Pleased to meet me (1987) era o quinto disco dos Replacements, banda formada em Minneapolis (EUA) em 1979. Era também o segundo LP por uma gravadora grande, a Sire (que contrataria Lou Reed feliz da vida logo depois). Para o grupo, representou o primeiro movimento de uma fase bem problemática. Afundada nas drogas, a banda havia demitido o guitarrista e fundador Bob Stinson (ironicamente porque o músico perdia a linha no abuso de substâncias), tinha a obrigação de entregar à gravadora um disco que funcionasse no mercado e, mesmo contratada por uma major, brigava com a possibilidade de vender discos e estar nas paradas.

Paul Westerberg (voz, guitarra), Tommy Stinson (baixo, irmão de Bob e também co-fundador) e Chris Mars (bateria) estavam inspirados durante as gravações – em especial Westerberg, autor único de sete das onze canções do disco. A receita punk dos álbuns anteriores era substituída por canções grandiloquentes e existenciais (The ledge, sobre suicídio, com ar de U2 e Simple Minds), temas próximos do jazz e do rock estilo Roy Orbison (Can’t hardly wait, Nightclub jitters) e baladas simples de violão (Skyway), além de power pop festeiro e emotivo (o hit Alex Chilton e I don’t know) e de punk pop que influenciaria com folga o Green Day e o Nirvana (I.O.U.).

O resultado não levou a banda a vender milhões de cópias nem representou o sucesso que a Warner (que controlava a Sire) queria, mas rende fãs para a banda até hoje. E em especial, rende histórias: de brigas no estúdio, excesso de drogas, hesitações, momentos em que a banda sabotou a si própria, etc. E gera também lançamentos. Dia 9 de outubro chega às lojas uma versão box set de Pleased to meet me, com mais 29 músicas inéditas (incluindo demos, rough mixes e alguns outtakes). O disco original vem remasterizado e com lados-B.

E vai aí nosso humilde relatório sobre Pleased to meet me. Leia ouvindo o disco.

DE QUATRO. Pleased to meet me foi o primeiro e único disco que os Replacements gravaram como trio. Mas ao saírem do estúdio, já eram um quarteto de novo: convidaram Bob “Slim” Dunlap para tocar guitarra nos shows de lançamento. Bob, quase dez anos mais velho que os outros integrantes (e mais influenciado pelos riffs de Keith Richards), durou na banda até o fim e gravou depois dois discos solo, ainda nos anos 1990.

ERA BRABO. Lidar com os Replacements não era das coisas mais tranquilas do mundo. A começar porque a banda tinha certa rejeição a fazer muito sucesso e a que mexessem no seu som. Até Tim (1986), primeiro disco pela Sire, testemunhas afirmam que a banda mal sabia para que servia um produtor, e recusava todos os nomões (de Scott Litt, produtor do R.E.M. a Sandy Pearlman, do Clash e do Blue Öyster Cult) que a gravadora oferecia. Isso quando não recebia os candidatos com frases encorajadoras como “você só produziu discos de merda”.

EXPERIENTE. No caso de Pleased to meet me, a banda encontrou mais segurança (e parou de aporrinhar o saco por conta disso) no trabalho de Jim Dickinson, que produziu vários artistas do soul e também cuidou das gravações de Third (1974), terceiro disco do Big Star, banda adorada pelos Replacements, e liderada pelo homenageado do álbum, Alex Chilton. O fato de ter produzido o grupo de power pop serviu como credenciais para o grupo. A experiência de Dickinson com a turma do soul liberou Westerberg e seus amigos para incluir metais e algumas cordas em momentos estratégicos do disco.

GENTE MALUCA. Jim conquistou a banda pelo currículo e pelas histórias que contava, mas passou poucas e boas com a arrogância dos Replacements – de Paul em particular. Costumava evitar conflitos e saía do estúdio quando o bicho pegava. Filho de um alcoólatra, não demorou a perceber o que realmente estava acontecendo ali. “O problema é que não dá para fazer um disco punk sem punks. Acabei deixando eles fazerem o que queriam”, disse.

LOCAL CLÁSSICO. Pleased to meet me foi gravado no Ardent Studios, em Memphis – não por acaso, o mesmo estúdio do qual saíram os discos do Big Star. Jim começou a trabalhar lá em 1966 e adorava as salas e as máquinas, que eram da mais alta tecnologia por aqueles tempos, mas ainda dividiam espaço com gravadores Ampex de oito canais.

