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Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre Pleased To Meet Me, dos Replacements

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Várias coisas que você já sabia sobre Pleased To Meet Me, dos Replacements

Pleased to meet me (1987) era o quinto disco dos Replacements, banda formada em Minneapolis (EUA) em 1979. Era também o segundo LP por uma gravadora grande, a Sire (que contrataria Lou Reed feliz da vida logo depois). Para o grupo, representou o primeiro movimento de uma fase bem problemática. Afundada nas drogas, a banda havia demitido o guitarrista e fundador Bob Stinson (ironicamente porque o músico perdia a linha no abuso de substâncias), tinha a obrigação de entregar à gravadora um disco que funcionasse no mercado e, mesmo contratada por uma major, brigava com a possibilidade de vender discos e estar nas paradas.

Paul Westerberg (voz, guitarra), Tommy Stinson (baixo, irmão de Bob e também co-fundador) e Chris Mars (bateria) estavam inspirados durante as gravações – em especial Westerberg, autor único de sete das onze canções do disco. A receita punk dos álbuns anteriores era substituída por canções grandiloquentes e existenciais (The ledge, sobre suicídio, com ar de U2 e Simple Minds), temas próximos do jazz e do rock estilo Roy Orbison (Can’t hardly wait, Nightclub jitters) e baladas simples de violão (Skyway), além de power pop festeiro e emotivo (o hit Alex Chilton e I don’t know) e de punk pop que influenciaria com folga o Green Day e o Nirvana (I.O.U.).

O resultado não levou a banda a vender milhões de cópias nem representou o sucesso que a Warner (que controlava a Sire) queria, mas rende fãs para a banda até hoje. E em especial, rende histórias: de brigas no estúdio, excesso de drogas, hesitações, momentos em que a banda sabotou a si própria, etc. E gera também lançamentos. Dia 9 de outubro chega às lojas uma versão box set de Pleased to meet me, com mais 29 músicas inéditas (incluindo demos, rough mixes e alguns outtakes). O disco original vem remasterizado e com lados-B.

E vai aí nosso humilde relatório sobre Pleased to meet me. Leia ouvindo o disco.

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DE QUATRO. Pleased to meet me foi o primeiro e único disco que os Replacements gravaram como trio. Mas ao saírem do estúdio, já eram um quarteto de novo: convidaram Bob “Slim” Dunlap para tocar guitarra nos shows de lançamento. Bob, quase dez anos mais velho que os outros integrantes (e mais influenciado pelos riffs de Keith Richards), durou na banda até o fim e gravou depois dois discos solo, ainda nos anos 1990.

ERA BRABO. Lidar com os Replacements não era das coisas mais tranquilas do mundo. A começar porque a banda tinha certa rejeição a fazer muito sucesso e a que mexessem no seu som. Até Tim (1986), primeiro disco pela Sire, testemunhas afirmam que a banda mal sabia para que servia um produtor, e recusava todos os nomões (de Scott Litt, produtor do R.E.M. a Sandy Pearlman, do Clash e do Blue Öyster Cult) que a gravadora oferecia. Isso quando não recebia os candidatos com frases encorajadoras como “você só produziu discos de merda”.

EXPERIENTE. No caso de Pleased to meet me, a banda encontrou mais segurança (e parou de aporrinhar o saco por conta disso) no trabalho de Jim Dickinson, que produziu vários artistas do soul e também cuidou das gravações de Third (1974), terceiro disco do Big Star, banda adorada pelos Replacements, e liderada pelo homenageado do álbum, Alex Chilton. O fato de ter produzido o grupo de power pop serviu como credenciais para o grupo. A experiência de Dickinson com a turma do soul liberou Westerberg e seus amigos para incluir metais e algumas cordas em momentos estratégicos do disco.

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GENTE MALUCA. Jim conquistou a banda pelo currículo e pelas histórias que contava, mas passou poucas e boas com a arrogância dos Replacements – de Paul em particular. Costumava evitar conflitos e saía do estúdio quando o bicho pegava. Filho de um alcoólatra, não demorou a perceber o que realmente estava acontecendo ali. “O problema é que não dá para fazer um disco punk sem punks. Acabei deixando eles fazerem o que queriam”, disse.

