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Ouvimos: Pale Blue Eyes – “PBE archive vol.1”.

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Ouvimos: Pale Blue Eyes – “PBE archive vol.1”.

RESENHA: Coletânea do Pale Blue Eyes reúne raridades (2018–25) e mistura pós-punk, dream pop e krautrock em clima hipnótico, com ecos de Velvet e C86.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Broadcast Recordings
Lançamento: 23 de janeiro de 2026

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O som dessa banda britânica de Devon, obviamente, tem muito de Lou Reed e Velvet Underground – Pale blue eyes é uma música do terceiro disco do Velvet (epônimo, 1968), que já foi gravada até por Marisa Monte. E realmente, tem momentos em que o casal Matt e Lucy Board, e a baixista Aubrey Simpson, parecem realmente querer emular o som dessa música, uma das canções mais delicadas do Velvet.

Isso rola só em algumas ocasiões, porque no geral, o PBE é um grupo de pós-punk maquínico, que usa guitarras para produzir sons hipnóticos e cujos teclados seguem uma linha do tempo que vem lá do krautrock. Daria para definir o som deles como dream pop, ou como um primo menos contemplativo e menos quieto do mesmo estilo, ou até como shoegaze. Muito embora eles prefiram usar a nomenclatura cream pop, brincadeira com a ideia de um som aveludado e mágico, próximo tanto de Cocteau Twins e New Order quanto de bandas mais recentes, como Beach House.

Bandas como Cigarettes After Sex e The Chromatics têm, digamos, esse mesmo DNA do Pale Blue Eyes – e uma boa parte do “código” do grupo está em PBE archive vol.1, que já é o quarto lançamento do trio, e a primeira coletânea. São gravações de arquivo feitas entre 2018 e 2025: sobras de estúdio, versões alternativas e material inédito da banda, tudo servindo como um complemento dos álbuns, e como uma visão do trabalho de “garagem” dos três.

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Direto do arquivo da banda, surge muita coisa herdada de Joy Division e de bandas alemãs como Neu! e o próprio Kraftwerk. É uma onda que toma conta praticamente de todas as 18 faixas do álbum, como The park, New boots, Football stadium, Believe it all, músicas que soam como uma psicodelia light, que surge aos poucos dos climas sonhadores. Se mexer um pouco em faixas como Daisy, This house e How long is now, o som entra direto no corredor do jangle pop, e da turma da fitinha C86, do New Musical Express – aliás, o PBE é daquelas bandas que você pode até tocar pros amigos, fingir que é um som feito em 1986 e ver uma turma enorme cair na mentira.

O PBE consegue um equilíbrio impensável entre emanações de The Cure, Primal Scream e até Pink Floyd em Signify. Vai também para os lados do folk fantasmagórico em Not the end of the world, além de se parecer com um Buzzcocks tristonho e com um Dinosaur Jr tecladeiro em, respectivamente, Records e Loops. Lou Reed, por sua vez, parece surgir em This design, música mais selvagem do disco (evidentemente “selvagem” para os padrões do PBE), com vibe glam e clima rocker. Don’t hurry time é um dos sons mais tipicamente shoegaze do álbum.

Archives é uma viagem de 63 minutos pelas sessões da banda – e um disco que, vá lá, requer bastante envolvimento com o grupo, mesmo quando a coisa fica meio cansativa. Mas é um complemento importante não apenas para fãs, como também para quem curte processos de criação de forma geral.

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Ouvimos: The Falls – “Would you do it all over again?” (EP)

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Resenha: The Falls – “Would you do it all over again?” (EP)

RESENHA: Em Would you do it all over again?, o The Falls, de Manchester, mistura pós-punk, grunge e britpop, com ecos de Smiths, Buzzcocks e R.E.M.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Revo Pro
Lançamento: 18 de setembro de 2026

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Imagina você ser de Manchester e decidir dar à sua banda o nome The Falls, sendo que existe um quase-xará mais velho e mais conhecido (The Fall, claro)? O The Falls não se importou muito com isso, mesmo fazendo um som bem mais acessível e bem menos experimental – pelo menos no sentido anticomercial do termo. Bandas como Smiths e Buzzcocks batem ponto no som deles, e em todas as faixas do EP Would you do it all over again? surge uma espécie de elegância oitentista, mesmo sob guitarras pesadas e baixos distorcidos.

Segundo EP do quarteto, Would you do it all over again? traz um pós-punk que não dispensa referências ao grunge e ao britpop. Open fire abre o disco com guitarras sujas, vocal tranquilo e uma letra sobre ansiedade e culpa. The other side põe o baixo na frente e soa como um encontro improvável entre R.E.M. e Pearl Jam.

