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Ouvimos: Friko – “Something worth waiting for”

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Ouvimos: Friko – “Something worth waiting for”

RESENHA: Friko lança um dos discos de rock mais apaixonantes de 2026: Something worth waiting for mistura indie, punk e câmara, letras emotivas e energia que deve crescer ainda mais ao vivo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: ATO records
Lançamento: 24 de abril de 2026

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Preferia mil vezes não estar escrevendo isso, porque se o Friko, uma banda de rock de Chicago, chega no mesmo nível de hype do Geese, sei lá o que vão descobrir sobre os “planos de marketing” deles por aí, mas lá vai: Something worth waiting for, segundo disco deles, é, até o presente momento, o álbum estrangeiro de rock mais apaixonante já lançado em 2026.

“Calma aí!”, você já deve estar dizendo – e com toda razão, porque dá pra desconfiar de qualquer relato definitivo e bombástico sobre um disco, uma música, um filme ou o que o valha. O Friko, influenciado por uma onda sonora que inclui Mitski, Beach Boys, Radiohead e até música clássica na veia, bem que contribui para a formação de uma fileira de gente torcendo o nariz com o nome desse disco novo (que porra é essa de “algo pelo qual vale esperar”?).

Vindos do ambiente multicultural da escola Evanston Township, em Illinois, onde os fundadores estudaram, os três integrantes fazem música como se fossem quatro moleques guerreiros vindos de algum subúrbio da Inglaterra.
Sob uma base ora punk, ora rock clássica, ora elaborada como o mais detalhado rock de câmara, Niko Kapetan (voz, guitarra) passa boa parte de Something worth waiting for cantando emocionadamente sobre dores, fugas, esperas sem fim, “amanhãs” que nunca chegam, fracassos do dia a dia (como em Still around: “as manhãs sempre te colocam no seu devido lugar / o sol começa a se pôr / sempre tem alguém te decepcionando”).

Inspirada em Lewis Carroll, Alice avisa à personagem-título que as maravilhas custam caro (“Alice, você sabia que aquele coelho é um peão / e que somos apenas peças para mover?”). Nem sempre as letras prezam pelo foco e volta e meia você pode esbarrar com algo bem ingênuo, como Choo choo, que fala em escapar da chatice do dia a dia pegando um trem (e acredite, o “choo choo” é Kapetan imitando uma maria-fumaça das antigas).

Só que isso dá uma sensação de entrega bizarra a Something worth waiting for, disco que ainda tem uma declaração de amor a uma velha bicicleta de estimação, Dear bicycle (“bicicleta, sua ferrugem está aparecendo / o que aconteceu com seus ossos? / você está empoeirada agora, mas tome um drinque / há crianças por perto que querem brincar”). Musicalmente, por sua vez, Friko e o produtor John Congleton fizeram de Something um álbum indie de contornos tão rueiros quanto camerísticos, oscilando entre The Who, The Killers e Clash em faixas como Guess, Still around e Choo choo.

Daí pra diante, há sons ganchudos lembrando Wings e Kinks em faixas como Hot air balloon e a festeira Seven degrees. Há também baladas em compasso ternário (a emocionadíssima Certainty). E sons crescentes, aventureiros e cheios de segmentos, em Dear bicycle e na faixa-título, que vai ganhando peso até se tornar uma massa bruta comprimida, como se estourasse os falantes. É com esse tipo de som que o Friko pretende eletrizar os futuros fãs. Agora imagina isso ao vivo, que beleza.

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Ouvimos: The Falls – “Would you do it all over again?” (EP)

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Resenha: The Falls – “Would you do it all over again?” (EP)

RESENHA: Em Would you do it all over again?, o The Falls, de Manchester, mistura pós-punk, grunge e britpop, com ecos de Smiths, Buzzcocks e R.E.M.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Revo Pro
Lançamento: 18 de setembro de 2026

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Imagina você ser de Manchester e decidir dar à sua banda o nome The Falls, sendo que existe um quase-xará mais velho e mais conhecido (The Fall, claro)? O The Falls não se importou muito com isso, mesmo fazendo um som bem mais acessível e bem menos experimental – pelo menos no sentido anticomercial do termo. Bandas como Smiths e Buzzcocks batem ponto no som deles, e em todas as faixas do EP Would you do it all over again? surge uma espécie de elegância oitentista, mesmo sob guitarras pesadas e baixos distorcidos.

Segundo EP do quarteto, Would you do it all over again? traz um pós-punk que não dispensa referências ao grunge e ao britpop. Open fire abre o disco com guitarras sujas, vocal tranquilo e uma letra sobre ansiedade e culpa. The other side põe o baixo na frente e soa como um encontro improvável entre R.E.M. e Pearl Jam.

