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Figurótico: 20 anos de rock em Barra Mansa (RJ), comemorados com EP

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Figurótico: 20 anos de rock em Barra Mansa (RJ), comemorados com EP

Banda independente de Barra Mansa, município do interior do estado do Rio, o Figurótico completou vinte anos em 2021. O grupo teve namoros com a cena carioca (com direito a shows em festivais como as Seletivas do MADA) e o vocalista Figurótico chegou a virar músico contratado do Biquini Cavadão por alguns tempos. Pegou a vaga inclusive sendo testado pelo próprio Bruno Gouveia (vocalista), que após uma sessão de estúdio, o desafiou a cantar clássicos de bandas dos anos 1980, durante um almoço.

Hoje o grupo é um trio formado pelo cantor, ao lado de Eduardo Pança (baixo) e Paschoal Júnior (bateria). As duas décadas de rock na cidade são comemoradas pelo Figurótico (que o vocalista faz questão de esclarecer que é uma banda, não um trabalho solo) com o EP Arquitetura noturna, com sete músicas, e que vai ganhar continuação com outro EP em breve. Como primeiro single, o disco traz uma recordação da região da banda – Pois é, poesia, com letra da lenda da poesia do Médio Paraíba, Marco Poeta, e tom folk, bem diferente do som herdado do rock nacional anos 1980 do grupo.

Batemos um (longo!) papo com Figurótico sobre disco novo, a história da banda, rock em Barra Mansa, Biquini Cavadão e outros temas.

Como surgiu a opção por um som mais acústico na música nova?

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Por ser muito calcada no violão de aço sempre a imaginei assim, folk. Aquela para tocar e ouvir em meio à natureza. Porém toda música é uma coisa antes de ser gravada e outra após ser. Elas se resolvem em definitivo mesmo é no estúdio. Então antes ainda pairava no ar a dúvida entre ter a banda completa ou deixa-la somente ao violão.

Diante da pandemia passamos meses sem encontrar nosso baterista pessoalmente. Ela foi a primeira “pré” a ser registrada de modo caseiro no estúdio que meu irmão adaptou aqui num quarto do terraço, durante a quarentena de 2020. Registrei apenas em voz e violão e encaminhei para o amigo e guitarrista Rodrigo Novaes. Nós dois já tínhamos feitos alguns shows em duo num bar de Volta Redonda (RJ), tocando um set totalmente acústico, onde ele usava um violão dobro.

Então naqueles shows eu já havia dito que “tinha algumas músicas com bastante violão e que se gravássemos um dia, pediria a ele pra colocar aquela sonoridade”. Ele não só gravou um dobro na música (trazendo uma frase que tinha só no fim da canção para a introdução da música) dando uma bela chamada logo na intro, como preencheu com bandolim e ainda fez as vozes de teclado que acompanhariam o solo (criado por ele) no meio da música. Pronto, naquela pré-gravação a música já tinha pra mim um aspecto totalmente definido.

Gostei de imediato. Meu irmão ouvindo-a e encaixando no computador as partes que o Rodrigo mandou, disse “é, nem vou gravar baixo nessa não”. Tudo isso sem nem ter aparecido ainda a Lei Aldir Blanc, que foi a responsável pelo EP sair do papel depois. Naquele clima de confinamento geral ainda cogitei “vamos soltar essa gravação caseira
pro público!”. Mas refleti melhor e decidi esperar um pouco pra gravá-la valendo.

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Mais tarde quando já reencontramos nosso baterista pros ensaios das músicas, meses após, chegamos a testar uma levada de bateria nos refrãos e na parte do solo, mas foram descartadas. A palavra do Rodrigo teve um papel importante também. Quando gravou disse: “Meu irmão, não ponha bateria nessa faixa não, ela tá pronta”. Ele tinha razão.

Das sete músicas do EP, outras duas contam com esses instrumentos acústicos, porém a banda tocando junto. Terá momentos nessa onda, mas acústica mesmo só essa. Não chega a ter aquela coisa do Na calada da noite, do Barão Vermelho, que a gente chamava de “o disco dos violões”, mas resolvemos trazer pra este algumas que tinham essa aura e que eram mais melodiosas. Já nas outras quatro faixas restantes não tem nada de violão.

De onde vem esse nome Figurótico? Era o nome da banda e virou um apelido?

O inverso. Apelido criado pelo meu saudoso professor de violão/guitarra e das maiores referências de músico que tivemos aqui em Barra Mansa (RJ), Luiz Paulo, o Gordo. Tinha mania de apelidar os alunos. Alguns vingaram e persistiram até hoje: como o do meu irmão e baixista da banda, Pança; e do Setas, amigo de infância, músico e dono do Setas Studio (que hoje está localizado justamente onde era essa “academia de música instrumental” do Gordo), onde foi gravado a maioria do EP.

