Cultura Pop
Várias coisas que você já sabia sobre Pleased To Meet Me, dos Replacements

Pleased to meet me (1987) era o quinto disco dos Replacements, banda formada em Minneapolis (EUA) em 1979. Era também o segundo LP por uma gravadora grande, a Sire (que contrataria Lou Reed feliz da vida logo depois). Para o grupo, representou o primeiro movimento de uma fase bem problemática. Afundada nas drogas, a banda havia demitido o guitarrista e fundador Bob Stinson (ironicamente porque o músico perdia a linha no abuso de substâncias), tinha a obrigação de entregar à gravadora um disco que funcionasse no mercado e, mesmo contratada por uma major, brigava com a possibilidade de vender discos e estar nas paradas.
Paul Westerberg (voz, guitarra), Tommy Stinson (baixo, irmão de Bob e também co-fundador) e Chris Mars (bateria) estavam inspirados durante as gravações – em especial Westerberg, autor único de sete das onze canções do disco. A receita punk dos álbuns anteriores era substituída por canções grandiloquentes e existenciais (The ledge, sobre suicídio, com ar de U2 e Simple Minds), temas próximos do jazz e do rock estilo Roy Orbison (Can’t hardly wait, Nightclub jitters) e baladas simples de violão (Skyway), além de power pop festeiro e emotivo (o hit Alex Chilton e I don’t know) e de punk pop que influenciaria com folga o Green Day e o Nirvana (I.O.U.).
O resultado não levou a banda a vender milhões de cópias nem representou o sucesso que a Warner (que controlava a Sire) queria, mas rende fãs para a banda até hoje. E em especial, rende histórias: de brigas no estúdio, excesso de drogas, hesitações, momentos em que a banda sabotou a si própria, etc. E gera também lançamentos. Dia 9 de outubro chega às lojas uma versão box set de Pleased to meet me, com mais 29 músicas inéditas (incluindo demos, rough mixes e alguns outtakes). O disco original vem remasterizado e com lados-B.
E vai aí nosso humilde relatório sobre Pleased to meet me. Leia ouvindo o disco.
DE QUATRO. Pleased to meet me foi o primeiro e único disco que os Replacements gravaram como trio. Mas ao saírem do estúdio, já eram um quarteto de novo: convidaram Bob “Slim” Dunlap para tocar guitarra nos shows de lançamento. Bob, quase dez anos mais velho que os outros integrantes (e mais influenciado pelos riffs de Keith Richards), durou na banda até o fim e gravou depois dois discos solo, ainda nos anos 1990.
ERA BRABO. Lidar com os Replacements não era das coisas mais tranquilas do mundo. A começar porque a banda tinha certa rejeição a fazer muito sucesso e a que mexessem no seu som. Até Tim (1986), primeiro disco pela Sire, testemunhas afirmam que a banda mal sabia para que servia um produtor, e recusava todos os nomões (de Scott Litt, produtor do R.E.M. a Sandy Pearlman, do Clash e do Blue Öyster Cult) que a gravadora oferecia. Isso quando não recebia os candidatos com frases encorajadoras como “você só produziu discos de merda”.
EXPERIENTE. No caso de Pleased to meet me, a banda encontrou mais segurança (e parou de aporrinhar o saco por conta disso) no trabalho de Jim Dickinson, que produziu vários artistas do soul e também cuidou das gravações de Third (1974), terceiro disco do Big Star, banda adorada pelos Replacements, e liderada pelo homenageado do álbum, Alex Chilton. O fato de ter produzido o grupo de power pop serviu como credenciais para o grupo. A experiência de Dickinson com a turma do soul liberou Westerberg e seus amigos para incluir metais e algumas cordas em momentos estratégicos do disco.
GENTE MALUCA. Jim conquistou a banda pelo currículo e pelas histórias que contava, mas passou poucas e boas com a arrogância dos Replacements – de Paul em particular. Costumava evitar conflitos e saía do estúdio quando o bicho pegava. Filho de um alcoólatra, não demorou a perceber o que realmente estava acontecendo ali. “O problema é que não dá para fazer um disco punk sem punks. Acabei deixando eles fazerem o que queriam”, disse.
LOCAL CLÁSSICO. Pleased to meet me foi gravado no Ardent Studios, em Memphis – não por acaso, o mesmo estúdio do qual saíram os discos do Big Star. Jim começou a trabalhar lá em 1966 e adorava as salas e as máquinas, que eram da mais alta tecnologia por aqueles tempos, mas ainda dividiam espaço com gravadores Ampex de oito canais.
