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Cultura Pop

Aquela vez em que Syd Barrett deu uma rara entrevista, em 1982

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Aquela vez em que Syd Barrett deu uma rara entrevista, em 1982

Quando Syd Barrett foi sacado do Pink Floyd, em 1968, a situação ficou bem estranha não apenas para a banda como um todo, mas para um de seus integrantes em particular. Era o tecladista Richard Wright, que dividia apartamento com o ex-colega de grupo na época.

O plano do grupo era substituir definitivamente Syd Barrett pelo novo guitarrista, o ex-modelo fotográfico David Gilmour. Tanto que o Pink Floyd chegou a funcionar como quinteto por alguns tempos. Num show da banda em 26 de janeiro de 1968 na Universidade de Southampton, o Pink Floyd se apresentou pela primeira vez sem que Barrett fosse considerado como um integrante – ocasionalmente, quando ele estava alucinado demais para subir ao palco, David O’List, guitarrista da banda progressiva The Nice, o substituía, mas agora era diferente.

Para não revelar a verdade ao amigo (que a banda faria um show e ele não estava convocado), Wright precisou inventar que ir à rua comprar cigarros. “Claro, eventualmente, ele descobriu o que estava acontecendo”, contou no livro A very irregular head, biografia de Barrett escrita por Rob Chapman. Seja como for (e descontando-se o fato de Syd não ter sido efetivamente ajudado por alguns de seus colegas), estava complicado lidar com o fato de Barrett não segurar a onda no ácido, esquecer instrumentos e ficar olhando para o vazio durante entrevistas de TV.

Syd, ainda em 1968, embarcou em sessões intermináveis de gravação (ao lado de amigos como David Gilmour e Roger Waters) que geraram The madcap laughs, seu primeiro disco solo (1970). Em 6 de junho de 1970, fez seu único show solo, no Kensington Olympia, em que tocou apenas quatro músicas e deixou o palco. No mesmo ano, em 14 de novembro, saiu Barrett, o segundo disco.

Já em 1974, animada com a demanda pelo multiplatinado The dark side of the moon, álbum que falava sobre loucura (e trazia o ex-guitarrista rondando o conceito como um espectro), a EMI embalou os dois primeiros discos da banda no duplo A nice pair. E fez o mesmo com os dois discos de Barrett, no LP duplo Syd Barrett.

Aquela vez em que Syd Barrett deu uma rara entrevista, em 1982

A capa, com uma laranja, uma ameixa e uma caixa de fósforos, foi concebida por Storm Thorgerson (Hypgnosis), inspirada numa viagem de ácido que ele e o cantor tiveram em 1965 – e que havia sido a primeira de Syd. Voltou-se a falar brevemente de Barrett, o Pink Floyd permanecia eternamente pesaroso ao falar do ex-integrante (e não escondia a culpa que mantinha sobre o assunto) mas o músico continuava sem gravar, dar shows ou fazer entrevistas.

Até que em 1982, os jornalistas franceses Michka Assayas e Thomas Johnson descobriram o paradeiro do músico – que havia voltado a morar em Cambridge com a mãe. Os dois foram para lá e conseguiram encontrar-se com ele, levando roupas que um amigo de Barrett que morava em Chelsea havia pedido a eles que mandassem para ele. O ex-Pink Floyd estava careca, meio barrigudo e com visual caretão. “Acabei de fazer uma operação, mas nada muito sério”, disse Barrett. “Estou tentando voltar lá (em Chelsea), mas tenho que esperar. Há uma greve de trem no momento”.

Barrett abriu um sorriso ao ver as roupas e até ofereceu dinheiro para os repórteres em troca da entrega (“não, obrigado”, recusaram). “Achei que não conseguiria essas coisas de volta. E eu sabia que não poderia escrever. Eu não poderia ter decidido ir buscá-los … Pegar o trem e tudo mais. Minha mãe entrou em contato com o escritório”, contou.

O músico disse que pretendia arrumar um flat para morar em Londres e falou que “não realmente” ainda fazia música, porque “não tinha muito tempo para fazer”. Os repórteres pediram para bater uma foto dele e o ex-Pink Floyd deu por encerrado o papo. “Bom, isso é o suficiente agora. É doloroso para mim. Obrigado”, afirmou.

O papo saiu na Actuel Magazine e anos depois foi publicado na íntegra na Cosmic Magazine. Um tempo depois um site de raridades do Pink Floyd chamado Brain Damage ainda publicou um texto dos autores da reportagem explicando como foi encontrar com Syd. No começo, fizeram contatos frustrados com um ex-empresário dele. E com o criador de um fanzine sobre Barrett, que tinha muito material raro dele guardado, mas não facilitou o contato. Também localizaram Duggle Fields, antigo roommate de Barrett – o quarto que o cantor tinha na casa dele é a locação da foto da capa de The madcap laughs.