O meu era algo relacionado a ele me achar uma “figura”. De tanto eu chegar imitando os outros alunos ele dizia “chegou aquela figuraça: chegou a figura exótica, a figura erótica, isso é um Figurótico!”. Não tinha um significado exato. Aos poucos levaram para o colégio e pegou. Quando precisei usar um nome artístico fiquei num dilema entre usar um dos meus nomes/sobrenomes (Edson Flávio Pineschi de Souza), ou o apelido. Portanto é meu apelido que virou o nome da banda.

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E fui sendo chamado assim desde que passei a dar aulas de violão aos iniciantes nessa escola de música; ou quando era o guitarrista do Madeira de Lei, de 1991 a 1995; e de 1996 à 2001 integrante da dupla Toni Madeira e Figurótico. Foi quando meu apelido se popularizou mesmo por aqui, pois todas as semanas gravávamos spots de rádio pros shows que fazíamos na noite, tocando de terça a domingo.

Daí quando montamos a banda em 2001 e larguei essa dupla, foi natural optarmos por este apelido, pois assim não haveria chance de ter uma outra banda com tal nome. Até um dia receber um telefonema suspeito de um cara querendo registrar este nome, perguntando se eu tinha o registro e tal, então corri atrás do trabalhoso processo de registrar a marca no INPI. Desde então temos o registro.

Fala um pouco da gravação do EP. Rolou alguma coisa diferente em relação aos outros álbuns em termos de produção?

Sim, muita. Os dois álbuns anteriores foram gravados por nosso ex-baterista Erick Leal e todo o processo de gravação daqueles se deu no estúdio dos irmãos Diogo e Tuta Macedo, o Emestudio (originalmente localizado em Volta Redonda quando gravamos o primeiro disco em 2006; e posteriormente na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro (RJ), onde gravamos o segundo, em 2012).

Agora com o baterista Paschoal Jr., registramos a bateria neste mesmo Emestudio e o restante aqui em Barra Mansa, no novíssimo Setas, do nosso amigo já citado acima que está com o que há de melhor em equipamentos. Além de ser um cara que convivemos por décadas. O local é um templo da música em Barra Mansa pra nós. Fica praticamente  ao lado de casa e no contexto pandêmico caiu como uma luva. O EP só voltou para a mão do Diogo Macedo pra ser mixado e masterizado. Visto que ele tinha feito esse processo nos dois anteriores, achamos que isso também daria identidade ao resultado final. Ter ao final do processo todas essas pessoas queridas reunidas, foi espetacular.

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O que mais se difere dos álbuns anteriores é que abrimos o leque pra outros instrumentos, chamando músicos-amigos convidados (Rodrigo Novaes, ex-guitarrista do Yahoo e Gori, toca dobro e slide no disco; Dario Aragão Neto, teclados e ex-músico de Tunai; Walmer Carvalho, saxofonista do Biquini Cavadão). Se nos dois primeiros discos eu já sentia essa vontade, pensando “esse solo de guitarra poderia ser um sopro, uma flauta, etc”, mas me prendia na ideia fixa de fortalecer a identidade da banda por sermos um power trio, nesse abrimos a porteira. Até então só tínhamos experimentado o quarteto de cordas (e que quarteto!) em Amanheceu no segundo disco e a voz da Tay Cristelo numa versão em inglês Sinning by omission, que fecha aquele.

Rodrigo e Walmer gravaram de suas casas, em seus estúdios caseiros. O primeiro, de Volta Redonda (RJ); o segundo, de Juiz de Fora (MG). Dario registrou no Setas Studio. O que não mudou nada no processo foi a produção das músicas, que sempre chegaram para serem gravadas com os arranjos prontos, feitos por nós mesmos, cada um no seu instrumento e/ou decidindo em conjunto. Meu irmão Eduardo Pança e o Paschoal Júnior já na primeira audição desenvolvem suas linhas. Nunca tivemos produtores.

Apenas duas músicas do EP não contam com participação de outros músicos: a que abrirá o EP (Pra me reparar); e a que fechará (Arquitetura noturna), mas mesmo assim ambas não escaparam de ter um convidado. O amigo Altino aparece em duas frases em cada música dando sua interpretação única com sua inconfundível voz. Uma dica do Setas, que ao me ouvir gravando tais trechos disse “você está cantando igual ao Altino!”, e caímos na risada. Convocamos o Altino.