Loaded gun tem algo de punk sessentista, Buzzcocks e britpop, com baixo distorcido e uma letra sobre relações tóxicas. A inspiração veio de uma cena do filme Os infiltrados, de Martin Scorsese, em que o chefão vivido por Jack Nicholson: certas escolhas já carregam suas consequências. City lights começa com violão, ganha guitarras psicodélicas e aproxima Smiths, The Church e The Who, falando de identidade e mudanças. Já Blink encerra tudo com punk de acabamento oitentista e um vocal herdado de Michael Stipe. Um disco de ótimas referências combinadas, e que parece ter sido deixado gravado há anos.

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Ouvimos: Niis – “Play Niis” (EP)

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Resenha: Niis - "Play Niis"

RESENHA: Em Play Niis, a banda punk de Los Angeles Niis mistura grunge, power pop e shoegaze, com ecos de Nirvana, Garbage e Placebo e letras sobre desilusões.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Rise
Lançamento: 23 de outubro de 2026

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Banda punk majoritariamente feminina de Los Angeles, o Niis pode ser definido como bubblegrunge (aquela mistura saudável de sons grudentos e de rock dos anos 1990, o que na real significa que Nevermind, disco do Nirvana de 1991, está sendo devidamente usado como modelo). O disco de estreia Niis world (2025, resenhado aqui) trazia uma banda herdeira tanto dos anos 1960 quanto de Dead Kennedys, com melodias bacanas e vocais berrados.

Play Niis, o EP novo, foca um pouco mais no “bubble” que no “grunge” – mas só em parte, porque bandas como Garbage e Placebo parecem terem servido de referência para as faixas do disco. Mimi Doe, a vocalista, grita menos que em Niis world, mas a promessa de um disco que trabalhe “no universo dos celulares flip, das lojas Hot Topic e de Buffy, a Caça-Vampiros” nem parece ter sido levada a ferro e fogo. Há um perfume shoegaze em faixas ruidosas e noventistas como Bad aim e a suingada e grungíssima Big fish baby. Earthquakes é movida por um riff de guitarra que atravessa praticamente toda a faixa, acompanhado por uma linha de baixo igualmente inquieta – tem cara de new wave porradeira.

O trio de encerramento poderia ter sido produzido por Butch Vig: a combinação de power pop e atitude de Take your mess, o barulho doce e sombrio de No flowers (lembrando um Babes in Toyland glam punk) o riff buzinado de Westside. Entre desilusões amorosas e pessoais, Mimi Doe passa boa parte do EP falando sobre estar meio perdida, mas ainda querer sentir alguma coisa. Nem que seja raiva.

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Ouvimos: DJ Urutau – “Ornitofagia”

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Em Ornitofagia, DJ Urutau mistura funk bruxaria, eletrônica e cantos de pássaros numa história de vingança das aves contra a destruição ambiental.

RESENHA: Em Ornitofagia, DJ Urutau mistura funk bruxaria, eletrônica e cantos de pássaros numa história de vingança das aves contra a destruição ambiental.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 28 de agosto de 2026

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Quem conhece o Antropoceno, projeto de metal-afoxé criado pela musicista Lua Viana, já sabe que ela gosta de misturar coisas que aparentemente não combinam – recentemente falamos do disco No ritmo da Terra. Sob o nome de DJ Urutau, ela troca as guitarras pesadas por batidões de funk, samples de pássaros e eletrônica distorcida. Ornitofagia, estreia do projeto, é um disco de funk bruxaria (estilo criado por ela) que dá vontade de dançar, mas que também conta uma história bastante peculiar.

O urutau, também chamado de mãe-da-lua, é uma ave noturna conhecida pelo canto fantasmagórico. Na história criada por Lua, as mudanças climáticas fazem o bicho perder a cabeça, devorar um bem-te-vi e absorver seus poderes. A partir daí, ele sai comendo outras aves, aprende tudo sobre elas e resolve se vingar dos humanos pela destruição ambiental. Tudo isso embalado por um funk que parece ter saído de um terreiro futurista.

MC Uirapuru abre o disco com o canto da ave transformado em vocal de funk, sobre uma batida que vai ficando mais pesada e distorcida. Conversión, cantada em espanhol, dá sequência à pancadaria eletrônica, enquanto Baile das calopsitas acelera tudo, usando os sons das aves como parte da percussão. Em Pólen, os pios se misturam a uma eletrônica mais psicodélica.

O disco segue nessa onda em Planeta aves e Olhos mágicos, esta última fazendo referência aos enormes olhos amarelos do urutau. Sabiá-feiticeira tem um funk quase ritualístico, com algo de música indígena, enquanto Garganta (Oferenda pra Tetê) usa um sample de Tetê Espíndola – escolha que faz bastante sentido num disco tão ligado aos sons dos pássaros.

Elixir encantador de urutau começa como uma explosão de ruídos eletrônicos, até encontrar uma batida mais definida. Já os quase sete minutos de Engoli um bem-te-vi (Na onda do El Niño) encerram tudo com declarações sobre o meio ambiente, distorções e guitarras que aproximam a DJ Urutau do Antropoceno.

Ornitofagia é um disco experimental com narrativa própria, peso e preocupação ambiental – e em vários momentos, ele mostra que a pista também protesta.

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