Crítica
Ouvimos: Megadeth – “Megadeth” (2026)

RESENHA: Último – ao que consta – disco do Megadeth soa melancólico e repetitivo, com bons momentos isolados, clima amargo e um adeus mais preso ao passado que ao impacto.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 5,5
Gravadora: Frontiers
Lançamento: 23 de janeiro de 2026
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Nunca foi molezinha lidar com Dave Mustaine, vocalista e líder do Megadeth. Um conhecido que trabalhava numa revista cobriu uma coletiva do grupo no Brasil, e levou uns exemplares com a banda na capa para dar de presente a eles. Um dos integrantes (não me lembro mais qual, mas essa história é relativamente conhecida) pegou uma das revistas para ler, e permaneceu lendo quando a coletiva começou. Silêncio total logo que a primeira pergunta foi feita: Mustaine estava encarando firmemente o tal integrante, igualzinho à sua professora da quinta série quando ela queria que você percebesse sozinho que sua conversa ou bagunça atrapalhava a aula.
A tal história também acabou como uma bronca silenciosa e humilhante de quinta série: sem falar nada, Dave esticou o braço, o integrante lhe estendeu as revistas e ele confiscou todas, para garantir a ordem e a atenção no recinto. Fim. Em outra ocasião, ninguém menos que Kiko Loureiro, brasileiro que tocou guitarra alguns anos com o Megadeth, foi bastante sincero comigo quando lhe perguntei (numa entrevista que saiu no jornal O Dia em 2017, e que, não sei o motivo, está na internet assinada por outra jornalista) sobre como eram os papos internos sobre política na banda.
“Ano passado, teve o impeachment (da presidenta Dilma Rousseff) e eu contei um pouco para eles. Na época, estava tendo a eleição do Trump e os caras são totalmente american way of life, aquela coisa de ‘a América é o melhor lugar do mundo’. O (Dave) Ellefson (ex-baixista) é o cara que gosta de ouvir as opiniões mais abertas”, disse, afirmando também que “o Dave costuma dizer que o que sai da boca dele, ele nem sabe. É uma coisa de cara que foi criado na rua, de falar na hora. Às vezes, ele até pergunta se falou besteira, se estava tudo bem”.
Em resumo: você provavelmente não iria gostar de encarar Dave Mustaine numa briga – como músico da banda dele, prepare-se para andar na linha ou seja atropelado. Como fã, dependendo do seu posicionamento político, você se arrisca a escutar um chorrilho de besteiras de vez em quando, todas apontando para o conservadorismo ou para o mais deslavado negacionismo. Quando a música vale, todo mundo sai ganhando.
Agora corta para 2026 e para este Megadeth, alegadamente o último disco do grupo. Mustaine adiantou a despedida, ao que consta, por motivos de saúde: já venceu um câncer na garganta, mas enfrenta agora a artrite e a contratura de Dupuytren, enfermidade que faz com que os dedos se dobrem em direção à palma da mão. O problema é que nem sempre a música vence: o último disco do grupo norte-americano é uma despedida bem melancólica.
Talvez os fãs roxos do grupo deixem isso pra lá, ou discordem, mas Megadeth dá a impressão de ouvir a mesma faixa do começo ao fim, com poucas variações. Faixas como Tipping point, I don’t care e Let there be shred, repletas de palhetadas e vocais sujos, reforçam essa impressão e fazem todo mundo esquecer que, há vários anos, o Megadeth era o complemento “quase punk” do Metallica, banda da qual ele fez parte – hoje parece mais uma espécie de primo quieto de si próprio.
O que tem de bom em Megadeth surge em faixas como Hey god?!, Puppet parade, a melódica e bonita I am war, e a motörheadiana Made to kill – ainda assim, não é o melhor do grupo. Tem um aceno ao passado em The last note, que é a verdadeira despedida de Mustaine, e que faz lembrar momentos gloriosos da banda, com uma letra que (compreensivelmente) insere um pouco de drama na história: “agora são apenas memórias em minha mente / apenas luzes e nomes se apagando / se eu algum dia tocar novamente / que esta última nota jamais morra”.
