Crítica
Ouvimos: Justin Bieber – “Swag”

RESENHA: Swag, novo disco-surpresa de Justin Bieber, mistura lo-fi, trap e synth pop com vibe indie e desleixo calculado. Musicalmente rico, mas com letras rasas.
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Justin Bieber opera hoje num universo de, vamos dizer assim, venda fácil e compreensão difícil. Ser um cantor branco de r&b significa basicamente que você vai ter que fazer shows, gravar discos e existir no show business, de modo geral, no limite da polêmica. Afinal, tanto r&b quanto rap são áreas de artistas negros, ligadas a um histórico que se estende ao soul, e a vivências pessoais – e o mundo mudou o suficiente para que o mercado quase entenda o peso de certas coisas.
Por quase entenda, leia-se que, na maioria dos casos, tudo pode ser resolvido por uns posts nas redes sociais e uma tour pelos lugares certos, com as pessoas corretas. Mas pra piorar um pouco, nos últimos tempos, Justin andava brotando mais no noticiário de fofoca do que nos cadernos de cultura. As notícias eram sobre cancelamentos de shows, brigas com a mulher Hailey, relacionamentos supostamente mais do que íntimos com o rapper P. Diddy e supostos abusos de substâncias.
E, bom, o que faz um astro como Justin Bieber numa hora dessas? Para calar a boca de uma renca de gente durante um bom tempo, ele simplesmente lança um disco novo do mais absoluto nada – e este disco é Swag, uma epopéia de quase uma hora, com 21 faixas. E antes de mais nada, Swag consegue colocar de vez Justin numa espécie de “espírito do tempo” pop no qual artistas como Taylor Swift, Rihanna, Beyoncé e Miley Cyrus já se encontram há um bom tempo.
Esse tal (hum) zeitgeist significa que tais artistas – seguindo uma linhagem que inclui de Beatles a Marvin Gaye – decidiram se libertar de amarras para fazerem o que bem entendem. Ou seja: discos de protesto, álbuns com design musical troncho, feats que os fãs vão estranhar, projetos com produtores pino-solto, singles com referências que o fã-clube vai ter que buscar no Google, lançamentos com fotos de divulgação distorcidas – ou capas no estilo meu-sobrinho-fez.
De modo geral, são artistas que podem se dar ao luxo de perder alguns fãs, em nome de verem seus álbuns se tornarem (vá lá) pretensos barômetros do nosso tempo, ou pelo menos crônicas pessoais-autoficcionais. Alguns exemplos: Brat, de Charli XCX, trouxe a zoeira da noite de volta. Hit me hard and soft, de Billie Eilish, foi importante na onda de música sáfica. GNX, de Kendick Lamar, explora misérias existenciais e brigas no showbusiness. Vai por aí. Fazer disco com “desencucação” virou, mais do que nunca, coisa de roqueiro – aposto que você se divertiu muito com Cartoon darkness, de Amyl and The Sniffers, e ficou assustado/assustada com as teorias geradas por Brat.
Se a essa altura do meu texto você já está prestes a desistir de ler, por eu ainda não ter dito se Swag vale seu tempo precioso, aqui vai: vale, e muito. Justin já vinha de uma tradição de álbuns ligadíssimos na atualidade – o melhor deles é Purpose, de 2015. Swag tem um subtexto de “libertação”, já que Bieber acaba de dar adeus a seu empresário de vários anos, Scooter Braun (um adeus que vai lhe custar mais de 30 milhões de dólares, por sinal). E traz o cantor investindo em climas lo-fi, sons texturizados, vibes derretidas e muita coisa que virou moda de uma hora para a outra.
O G1 disse que Swag é um disco chato. Eu discordo bastante, mas o The Guardian chegou perto da realidade ao dizer que as letras prejudicam o novo álbum – de fato, a poética de Swag tem a profundidade de um pires. Já musicalmente, a diversão é garantida até para quem nunca ouviu nada do cantor. Bieber e sua turma de produtores e parceiros transformam trap e sons lo-fi em pop adulto, em faixas muito bem feitas e bem acabadas, como All I can take, a estilingada Daisies, o bedroom pop Yukon e a viajante Go baby.