SAI FORA! Já Joe Hardy, técnico de som do estúdio, era responsável por três serviços importantes para a elaboração do LP: gravar, mixar e dar esporros trágicos no arrogante Paul Westerberg quando o músico dava uma de moleque mimado. Nesses momentos, Hardy lançava mão de frases edificantes como “quantas porras de discos você já gravou na vida? Já gravei uns mil discos, e você?”.

CHILTON. Criador do Big Star, Alex Chilton já conhecia os Replacements de outros carnavais. Em 1985, o grupo deu um malfadado show no campus da Universidade de Houston em que Westerberg estava bêbado demais para conseguir cantar. A banda foi vaiada e o vocalista chegou a distribuir notas de dinheiro para o público. Chilton era um dos convidados da apresentação. Um ano antes, Westerberg encontrou Chilton no camarim do CBGB’s e, sem saber o que falar para quebrar o gelo, soltou a frase: “Eu amo aquela sua canção, qual o nome mesmo?”.

CHILTON 2. A frase veio na cabeça do compositor quando começou a pensar numa canção para homenagear Alex, e acabou incluída no refrão. Mars e Stinson pressionaram Paul para fechar a canção, e ganharam parceria. A ideia era que Chilton tocasse guitarra na faixa, mas ele acabou tocando em Can’t hardly wait.

ALIÁS E A PROPÓSITO, os Replacements nunca tocaram a canção para ele durante a gravação do disco, com medo de que o amigo interpretasse mal a letra. Chilton só ouviu a canção em sua homenagem quando Pleased to meet me já estava nas lojas e ele abriu shows do grupo.

E AÍ, CURTIU? Fica a pergunta: Alex Chilton gostou da música que leva seu nome? Bom, parece que sim. “Não consegui entender a letra, nem quando ouvi no show, nem quando ouvi o disco. Mas é uma boa canção, me senti um fora da lei quando li a letra, algo como John Wesley Harding”, contou.

BIG STAR NA (ER) MODA. O grupo de power pop dos anos 1970, que teve discos lançados e ignorados no comecinho da década, começava a ser bastante falado naquele período. As Bangles haviam gravado September gurls no disco Different light (1985), que vendeu bastante. Volta e meia algum artista famoso falava do grupo. Alex Chilton continuava gravando solo e fazendo turnês ocasionais. Em 1986, gravou o EP No sex, cuja faixa-título falava de maneira tragicômica sobre a paranoia da aids, com versos como “venha, baby, me foda e morra” e “nada de sexo, nunca mais” (você já leu sobre isso no POP FANTASMA).

GAROTO DA CAPA. O conceito da capa de Pleased foi mostrar o encontro do lado classe-operária do grupo com uma certa faceta “bem sucedida”, de artistas contratados por uma major. O próprio Westerberg aparece na capa, com uma roupa social puída (à direita).

Várias coisas que você já sabia sobre Pleased To Meet Me, dos Replacements

NASCEU! Pleased saiu em 27 de abril de 1987 e chegou ao 131º posto da Billboard. Biógrafos dão conta de que vendeu 300 mil cópias. Saiu no Brasil em LP e K7. A banda encarou vários shows e uma série de entrevistas em rádio e TV para divulgá-lo.

Várias coisas que você já sabia sobre Pleased To Meet Me, dos Replacements

BEBAÇOS NA RÁDIO. Quem lidava com os Replacements já sabia: entrevistas ao vivo em rádio com a banda poderiam representar muito sucesso ou muito fracasso, não havia meio-termo. A banda foi divulgar Pleased no New American Rock, programa de grande audiência da rádio de Los Angeles KROQ FM, uma das forças-motrizes por trás do sucesso de bandas como Duran Duran e Depeche Mode na Costa Oeste americana. Tommy e Paul passaram o dia da maldita entrevista enchendo a cara com dois jornalistas da revista Creem, Bill Holdship e John Kordosh. Doidões, acabaram levando os dois amigos de copo para o estúdio, o que já não foi uma ideia das melhores.