SAI FORA! Já Joe Hardy, técnico de som do estúdio, era responsável por três serviços importantes para a elaboração do LP: gravar, mixar e dar esporros trágicos no arrogante Paul Westerberg quando o músico dava uma de moleque mimado. Nesses momentos, Hardy lançava mão de frases edificantes como “quantas porras de discos você já gravou na vida? Já gravei uns mil discos, e você?”.
CHILTON. Criador do Big Star, Alex Chilton já conhecia os Replacements de outros carnavais. Em 1985, o grupo deu um malfadado show no campus da Universidade de Houston em que Westerberg estava bêbado demais para conseguir cantar. A banda foi vaiada e o vocalista chegou a distribuir notas de dinheiro para o público. Chilton era um dos convidados da apresentação. Um ano antes, Westerberg encontrou Chilton no camarim do CBGB’s e, sem saber o que falar para quebrar o gelo, soltou a frase: “Eu amo aquela sua canção, qual o nome mesmo?”.
CHILTON 2. A frase veio na cabeça do compositor quando começou a pensar numa canção para homenagear Alex, e acabou incluída no refrão. Mars e Stinson pressionaram Paul para fechar a canção, e ganharam parceria. A ideia era que Chilton tocasse guitarra na faixa, mas ele acabou tocando em Can’t hardly wait.
ALIÁS E A PROPÓSITO, os Replacements nunca tocaram a canção para ele durante a gravação do disco, com medo de que o amigo interpretasse mal a letra. Chilton só ouviu a canção em sua homenagem quando Pleased to meet me já estava nas lojas e ele abriu shows do grupo.
E AÍ, CURTIU? Fica a pergunta: Alex Chilton gostou da música que leva seu nome? Bom, parece que sim. “Não consegui entender a letra, nem quando ouvi no show, nem quando ouvi o disco. Mas é uma boa canção, me senti um fora da lei quando li a letra, algo como John Wesley Harding”, contou.
BIG STAR NA (ER) MODA. O grupo de power pop dos anos 1970, que teve discos lançados e ignorados no comecinho da década, começava a ser bastante falado naquele período. As Bangles haviam gravado September gurls no disco Different light (1985), que vendeu bastante. Volta e meia algum artista famoso falava do grupo. Alex Chilton continuava gravando solo e fazendo turnês ocasionais. Em 1986, gravou o EP No sex, cuja faixa-título falava de maneira tragicômica sobre a paranoia da aids, com versos como “venha, baby, me foda e morra” e “nada de sexo, nunca mais” (você já leu sobre isso no POP FANTASMA).
GAROTO DA CAPA. O conceito da capa de Pleased foi mostrar o encontro do lado classe-operária do grupo com uma certa faceta “bem sucedida”, de artistas contratados por uma major. O próprio Westerberg aparece na capa, com uma roupa social puída (à direita).

NASCEU! Pleased saiu em 27 de abril de 1987 e chegou ao 131º posto da Billboard. Biógrafos dão conta de que vendeu 300 mil cópias. Saiu no Brasil em LP e K7. A banda encarou vários shows e uma série de entrevistas em rádio e TV para divulgá-lo.

BEBAÇOS NA RÁDIO. Quem lidava com os Replacements já sabia: entrevistas ao vivo em rádio com a banda poderiam representar muito sucesso ou muito fracasso, não havia meio-termo. A banda foi divulgar Pleased no New American Rock, programa de grande audiência da rádio de Los Angeles KROQ FM, uma das forças-motrizes por trás do sucesso de bandas como Duran Duran e Depeche Mode na Costa Oeste americana. Tommy e Paul passaram o dia da maldita entrevista enchendo a cara com dois jornalistas da revista Creem, Bill Holdship e John Kordosh. Doidões, acabaram levando os dois amigos de copo para o estúdio, o que já não foi uma ideia das melhores.
BEBAÇOS NA RÁDIO E FAZENDO MERDA. A entrevista dos Replacements para a KROQ acabou virando um circo dos horrores, com Paul, Tommy e Chris trocando as pernas e agindo como descerebrados. Passaram a maior parte do tempo sacaneando o forte sotaque escandinavo do apresentador, Egil Aalvik. Westerberg disse no ar que “fazia canções porque queria fazer Tommy e Chris ficarem mal… não, é porque eu sou gay” e respondeu com um “o prazer é todo seu” ao agradecimento do DJ pela visita. Os ouvintes aproveitavam o clima de pastelão para fazer do programa um A praça é nossa do demo, telefonando à emissora para falar frases como “eu quero xoxota” no ar.