LOCAL CLÁSSICO. Pleased to meet me foi gravado no Ardent Studios, em Memphis – não por acaso, o mesmo estúdio do qual saíram os discos do Big Star. Jim começou a trabalhar lá em 1966 e adorava as salas e as máquinas, que eram da mais alta tecnologia por aqueles tempos, mas ainda dividiam espaço com gravadores Ampex de oito canais.

SAI FORA! Já Joe Hardy, técnico de som do estúdio, era responsável por três serviços importantes para a elaboração do LP: gravar, mixar e dar esporros trágicos no arrogante Paul Westerberg quando o músico dava uma de moleque mimado. Nesses momentos, Hardy lançava mão de frases edificantes como “quantas porras de discos você já gravou na vida? Já gravei uns mil discos, e você?”.

CHILTON. Criador do Big Star, Alex Chilton já conhecia os Replacements de outros carnavais. Em 1985, o grupo deu um malfadado show no campus da Universidade de Houston em que Westerberg estava bêbado demais para conseguir cantar. A banda foi vaiada e o vocalista chegou a distribuir notas de dinheiro para o público. Chilton era um dos convidados da apresentação. Um ano antes, Westerberg encontrou Chilton no camarim do CBGB’s e, sem saber o que falar para quebrar o gelo, soltou a frase: “Eu amo aquela sua canção, qual o nome mesmo?”.

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CHILTON 2. A frase veio na cabeça do compositor quando começou a pensar numa canção para homenagear Alex, e acabou incluída no refrão. Mars e Stinson pressionaram Paul para fechar a canção, e ganharam parceria. A ideia era que Chilton tocasse guitarra na faixa, mas ele acabou tocando em Can’t hardly wait.

ALIÁS E A PROPÓSITO, os Replacements nunca tocaram a canção para ele durante a gravação do disco, com medo de que o amigo interpretasse mal a letra. Chilton só ouviu a canção em sua homenagem quando Pleased to meet me já estava nas lojas e ele abriu shows do grupo.

E AÍ, CURTIU? Fica a pergunta: Alex Chilton gostou da música que leva seu nome? Bom, parece que sim. “Não consegui entender a letra, nem quando ouvi no show, nem quando ouvi o disco. Mas é uma boa canção, me senti um fora da lei quando li a letra, algo como John Wesley Harding”, contou.

BIG STAR NA (ER) MODA. O grupo de power pop dos anos 1970, que teve discos lançados e ignorados no comecinho da década, começava a ser bastante falado naquele período. As Bangles haviam gravado September gurls no disco Different light (1985), que vendeu bastante. Volta e meia algum artista famoso falava do grupo. Alex Chilton continuava gravando solo e fazendo turnês ocasionais. Em 1986, gravou o EP No sex, cuja faixa-título falava de maneira tragicômica sobre a paranoia da aids, com versos como “venha, baby, me foda e morra” e “nada de sexo, nunca mais” (você já leu sobre isso no POP FANTASMA).

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GAROTO DA CAPA. O conceito da capa de Pleased foi mostrar o encontro do lado classe-operária do grupo com uma certa faceta “bem sucedida”, de artistas contratados por uma major. O próprio Westerberg aparece na capa, com uma roupa social puída (à direita).

Várias coisas que você já sabia sobre Pleased To Meet Me, dos Replacements

NASCEU! Pleased saiu em 27 de abril de 1987 e chegou ao 131º posto da Billboard. Biógrafos dão conta de que vendeu 300 mil cópias. Saiu no Brasil em LP e K7. A banda encarou vários shows e uma série de entrevistas em rádio e TV para divulgá-lo.

Várias coisas que você já sabia sobre Pleased To Meet Me, dos Replacements

BEBAÇOS NA RÁDIO. Quem lidava com os Replacements já sabia: entrevistas ao vivo em rádio com a banda poderiam representar muito sucesso ou muito fracasso, não havia meio-termo. A banda foi divulgar Pleased no New American Rock, programa de grande audiência da rádio de Los Angeles KROQ FM, uma das forças-motrizes por trás do sucesso de bandas como Duran Duran e Depeche Mode na Costa Oeste americana. Tommy e Paul passaram o dia da maldita entrevista enchendo a cara com dois jornalistas da revista Creem, Bill Holdship e John Kordosh. Doidões, acabaram levando os dois amigos de copo para o estúdio, o que já não foi uma ideia das melhores.

