Crítica
Ouvimos: The Damned – “Not like everybody else”

RESENHA: Com uma de suas formações mais clássicas, o Damned lança Not like everybody else: tributo ao guitarrista Brian James, com covers 60s/70s e espírito punk-gótico intacto.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: earMUSIC / Edel
Lançamento: 23 de janeiro de 2026
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Desde 2024, a veterana banda punk The Damned está novamente com a formação que gravou os discos The black album (1980) e Strawberries (1982): Dave Vanian (voz), Captain Sensible (guitarra), Paul Gray (baixo) e Rat Scabies (bateria), acrescida de Monty Oxymoron, um cara que além de tocar teclados, trabalhou um bom tempo como enfermeiro psiquiátrico (tudo a ver com uma banda cujo repertório inclui clássicos da loucura punk como There’s no sanity clause e Stab your back).
Essa re-formação ainda não havia gravado discos novos, até que chegou a notícia da morte de Brian James, guitarrista que gravou os dois primeiros álbuns do Damned, e autor de nada menos que o primeiro hit do grupo, New rose. Brian, fã de pré-punk, de psicodelia e de sons dos anos 1960 em geral, morreu aos 74 em 6 de março de 2025. Not like everybody else talvez nem seja o retorno que os fãs aguardavam, já que não é um disco de inéditas. Mas é um manifesto afetivo feito pelo quinteto, já que, no disco, o Damned fez versões de dez das músicas preferidas do músico.
O Damned tem entre seus hits duas versões de hits da era de ouro da psicodelia: Alone against or, do Love, e White rabbit, do Jefferson Airplane, ambos transformados em canções próximas do gótico. O formato é conhecido da banda e de seu público, daí Not like everybody else, antes de tudo, é um disco seguro, do tipo “não tem como errar”. Não tem erro mesmo: o grupo volta lembrando a época de Machine gun etiquette (o terceiro disco, de 1979) nas versões de Summer in the city (Lovin’ Spoonful), Gimme danger (Iggy Pop & Stooges), See Emily play (Pink Floyd) e Making time (The Creation), e faz lembrar um Hoodoo Gurus do mal em There’s a ghost in my house (R. Dean Taylor).
O repertório destaca ainda o clima quase pré-britpop de I’m not like everybody else (Kinks) e o peso de When I was young (The Animals), aberta com algo parecido com a intro de Iron man (Black Sabbath) e encerrada com guitarras lembrando The Who. Além disso, fãs da banda vão curtir a aparição de Brian James nas guitarras de The last time (Rolling Stones), em versão gravada num show de reunião em 2022. Enquanto muita gente insiste até hoje no discurso de que o punk foi uma “ruptura”, bandas como o Damned provam que não era bem assim.
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Crítica
Ouvimos: Interpol – “This mirror weighs a ton”

RESENHA: No oitavo álbum, This mirror weighs a ton, o Interpol supera a comparação com Joy Division ao misturar pós-punk, dub, trip hop, reggae e eletrônica, enquanto Paul Banks escreve sobre mudanças, maturidade e sobrevivência.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Partisan Records
Lançamento: 28 de agosto de 2026
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A comparação entre Joy Division e Interpol sempre foi meio preguiçosa. Paul Banks, vocalista do grupo, soa mais como um cantor firme e como um letrista analítico, do tipo que divide uma situação em vários pedaços e não necessariamente entrega a explicação na música. O som do Interpol parece uma revisão diurna, urbana e menos isolada da música de álbuns como Unknown pleasures (do Joy, 1979), Seventeen seconds (The Cure, 1980) e Heaven up here (Echo and The Bunnymen, 1981) – discos que sacramentaram a união entre pós-punk e gótico no que ela tem de mais noturna e mórbida.
Por acaso, o Interpol sempre deu mostras de ser uma banda que sobreviveria, nem que fosse a seus próprios integrantes. No caso do oitavo disco, This mirror weighs a ton, a banda mostra ter passado por cima de comparações, descasos, mudanças de formação (o ex-baixista Carlos D, que deixou o grupo em 2010) – e mostra ter fixado uma imagem sonora bem própria, a ponto de ter já influenciado muita gente. Mais que isso, existe um tipo de público que ouve o Interpol, e que não necessariamente é gente saudosa de outros tempos do pós-punk, ou indies resistentes dos anos 2000 (recentemente o grupo uniu sombras com o Deftones e rolou até turnê conjunta).
Vai daí que This mirror… soa como um atestado dessa tal sobrevivência, mas ao mesmo tempo parece um retorno “diferente” ao grupo nos primeiros anos. A banda substituiu coisas que poderiam ser mais comparadas a Joy Division por climas mais hipnóticos – tipo na faixa-título, que soa como um pós-punk dub, ou como algo próximo ao trip hop, ou na nostalgia eletrônica da ultramelancólica Iron city. Rola uma curiosa vibe reggae em Wounded soldier, uma onda celestial na orquestral Even the actor, e algo entre Joy Division e Wire no som quase matemágico de Wings on fire.
Há um som mais ligado às fases anteriores da banda em See out loud, música herdeira do lado dramático do Joy Division, mas com outros ingredientes na receita. Nem sequer dá pra dizer que é uma reinvenção da banda, porque parece mais com aqueles momentos em que um grupo consegue soar consigo próprio sem parecer que está se repetindo. Entre as (agora sim) grandes novidades do álbum está a onda quase afro-pós-punk de Wake up, com ritmo lembrando bandas como Aztec Camera e Talking Heads, e uma guitarra que evoca o high life. Tem ainda a atmosfera de Enemy, quase um Coldplay percussivo e sujo, além do Joy Division “de faroeste” da desértica Bird and the serpent.
Nas letras, o tal “espelho que pesa uma tonelada” do título reflete Paul casado, pai de família, com 48 anos e meio assustado com as mudanças na realidade, mas bastante preocupado não apenas com ela, como também com o “e aí, fazer o que diante disso?”. Como costuma acontecer com o Interpol, você vai entender certas frases como grandes sacadas ainda que nem sempre tudo fique claro de primeira – tem o “todas as palavras se foram / mas as rádios na sua cabeça ainda transmitem o arcano para o mundo exterior” da faixa-título, o “em algum lugar, esses olhos, gravados em pedra / esperando pertencer a este lugar” de Even the actor, vai por aí. No geral, uma banda que cresceu e que já entende que virou referência.
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Crítica
Ouvimos: Matheus Gomes da Costa – “Estranho indivíduo familiar” (EP)