BOCA SUJA. O clima de bizarrice vazou para outra aparição da banda no rádio, na emissora WBRU, de Rhode Island. Fã da banda havia tempos, o apresentador Kurt Hirsch incomodou-se com o fato de Westerberg parecer estar ali só de corpo presente, sem fazer contato visual. O compositor sugeriu que os ouvintes que quisessem ganhar convites para um show da banda deveriam participar de um campeonato de sexo por telefone ao vivo. A entrevista do grupo acabou cortada no ar, por causa do excesso de palavrões.
QUANTO PALAVRÃO! Já num bate-papo com a WXRT, de Chicago, a birita rolou no estúdio. O apresentador Johnny Mars quis ser agradável e presenteou os rapazes com uma caixa de Heineken – não precisava, os Replacements já tinham levado seu arsenal de champanhe para a emissora. Westerberg bateu o olho na coleção de LPs de blues da emissora e, ao ouvir do DJ que poderia escolher uma música, não teve dúvidas: pediu Little village, clássico casca-grossa do bluesman Sonny Boy Williamson, cuja letra repete várias vezes a expressão “filho da puta”. Por sinal, a canção era tão banida da rádio que o LP tinha anotado na capa: “Proibida a execução”. Tanto tentou que conseguiu, mas a emissora não esqueceu a afronta (e epa, alguém gravou a entrevista do grupo e subiu no YouTube).
AUTOSSABOTAGEM. Uma reportagem do Village Voice na época de Pleased mostrava Paul sincerão, admitindo que o problema ali era que a banda tinha realizado o sonho de todos os grupos da época e estava numa gravadora grande. “A gravadora quer que sejamos big stars e não estamos confortáveis com isso. Não queremos dar tudo a eles. Quando faz isso, não sobra nada para você”, afirmou.
A NOVELA DO CLIPE. A MTV tinha lá suas expectativas em relação a Pleased to meet me, até porque o disco havia sido tocado para alguns executivos. A emissora achou que a imponente The ledge, terceiro single do LP, tinha jeitão de música de rádio, e sugeriu a produção de um clipe, que a banda fez de extrema má vontade. Recusaram-se a atuar ou dublar, e apareceram na tela, literalmente, fazendo nada: ficavam fumando, comendo, conversando ou olhando para o vazio com cara de leseira (Paul, em especial).
A NOVELA DO CLIPE (2). O vídeo de The ledge foi enviado à MTV – que seguia uma política mais ou menos rigorosa de não deixar aparecer imagens ofensivas. Não havia imagens complexas no clipe, mas ao assisti-lo, a emissora ficou assustada com a possibilidade (não percebida até então) de colocar no ar uma canção sobre suicídio. O resultado foi que The ledge acabou sendo um dos raros clipes inteiramente vetados pela emissora, numa época em que os caciques da empresa tinham o maior trabalho com o conteúdo lascivo de clipes de bandas como Mötley Crue. Mas ele está no YouTube.
MAIS NOVELA DO CLIPE E MAIS ENCRENCA NO RÁDIO. O sinal fechado da MTV enterrou a disposição da Warner de seguir com a divulgação do single The ledge, porque as rádios souberam da proibição e não quiseram tocar a música. A gravadora substituiu a canção por Alex Chilton e não se falou mais do assunto. E para divulgar o novo single na emissora de TV? Muito simples: a banda aproveitou as mesmas imagens entediantes de The ledge para fazer o clipe de Alex Chilton. Nenhum dos clipes marcou época. E representaram mais desgaste no relacionamento com a Warner. Recentemente, a banda reaproveitou as imagens para um clipe novo do outro single do disco, Can’t hardly wait.
ENFIM. O êxito de uma certa banda ensinou muito aos Replacements sobre como eles estavam agindo de maneira equivocada. O R.E.M. tinha conseguido bastante sucesso com o disco Document, de 1987, produzido por um cara que quase pegou Pleased to meet me para criar, mas foi rejeitado: Scott Litt, um ex-técnico do estúdio Power Station que tinha fama de levar nomes alternativos ao mainstream, e que definitivamente faria com que Michael Stipe e cia virassem uma das maiores bandas do mundo.
ENFIM 2. Comparando Replacements e R.E.M., olhando da figura A para a figura B, já se sabia quem iria realmente alcançar o sucesso. O R.E.M. era uma banda preparada para isso desde os tempos das rádios universitárias, e tinha um público enorme. E, enfim, o quarteto de The one I love, em especial, não tinha os péssimos hábitos dos Replacements, como o de sabotar as próprias entrevistas em rádio ou o de tratar por cima dos ombros pessoas-chave do mercado fonográfico.