Para conseguir o endereço do músico, os jornalistas foram a uma agência de imóveis em Londres, que cuidava do último endereço onde o músico havia morado após ir para Cambridge – e foi lá que pegaram a tal sacola de roupas, que foi usada mais como pretexto para se aproximar dele. Chegando no local, pediram informações numa farmácia que (por um golpe de sorte) era frequentada pela mãe do músico. Já na porta da casa da família Barrett, descobriram que não eram os únicos a tentar falar com ele: um jovem de visual hippie, com uma garrafa de leite na mão, andava de um lado para o outro na porta da residência, sem saber o que fazer.

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Relembrando: Built To Spill e Caustic Resin, “Built to spill caustic resin” (1995)

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Relembrando: "Built to spill caustic resin", Built To Spill e Caustic Resin

Built To Spill e Caustic Resin são duas bandas bem desafiadoras do rock independente norte-americano, ambas vindas de um local pouco usual em se tratando da história do rock (a cidade de Boise, em Idaho), e que permaneceram ligadas por um bom tempo. A primeira, uma multi-formação liderada eternamente pelo músico Doug Martsch, caminhou entre o guitar rock, o punk e o slacker rock (aquele estilo despojado, geralmente usado para classificar o Pavement). A segunda, contando com relativamente poucas mudanças de line-up, dedicou-se a um “metal alternativo” mais próximo de Neil Young, do Grateful Dead e do Velvet Underground do que das noções comuns de música pesada.

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Como costuma acontecer com bandas-irmãs, uma delas foi para cantos um tanto quanto diferentes da outra. O BTP, que, durante shows recentes na América Latina, chegou a contar com dois músicos brasileiros (o baixista João Casaes e o baterista Lê Almeida), foi contratado da grandalhona Warner por duas décadas e fez turnês extensas. O Caustic Resin, que não grava desde 2003 e em tese, está em hiato, passou boa parte do tempo contratado do selo indie californiano Alias.

Em 1995, pouco antes do Built To Spill partir rumo a Warner e deixar o selo Up Records, de Seattle (por onde o Caustic Resin também havia passado), as duas bandas se juntaram num EP igualmente lançado pela Up. A junção dos nomes das duas bandas no título fez o EP se chamar literalmente Built to spill caustic resin (“construído para derramar resina cáustica”, em português), o que já dava uma imagem do aspecto corrosivo que a música poderia ter. Na formação, Doug (voz e guitarra) ao lado de dois integrantes do Caustic, James Dillion (bateria) e Tom Romich (baixo), além de um membro comum às duas bandas (Brett Nelson, voz e guitarra).

O EP reúne em quatro faixas as características das duas bandas: os ganchos musicais do Built e as viagens sonoras pesadas do Caustic. Duas das faixas, a irônica When not being stupid is not enough e She’s real, são bem extensas. Na prática, boa parte do material tem até mais a ver com o som que o Built vinha fazendo em sua primeira fase, de discos como a estreia Ultimate alternative wavers (1993), que tinha músicas repletas de partes diferentes. Mesmo quando surge uma música creditada ao Caustic e que tem bastante a cara deles, a psicodélica e gritada Shit brown eyes. O longo power pop She’s real, que encerra o disquinho lembrando uma versão zoada do Weezer, é creditado ao músico e artista visual Tae Won Yu, e foi composto quando ele fazia parte da banda indie Kicking Giant, liderada pela musicista Rachel Carns.

Mesmo sendo um EPzinho independente e, de certa forma, restrito, Built to spill caustic resin teve lá sua cota de problemas. A foto da capa, trazendo ovos de peixe e duas simpáticas larvinhas, teve que ser mudada assim que o autor da imagem descobriu o disco. Já a história da Up Records, que lançou discos de artistas como Quasi, Tad e Modest Mouse, durou até o licenciamento de seu catálogo para a Sub Pop, em 2018.

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Relembrando: Interpol, “Turn on the bright lights” (2002)

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E os 20 anos de Turn On The Bright Lights, estreia do Interpol?

Mal dá para crer que a banda novaiorquina Interpol não chegou a ter problemas com a organização policial americana. Mais inacreditável ainda é a lembrança de que o grupo fazia shows concorridíssimos no começo da carreira, quando eram estudantes universitários, mas não tinha um nome. Ao optarem por Interpol, justamente no comecinho da web 2.0, Paul Banks (voz, guitarra, hoje baixista), Sam Fogarino (bateria), Daniel Kessler (guitarra solo, voz) e Carlos D (baixo) não escaparam de receber várias mensagens por engano, de gente que pensava mesmo estar falando com a polícia americana, e não com uma banda iniciante (há um tempinho, isso rolou de novo, e no Brasil).