A pré-produção deste foi interessante, porque devido à pandemia acabamos tirando do papel um desejo de anos, o de fazer um home studio num quartinho de nosso terraço apenas pra ensaios e gravações caseiras. Com tudo parado, meu irmão que é arquiteto também, em poucos dias organizou a bagunça que lá estava e viabilizou um bem básico pra registros de áudio.

A pandemia acabou nos permitindo mais tempo pra testar essas coisas com calma, pois nos álbuns passados as gravações eram marcadas de acordo com a disponibilidade do estúdio e de nossa agenda de shows. Sem shows, podíamos gravar com tranquilidade. E com o anúncio da Lei Aldir Blanc, vimos finalmente que daria pra iniciar a gravação. A ideia há uns anos atrás que esse disco fosse um álbum intitulado Arquitetura noturna (e a Batalha dos Espumas). Mas analisando a era do streaming vimos que lançar álbuns já não tinha o mesmo impacto. Então o desmembramos em dois EPs. Este agora, e no futuro um outro, que se chamará A batalha dos espumas.

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E só pra finalizar sobre este tema, foi um disco gravado com máscara! Só na hora de pôr as vozes definitivas na sala sozinho é que tirei. De resto, todo o processo dentro do estúdio foi assim. Nove horas gravando a primeira sessão de guitarra das músicas, por exemplo, sozinho na sala e de máscara. Paranoia total. Assim como na sessão de bateria no Rio ao tocarmos a guia pro baterista gravar, todos de máscara por oito horas seguidas de gravação.

São vinte anos de banda em 2021. Como tudo começou?

Como disse, começou bem antes de 2001. Somos da mesma faixa etária (eu 46 anos, meu irmão 45, e Paschoal 48) e todos começaram estudando loucamente seus instrumentos após o primeiro Rock in Rio e no boom do Rock Brasil. Para no início dos 1990 já estarmos nas primeiras bandas nos apresentando em colégios, praças, etc. Nossa primeira banda foi a Cheque-Mate, em 1988, entre parentes. Além de meu irmão no baixo, nosso primo Élcio Pineschi que morava no Rio vinha passar finais de semana aqui, trazia sua bateria Pinguim e tocávamos (recentemente ele reapareceu na cena tocando na sua banda de metal carioca, Unmasked Brains). Não chegamos a fazer show.

Meu primeiro “show” se é que podemos chamar de, foi com uma banda num aniversário de um amigo, em 1988, já com outro grupo de amigos. O segundo, em 1990, no dia do estudante no Colégio Verbo Divino onde estudávamos, com o nome (roubado da primeira) Cheque-mate (ao lado do meu irmão Eduardo Pança, o Setas e mais três amigos de sala).

Em 1991 entrei para o grupo de rock Madeira de Lei, onde comecei a gravar finalmente com uma banda, tinha repertório para um disco. Gravamos, mas não foi lançado. Fizemos muitos shows até 1995, incluindo uma participação no extinto Fest Valda, no Imperator em 1992. Paralelamente fui tocando com músicos mais velhos noutros projetos. Foi quando as bandas de rock daqui praticamente morreram por falta de local pra tocar, e o rock passou a ser coisa do underground.

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Montamos uma dupla então. Era o vocalista dessa banda, Toni Madeira e eu no violão. Fizemos o circuito dos bares, tocando de tudo: MPB, rock e até outras coisas mais “radiofônicas” do período… rs. Ficamos muito conhecidos no sul do estado rapidamente, fazendo de 5 a 6 shows por semana, enchendo lugares. Parei de dar aulas de violão nesse período (vinha desde os 14 anos) por conta do volume de shows.

Nisso incluímos uma banda pra dar vazão à pista de dança pois tínhamos de manter as pessoas “dançando…”. Foi então que logo após o Rock in Rio 3, em 2001, eu resolvi voltar ao que tinha me posto nessa vida musical, ao rock (por isso o nome do primeiro disco). E montamos a banda com meu irmão e o baterista Erick, ambos já músicos
concorridíssimos pelos artistas daqui e que integravam a banda que servia de base à Toni Madeira e Figurótico.

Começamos num boteco chamado Sindicato do Porre e pela primeira vez eu era a voz principal de alguma banda, antes só fazia backing. Fizemos uns testes nesse bar de um amigo por um mês, fazendo shows abertos pra ver se eu aguentava o tranco de tocar e cantar uma noite inteira, assim fomos testamos um novo repertório de covers.

Logo viramos residentes uma casa em Volta Redonda (RJ), Zappata Café, tocando semanalmente e reconstruindo um público. O lema era “vamos tocar somente covers de que gostamos, sem fazer média ou aderir a qualquer tendência, apenas rock”.