E tem um momento de birra na versão de Ride the lightning, música do Metallica, ex-banda de Mustaine, e uma das canções do grupo para a qual ele contribuiu. Não é uma releitura memorável – na verdade soa mais como um pé na bunda jamais superado, e que ainda dói muito. Já nas letras, Mustaine mistura temas existenciais, versos de protesto e notas mentais de puro “anarquismo conservador”, como no foda-se geral de I don’t care e no irredentismo individualista de Puppet parade e Obey the call. No geral, uma despedida sem sal. E bem amarga.
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Crítica
Ouvimos: Swallow – “Blow” (relançamento)

RESENHA: Swallow: estreia cult marcada por conflitos com a 4AD ganha reedição e revela um som entre shoegaze, psicodelia e melodia refinada.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: 4AD
Lançamento: 5 de junho de 2026
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Poucos discos excelentes foram marcados por mais insatisfação do que Blow (1992), estreia do duo Swallow, formado por Mike Mason e pela angelical vocalista Louise Trehy. Um papo recente dos dois com a newsletter First Revival mostra que nem sempre a união de artistas novos com selos indies resulta em felicidade: a dupla foi contratada pela 4AD assim que já tinha uma demo pronta, gravou Blow pensando numa estética próxima do que seria chamado de shoegaze (climas etéreos, guitarras ruidosas, clima sonhador) mas acabaram se chateando com a direção dada pelo produtor John Fryer (Depeche Mode, Cocteau Twins, Nine Inch Nails) e com as ideias de Ivo Watts-Russell (chefão da 4AD).
Para começar, Mike e Louise trabalhavam juntos há apenas quatro meses (!) antes de gravar o álbum – a experiência de estúdio dos dois “enquanto banda” era gravar tudo em máquinas caseiras e olhe lá. A direção dada pela 4AD aumentou músicas, mudou andamentos, tirou boa parte da vibe lo-fi das demos e pôs baixos no que antes era só guitarra e bateria eletrônica. Houve quem achasse o Swallow uma mistura de Cocteau Twins e My Bloody Valentine e nada mais do que isso – mas tem uma turma enorme que cultua a beleza atmosférica de músicas como Lovesleep, Tastes like honey, Mensurral e Oceans and blue skies até hoje. Na época, a revista Select fez piada com a suposta conotação sexual do nome da banda e do disco.
- Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”
Era cedo demais para o Swallow gravar, mas talvez fosse complexo demais para a 4AD aceitar que ali havia informação nova demais até para o selo que tinha lançado Throwing Muses, Dead Can Dance, Cocteau Twins e Pixies. Tem muita banda hoje em dia que faz exatamente o que o Swallow fazia em 1992, e que se bobear nunca nem escutou o som deles – assim como muita gente tenta fazer, mas não tem o domínio melódico que eles sempre tiveram. Seja como for, a insatisfação foi tamanha que, poucos meses após a estreia, a 4AD deixou que eles remixassem algumas músicas do álbum, que saíram num disco chamado Blowback.
A história do Swallow inclui ainda um EP pela Rough Trade em 1994, além de uma promessa de álbum pelo selo, que não foi concretizada porque a gravadora estava sem grana. Blow, assim como o disco de remixes Blowback, acabaram de ser reeditados com novas mixagens e alguns acréscimos (além de um pacote em vinil com os dois discos, Blown). E mostram que muita coisa que a banda tinha feito nos álbuns era até mais herdeira do Jesus and Mary Chain do que do Cocteau Twins – a própria Louise, por sinal, diz que não cantava igual ao clima “voz de anjo” que agradava à 4AD, e possivelmente a gravadora se deixou levar por um viés de percepção. A misteriosa Cherry stars collide, por exemplo, tem mais a ver com os vocais sofridos de Bjork.