BEBAÇOS NA RÁDIO E FAZENDO MERDA. A entrevista dos Replacements para a KROQ acabou virando um circo dos horrores, com Paul, Tommy e Chris trocando as pernas e agindo como descerebrados.  Passaram a maior parte do tempo sacaneando o forte sotaque escandinavo do apresentador, Egil Aalvik. Westerberg disse no ar que “fazia canções porque queria fazer Tommy e Chris ficarem mal… não, é porque eu sou gay” e respondeu com um “o prazer é todo seu” ao agradecimento do DJ pela visita. Os ouvintes aproveitavam o clima de pastelão para fazer do programa um A praça é nossa do demo, telefonando à emissora para falar frases como “eu quero xoxota” no ar.

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BOCA SUJA. O clima de bizarrice vazou para outra aparição da banda no rádio, na emissora WBRU, de Rhode Island. Fã da banda havia tempos, o apresentador Kurt Hirsch incomodou-se com o fato de Westerberg parecer estar ali só de corpo presente, sem fazer contato visual. O compositor sugeriu que os ouvintes que quisessem ganhar convites para um show da banda deveriam participar de um campeonato de sexo por telefone ao vivo. A entrevista do grupo acabou cortada no ar, por causa do excesso de palavrões.

QUANTO PALAVRÃO! Já num bate-papo com a WXRT, de Chicago, a birita rolou no estúdio. O apresentador Johnny Mars quis ser agradável e presenteou os rapazes com uma caixa de Heineken – não precisava, os Replacements já tinham levado seu arsenal de champanhe para a emissora. Westerberg bateu o olho na coleção de LPs de blues da emissora e, ao ouvir do DJ que poderia escolher uma música, não teve dúvidas: pediu Little village, clássico casca-grossa do bluesman Sonny Boy Williamson, cuja letra repete várias vezes a expressão “filho da puta”. Por sinal, a canção era tão banida da rádio que o LP tinha anotado na capa: “Proibida a execução”. Tanto tentou que conseguiu, mas a emissora não esqueceu a afronta (e epa, alguém gravou a entrevista do grupo e subiu no YouTube).

AUTOSSABOTAGEM. Uma reportagem do Village Voice na época de Pleased mostrava Paul sincerão, admitindo que o problema ali era que a banda tinha realizado o sonho de todos os grupos da época e estava numa gravadora grande. “A gravadora quer que sejamos big stars e não estamos confortáveis com isso. Não queremos dar tudo a eles. Quando faz isso, não sobra nada para você”, afirmou.

A NOVELA DO CLIPE. A MTV tinha lá suas expectativas em relação a Pleased to meet me, até porque o disco havia sido tocado para alguns executivos. A emissora achou que a imponente The ledge, terceiro single do LP, tinha jeitão de música de rádio, e sugeriu a produção de um clipe, que a banda fez de extrema má vontade. Recusaram-se a atuar ou dublar, e apareceram na tela, literalmente, fazendo nada: ficavam fumando, comendo, conversando ou olhando para o vazio com cara de leseira (Paul, em especial).

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A NOVELA DO CLIPE (2). O vídeo de The ledge foi enviado à MTV – que seguia uma política mais ou menos rigorosa de não deixar aparecer imagens ofensivas. Não havia imagens complexas no clipe, mas ao assisti-lo, a emissora ficou assustada com a possibilidade (não percebida até então) de colocar no ar uma canção sobre suicídio. O resultado foi que The ledge acabou sendo um dos raros clipes inteiramente vetados pela emissora, numa época em que os caciques da empresa tinham o maior trabalho com o conteúdo lascivo de clipes de bandas como Mötley Crue. Mas ele está no YouTube.

MAIS NOVELA DO CLIPE E MAIS ENCRENCA NO RÁDIO. O sinal fechado da MTV enterrou a disposição da Warner de seguir com a divulgação do single The ledge, porque as rádios souberam da proibição e não quiseram tocar a música. A gravadora substituiu a canção por Alex Chilton e não se falou mais do assunto. E para divulgar o novo single na emissora de TV? Muito simples: a banda aproveitou as mesmas imagens entediantes de The ledge para fazer o clipe de Alex Chilton. Nenhum dos clipes marcou época. E representaram mais desgaste no relacionamento com a Warner. Recentemente, a banda reaproveitou as imagens para um clipe novo do outro single do disco, Can’t hardly wait.

