Durante os anos 1960, Jeff Beck sofreu muito – pelo menos é o que ele dá a entender cada vez que fala da época. Reclamava do som dos shows que dava com os Yardbirds (quando fez parte da banda), dos discos que gravava com a banda e costumava falar que não conseguis reproduzir com a tecnologia existente o som que estava em sua cabeça. Mas só para piorar um pouco, fechou a década com um acidente de carro em dezembro de 1969 e fraturou o crânio.

O músico, que chegou a ser sondado para os Rolling Stones quando Brian Jones morreu, em 1968, voltou em 1970 já devidamente recuperado. Aliás, retornou com uma ideia que parecia bacana. Convidou o produtor Mickie Most e o baterista Cozy Powell e se mandou para os estúdios da gravadora Motown, em Detroit.

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Não era uma ideia disparatada: Beck era fã de verdade da sonoridade da Motown e levara um pouco do som da gravadora para os primeiros discos gravados com o Jeff Beck Group, Truth (1968) e Beck-Ola (1969). Covers da Motown rolaram em sessões da BBC da banda do guitarrista (veja acima). Mas o próprio Beck, num papo ao lado de Eric Clapton para a Rolling Stone em 2010, mostrou que tinha algo meio estranho ali. “O que diabos eu estava fazendo levando um baterista de rock, com dois enormes bumbos Ludwig, para a Motown?”, questionou o próprio Beck.

O tal “disco da Motown” seria feito pelos dois com um grupo que incluía os supermúsicos James Jamerson (baixo) e Earl Van Dyke (teclados), sem guitarra base. Beck revela que ele e Powell se sentiram “como crianças na loja de doces”, mas que o sentimento não era partilhado pelos anfitriões. “Eles nos odiaram”, revela. Jamerson e Dyke reclamaram que não havia partituras. Até que Powell tentou tocar como se fosse o baterista da sensação soul-instrumental The Meters. Começou a dar certo. Só que…

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“Quando Cozy começou a tocar, foi ótimo. James estava travando com o padrão de bateria de Cozy. Só que quando dei por mim, Cozy estava levando a bateria para fora do estúdio”, disse Beck. “Os dois ficaram loucos. Ele tirou o sagrado kit de bateria da Motown do estúdio e trouxe esse estúpido kit duplo de Ludwigs. O técnico do estúdio veio até mim e disse: ‘Vocês não vieram aqui por causa do som da Motown?’ Respondemos que sim. ‘Bom, o som acaba simplesmente de sair pela porta’, ele respondeu”.

Jeff se recorda de compositores da Motown fazendo músicas para eles. E conta que a ideia original dele sempre tinha sido unir um som parecido com o dos discos da gravadora, com o peso de bandas como Led Zeppelin. Cujo primeiro disco, vale citar, foi lançado cinco meses após Truth e ainda trazia uma música que o álbum de estreia do Jeff Beck Group também tinha: o blues You shook me, de Willie Dixon).

Para acentuar o aspecto de “parque de diversões” da aventura, ainda rolou um encontro com o dono da Motown, Berry Gordy. “Tivemos que passar por três conjuntos de portas trancadas. Ele disse: ‘Bem-vindo a Motown. Tenho muita fé em você. Eu sei o que você faz. Talvez os caras da sessão não saibam, mas eu sei'”, contou Jeff Beck.

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Beck largou a ideia do disco logo no primeiro dia de gravação, após algumas horas de guerra não-declarada dos músicos com a dupla. Jeff Beck diz que todo mundo ali detestou o som e que “simplesmente foram ao salão de sinuca e ficaram putos”. E revelou que tem uma cópia em cassete da gravação. Além da fita multitrack, “mas aposto que se você colocá-la na máquina agora, ela se desfará em pedaços”, revela, dizendo que o grande segredo do estúdio da Motown era o reverb. “Eles eram músicos fantásticos de classe mundial – melhor apresentação, melhor som de bateria. Mas se você tirar esse reverb da Motown, não terá nada. É muito bom, mas não é a Motown”, afirmou.

E a mania de Beck com o som da Motown ainda deu nessa (boa) releitura de Superstition, de Stevie Wonder, feita pelo supergrupo Beck, Bogert & Appice, que ele dividiu com o baixista Tim Bogert e o baterista Carmine Appice. Beck havia tocado na versão de Wonder em 1972.

 

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