O design musical de Swag é minimalista, e boa parte das músicas têm aquele clima de desleixo estudado do indie pop atual. Things you do tem guitarras decalcadas do The Police e silêncios entre vozes e sons, Butterflies é uma gravação quase caseira que vai crescendo, e faixas como First place, Way it is, Sweet spot e Walking away unem synth pop, modernidades, sons derretidos e tentativas de emular Michael Jackson.
Já Dadz love, com o rapper Lil B, evoca Prince, com tecladeira dos anos 1980 e texturas de 2025. A vibe dos Rolling Stones, e das voltas do grupo britânico em torno do soul e do r&b, dáo as caras em Devotion e na vinheta Glory voice memo. Uma curiosidade é o trap da faixa-título, com participações de Cash Cobain e Eddie Benjamin, e um verso proscrito sobre cocaína (“seu corpo não precisa / de nenhuma linha prateada”) que aparentemente só o Spotify transcreveu.
Vale dizer que, tentando tomar de volta o controle da própria narrativa, Justin derrapa feíssimo ao decidir colocar em Swag três diálogos com o comediante negro norte-americano Druski. Num deles, o humorista diz a ele que “sua pele é branca, mas sua alma é negra, Justin” (o cantor só responde um “obrigado” desajeitado) – em outro, o assunto inclui paparazzi e redes sociais. No final, quem ouve o disco inteiro é “premiado” com a estranhíssima presença do cantor gospel Mavin Winans ocupando sozinho a última música – o cântico religioso Forgiveness.
Enfim, é Bieber buscando legitimidade para o autoperdão e para a própria carreira de cantor branco de r&b – e mandando recados de maneira tão desajeitada que Swag, um excelente disco, quase rola escada abaixo. Swag não resolve todas as questões em torno de Justin Bieber – mas quando acerta, lembra que, às vezes, é melhor fazer do que explicar.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Def Jam
Lançamento: 11 de julho de 2025
Crítica
Ouvimos: Catïça – “Cereja de xuxu”

RESENHA: Em Cereja de xuxu, a banda Catïça, de Londrina, mistura punk, crossover e grunge em dez faixas rápidas, com humor ácido e críticas sociais.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Deck
Lançamento: 23 de outubro de 2026
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Tinha uma lenda de que algumas sorveterias e lojas de doces, sem grana pra comprar cerejas, usavam o chuchu para produzir uma imitação horrenda da iguaria, que servia apenas de enfeite. Vindo de Londrina, o Catïça decidiu partir para a zoeira chamando seu segundo disco de Cereja de xuxu (e não “chuchu”). Mas não tem só gozação – ou melhor, ela vem filtrada em temas como cena underground, política e até playboyzices do dia a dia (devidamente sacaneadas no pós-punk Petit comité).
O disco do Catïça tem lá suas semelhanças com Magia, estreia do Budang – a saber: união de várias vertentes do punk em torno do crossover, uso de expressões locais (embora o disco dos catarinenses do Budang seja cantado quase em dialeto), porrada sonora destacando o baixo, músicas rápidas (são dez faixas em 15 minutos). O grupo fala do amor à música e à estrada em Sofá cubista e Em todos esses anos nessa indústria vital, essa é a primeira vez que isso me acontece (sim, o título foi tirado daquele desenho do Pica-Pau), lembra histórias de sua terra em Pé vermei e avisa que a taxação de grande fortunas vai rolar nem que seja na porrada (em Surpresinha).
O crossover bate mais forte em faixas como Chosen e Sofá cubista, além da sacanagem religiosa Crente canibal. A curiosidade aqui é Vixvéi, grunjão da massa em que o Catïça soa como uma banda fanática por Alice In Chains (!).