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ENFIM. O êxito de uma certa banda ensinou muito aos Replacements sobre como eles estavam agindo de maneira equivocada. O R.E.M. tinha conseguido bastante sucesso com o disco Document, de 1987, produzido por um cara que quase pegou Pleased to meet me para criar, mas foi rejeitado: Scott Litt, um ex-técnico do estúdio Power Station que tinha fama de levar nomes alternativos ao mainstream, e que definitivamente faria com que Michael Stipe e cia virassem uma das maiores bandas do mundo.

ENFIM 2. Comparando Replacements e R.E.M., olhando da figura A para a figura B, já se sabia quem iria realmente alcançar o sucesso. O R.E.M. era uma banda preparada para isso desde os tempos das rádios universitárias, e tinha um público enorme. E, enfim, o quarteto de The one I love, em especial, não tinha os péssimos hábitos dos Replacements, como o de sabotar as próprias entrevistas em rádio ou o de tratar por cima dos ombros pessoas-chave do mercado fonográfico.

DETALHES TÃO PEQUENOS. Litt, que pessoalmente gostava dos Replacements e encarava a banda como rivais do R.E.M. (“no sentido que os Rolling Stones eram rivais dos Beatles”, como falava), resumiu com uma observação lapidar a pouca disposição da banda de Minneapolis para estourar sucessos. “Se Alex Chilton se chamasse Buddy Holly, seria um hit do Weezer”, contou. “Uma coisa bem pequena, mas que pode representar a diferença entre vender 300 mil discos e vender um milhão”.

DEPRÊ. Pleased to meet you fez Westerberg sofrer bastante. O cantor e compositor dos Replacements encerrou a turnê do disco no fim de 1987, afundado em drogas e arrasado emocionalmente. Passou o ano de 1988 trancado em casa, sem ver ninguém, gravando demos – algumas das músicas novas seriam aproveitadas nos dois últimos discos da banda, Don’t tell a soul (1989) e All shook up (1990).

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QUASE SOLO. All shook up começou como disco solo de Westerberg, mas virou um álbum da banda a pedido do empresário. Neste último disco, finalmente, Paul aceitava Scott Litt como produtor, mas as coisas estavam já no final. Os Replacements durariam em turnê até 1991, e conseguiriam até mesmo tocar no Madison Square Garden, abrindo para Elvis Costello, então em ótima fase de público e crítica.

POR ONDE ANDARAM. Westerberg iniciou uma ótima carreira solo depois de All shook up, iniciando com o essencial 14 songs, de 1993. Bob Stinson, infelizmente, morreu em 1995 após vários anos de abusos com drogas e bebida. O irmão Tommy teve um destino bem maluco: após vagar por várias bandas de curta duração, virou baixista do Guns N Roses (!) de 1998 a 2016. Stinson é co-autor de várias faixas de Chinese democracy (2008), o sexto disco que o Guns demorou dez anos gravando, e toca baixo em quase todo o disco, além de ter feito os arranjos de Riad n’ the bedouins.

O RETORNO. Os Replacements nunca foram esquecidos por quem realmente interessa: os fãs. De 2012 a 2015 foram várias “voltas” do grupo, além de turnês relembrando sucessos e acrescentando uma ou outra coisa nova – nessa época, os Replacements eram formados por Paul, Tommy, Dave Minehan (guitarra) e Josh Freese (bateria). Em 2012, saiu Color me obsessed, documentário sobre a banda, dirigido por Gorman Bechard, que conta a história dos Replacements por intermédio de seus grandes fãs.

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NEM TANTO. Mesmo com o sucesso da turnê, Westerberg e Stinson, que inicialmente disseram que poderia sair até um disco novo e que faixas novas estavam sendo gravadas, preferiram deixar as coisas como estavam. O compositor dos Replacements até montou uma outra banda chamada The I Don’t Cares, ao lado de Julianna Hatfield, que lançou um disco em 2016, Wild stab.

Já que você chegou até aqui, pega aí o traler de Mal posso esperar, comédia típica da Sessão da tarde dirigida por Deborah Kaplan e Harry Elfont e lançada em 1998, com nomes como Ethan Embry e Jennifer Love Hewitt no elenco. O título do filme foi inspirado em Can’t hardly wait, sucesso dos Replacements. E a música aparecia no rolar de créditos no final.