Rapidamente o local fervilhou de gente e mudamos pra outra casa ao lado onde permanecemos por incríveis 5 anos ininterruptos às sextas-feiras, Cana Café. Na labuta da noite íamos buscando nossa sonoridade, tocando sem parar. Fomos achar a sonoridade mesmo durante a gravação de nosso primeiro disco, em 2004. Antes disso tínhamos apenas 4 músicas de minha autoria que pudessem ser gravadas. Essas 4 acabaram fora do primeiro disco por já termos sacado que aquilo ainda era resquício de outra época.

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Foi entrega total. Entrei na faculdade de jornalismo no Rio em 2002 pra justamente me aproximar das palavras, pois queria poder escrever sozinho as letras da banda. E assim tem sido desde então, tendo sempre um ou outro parceiro nas letras, mas acabei encontrando sozinho uma forma de escrever pra banda. Tocamos em qualquer palco, desde o início. Nossa sequência de shows só foi interrompida pela pandemia. No ano de 2019, por exemplo, batemos um recorde pessoal de 217 shows, entre completos, com a banda e acústico em bares.

Os primeiros discos tinham uma sonoridade que me lembrava muito Titãs em vários momentos, e uma onda meio punk, mas dosada…

Somos uma banda de “rock brasil”, costumo dizer. Crias do brock, basicamente. Embora todos nós temos nossas peculiaridades em termos de influência no instrumento de cada um, coisas que fomos buscar lá atrás nos músicos do Deep Purple, no Clapton, Hendrix, Police, nos instrumentistas Al Di Meola, Larry Carlton, Stanley Clarke, Chick Corea, etc. Estudamos muito até nos tornarmos músicos. Todos os outros músicos da banda, por exemplo, possuem trabalho paralelo com música instrumental. Eu sou a exceção, só toco na banda mesmo.

Meu irmão, Eduardo Pança, lançou recentemente com o Setas e nosso ex-baterista, Erick, o álbum Pegadas jazz 20 anos (onde participei com uma faixa instrumental minha, Faisão), também pela Lei Aldir Blanc. E nosso baterista atual, Paschoal, toca também com a Jazz4 Band, tocando… baixo. Sim, ele toca bateria, baixo e guitarra.

Mas voltando à sonoridade da banda… você tem toda a razão! Temos muito de rock paulista sim: um pouco de Titãs, de Ira!, de Ultraje; e por consequência natural Ramones, Clash, até Surf Music. Tudo – muito bem destacado por ti – dosado, em pequenas passagens.

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Ouvi de amigos agora que escutaram o EP, que “tem um Ira! aí, um Titãs ali, ou um ‘acorde’ Lobão”. Minha mãe quando ouviu Pois é, poesia gravada falou que lembrou Raul Seixas. Não posso discordar, tenho Raul e Camisa de Vênus no DNA também. Fazendo um exercício rápido, influência de surf music na banda aparece em A melhor batida de amor, Eu hospedei o meu trabalho e O trabalho me chama.

Já a de Rush, do Erick, aparece em Pasmaceira (cujas partes melódicas fiz inspirada no The Doors); e EnTerra Brasilis (cujo final fiz inspirado no Clash). Já em Pecando por omissão a influência em trechos da voz e na levada, tem um pouco de Arnaldo Brandão, outras passagens inspiradas no Clash também. Tudo sutilmente.

Como começou sua história com o Biquini Cavadão e como foi ter o Bruno Gouveia na música?

O Biquini chegou até o Emestudio, na Barra da Tijuca em 2012, por indicação de um roadie deles, o Marcos Almir, se não me engano. E ali gravaram o CD Roda gigante. Quando da pré-produção pro DVD Me leve sem destino em 2014, que comemoraria os 30 anos da banda, eles faziam uns testes pra alguém que fizesse os backings que o Bruno queria, Tuta e Diogo me indicaram.

Marcamos o teste e fui no dia seguinte. Montei um CD com as melhores do Biquini e fui ouvindo no caminho de Barra Mansa ao Rio no carro. Lá chegando Bruno pediu que eu fizesse e gravasse uns vocais e que a música que mais estavam com dificuldade de dobrar a voz era Em algum lugar no tempo. Bruno a cantou sem microfone na minha frente e aquela voz tomou conta do ambiente com uma força que eu pensei que estaria ferrado. Fiquei assustado com o poder de uma voz sem estar microfonada.