Muita coisa no Swallow, por sinal, era bem mais psicodélica do que propriamente dream pop, como dá para perceber em faixas como Follow me down e Head in a cave, mais próximas da lascação pré-shoegaze do Ride. Complementando, Blow ganhou uma faixa-título, que tinha sido começada em 1992 e foi finalizada só agora, com um estranho clima progressivo na melodia, além de inclinações para o dub. Tudo muito lindo e pronto para ser descoberto, ou redescoberto.
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Crítica
Ouvimos: Arkells – “Between us”

RESENHA: Pop rock adulto e melódico: Arkells unem indie, new wave e ecos dos anos 1980 em um disco cheio de refrãos e referências, Between us.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Virgin
Lançamento: 17 de abril de 2026.
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Conhecido por inserir um som com respiração própria nos discos que produz, John Congleton casou bastante com o clima meio rock, meio indie pop da banda canadense Arkells. Between us, o novo disco, recorre a uma biblioteca pop que faz com que o som do grupo possa interessar até aos fãs do Squeeze – em faixas de alto teor pop e clima roqueiro, como What good? e Ride (gravada ao lado do Grouplove). Além da onda solar de Next summer, cujo som tem muito da fase anos 1990 + 2000 do New Order – uma época que aliás, parece ter virado modelo para grupos e artistas que oscilam entre “pop” e “rock” como universos sonoros.
Esse pêndulo musical gera muita coisa que faz lembrar o som “adulto” dos anos 1980. Como por exemplo Money, faixa com participação de Portugal. The Man, e que tem muito de Talking Heads, ou a balada melancólica Desire’s got some questions. Imagine Barcelona, música ótima de alto potencial de grude, tem muito de Joe Jackson, e abre com um piano bem pop e sacolejado. Universe talking tem ar blues-reggae e uma guitarra que lembra Keith Richards, enquanto What’s on your mind tem muito de Simple Minds e Bryan Ferry.
- Ouvimos: Modern Woman – Johnny’s dreamworld
Tudo isso, na real, surge na música dos Arkells sem criar conflito com os sons de 2026 ou de tempos mais recentes – fãs de bandas como Bleachers, por exemplo, vão achar bastante diversão aqui. Rumours tem clima pós-disco e algo que se aproxima de The Killers, enquanto Two hearts, faixa que tem o melhor refrão do álbum, tem muito do indie dos anos 2000. Os Arkells têm até certo lado beatle, que surge no final com Escape door, uma balada com algumas lembranças de Across the universe.
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Crítica
Ouvimos: Endlesss – “Late reflections” (EP)

RESENHA: Neopsicodelia e shoegaze do México: Endlesss mistura britpop, ruído e psicodelia em um EP que vai do punk ao dream pop.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Shore Dive Records
Lançamento: 5 de junho de 2026
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Neopsicodelia e shoegaze vindo de Mexico City: o Endlesss é criação de um compositor e músico chamado Javier Arturo Mendoza Contreras, e o som do EP Late reflections acrescenta algumas novidades à onda de bandas ruidosas. O som dele quase sempre lembra uma espécie de britpop enevoado, com ondas psicodélicas permeando músicas com Evil eyes e Retroceder, que fazem lembrar bastante o comecinho do Ride.
- Sugar World soa como uma fita VHS derretendo em Terra incognita
Dejar atrás já é uma espécie de punk rock saturado, estourado como aqueles antigos VHS em que as cores saltam na frente de todo mundo. E há até um flerte entre powerpop e darkwave em We will be alright – são estilos que mal se misturam na vida real, e que aqui parecem se juntar sem problemas.
O final, com o instrumental Void, é ruído puro, formado por um paredão de guitarras, e por uma ambiência em que ruído vira sonho. Bem legal.
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