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Pesquisamos em vários sites, como o Houston Press. E no livro Trouble boys: The true story of the Replacements, de Bob Mehr.

Veja também no POP FANTASMA:
– Demos o mesmo tratamento a Physical graffiti (Led Zeppelin), a Substance (New Order), ao primeiro disco do Black Sabbath, a End of the century (Ramones), ao rooftop concert, dos Beatles, e a London calling (Clash). E a Fun house (Stooges). E a New York (Lou Reed). E aos primeiros shows de David Bowie no Brasil. E a Electric ladyland (The Jimi Hendrix Experience).
– Demos uma mentidinha e oferecemos “coisas que você não sabe” ao falar de Rocket to Russia (Ramones) e Trompe le monde (Pixies).
– Mais Replacements no POP FANTASMA aqui.

Cultura Pop

Jimi Hendrix, Moebius, “Voodoo soup”, uma briga e um livro (?)

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Voodoo soup é um (vamos dizer assim) lançamento bem discutível da obra de Jimi Hendrix. Saiu em 1995, já na era do CD, e foi a segunda tentativa de montar o que seria o quarto disco do músico, que teria saido duplo e repleto de faixas novas se o guitarrista não fosse convocado para aquela grande gig no céu. Bruce Gary, baterista veterano que, entre idas e vindas na carreira, acabou indo parar na sensação punk-power pop The Knack, foi convocado para gravar overdubs (!) em duas músicas do disco, o que já bastou para (com razão) tirar o humor de vários hendrixmaníacos.

Após a obra de Hendrix passar para o controle total de sua família, o material todo do tal “quarto disco” (que ainda incluía o bom The cry of love, de 1971) foi compilado no disco First rays of the new rising sun (1997) e Voodoo soup foi esquecido. Mas o disco tinha lá um grande atrativo: pelo menos tinha a famosa ilustração do monstro francês dos quadrinhos Moebius, na capa. No desenho que ilustrava o álbum, o guitarrista aparecia tomando um espécie de sopa psicodélica (é a foto lá de cima). Se você queria saber de algum caso em que a capa se tornou bem mais importante que um disco, tá aí.

Moebius, pseudônimo do francês Jean Giraud (1938-2012), tinha se notabilizado por seus desenhos cheios de paisagens psicodélicas e espaciais, publicados em revistas como a Métal hurlant. E esse desenho que ele fez de Hendrix tem história. Foi feito por ele a partir de uma foto tirada pelo jornalista Jean-Nöel Coghe em 6 de março de 1967, de Hendrix tomando uma sopa num restaurante na França. O desenho de Moebius ainda era maior do que a capa de Voodoo soup faz supor, e foi publicado originalmente na capa de uma edição francesa dupla dos álbuns Are you experienced? e Electric ladyland, lançada em 1975 pela Barclay.

Coghe, ao que parece, se chateou muito – e com razão – por não ter recebido crédito como autor-da-foto-que-inspirou-o-desenho. Não apenas se chateou: ele processou Moebius, pediu um milhão de francos de indenização pelo plágio, mas acabou perdendo.

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Bom, em 1999, poucos anos depois de Voodoo soup, eles se conheceram pessoalmente (isso nunca havia acontecido, incrivelmente), enterraram suas diferenças e Moebius ilustrou um livro de Coghe em que o fotógrafo relatou justamente suas experiências como cicerone de Hendrix na França na época da foto. O livro se chama Emotions électriques e traz Hendrix habitando as mesmas paisagens futuristas e psicodélicas das histórias de Moebius (que sempre foi fã do guitarrista). Olha aí alguns dos desenhos.

Via Open Culture.

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Ronnie Spector: descubra agora!

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Ronnie Spector: descubra agora!

Após alguns anos de sucesso com as Ronettes, Ronnie Spector (que saiu de cena no dia 12 de janeiro) tentou por vários anos voltar ao mainstream. Primeiramente, não deu certo, por causa de um fator bastante complicado: ela era casada com o produtor Phil Spector, um sujeito que sempre deu outras dimensões a palavras como “maluco” e “mau-caráter”.

