Cultura Pop
Kiss sem máscara: descubra agora

Até a aposentadoria oficial das maquiagens, o Kiss não fazia aparições oficiais de cara limpa. Volta e meia os membros permitiam que pedaços dos rostos aparecessem em algumas fotos (você já leu sobre isso aqui) e assim os fãs podiam pelo menos imaginar como eram as caras daqueles quatro. Só que quando finalmente rolou a despedida das máscaras, numa entrevista coletiva da MTV, em 18 de setembro de 1983, aquilo era, mais do que tudo, era uma estratégia de sobrevivência.
Hoje é dado como garantido que o Kiss é uma grande banda, com vários sucessos, um núcleo de fãs bastante fiel, e um número considerável de admiradores que topa até ser enterrado no caixão da banda. Mas nem sempre foi assim: a banda (cujo possível fim foi recentemente ventilado pelo baixista Paul Stanley) demorou um pouco para emplacar, esteve na lista da degola da gravadora Casablanca e, depois de vender milhares de discos com Alive (1975) e Destroyer (1976), tentava desesperadamente não perder o bonde do sucesso. Aliás, tentava tanto, que na cabeça de alguns fãs aquilo já tinha deixado de ser música para virar apenas negócio.
>>> Veja também no POP FANTASMA: A polêmica da capa do primeiro disco do Kiss
O Kiss adentou a segunda metade dos anos 1970 aparecendo em colunas de celebridades, lançando discos irregulares, e correndo atrás das tendências como pudesse. Fizeram disco music (I was made for lovin’ you), rock gostosinho de FM na onda dos Doobie Brothers (Shandi), dividiram a banda em quatro discos solo, tentaram abraçar o público infantil (o filme Kiss meets the phantom of the park) e… Bom, o Kiss cagou para a onda da new wave e do pop sintetizado, vale dizer. Mas preferiu chegar nos anos 1980 escarafunchando o hard rock das antigas e a então recente marola de rock progressivo de FM. Em 1981, lançou a ópera-rock (Music from) The elder, que não fez sucesso nenhum.
A fase sem máscara surgiu quando a banda ainda contava com Eric Carr (bateria) e Vinnie Vincent (guitarra) – além dos líderes Gene Simmons (guitarra, voz) e Paul Stanley (baixo, voz). Aliás, veio logo depois do retorno do Kiss ao “rock pauleira” e da turnê pelo Brasil, na meiúca de 1983. Durou até 1995, foi marcada por mudanças de formação, por indefinições musicais e por mais e mais encrencas com a base de fãs. Os admiradores do Kiss encontraram o grupo fazendo glam metal, baladões cafonas, pseudo-grunge, metal de FM no estilo do Bon Jovi. Por causa dessas mudanças, muita gente ficou descontente.
>>> Veja também no POP FANTASMA: Quando a primeira peça de merchandising do Kiss era um programa de turnê
Seja como for, é uma fase do Kiss que vale a descoberta. E que esconde coisas legais ou, no mínimo, bem curiosas. Conheça oito exemplos aí.
“ALL HELL’S BREAKIN’ LOOSE” (Lick it up, 1983). O primeiro disco sem maquiagem (que aliás foi lançado no mesmo dia da tal entrevista à MTV) trouxe um hit audacioso, composto por todos os integrantes da banda na época (Paul, Gene, o guitarrista Vinnie Vincent e o batera Eric Carr). Stanley decidiu fazer um rap em vez de apenas cantar (opa, pioneirismo!), e transformou a canção em algo que poderia estar num disco do Aerosmith.
“EXCITER” (Lick it up, 1983). A faixa de abertura do primeiro disco da nova fase trazia alguns dos melhores solos de guitarra da história do Kiss. Mas não era coisa de Vinnie Vincent não – quem tocou o instrumento foi o superguitarrista Rick Derringer. Lick it up costuma fazer boa figura entre fãs da banda. Aliás, atraiu uma nova leva de seguidores que resistia ao Kiss justamente por causa das maquiagens.
>>> Veja também no POP FANTASMA: Quando o Kiss virou mania na Austrália em 1980
“HEAVEN’S ON FIRE” (Animalize, 1984). Raro exemplo de música da fase sem-máscara que sobrou no repertório da banda em fases posteriores, foi escrita por Paul Stanley e pelo compositor-de-aluguel Desmond Child, que também sugeriu o título da canção. O conceito de “o paraíso está em chamas” veio do objetivo de Child de ter um título “matador” e que misturasse opostos. “Sempre há um tipo de ironia e uma vez que você tem um título que contém ironia, é fácil escrever a música”, afirmou aqui.
“ANY WAY YOU SLICE IT” (Asylum, 1985). O layout do novo álbum dava a entender que o Kiss havia se aberto de vez para o glam metal (estilo que, vale lembrar, nasceu de dentro deles), mas musicalmente havia até bem poucas novidades em Asylum. O disco trazia a terceira mudança de guitarrista em pouquíssimo tempo: Vinnie Vincent já saíra havia dois anos, dera lugar a Mark St. John (que havia gravado Animalize) e o competente Bruce Kullick pegou a vaga.