BEBAÇOS NA RÁDIO E FAZENDO MERDA. A entrevista dos Replacements para a KROQ acabou virando um circo dos horrores, com Paul, Tommy e Chris trocando as pernas e agindo como descerebrados.  Passaram a maior parte do tempo sacaneando o forte sotaque escandinavo do apresentador, Egil Aalvik. Westerberg disse no ar que “fazia canções porque queria fazer Tommy e Chris ficarem mal… não, é porque eu sou gay” e respondeu com um “o prazer é todo seu” ao agradecimento do DJ pela visita. Os ouvintes aproveitavam o clima de pastelão para fazer do programa um A praça é nossa do demo, telefonando à emissora para falar frases como “eu quero xoxota” no ar.

BOCA SUJA. O clima de bizarrice vazou para outra aparição da banda no rádio, na emissora WBRU, de Rhode Island. Fã da banda havia tempos, o apresentador Kurt Hirsch incomodou-se com o fato de Westerberg parecer estar ali só de corpo presente, sem fazer contato visual. O compositor sugeriu que os ouvintes que quisessem ganhar convites para um show da banda deveriam participar de um campeonato de sexo por telefone ao vivo. A entrevista do grupo acabou cortada no ar, por causa do excesso de palavrões.

QUANTO PALAVRÃO! Já num bate-papo com a WXRT, de Chicago, a birita rolou no estúdio. O apresentador Johnny Mars quis ser agradável e presenteou os rapazes com uma caixa de Heineken – não precisava, os Replacements já tinham levado seu arsenal de champanhe para a emissora. Westerberg bateu o olho na coleção de LPs de blues da emissora e, ao ouvir do DJ que poderia escolher uma música, não teve dúvidas: pediu Little village, clássico casca-grossa do bluesman Sonny Boy Williamson, cuja letra repete várias vezes a expressão “filho da puta”. Por sinal, a canção era tão banida da rádio que o LP tinha anotado na capa: “Proibida a execução”. Tanto tentou que conseguiu, mas a emissora não esqueceu a afronta (e epa, alguém gravou a entrevista do grupo e subiu no YouTube).

AUTOSSABOTAGEM. Uma reportagem do Village Voice na época de Pleased mostrava Paul sincerão, admitindo que o problema ali era que a banda tinha realizado o sonho de todos os grupos da época e estava numa gravadora grande. “A gravadora quer que sejamos big stars e não estamos confortáveis com isso. Não queremos dar tudo a eles. Quando faz isso, não sobra nada para você”, afirmou.

A NOVELA DO CLIPE. A MTV tinha lá suas expectativas em relação a Pleased to meet me, até porque o disco havia sido tocado para alguns executivos. A emissora achou que a imponente The ledge, terceiro single do LP, tinha jeitão de música de rádio, e sugeriu a produção de um clipe, que a banda fez de extrema má vontade. Recusaram-se a atuar ou dublar, e apareceram na tela, literalmente, fazendo nada: ficavam fumando, comendo, conversando ou olhando para o vazio com cara de leseira (Paul, em especial).

A NOVELA DO CLIPE (2). O vídeo de The ledge foi enviado à MTV – que seguia uma política mais ou menos rigorosa de não deixar aparecer imagens ofensivas. Não havia imagens complexas no clipe, mas ao assisti-lo, a emissora ficou assustada com a possibilidade (não percebida até então) de colocar no ar uma canção sobre suicídio. O resultado foi que The ledge acabou sendo um dos raros clipes inteiramente vetados pela emissora, numa época em que os caciques da empresa tinham o maior trabalho com o conteúdo lascivo de clipes de bandas como Mötley Crue. Mas ele está no YouTube.

MAIS NOVELA DO CLIPE E MAIS ENCRENCA NO RÁDIO. O sinal fechado da MTV enterrou a disposição da Warner de seguir com a divulgação do single The ledge, porque as rádios souberam da proibição e não quiseram tocar a música. A gravadora substituiu a canção por Alex Chilton e não se falou mais do assunto. E para divulgar o novo single na emissora de TV? Muito simples: a banda aproveitou as mesmas imagens entediantes de The ledge para fazer o clipe de Alex Chilton. Nenhum dos clipes marcou época. E representaram mais desgaste no relacionamento com a Warner. Recentemente, a banda reaproveitou as imagens para um clipe novo do outro single do disco, Can’t hardly wait.