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Fui pra sala de gravação e começou: “Faz essa, faça essa nota, agora essa frase…” e iam gravando tudo. Bruno explicava minuciosamente o que queria, abria vozes atrás de vozes – é mestre nisso! Em Janaína, antes que ele me indicasse onde seria o vocal eu já fiz, por conhecer a música e ter a mania de sempre ouvir os vocais. Afinal fiz muito isso no tempo com o Toni Madeira. Depois de algumas horas eles me agradeceram e disseram que iriam resolver entre os quatro que fizeram tal teste e avisariam no dia seguinte se rolou ou não. Eu os agradeci, disse que já tinha aberto muito shows deles em Volta Redonda e que já tinha sido um prazer fazer um teste de voz sendo eu um guitarrista de ofício. Eles iriam precisar que fosse guitarrista também, mas o que definiria era quem fizesse as vozes como o Bruno gostaria.

Desci, parei na loja de conveniência do posto na frente pra comer algo antes de retornar à Barra Mansa. Antes de comer o Tuta me liga, “peraí que o Bruno vai falar”. “É você mesmo, só precisava conversar com o Miguel. Pode ficar no Rio pra amanhã? Almoça com a gente agora?”. E assim foi. Sentamos no Horti-fruti para almoçar e o
Tuta pra quebrar o gelo, provocou: “Ele sabe tudo dos anos 80. Aí o Bruno: “Ah, é? Escola de Escândalos!”. E eu: “Nos seus sonhos, tudo era perfeito/Rodolfo Valentino não faria melhor” (canta Luzes). Miguel quis me testar também: “Kongo!”. E eu: “Biquini defunto, sai daí vagabundo/o rasta tava na praia, com a cabeça cheia de cana”, disparei (cantou Biquini defunto). Portanto, ter o Bruno eternizado numa faixa nossa é um sonho! Sou fã dele, pude ver de perto tudo o que ele faz pelo Biquini nos bastidores.

Além de cuidar da voz, cantar pra cacete, tem uma visão muito séria do que significa o fã pra uma banda, ele sabe de qualquer detalhe. Conhece muito de bandas inglesas, brasileiras, de literatura, de tecnologia, está atento a tudo o que cerca o mercado musical. Qual a engrenagem do streaming, dos algoritmos, etc. Quando eu e meu irmão começamos a aprender violão lá em 85, minha mãe dizia “Duardo já tá tocando aquela música, ‘sabe esses dias em que horas dizem nada?’…”. Bruno estava nos nossos cadernos de violão, agora está na nossa música, porra!

Como surgiu essa música Pois é, poesia, o primeiro single?

Essa música surgiu em 2007, quando morava no Rio pra cursar jornalismo durante a semana. Fiz muitas músicas na solidão do apartamento da Tijuca (voltava todos os fins de semana pra Barra Mansa e Volta Redonda pra tocar). Estava com um dos livrinhos de poesia do Marco Poeta (autor da letra) recém-lançado: Não demoro, só quando te olho. Musiquei um poema antes desse, gravei no meu gravadorzinho portátil. Na última folha do livro achei esse sob o título A uma mulher: “Descobrir o amor / É ser espinho e virar flor…”

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Musiquei numa paulada só, pois já vinha tocando aquela introdução e quando fui lendo em cima da harmonia bateu perfeitamente. Faltava um refrão e nem foi preciso gastar tempo, na página da esquerda havia esse outro verso solto: “Cada louco com sua mania / Pois é / Poesia”. Não levei 10 minutos pra fechar. Outra música do EP, o próximo single Parado na esquina, também é dessa leva, com a diferença de que levei 10 anos pra terminá-la.

Neste período também saiu a maioria das canções do segundo disco. Outra foram ficando pra depois, dentre elas Pois é, poesia. Eu sempre gostei dela, só achava naquele momento que ela destoaria das outras da
banda, principalmente se fosse para entrar no Nos bastidores da falácia, não caberia no contexto. Mas sabia que ela tinha de ser gravada algum dia. Que banda não experimentou outras sonoridades na carreira? Era só esperar a ocasião propícia.

Tenho muitas músicas feitas no violão porque fiz muito acústico na noite em lugares que não comportavam a banda toda, ou não podiam pagar, hehe. E como desde 1996 toco todo final de semana pra me sustentar, desenvolvi meu jeito de tocar, abusando do capotraste no braço pra tirar outras sonoridades ou, principalmente, das cordas soltas,
fazendo os acordes abertos pra preencher o vazio de se estar tocando sozinho às vezes.

Quem foi o Marco Poeta, autor da letra?