A partir de 1968, Ronnie tornou-se prisioneira do próprio marido. A cantora de hits como Be my baby ficava trancafiada numa casa com arame farpado e cães de guarda. Cada vez que tentava sair, era ameaçada de morte. Por mais que o próprio Phil se concentrasse em tentar reavivar a carreira dela, o dia a dia era de prisão domiciliar e maus tratos – interrompidos apenas quando Ronnie decidiu fugir de casa, no começo dos anos 1970, e pôs fim ao relacionamento.

Até essa fuga rolar acontecer, gravou com George Harrison, teve um lance platônico com John Lennon (“eu tinha um crush nele”, disse ao Telegraph) e fez algumas gravações. Depois disso, os retornos de Ronnie foram gradativos e incluíram um EP produzido pelo fã Joey Ramone, She talks to rainbows (1999) e um último álbum, English heart (2006), cheio de regravações clássicas.

O POP FANTASMA poderia fazer uma playlist, mas a gente é da antiga e preferiu escolher oito canções solo de Ronnie para você procurar, e escrevemos sobre elas. Pega aí.

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“TRY SOME, BUY SOME” (1971). A estreia solo de Ronnie surgiu das sobras de All things must pass, disco triplo de George Harrison, que havia sido produzido justamente pelo maridão desgraçado Phil. Se as Ronettes estavam acostumadas a narrar encontros e desencontros amorosos, dessa vez sobrou para Ronnie cantar na primeira pessoa as desventuras de uma pessoa que “tentava de tudo” e encontrava deus – o que deixou a cantora bem contrariada, já que ela admitiu ter ficado “perplexa” quando escutou a música. Try some saiu pela Apple, não fez muito sucesso e não rendeu o esperado primeiro álbum para Ronnie.

“YOU’D BE GOOD FOR ME” (1975). Ronnie, já separada de Phil, fez uma tentativa de reativar as Ronettes em 1973, gravando alguns singles de pouca repercussão pelo selo Buddah. Em 1975, foi contratada solo pela gravadora Tom Cat, responsável por lançamentos curiosos como a banda austríaca King Size e a carreira solo de Nancy Nevins, vocalista do Stillwater, a famigerada primeira banda a tocar no festival de Woodstock. O único single de Spector pela gravadora, segundo a própria cantora, “foi um segredo entre ela e o selo”.

“SAY GOODBYE TO HOLLYWOOD” (1977). Num contrato rápido com a Epic, Ronnie gravou duas faixas com a E Street Band, de Bruce Springsteen. Uma delas foi essa versão de Billy Joel. Apesar do single trazer a inscrição “tirada do LP Epic PE: 34683”, o disco inteiro nunca foi completado ou lançado.

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“ITS A HEARTACHE” (1978). Em 1977, Bonnie Tyler, a do Total eclipse of the heart, lançou seu primeiro single, It’s a heartache, composto por Ronnie Scott e Steve Wolfe. A canção demorou alguns meses para sair nos EUA e, quando saiu, a versão de Bonnie disputava espaço com mais duas, a de Juice Newton e a de Ronnie Spector – que saiu por um selinho de Miami chamado Alston Records.

“HERE TODAY GONE TOMORROW” (1980). Finalmente em 1980 saiu o esperadíssimo primeiro LP de Ronnie, Siren. A faixa de abertura era aquela dos Ramones, do disco Rocket to Russia, em versao punk-girl group. O disco é daqueles que você tem que ouvir em alto volume – mas infelizmente está fora das plataformas digitais.

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“LOVE ON A ROOFTOP” (1987). Após reaparecer como vocalista convidada num hit de Eddie Money, Ronnie foi convidada a voltar para a Epic e gravar um segundo disco, Unfinished business. O álbum tinha canções de Gregory Abbott, Don Dixon, David Palmer e o principal single, Love on a rooftop, era de dois top selles do pop: Diane Warren e Desmond Child. Mas não deu certo.

“YOU CAN’T PUT YOUR ARMS AROUND A MEMORY” (1999). O hino de Johnny Thunders  – um dos primeiros hits do ex-New York Dolls em carreira solo – surgiu numa bela versão de Ronnie no EP She talks to rainbows, produção de Joey Ramone e Daniel Rey. “Joey era o artista mais altruísta que eu conhecia. Era uma alma pura, tímido, inocente, apaixonado pela música, e nós dois acreditávamos que uma música nunca precisava se arrastar: dois minutos era o suficiente!”, disse Ronnie ao LA Weekly.