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Crítica
Ouvimos: Sophia Stel – “The greatest album of all time”

RESENHA: Em The greatest album of all time, a canadense Sophia Stel mistura electropop, trip-hop e dream pop para falar de solidão, insegurança e vida noturna.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: A42 Music
Lançamento: 16 de outubro de 2026
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Nem tudo na música eletrônica é feito pra dançar, e nem tudo que é feito pra dançar é alegre e eufórico. Mais: estilos como electropop muitas vezes falam mais de tristezas e porradas da vida – ou são perfeitos para falar daquele momento em que a festa acaba e só resta você, suas circunstâncias e questões para resolver.
The greatest album of all time, estreia em álbum da canadense Sophia Stel, de 27 anos, vai bastante por esse caminho. Sophia cresceu numa família religiosa de 11 filhos, já lançou dois EPs e gravou quase todo o disco sozinha, em hotéis e apartamentos alugados durante turnês. O título começou como uma brincadeira e acabou virando uma maneira de espantar a síndrome da impostora.
O som é indietronica com estiileiras trip-hop, electropop, dream pop … Sophia canta como se estivesse meio entorpecida, alternando sussurros, falas melódicas e uma espécie de rap arrastado. Em vários momentos, a voz soa quase robótica, como se tivesse sido programada para cantar daquele jeito – e o Auto-Tune ajuda bastante nisso. Mesmo quando fala de sentimentos intensos, ela parece não estar nem aí.
O disco fica melhor quando Sophia consegue fazer música sombria e dançante ao mesmo tempo. On my dick, cuja letra soa como uma confissão de autoconfiança bastante exagerada e sarcástica, abre com um pop eletrônico quase psicodélico e escuro. Molly in the club , sobre a solidão e a confusão emocional provocadas pela vida noturna. tem algo de trip-hop, mas a viagem fica por conta dos vocais cheios de eco. Em Like a kite, uma batida que lembra um relógio vai ganhando teclados que mudam completamente o clima da música. Já I’ll walk começa com cordas tensas e piano grave, antes de cair num trip-hop tranquilo, cheio de teclados.
Tem ainda a dance music discreta de Better believe it, o dream pop de 15 hours away e o canto quase falado de Now I’ve got a lot you know, que depois ganha até uma batida próxima do reggaeton. O problema é que, com 12 faixas, o álbum acaba ficando um pouco inchado, e nem todas as ideias funcionam tão bem.
Mas quando Sophia acerta, faz uma eletrônica ótima para dançar com a cabeça cheia de problemas. O final, com o batidão tímido de Burn, é a conclusão positiva e sarcástica do disco: Sophia fala que quer viver intensamente – só faz questão de lembrar que na idade dela (27), uma renca de gente partiu.
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Crítica
Ouvimos: Jardim Depressa – “O pequeno deus do sol” (EP)

RESENHA: No EP O pequeno deus do sol, a banda paulista Jardim Depressa mistura pós-punk, shoegaze e psicodelia em quatro faixas de tensão e angústia existencial.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 29 de setembro de 2026
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Pós-punk e psicodelia já se encontraram muitas vezes. E já tiveram um casamento consumado por estilos como o shoegaze. No EP O pequeno deus do sol, a banda paulista Jardim Depressa celebra a união em clima de tensão sonora, sombras e experimentalismo, como no spoken word percussivo da faixa-título e no clima soturno, quase post-rock, de Em seu lugar – música que depois vai ganhando uma onda venturosa.
Curto, o disco tem quatro faixas separadas por uma vinheta, Vênus, com dedilhados e clima sonhador. Diabo, lançada em single, é ágil, melancólica e tensa, com uma gravação meio lo-fi (você pode achar que se trata de uma banda dos anos 1980) e uma parede simples de guitarra que encobre os vocais. Quando comentamos sobre essa faixa, vimos referências de bandas como Kitchens Of Distinction e House Of Love.
No final, Tempestade vem com clima angustiado e acústico. Na letra, pensamentos sobre o mal, o tempo, e a maldade que nunca dorme. Sonzeira existencial e perturbadora.
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