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Foi um ícone da região do Médio Paraíba, poeta mundano, amante da natureza, da noite, e como já li num trabalho sobre ele, “um artista da palavra, do fogo e da madeira”. Além de poesias fazia trabalho artesanal em madeiras, utilizando a técnica da pirografia. Era comum vermos em bares, restaurantes daqui um cardápio feito a mão por ele; ou um quadro, um chaveiro, todos estilizados com sua assinatura e mensagens de paz. Ele nasceu em Barra Mansa (RJ) mas era muito associado à Maromba, aquela vila que fica acima de Visconde de Mauá e Maringá, que vai parar na Cachoeira do Escorrega. Suas poesias ecoavam por lá e por cá. Era um ídolo na minha turma quando começamos a sair na noite, com sua aparência de hippie (quase sempre sem camisa), chamava a atenção de todos.

Repetíamos seus poemas pela madrugada, “eu te olho, tu me olhas/eu te molho, tu me molhas/e ficamos assim”, ou num enorme e clássico dele que terminava com “cara a cara/téte-a-téte/aconteceu, virou Manchete”. Tinha verborragia, amor, chamava a montanha de namorada (“quem mais entende de amor é meu deus/que é meu amigo do peito, amigo de verdade/amor de montanha é diferente de cidade”), uivava pra Santa Clara dando “bom diaaaa” ao acordar na sua humilde morada descrita em tantos poemas.

Cheguei a mostrar Pois é, poesia pra ele várias vezes. Infelizmente não deu tempo de vê-la gravada, e com a voz do Bruno ainda por cima… Mas a mãe dele viu, me ligou chorando de emoção com o resultado. Suas poesias estão nos livros Liberdade (1984), Poetanu escuro (1991), O outro lado da coisa (1992), Imagem e semelhança (1997) e Não demoro, só quando te olho (2003). Eram livros feitos em gráficas daqui, não por editoras. Mereciam um acervo e arquivo na web.

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Fanzine virando biblioteca, oficina e objeto de estudo em Macaé (RJ)

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Fanzine virando biblioteca, oficina e objeto de estudo em Macaé (RJ)

Se tem gente por aí dizendo que os fanzines são uma mídia antiga e que as pessoas só querem saber de internet, é uma excelente oportunidade para essa pessoa conhecer a turma do Projeto IFanzine, conduzido pelo designer e cartunista Alberto Carlos Paula de Souza (o popular Beralto) no Instituto Federal Fluminense campus Macaé, Rio de Janeiro. Desde 2013, o projeto promove oficinas de fanzine e quadrinhos, e em 2017 passou a ter uma fanzinoteca, para abrigar tanto o acervo local quanto o de outros autores.

O IFanzine tem também produção própria: o zine Peibê, surgido em 2016, que já ganhou até prêmio (o Troféu Angelo Agostini na categoria fanzine). A sede da fanzinoteca tem abrigado trabalhos, mostras, encontros entre alunos e fanzineiros, além das oficinas. E fomos lá bater um papo com o Beralto pra saber o que eles andam fazendo.

Como começou seu relacionamento com os fanzines?

Nos anos 1980. Conheci o primeiro, o Notícias dos Quadrinhos do Ofeliano Almeida, do Rio de Janeiro. Daí me encantei com o mundo dos zines, especificamente os zines de quadrinhos, que é a minha praia. Daí publiquei meus quadrinhos em vários zines da época, Mutação (RS), Politiqua (RS), Aventura (RJ), Marca de Fantasia (PB), Hiperespaço (SP), etc.

Aliás, como começou a estudá-los e colecioná-los?

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Bom, o primeiro zine foi apresentado por um professor na época do ensino médio. Também as revistas Calafrio e Mestres do Terror da Editora D’Arte tinham uma sessão de cartas com anuncio de zines e daí, achando os primeiros zines, a gente achava o fio de ariadne pra transitar e interagir na nossa mídia social analógica.

Já estudar zine ou aplicá-lo na educação foi há cerca de 13 anos, quando comecei a trabalhar como servidor no Instituto Federal Fluminense campus Macaé RJ, uma escola pública da rede federal de ensino profissionalizante. O projeto de zines é uma ação de extensão acadêmica. Nesse contexto começamos a resgatar a paixão pelos zines nesse ambiente do ensino e aprendizagem e vem dando certo, a ponto de termos conseguido em 2017 um espaço físico para montar uma Fanzinoteca.

Fanzine virando biblioteca, oficina e objeto de estudo em Macaé (RJ)

Beralto (esq.) durante oficina de fanzine em escola pública

Como foi que os fanzines chegaram ao Instituto Federal Fluminense?

