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Crítica

Ouvimos: Metric – “Romanticize the dive”

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Ouvimos: Metric – “Romanticize the dive”

RESENHA: Entre nostalgia e pista, Metric revisita o próprio som no décimo disco, Romanticize the dive, e dialoga com nova geração em disco que mistura indie, synthpop e emoção pós-pandemia.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Thirty Tigers
Lançamento: 24 de abril de 2026

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De uma hora pra outra, parece que todo mundo descobriu que ama shoegaze, synthpop, indie sleaze e outros estilos, né? Bom, nem foi de uma hora pra outra: My Bloody Valentine já virou banda dos pais de quem tem 20 e poucos anos em 2026 – sem falar na moçada criada por pais que foram “grunges” (cof cof) lá por 1992, e que na infância eram quase forçados a escutar Nirvana, Smashing Pumpkins e qualquer banda que não fosse muito calma.

A onda indie dance, por sua vez, nunca deixou de rolar. Mas em pleno 2026, ela tem tudo a ver com esse verdadeiro vale-tudo emocional dos dias de hoje, e com a ressaca da covid. Não que todo mundo ficasse no confinamento só escutando música, claro. Só que o corredor de experiências horríveis da pandemia (mortes, perdas, traumas, afastamento) era atenuado com festas online, misturas de playlists, redescobertas de sons e trocas sonoras.

Reis da união de ótimas melodias, vibes roqueiras e sons maquínicos com destino à pista de dança, os integrantes da banda canadense Metric estão atentos a isso. Emily Haines (vocais, teclados), Jimmy Shaw (produtor, guitarra, teclados), Joshua Winstead (baixo, teclados) e Joules Scott Key (bateria) voltam com o décimo álbum, Romanticize the dive, olhando no olho tanto dos fãs antigos quanto da turma que conheceu o grupo agora.

Voltam também olhando para si próprios no espelho, já que muita coisa do álbum vem do contato do grupo com sua própria história. Uma turnê pelo Canadá tocando o repertório inteiro do álbum Fantasies (2009) animou o quarteto a convidar novamente o produtor daquele disco e de Synthetica, de 2012, Gavin Brown. Romanticize the dive não saiu como uma reedição dos dois álbuns, mas como mais uma visita à fórmula do grupo: unir dados pop e ao mesmo tempo, torná-los não tão compreensíveis para quem só espera rock para dançar, ou música eletrônica enrockada.

O tal “olhar no olho da turma nova” é a onda de faixas como Victim of luck, eletrônica-anos-2000 em que Emily lembra o começo da banda e confessa que nada é fácil para o Metric até hoje. Crush forever, com seu clima romântico, tecladeiro e hi-NRG, tem corais maravilhosos e um clima de ABBA robótico, acompanhando uma letra em que Emily diz às garotas mais jovens para se manterem firmes. Uma poesia até meio panfletária (“tenha o melhor, não se deixe enganar / não tenha medo da dor, você vai se recuperar / muito mais forte, mais doce do que antes / somos assim, vai lá, arrase, conquiste o que é seu”), mas um panfleto pra lá de necessário.

  • Ouvimos: Master Peace – Stupid kids (EP)

Romanticize vai misturando climas sem provocar tensão desnecessária. Tem Wild rut, som mágico, com cara de pop anos 1980 e emanações até do Roxette, mas com a vibe punk do Metric. O flerte com o perigo e as emoções fortes dão as caras em Time is a bomb, e destaques melódicos surgem em Tremolo, no quase reggae Loyal e em canções que parecem tributos pagos aos anos 1970 / 1980: o pop fitness de Antigravity lembra até Maniac, de Michael Sembello (a do filme Flashdance), além dos sons mais puladinhos do A-Ha. Clouds to break vai sem medo nas lembranças da fase mais eletrônica do Ultravox.

Um momento bem emocionante em Romanticize the dive é Moral compass, um das faixas que mais respondem ao conceito do “romantize o mergulho” – e uma música que tem lá sua onda de Guilherme Arantes nas linhas vocais e no arranjo (provavelmente o Metric nunca ouviu Guilherme, mas vai que…). Emily parece tranquila, mas emocionada, ao cantar que “estou apenas tentando ir além deste lugar onde já estive antes / sou apenas alguém tentando transformar uma parede em uma porta (…) / sou apenas alguém tentando transformar o fim em começo”. Um disco cheio de passado, presente e futuro.

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Ouvimos: The Falls – “Would you do it all over again?” (EP)

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Resenha: The Falls – “Would you do it all over again?” (EP)

RESENHA: Em Would you do it all over again?, o The Falls, de Manchester, mistura pós-punk, grunge e britpop, com ecos de Smiths, Buzzcocks e R.E.M.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Revo Pro
Lançamento: 18 de setembro de 2026

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Imagina você ser de Manchester e decidir dar à sua banda o nome The Falls, sendo que existe um quase-xará mais velho e mais conhecido (The Fall, claro)? O The Falls não se importou muito com isso, mesmo fazendo um som bem mais acessível e bem menos experimental – pelo menos no sentido anticomercial do termo. Bandas como Smiths e Buzzcocks batem ponto no som deles, e em todas as faixas do EP Would you do it all over again? surge uma espécie de elegância oitentista, mesmo sob guitarras pesadas e baixos distorcidos.