“BACK TO BLACK” (2011). Ronnie gravou a canção imortalizada por Amy Winehouse pouco após a morte da cantora – que se inspirou bastante nela. A gravação foi feita em benefício do centro de reabilitação Daytop Village, com sede em Nova York.

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Coletânea dupla relembra os “discos de ginástica” de Frank Hatchett

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Coletânea dupla relembra os "discos de ginástica" de Frank Hatchett

Diagnosticado com um tumor cerebral em 2008, o coreógrafo e professor de dança Frank Hatchett morreu em 23 de dezembro de 2013, aos 78 anos de idade. O cara que ajudou a revolucionar o ensino da dança (mais apropriadamente aquele estilo de dança conhecido como jazz, que era bastante famoso nos anos 1980) deu aulas em Nova York para alunas como Madonna, Naomi Campbell e Brooke Shields. E foi um dos fundadores do Broadway Dance Center, em 1984.

Até a fama (e a segurança financeira) baterem na porta de Hatchett, ele se apresentou em diversos clubes, e dividiu palcos com nomes como Sammy Davis Jr e Frank Sinatra. Anos depois, já conhecido, chegou a ser chamado de “o doutor do jazz” pelo programa Good morning America. Os ensinamentos de Hatchett não se limitavam à dança, vale dizer. Uma de suas alunas lembrou num obituário que o professor, no contato com os alunos, “lhe diria para ficar em pé, olhar as pessoas nos olhos e mostrar que você é digno. Ele fez isso por milhares de pessoas e foi muito amado”.

Aliás, Hatchett também tinha uma discografia, paralela à carreira de professor e coreógrafo. Foram vários LPs, lançados desde 1973, pelo selo Statler Records, especializado em discos de instrução para aulas de dança. Dá para acompanhar tudo pelo Discogs.

Hoje, os discos de Hatchett estão sumidos até mesmo do YouTube – dá para achar uma faixa ou outra. O mais louco é que Frank não era um cantor, ou mantinha uma carreira como músico ou algo do tipo. Em quase todos os discos “dele”, a voz de Hatchett nem sequer aparecia, o material era em sua maioria instrumental e muitas faixas eram covers. E quem ia para o estúdio era um time de músicos liderados por nomes como o diretor musical Don Tipton ou o arranjador Zane Mark.

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Quer ficar com um corpinho igual ao do Arnold Schwarzenegger?

Da ficha técnica de Dance explosion, o disco de 1975, constam nomes como Eric Thomas (baixo), Dennis Byrd (trumpete), Danny Krutzer (teclados) e o próprio Don tocando guitarra. Mas basicamente, ele era mais um cara que colocava a marca dele em discos de música feita para dançar do que qualquer outra coisa. Muita coisa que saía com o nome de Hatchett na capa era ligada ao jazz instrumental ou à música afro-cubana. O objetivo era que as pessoas usassem as músicas na hora do treino.

Isso aí é a versão de Getaway, do Earth, Wind & Fire, lançada num disco de Hatchett.

Wishing on a star, do Rose Royce, ganhou uma versão meio maluca num dos discos de Hatchett, encerrada com ruídos de teremin.

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E a novidade para fãs e para pessoas que acabaram de conhecer Hatchett é que saiu uma coletânea com algumas faixas dos álbuns dele. Sensational! foi lançada em novembro por um selo chamado Telephone Explosion e traz 22 músicas pinçadas direto dos vinis antigos (literalmente, dá pra ouvir o chiado) do coreógrafo. O repertório vai do soul-jazz a coisas do comecinho da onda da dance music, nos anos 1980. Alguns sons mais recentes são bem na batuta do freestyle (caso de Break out, com bateria eletrônica e teclados). E as canções em sua maioria eram bem curtas – o suficiente para serem usadas em treinos e exibições de dança.

Sensational! saiu em LP duplo (arrisque aqui) mas as músicas podem ser encontradas nas plataformas digitais (aliás, são dos poucos discos do coreógrafo que estão nelas). Uma boa oportunidade para recordar Hatchett e relembrar uma época bem louca e variada do mercado fonográfico.

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