A partir dessa nossa proposta de oportunizar para os estudantes a proposta Do It Yourself de customizar a mídia tátil com o jeito livre, expressivo e autoral. E ao mesmo tempo apresentar aos educadores o zine como uma ferramenta acessível como estímulo à produção textual e como ferramenta avaliativa.

Fale um pouco sobre o impacto que o projeto provocou no universo dos fanzineiros. Muita gente procura vocês?

Na nossa região circulamos pelas escolas públicas promovendo oficinas de zines e em eventos culturais, eventos de rua e eventos acadêmicos. Fizemos oficinas para idade de 8 a 80, (sem exagero) e para público de ensino fundamental à pós-graduação.

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A partir da criação da Fanzinoteca passamos a receber também a visita de caravanas de estudantes, que não vêm apenas para conhecer a casa dos zines, mas conhecer a escola como um todo, mas a Fanzinoteca passou a fazer parte do tour dos alunos potenciais candidatos do processo seletivo de ingresso na escola. Os jovens com aptidão para as artes ficam encantados.

Quanto à comunidade zineira, desde a criação do projeto em 2013 temos feito parcerias, e temos recebido doações generosas de autores e aficionados da cultura zineira. E somos muito gratos à comunidade zineira por todo apoio. Temos realizado também a Mostra Peibê de Zines e Publicações Independentes que reúne autores veteranos com os novos talentos revelados pelo projeto.

Fanzine virando biblioteca, oficina e objeto de estudo em Macaé (RJ)

Trabalho de língua portuguesa na fanzinoteca

O que você tem guardado na fanzinoteca e como ela pode ser visitada?

A Fanzinoteca tem um acervo atualmente em torno de 3500 exemplares e os zines abarcam a diversidade que o zine contempla, zines de HQ, zines de música, terror e ficção científica, zines de artes visuais, zines de movimentos sociais, zines produzidos por escolas e universidades. Destaque para os zines feitos pelos alunos da escola que, feitos como um espécie de prova alternativa, após atribuição de nota, passam a fazer parte do acervo. É uma ressignificação do processo avaliativo e os docentes de língua portuguesa, espanhol, ingles, história, filosofia e sociologia são os que normalmente demandam o uso de zine nesse contexto pedagógico.

A Fanzinoteca é pública e funciona de segunda a sexta de 13h30 às 16h30, e outros horários podem ser agendados previamente pelo e-mail fanzinotecamacae@gmail.com. Autores de fanzines e publicações independentes podem agendar lançamento de publicações, educadores podem agendar oficinas de zine e visitas coletivas para acesso ao acervo. Como a pandemia estamos com as portas fechadas desde março de 2020, e esperamos retornar no ano que vem em condições seguras assim que possível.

Como vocês fazem para explicar às novas gerações o que é um fanzine, levando em conta que com a internet a novidade da “autopublicação” virou parte do dia a dia de muita gente?

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Justamente por ser o zine uma mídia pré-internet, e por embutir o modo artesanal de fazer e com o jeito analógico de curtir e compartilhar, que faz o zine ser uma novidade para o nativo digital. Pode até haver uma estranheza inicial quando propomos ao jovem fazer um zine nas oficinas, mas logo o pessoal se solta e fazem zines super criativos.

Fanzines ainda têm muito apelo no mundo digital? Como os alunos das oficinas reagem à descoberta de que é possível produzir material físico para leitura com bom conteúdo, muito talento e material caseiro?

O nosso projeto resgata e prioriza esse modo de fazer tradicional do zine, mas não descartamos a veiculação nas plataformas digitais, zine físico e zine digital podem e devem conviver pacificamente. Normalmente lançamos o zine fisicamente e depois disponibilizamos no meio digital. Os zines do projeto Fanzinoteca podem ser acessados gratuitamente no site da Editora Marca de Fantasia através deste link.

Confesso que no começo do projeto senti dificuldades de envolver os alunos, mas tudo foi questão de tempo, até o projeto alcançar visibilidade e, contando com a adesão dos professores, o zine hoje é um fenômeno “viral” na escola. Há pouco tempo descobri que os alunos antes de virem estudar aqui já ficam sabendo que tem um tal de fanzine que os professores usam às vezes como forma de avaliação. Isso é inimaginável porque há 9 anos atrás praticamente ninguém sabia, por aqui, o que é um zine.

E hoje os fanzines estão na internet, em PDF. Como vê mais essa possibilidade?

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Uma das formas possíveis de veiculação, de fazer circular os zines. Inclusive durante a pandemia criamos um repositório de zines digitais. E o link está acessível para quem quiser conhecer os web-zines e zines analógicos digitalizados. Temos contatado antigos faneditores na intenção de pedir arquivos digitais de zines para que essa memória nãos e perca. Inclusive nos oferecemos para digitalizar quando o autor não tem tempo ou recursos para esse trabalho. Eis o link da Zineteca Digital Colaborativa, a ZDC.