Segundo EP do quarteto, Would you do it all over again? traz um pós-punk que não dispensa referências ao grunge e ao britpop. Open fire abre o disco com guitarras sujas, vocal tranquilo e uma letra sobre ansiedade e culpa. The other side põe o baixo na frente e soa como um encontro improvável entre R.E.M. e Pearl Jam.

Loaded gun tem algo de punk sessentista, Buzzcocks e britpop, com baixo distorcido e uma letra sobre relações tóxicas. A inspiração veio de uma cena do filme Os infiltrados, de Martin Scorsese, em que o chefão vivido por Jack Nicholson: certas escolhas já carregam suas consequências. City lights começa com violão, ganha guitarras psicodélicas e aproxima Smiths, The Church e The Who, falando de identidade e mudanças. Já Blink encerra tudo com punk de acabamento oitentista e um vocal herdado de Michael Stipe. Um disco de ótimas referências combinadas, e que parece ter sido deixado gravado há anos.

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Crítica

Ouvimos: Niis – “Play Niis” (EP)

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Resenha: Niis - "Play Niis"

RESENHA: Em Play Niis, a banda punk de Los Angeles Niis mistura grunge, power pop e shoegaze, com ecos de Nirvana, Garbage e Placebo e letras sobre desilusões.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Rise
Lançamento: 23 de outubro de 2026

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Banda punk majoritariamente feminina de Los Angeles, o Niis pode ser definido como bubblegrunge (aquela mistura saudável de sons grudentos e de rock dos anos 1990, o que na real significa que Nevermind, disco do Nirvana de 1991, está sendo devidamente usado como modelo). O disco de estreia Niis world (2025, resenhado aqui) trazia uma banda herdeira tanto dos anos 1960 quanto de Dead Kennedys, com melodias bacanas e vocais berrados.

Play Niis, o EP novo, foca um pouco mais no “bubble” que no “grunge” – mas só em parte, porque bandas como Garbage e Placebo parecem terem servido de referência para as faixas do disco. Mimi Doe, a vocalista, grita menos que em Niis world, mas a promessa de um disco que trabalhe “no universo dos celulares flip, das lojas Hot Topic e de Buffy, a Caça-Vampiros” nem parece ter sido levada a ferro e fogo. Há um perfume shoegaze em faixas ruidosas e noventistas como Bad aim e a suingada e grungíssima Big fish baby. Earthquakes é movida por um riff de guitarra que atravessa praticamente toda a faixa, acompanhado por uma linha de baixo igualmente inquieta – tem cara de new wave porradeira.

O trio de encerramento poderia ter sido produzido por Butch Vig: a combinação de power pop e atitude de Take your mess, o barulho doce e sombrio de No flowers (lembrando um Babes in Toyland glam punk) o riff buzinado de Westside. Entre desilusões amorosas e pessoais, Mimi Doe passa boa parte do EP falando sobre estar meio perdida, mas ainda querer sentir alguma coisa. Nem que seja raiva.

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Ouvimos: DJ Urutau – “Ornitofagia”

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Em Ornitofagia, DJ Urutau mistura funk bruxaria, eletrônica e cantos de pássaros numa história de vingança das aves contra a destruição ambiental.

RESENHA: Em Ornitofagia, DJ Urutau mistura funk bruxaria, eletrônica e cantos de pássaros numa história de vingança das aves contra a destruição ambiental.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 28 de agosto de 2026

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Quem conhece o Antropoceno, projeto de metal-afoxé criado pela musicista Lua Viana, já sabe que ela gosta de misturar coisas que aparentemente não combinam – recentemente falamos do disco No ritmo da Terra. Sob o nome de DJ Urutau, ela troca as guitarras pesadas por batidões de funk, samples de pássaros e eletrônica distorcida. Ornitofagia, estreia do projeto, é um disco de funk bruxaria (estilo criado por ela) que dá vontade de dançar, mas que também conta uma história bastante peculiar.

O urutau, também chamado de mãe-da-lua, é uma ave noturna conhecida pelo canto fantasmagórico. Na história criada por Lua, as mudanças climáticas fazem o bicho perder a cabeça, devorar um bem-te-vi e absorver seus poderes. A partir daí, ele sai comendo outras aves, aprende tudo sobre elas e resolve se vingar dos humanos pela destruição ambiental. Tudo isso embalado por um funk que parece ter saído de um terreiro futurista.

MC Uirapuru abre o disco com o canto da ave transformado em vocal de funk, sobre uma batida que vai ficando mais pesada e distorcida. Conversión, cantada em espanhol, dá sequência à pancadaria eletrônica, enquanto Baile das calopsitas acelera tudo, usando os sons das aves como parte da percussão. Em Pólen, os pios se misturam a uma eletrônica mais psicodélica.

O disco segue nessa onda em Planeta aves e Olhos mágicos, esta última fazendo referência aos enormes olhos amarelos do urutau. Sabiá-feiticeira tem um funk quase ritualístico, com algo de música indígena, enquanto Garganta (Oferenda pra Tetê) usa um sample de Tetê Espíndola – escolha que faz bastante sentido num disco tão ligado aos sons dos pássaros.

Elixir encantador de urutau começa como uma explosão de ruídos eletrônicos, até encontrar uma batida mais definida. Já os quase sete minutos de Engoli um bem-te-vi (Na onda do El Niño) encerram tudo com declarações sobre o meio ambiente, distorções e guitarras que aproximam a DJ Urutau do Antropoceno.

Ornitofagia é um disco experimental com narrativa própria, peso e preocupação ambiental – e em vários momentos, ele mostra que a pista também protesta.

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