.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: Frase Records
Lançamento: 6 de outubro de 2025

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Atrasamos muito para escrever sobre a nova investida do gaúcho Carlinhos Carneiro (Bidê Ou Balde), mas esperamos que você corra para ouvir, porque Hotel Ritz, estreia solo dele, é uma das maiores surpresas lançadas no ano passado. O disco é apresentado como uma coleção de personagens que passam pelos quartos e elevadores do hotel – e mais que isso, resume vários infernos pessoais e coletivos dos dias de hoje.

O Hotel Ritz do disco existe de verdade. Ele fica no Centro Histórico de Porto Alegre, passou um bom tempo destruído (a foto da capa é real, foi clicada por Marcelo Franco Bonifácio e decorava a parede da casa de Carlinhos) e, aparentemente, passou por uma bela reforma nos últimos anos. Buscando no Google dá pra ver imagens da fachada e a inscrição “a casa do estudante” na vidraça da porta. No álbum de Carlinhos, o hotel é a senha para um dia a dia muito louco em que – como costuma acontecer em hotéis do Centro – você só tem as paredes do quarto para olhar.

Vai daí que, nas letras, as memórias não vão te salvar (no chamber rock sofisticado da faixa-tíulo, com cordas e metais, em parceria com Catto), mas a música pop pode fazer você ganhar o dia (Música pop). As melhores e piores coisas do passado vão ficando para trás sem que você se dê conta (o power pop Pra ter saudade, lado a lado com a banda Supervão). E ainda por cima, “os boletos falam mais alto / do que os sonhos que a gente tem” (Boletos / Burnout, com guitarra seca no começo e algo de Pixes na melodia e no arranjo, evoluindo para algo quase pop anos 1980). Tudo isso entre outros detalhes, como a onda Radiohead de Escritório edifício e a paródia chamber pop de O velho papapa, que lembra as investidas experimentais de Paul McCartney no começo da carreira.

Essa mistura de musicalidade e ironia passa por todo o disco, mas ganha um ar mais zoeiro ainda em faixas como o beatlegrunge Curso online (“fazendo curso online / pra vender curso online”), a onda Taxman de Sopa de confete, o soul rock Metaleiro é que sabe viver e mais duas músicas cujas letras nem vou citar, porque tem que ouvir: a mescla de Júpiter Maçã e Rogério Skylab de Teu sorriso e o hard rock funkeado Tony Ramos (!), gravada ao vivo com direito a um irônico Anúncio de faixa escondida – coisa do tempo do CD que não dá pra repetir na era do ispotifai. Genial.

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Ouvimos: Wire – “Read & burn 03 plus” (relançamento)

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Ouvimos: Wire – “Read & burn 03 plus” (relançamento)

RESENHA: Read & burn 03, EP do Wire de 2007, ganha reedição com bônus: pós-punk frio e experimental, quatro faixas longas e histórias curiosas por trás de 23 years too late.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Pinkflag
Lançamento: 18 de abril de 2026

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A série de EPs Read & burn, iniciada pela banda punk britânica Wire em 2002, chamou a atenção de vários fãs e jornalistas por ter dado uma bela revigorada no som e na mítica do grupo – e particularmente o volume 3 despertou muita gente por sua elaboração quase progressiva. São quatro longas faixas, e o material é mais próximo da frieza krautrock, e de uma noção própria de post-rock.

Read & burn 3 ressurge agora numa reedição com material bônus, lançada hoje para o Record Store Day. O disco sai num vinil que provavelmente vai esgotar rápido, mas chegou também às plataformas digitais. Por acaso, também é o último disco do Wire feito por sua formação original: Colin Newman (voz, guitarra), Graham Lewis (baixo, vocal), Bruce Gilbert (guitarra) e Robert Grey (bateria).

  • Mais Wire no Pop Fantasma aqui.

Para o novo lançamento, o grupo solta um clipe da versão edit de 23 years too late, que abre o EP. Dirigido por Malcolm Boyle, o vídeo é composto por fotos e imagens de arquivo, com direito a material que vai sair no documentário Wire – People in a film, sobre a história do grupo, feito também por Boyle. Além do som, o principal é que Read & burn esconde histórias bem legais sobre o Wire, como o fato de 23 years too late, com seus nove minutos, ter começado como uma tentativa de refazer o single country-punk Dot dash (1978), numa versão chamada Dip flash.

A faixa acabou se transformando em outra música assim que o Wire reparou que sua turnê de 2002 vinha passando por cidades que estariam numa tour de 1979 que a banda precisou cancelar – a EMI, gravadora deles nos primeiros tempos, tinha desistido do Wire e deixou o grupo sem nenhum tipo de apoio. Colin Newman, vocalista e principal compositor, vinha fazendo um diário de turnê (do qual veio o conceito dos “23 anos tarde demais”, referente às cidades que a banda visitaria em 1979 e estavam na atual tour) e a música partiu disso.

O clima maquínico e frio de 23 years too late dá o tom do disco. É uma poesia declamada, cujo refrão soa como um estranho cântico que mal cabe na música, e cujo tom é de susto com a riqueza revolucionária das ruas – o Wire soa como um grafite no muro, e faz música eletrônica com teclados, guitarra, baixo e bateria. Our time, música quase mecânica, fundamentada no lado mais gélido do pós-punk, une várias sentenças que falam sobre o tempo e sobre as incertezas em relação a ele (“nosso tempo é certo, nosso tempo é errado / nosso tempo é curto ou talvez longo”).

Um lado mais próximo do pós-punk em formato “canção” surge no ataque frontal e cultural de No warning given e na poesia punk e surrealista de Desert diving. Mas a versão nova do EP ainda inclui o edit “24 anos depois” de 23 years too late, novos mixes de Our time e Desert diving (este, em clima menos ruidoso e mais tecladeiro), e também Dip flash, que originalmente seria a tal nova versão de Dot dash antes da transformação em 23 years. Quem não conseguir o vinil, tem pelo menos esse presente nas plataformas.

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