“I’LL FIGHT HELL TO HOLD YOU” (Crazy nights, 1987). Uma das melhores faixas de um dos discos mais irregulares do Kiss, em que parecia que o som da banda estava sendo feito de encomenda para sonorizar produções softporn. Topsellers da música como Davitt Sigerson e Diane Warren (além do solícito Desmond Child) apareciam na lista de coautores do álbum. Bruce Kullick continuava na banda e ajudava a encher o disco de teclados (criticadíssimos na época).
>>> Veja também no POP FANTASMA: Quando obrigaram o Kiss a gravar uma canção chamada Kissin’ time
“LITTLE CAESAR” (Hot in the shade, 1989). É o disco do baladão choroso Forever, tão comercial que se tornou a primeira música da banda a figurar em trilha de novela no Brasil (Rainha da sucata, 1990). Hot in the shade também foi o mais longo álbum do Kiss até então (quase uma hora de duração). Mas tinha qualidades bacanas: dispensou o glacê de teclados, subia na qualidade das músicas e trazia esse bom single cantado pelo batera Eric Carr.
“UNHOLY” (Revenge, 1992). O baterista Eric Carr morrera em 24 de novembro de 1991, por sinal no mesmo dia da morte de Freddie Mercury. O Kiss, que nunca foi de se abalar com suas próprias tragédias pessoais, pôs Eric Singer em seu lugar e adentrou os anos 1990 com o eficiente Bob Ezrin de volta à produção. O som voltava mais pesado e cheio de palhetadas. Unholy era uma boa abertura de álbum.
>>> Veja também no POP FANTASMA: O que o Kiss e o Roberto Carlos têm em comum?
“HATE” (Carnival of souls, 1997). Kiss, aquela banda da alegria, da farra e… que abriu um disco em 1997 com uma música chamada “ódio”. Carnival of souls, o “disco grunge” do Kiss, não encontra aprovação nem mesmo entre os fãs mais empedernidos da banda. Teve seu lançamento atrasado em um ano e nem ao menos ganhou uma turnê de lançamento, porque o Kiss já estava voltando com as máscaras e a formação original. Vale como curiosidade e como registro de fundo de poço.
Cultura Pop
“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.
Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.
Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.
O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.
Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.
Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.
Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.
“Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.
Cultura Pop
Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).
“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.
Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.
Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.
“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.
“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.
E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.
Cultura Pop
R.E.M. recorda os 44 anos do primeiro contrato com uma gravadora

No dia 31 de maio de 1982, a gravadora I.R.S. enviava um press release avisando que havia assinado com o R.E.M., “uma banda de Athens, Georgia, aclamada pela crítica”. E já anunciava que no dia 26 de agosto sairia o EP Chronic town, com as faixas 1,000,000, Stumble, Wolves, lower, Gardening at night e Carnival of sorts (Boxcars). A foto de imprensa, em preto e branco, trazia Peter Buck (guitarra), Mike Mills (baixo), Bill Berry (bateria) e Michael Stipe (vocais) com visual pós-adolescente.
“O EP vai ser seguido por um álbum no ano que vem. O R.E.M. planeja fazer uma turnê pelo Oeste do país durante o verão, seguida pelos estados da Costa Leste e do Canadá durante o Outono”, avisava a gravadora, oferecendo também o contato da empresária Betsy Alexander, primeira pessoa a cuidar profissionalmente do grupo, ajudando em contatos, logística e gestão. O release só errava na ordem das músicas do EP, que possivelmente ainda não estava decidida (Chronic town também saiu dividido em duas partes, com lado A nomeado Chronic town e lado B com nome Poster torn)
O contrato era de longo prazo e previa cinco discos – ou seja, tudo que saiu do grupo até Life’s rich pageant, o quarto álbum, de 1986. Depois disso, o grupo renegociou e lançou o quinto disco, Document, de 1987 – mas acabou migrando para a Warner e terminando o contrato com a coletânea Eponymous (1988).
A I.R.S. tinha sido criada em 1979 por Miles Copeland III, irmão de Stewart Copeland, baterista do The Police. O selo vinha da cena punk/new wave britânica e funcionava como uma espécie de ponte entre o underground e uma estrutura profissional de distribuição via A&M (a gravadora do Police, por acaso).
Na época em que o R.E.M. assinou, a I.R.S. já tinha grupos como Wall of Voodoo, Oingo Boingo, The Go-Go’s e The English Beat. Era um selo muito ligado a college radio, pós-punk, new wave e à ideia de independência artística. Depois, virou praticamente sinônimo do rock universitário americano dos anos 1980 por causa do próprio R.E.M.
A entrada da banda na gravadora aconteceu muito por conexões da cena. O empresário/agente Ian Copeland, irmão de Miles e Stewart, já acompanhava o grupo desde os primeiros shows em Athens. O baterista Bill Berry tinha trabalhado para Ian em Macon como roadie e serviços-gerais, e mantinha contato com ele. Isso ajudou o R.E.M. a conseguir shows de abertura para bandas maiores, como The Police e Gang of Four, até chamar atenção da I.R.S.
E olha o post comemorativo do R.E.M. aí.
Ver essa foto no Instagram







