ENFIM. O êxito de uma certa banda ensinou muito aos Replacements sobre como eles estavam agindo de maneira equivocada. O R.E.M. tinha conseguido bastante sucesso com o disco Document, de 1987, produzido por um cara que quase pegou Pleased to meet me para criar, mas foi rejeitado: Scott Litt, um ex-técnico do estúdio Power Station que tinha fama de levar nomes alternativos ao mainstream, e que definitivamente faria com que Michael Stipe e cia virassem uma das maiores bandas do mundo.

ENFIM 2. Comparando Replacements e R.E.M., olhando da figura A para a figura B, já se sabia quem iria realmente alcançar o sucesso. O R.E.M. era uma banda preparada para isso desde os tempos das rádios universitárias, e tinha um público enorme. E, enfim, o quarteto de The one I love, em especial, não tinha os péssimos hábitos dos Replacements, como o de sabotar as próprias entrevistas em rádio ou o de tratar por cima dos ombros pessoas-chave do mercado fonográfico.

DETALHES TÃO PEQUENOS. Litt, que pessoalmente gostava dos Replacements e encarava a banda como rivais do R.E.M. (“no sentido que os Rolling Stones eram rivais dos Beatles”, como falava), resumiu com uma observação lapidar a pouca disposição da banda de Minneapolis para estourar sucessos. “Se Alex Chilton se chamasse Buddy Holly, seria um hit do Weezer”, contou. “Uma coisa bem pequena, mas que pode representar a diferença entre vender 300 mil discos e vender um milhão”.

DEPRÊ. Pleased to meet you fez Westerberg sofrer bastante. O cantor e compositor dos Replacements encerrou a turnê do disco no fim de 1987, afundado em drogas e arrasado emocionalmente. Passou o ano de 1988 trancado em casa, sem ver ninguém, gravando demos – algumas das músicas novas seriam aproveitadas nos dois últimos discos da banda, Don’t tell a soul (1989) e All shook up (1990).

QUASE SOLO. All shook up começou como disco solo de Westerberg, mas virou um álbum da banda a pedido do empresário. Neste último disco, finalmente, Paul aceitava Scott Litt como produtor, mas as coisas estavam já no final. Os Replacements durariam em turnê até 1991, e conseguiriam até mesmo tocar no Madison Square Garden, abrindo para Elvis Costello, então em ótima fase de público e crítica.

POR ONDE ANDARAM. Westerberg iniciou uma ótima carreira solo depois de All shook up, iniciando com o essencial 14 songs, de 1993. Bob Stinson, infelizmente, morreu em 1995 após vários anos de abusos com drogas e bebida. O irmão Tommy teve um destino bem maluco: após vagar por várias bandas de curta duração, virou baixista do Guns N Roses (!) de 1998 a 2016. Stinson é co-autor de várias faixas de Chinese democracy (2008), o sexto disco que o Guns demorou dez anos gravando, e toca baixo em quase todo o disco, além de ter feito os arranjos de Riad n’ the bedouins.

O RETORNO. Os Replacements nunca foram esquecidos por quem realmente interessa: os fãs. De 2012 a 2015 foram várias “voltas” do grupo, além de turnês relembrando sucessos e acrescentando uma ou outra coisa nova – nessa época, os Replacements eram formados por Paul, Tommy, Dave Minehan (guitarra) e Josh Freese (bateria). Em 2012, saiu Color me obsessed, documentário sobre a banda, dirigido por Gorman Bechard, que conta a história dos Replacements por intermédio de seus grandes fãs.

NEM TANTO. Mesmo com o sucesso da turnê, Westerberg e Stinson, que inicialmente disseram que poderia sair até um disco novo e que faixas novas estavam sendo gravadas, preferiram deixar as coisas como estavam. O compositor dos Replacements até montou uma outra banda chamada The I Don’t Cares, ao lado de Julianna Hatfield, que lançou um disco em 2016, Wild stab.

Já que você chegou até aqui, pega aí o traler de Mal posso esperar, comédia típica da Sessão da tarde dirigida por Deborah Kaplan e Harry Elfont e lançada em 1998, com nomes como Ethan Embry e Jennifer Love Hewitt no elenco. O título do filme foi inspirado em Can’t hardly wait, sucesso dos Replacements. E a música aparecia no rolar de créditos no final.

Pesquisamos em vários sites, como o Houston Press. E no livro Trouble boys: The true story of the Replacements, de Bob Mehr.

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– Demos uma mentidinha e oferecemos “coisas que você não sabe” ao falar de Rocket to Russia (Ramones) e Trompe le monde (Pixies).
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