“Recebi alguns e-mails sérios sobre pessoas que se perderam, que outras pessoas estavam tentando encontrar, ou e-mails sobre golpes em que as pessoas caíram”, contou Kessler ao Pitchfork em janeiro de 2003, poucos meses após lançarem a estreia Turn on the bright lights (de 20 de agosto de 2002). “Um dos e-mails foi ‘meu carro foi roubado’”, contou.

A estreia do Interpol devolvia ao cenário novaiorquino muitas das influências que bandas como Velvet Underground tiveram sob os grupos ingleses. Em pleno retorno da sonoridade do pós-punk, marcada pela chegada ao mercado americano de bandas como Strokes, o Interpol assemelhava-se a bandas como Joy Division, Echo and The Bunnymen e nomes mais recentes como Ride.

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Os vocais de Banks, mesmo sendo mais empostados, são até hoje bastante comparados aos de Ian Curtis, e no disco do Interpol havia Obstacle 1 e Obstacle 2 como havia Exercise one na obra do JD. A canção da banda inglesa era bem mais assustadora do que o pós-punk marcial e volumoso do Interpol, claro, mas a letra de Obstacle 1 é igualmente sombria (“você vai se esfaquear no pescoço/mas é diferente agora que estou pobre e envelhecendo/nunca mais verei esse lugar”).

Havia muito ali também de bandas geralmente pouco comentadas, como The Sound (o clima cavernoso dos vocais e das melodias era herdeiro direto deles). A paixão de alguns integrantes do Interpol por música eletrônica fazia com que Turn on the bright lights fosse um disco cheio de climas diferentes, e que funcionasse como um relógio. embora a estreia da banda fosse bastante orgânica, maturada pelo uso do estúdio como um instrumento musical,  durante seis semanas de isolamento.

Untitled surgia em tom de abertura de filme, preparando o ouvinte para músicas como Obstacle 1, NYC (uma balada shoegaze que mostra o lado sombrio da “cidade que nunca dorme” e que cita o título do disco), PDA (a canção mais ligada ao rock de Manchester já produzida por uma banda americana), Stella was a diver and she was always down (essa poderia estar no Heaven up here, segundo LP do Echo and The Bunnymen). Tudo em Turn on tinha um certo ar de desilusão com as luzes de Nova York, um sentimento que fazia todo sentido no pós-11 de setembro.

Há quem defenda que Turn on the bright lights acaba na nona faixa, a ágil e meio punk Roland, com letra sanguinolenta falando sobre um açougueiro polonês que seccionava pessoas – um personagem aparentemente de ficção, mas que dizem ter sido inspirado no assassino americano Richard Kuklinski, morto em 2006. Os próprios integrantes viam The new e Leif Erikson, as duas verdadeiras últimas músicas, como separadas do disco – a última, em particular, soa como um pop sessentista sombrio, herdado do Velvet Underground e de Nico, encerrado por uma parede de guitarra e voz.

A estreia do Interpol foi um excelente exercício, que gerou imediatamente um grande prosseguimento, Antics (2004), e um disco mais controverso e um tanto mais sombrio, Our love to admire (2007). E a história do Interpol continua, com a banda reduzida ao trio Paul Banks, Daniel Kessler e Sam Fogarino. Rolou inclusive uma vinda há algumas semanas ao Brasil.

Ah, sim: quando o disco completou 20 anos, a banda pôs no YouTube o vídeo de divulgação do álbum, lançado na época apenas como um EPK para a imprensa. Pode ser visto abaixo.

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No nosso podcast, o começo dos Stone Temple Pilots

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No nosso podcast, o começo dos Stone Temple Pilots

Não era nada fácil ser integrante dos Stone Temple Pilots nos anos 1990. Os discos vendiam e os shows lotavam, mas não havia muito respeito da crítica, e a cada disco parecia sempre que uma nova chance estava sendo dada ao grupo de Scott Weiland, Dean DeLeo, Robert DeLeo e Eric Kretz. Pior: de tempos em tempos, as turnês eram canceladas e a banda tinha que parar tudo, já que Scott volta e meia precisava encarar uma internação para reabilitação.

Hoje a gente dá uma volta no tempo e faz um sobrevoo no começo do STP. Falamos de tudo (ou quase tudo) que estava acontecendo na vida deles, e damos uma olhada por trás dos discos Core (1992), Purple (1994) e Tiny music: Songs from the Vatican gift shop (1996). E encerramos essa temporada do nosso podcast, o Pop Fantasma Documento, falando de uma das nossas bandas preferidas.

Século 21 no podcast: Billy Tibbals e A Última Gangue.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (foto: Divulgação). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.

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