RESENHA: No EP Estranho indivíduo familiar, Matheus Gomes da Costa transforma questões de infância, religião, desejo e identidade em um rock teatral que cruza art rock, glam, synth-pop e MPB.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 14 de agosto de 2026
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Cantor, compositor, performer, professor e pesquisador em Artes Cênicas, Matheus Gomes da Costa é da geração que começou na música soltando material no MySpace – em 2007, aos 17 anos, lançou por lá o EP Degustando problemas. Seu som vem de questões vividas desde a infância, por causa de comportamentos “escondidos, silenciados, violentados ou punidos” – ele foi criado na religião evangélica e hoje se define como uma “diva bicha roqueira e proletária”, expressão que surge no release do EP Estranho indivíduo familiar.
Produzido por Marcio Pombo, e criado a partir de um material que vem sendo acumulado em HDs desde a década passada, o EP abre com o clima “de musical” de Garoto do coro – art rock que atualiza os questionamentos de Ando jururu, de Rita Lee, entre o coral e o protagonismo, mas traz outras afirmações sobre desejo e vida na letra. Outro eu tem algo da extroversão do Queen e das sombras de bandas como Placebo e Suede (verso ótimo: “a solução pra confusão tá no centro do problema / ninguém sabe bem ao certo / e quem explica engana”).
Estranho indivíduo familiar ganha clima synth-pop + glam em Botão – um anti-hino sacana aos apelos da internet, lembrando algo entre Frenéticas e Ronaldo Resedá. A acústica O som consegue unir a dramaticidade do Suede a algo do pop nacional. Além amor, balada de piano, voz e guitarra distorcida, soa como uma revisão rocker da MPB de 1981 / 1982. Um disco curto (15 minutos), mas que movimenta questões e referências como se fosse um álbum de 60 minutos.
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Crítica
Ouvimos: Mesh – “No fun at all”

RESENHA: Na estreia No fun at all, Mesh, quarteto da Filadélfia, cruza punk, rock dos anos 1960 e indie oitentista com guitarras de 12 cordas e letras sobre a vida urbana.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Feel It Records
Lançamento: 24 de julho de 2026
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O Mesh vem da Filadélfia e faz uma curiosa mistura de rock sessentista, indie rock oitentista e punk – algo que tem a ver com The Jam, Kinks, Smiths, Buzzcocks, Clash, Eddie and The Hotrods, Blondie, tem a ver até com Ira!. O som tem clima 100% analógico e caseiro, a produção foca mais na melodia que no peso, e (detalhe) há uma integrante, Allison Durham, que canta e toca guitarra de doze cordas. E a guitarra de Allison é uma arma secreta fantástica na estreia No fun at all.
Ela, Sims Hardin (guitarra e voz), Tom Riese (baixo) e Steve Darling (bateria) falam de um dia a dia facilmente reconhecível em No fun at all: grandes corporações alugando um triplex cada uma em nossas cabeças, falta de perspectivas, empregos chatos, lembranças bem loucas de infância (Potatohead sacaneia o brinquedo do cabeça-de-batata popularizado pela franquia Toy story), vida urbana. Na onda do grupo, Violent peasant ganha até indianismos a la George Harrison, misturados com o clima garageiro do início do Joy Division (tem algo de No love lost, do JD), rolando o mesmo com Boots on the pavement, logo depois.
Essa receita punk + anos 1960 passa pelas guitarras socadas de faixas como Sign, Quit my job, Potatohead e Quicksand, e por lembranças de bandas como The Who e Magazine em faixas como Weapon of peace e 5G. Recomendado para quem quer ver uma banda criando algo novo com elementos já bem antigos.
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