DETALHES TÃO PEQUENOS. Litt, que pessoalmente gostava dos Replacements e encarava a banda como rivais do R.E.M. (“no sentido que os Rolling Stones eram rivais dos Beatles”, como falava), resumiu com uma observação lapidar a pouca disposição da banda de Minneapolis para estourar sucessos. “Se Alex Chilton se chamasse Buddy Holly, seria um hit do Weezer”, contou. “Uma coisa bem pequena, mas que pode representar a diferença entre vender 300 mil discos e vender um milhão”.
DEPRÊ. Pleased to meet you fez Westerberg sofrer bastante. O cantor e compositor dos Replacements encerrou a turnê do disco no fim de 1987, afundado em drogas e arrasado emocionalmente. Passou o ano de 1988 trancado em casa, sem ver ninguém, gravando demos – algumas das músicas novas seriam aproveitadas nos dois últimos discos da banda, Don’t tell a soul (1989) e All shook up (1990).
QUASE SOLO. All shook up começou como disco solo de Westerberg, mas virou um álbum da banda a pedido do empresário. Neste último disco, finalmente, Paul aceitava Scott Litt como produtor, mas as coisas estavam já no final. Os Replacements durariam em turnê até 1991, e conseguiriam até mesmo tocar no Madison Square Garden, abrindo para Elvis Costello, então em ótima fase de público e crítica.
POR ONDE ANDARAM. Westerberg iniciou uma ótima carreira solo depois de All shook up, iniciando com o essencial 14 songs, de 1993. Bob Stinson, infelizmente, morreu em 1995 após vários anos de abusos com drogas e bebida. O irmão Tommy teve um destino bem maluco: após vagar por várias bandas de curta duração, virou baixista do Guns N Roses (!) de 1998 a 2016. Stinson é co-autor de várias faixas de Chinese democracy (2008), o sexto disco que o Guns demorou dez anos gravando, e toca baixo em quase todo o disco, além de ter feito os arranjos de Riad n’ the bedouins.
O RETORNO. Os Replacements nunca foram esquecidos por quem realmente interessa: os fãs. De 2012 a 2015 foram várias “voltas” do grupo, além de turnês relembrando sucessos e acrescentando uma ou outra coisa nova – nessa época, os Replacements eram formados por Paul, Tommy, Dave Minehan (guitarra) e Josh Freese (bateria). Em 2012, saiu Color me obsessed, documentário sobre a banda, dirigido por Gorman Bechard, que conta a história dos Replacements por intermédio de seus grandes fãs.
NEM TANTO. Mesmo com o sucesso da turnê, Westerberg e Stinson, que inicialmente disseram que poderia sair até um disco novo e que faixas novas estavam sendo gravadas, preferiram deixar as coisas como estavam. O compositor dos Replacements até montou uma outra banda chamada The I Don’t Cares, ao lado de Julianna Hatfield, que lançou um disco em 2016, Wild stab.
Já que você chegou até aqui, pega aí o traler de Mal posso esperar, comédia típica da Sessão da tarde dirigida por Deborah Kaplan e Harry Elfont e lançada em 1998, com nomes como Ethan Embry e Jennifer Love Hewitt no elenco. O título do filme foi inspirado em Can’t hardly wait, sucesso dos Replacements. E a música aparecia no rolar de créditos no final.
Pesquisamos em vários sites, como o Houston Press. E no livro Trouble boys: The true story of the Replacements, de Bob Mehr.
Veja também no POP FANTASMA:
– Demos o mesmo tratamento a Physical graffiti (Led Zeppelin), a Substance (New Order), ao primeiro disco do Black Sabbath, a End of the century (Ramones), ao rooftop concert, dos Beatles, e a London calling (Clash). E a Fun house (Stooges). E a New York (Lou Reed). E aos primeiros shows de David Bowie no Brasil. E a Electric ladyland (The Jimi Hendrix Experience).
– Demos uma mentidinha e oferecemos “coisas que você não sabe” ao falar de Rocket to Russia (Ramones) e Trompe le monde (Pixies).
– Mais Replacements no POP FANTASMA aqui.
Cultura Pop
Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.
Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.
Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.
O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.
Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.
Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.
Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.
Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.
A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.
Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.
E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.
Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.
Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.
Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.
Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.
Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.
Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.
Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.
O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.
O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!
Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.
Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).
Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.
A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.
Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.
Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.
Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.
Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.
Cultura Pop
“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.
Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.
Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.
O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.
Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.
Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.
Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.
“Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.
Cultura Pop
Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).
“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.
Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.
Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.
“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.
“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.
E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.








