Loaded gun tem algo de punk sessentista, Buzzcocks e britpop, com baixo distorcido e uma letra sobre relações tóxicas. A inspiração veio de uma cena do filme Os infiltrados, de Martin Scorsese, em que o chefão vivido por Jack Nicholson: certas escolhas já carregam suas consequências. City lights começa com violão, ganha guitarras psicodélicas e aproxima Smiths, The Church e The Who, falando de identidade e mudanças. Já Blink encerra tudo com punk de acabamento oitentista e um vocal herdado de Michael Stipe. Um disco de ótimas referências combinadas, e que parece ter sido deixado gravado há anos.

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Ouvimos: Niis – “Play Niis” (EP)

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Resenha: Niis - "Play Niis"

RESENHA: Em Play Niis, a banda punk de Los Angeles Niis mistura grunge, power pop e shoegaze, com ecos de Nirvana, Garbage e Placebo e letras sobre desilusões.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Rise
Lançamento: 23 de outubro de 2026

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Banda punk majoritariamente feminina de Los Angeles, o Niis pode ser definido como bubblegrunge (aquela mistura saudável de sons grudentos e de rock dos anos 1990, o que na real significa que Nevermind, disco do Nirvana de 1991, está sendo devidamente usado como modelo). O disco de estreia Niis world (2025, resenhado aqui) trazia uma banda herdeira tanto dos anos 1960 quanto de Dead Kennedys, com melodias bacanas e vocais berrados.

Play Niis, o EP novo, foca um pouco mais no “bubble” que no “grunge” – mas só em parte, porque bandas como Garbage e Placebo parecem terem servido de referência para as faixas do disco. Mimi Doe, a vocalista, grita menos que em Niis world, mas a promessa de um disco que trabalhe “no universo dos celulares flip, das lojas Hot Topic e de Buffy, a Caça-Vampiros” nem parece ter sido levada a ferro e fogo. Há um perfume shoegaze em faixas ruidosas e noventistas como Bad aim e a suingada e grungíssima Big fish baby. Earthquakes é movida por um riff de guitarra que atravessa praticamente toda a faixa, acompanhado por uma linha de baixo igualmente inquieta – tem cara de new wave porradeira.

O trio de encerramento poderia ter sido produzido por Butch Vig: a combinação de power pop e atitude de Take your mess, o barulho doce e sombrio de No flowers (lembrando um Babes in Toyland glam punk) o riff buzinado de Westside. Entre desilusões amorosas e pessoais, Mimi Doe passa boa parte do EP falando sobre estar meio perdida, mas ainda querer sentir alguma coisa. Nem que seja raiva.

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Ouvimos: DJ Urutau – “Ornitofagia”

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Em Ornitofagia, DJ Urutau mistura funk bruxaria, eletrônica e cantos de pássaros numa história de vingança das aves contra a destruição ambiental.

RESENHA: Em Ornitofagia, DJ Urutau mistura funk bruxaria, eletrônica e cantos de pássaros numa história de vingança das aves contra a destruição ambiental.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 28 de agosto de 2026

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Quem conhece o Antropoceno, projeto de metal-afoxé criado pela musicista Lua Viana, já sabe que ela gosta de misturar coisas que aparentemente não combinam – recentemente falamos do disco No ritmo da Terra. Sob o nome de DJ Urutau, ela troca as guitarras pesadas por batidões de funk, samples de pássaros e eletrônica distorcida. Ornitofagia, estreia do projeto, é um disco de funk bruxaria (estilo criado por ela) que dá vontade de dançar, mas que também conta uma história bastante peculiar.

O urutau, também chamado de mãe-da-lua, é uma ave noturna conhecida pelo canto fantasmagórico. Na história criada por Lua, as mudanças climáticas fazem o bicho perder a cabeça, devorar um bem-te-vi e absorver seus poderes. A partir daí, ele sai comendo outras aves, aprende tudo sobre elas e resolve se vingar dos humanos pela destruição ambiental. Tudo isso embalado por um funk que parece ter saído de um terreiro futurista.

MC Uirapuru abre o disco com o canto da ave transformado em vocal de funk, sobre uma batida que vai ficando mais pesada e distorcida. Conversión, cantada em espanhol, dá sequência à pancadaria eletrônica, enquanto Baile das calopsitas acelera tudo, usando os sons das aves como parte da percussão. Em Pólen, os pios se misturam a uma eletrônica mais psicodélica.

O disco segue nessa onda em Planeta aves e Olhos mágicos, esta última fazendo referência aos enormes olhos amarelos do urutau. Sabiá-feiticeira tem um funk quase ritualístico, com algo de música indígena, enquanto Garganta (Oferenda pra Tetê) usa um sample de Tetê Espíndola – escolha que faz bastante sentido num disco tão ligado aos sons dos pássaros.

Elixir encantador de urutau começa como uma explosão de ruídos eletrônicos, até encontrar uma batida mais definida. Já os quase sete minutos de Engoli um bem-te-vi (Na onda do El Niño) encerram tudo com declarações sobre o meio ambiente, distorções e guitarras que aproximam a DJ Urutau do Antropoceno.

Ornitofagia é um disco experimental com narrativa própria, peso e preocupação ambiental – e em vários momentos, ele mostra que a pista também protesta.

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