Fale da Peibê, a publicação feita pelo projeto. Saíram outras publicações dele?

O zine Peibê é o primeiro e principal zine de nosso projeto. O nome foi sugerido pelos estudantes, referenciando o preto e branco das revistas artesanais normalmente em fotocópia. Ele apresenta a proposta de publicar quadrinhos de estudantes da casa e de veteranos no fanzinato, o que representa uma excelente diálogo intergeracional que ajuda a incentivar os novos autores. Apreciamos muito a diversidade de estilos de fazer quadrinhos com essa proposta livre dos zines, e já publicamos quadrinhos com perfil profissional, até as HQs de homem-palito e rabiscos, ou seja, quadrinhos autorais são muito bem-vindos.

O zine Peibê chegou a ganhar um troféu Ângelo Agostini e foi muito bom como conquista coletiva e pra dar visibilidade ao projeto. O Peibê está no número 7 e a oitava edição está em preparação. Depois dele, outros zines do Coletivo Fanzinoteca foram lançados, como o Traços de Memória, Café Filosófico, Afroindi e outros, sempre trazendo a marca do talento e protagonismo dos jovens estudantes da nossa escola.

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Um papo com o Sakim de Kola: o punk vai à escola e zoa o sistema

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Hugo Panicali (voz), Rafael Cassimiro (guitarra). Vinicius “Krnero” Bordon (baixo) e André Bonini (bateria) são o Sakim de Kola, uma banda punk do interior de São Paulo que tem como missão zoar (muito) o governo brasileiro  atual e o conservadorismo, em canções como Vô mito, Carro do ovo e João Dória experiência. O EP de estreia, Cantigas pedagógicas aprovadas pelo MEC, foi ensaiado e parcialmente gravado no pátio de uma escola pública. Boa parte das letras vêm da vivência do batera André como professor. Os títulos das canções são corrosivos e auto-explicativos: UZI, Universidade Federal do Zap, Ministro da educassão, entre outras.

Aproveitamos o lançamento do EP (que dá o pontapé inicial no selo próprio deles, cujo nome, apropriadíssimo, é Quinta Série Records) e fomos bater um papo com eles para saber como surgiram a banda, o EP e a disposição para sacanear bastante essas figurinhas sombrias do poder (foto: Flávia Silvestrini/Divulgação)

Como a banda se formou e como é a cena da cidade em que vocês se formaram?

Hugo: A Sakim de Kola nasceu em 2019, em Santa Fé do Sul (SP). A banda saiu da ideia do André (baterista) e do Rafa (guitarra). Eles já possuíam uma outra banda autoral na cidade, a Cerveza de Litro, que misturava rock com música caipira e letras bem humoradas. Como a banda estava entrando num estado de inércia, eles resolveram montar uma banda de punk, com humor mais ácido e crítico. Eu, Hugo, fui chamado pelo André, que após ter escutado uns áudios meus imitando canções e fazendo umas palhaçadas julgou que eu tinha a versatilidade que ele buscava pra nova proposta. Logo após, chamamos o Krnero, nosso amigo em comum, para assumir o baixo.

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Nosso primeiro encontro para ensaiar rolou em abril de 2019, de onde foram tiradas pela primeira vez Carro do ovo e Vô mito, ambas composições feitas originalmente para a Cerveza de Litro. Uma curiosidade, antes da Sakim, tanto o André como o Krnero nunca haviam tocado seus respectivos instrumentos antes. A partir daí, nossa dinâmica de banda começou a ser construída. Nossa cidade é um reduto conservador, daquelas cidades do interior bem tradicionais, não passando de 30 mil habitantes.

Até o ano de 2017 alguns pequenos shows underground ainda ocorriam por aqui (com certa raridade, mas ocorriam) e, de vez em quando, brotava algum projeto autoral feito por amigos em comum, mas nenhum teve vida longa. O Cerveza por um bom tempo foi a única banda autoral da cidade, até seu fim e o nascimento da Sakim de Kola. Não há algo que podemos chamar de cena por aqui, as pessoas que curtem som underground são as poucas pessoas do nosso convívio, não há mais bandas e tampouco lugar para tocar. Os rolês só acontecem nas cidades ao entorno.

O repertório do disco basicamente foi formado pelas notícias que a gente tá vendo hoje no jornal e na TV. Já pararam pra pensar como vai ser explicar daqui a alguns anos esse momento que a gente tá vivendo? O disco já seria uma boa introdução?

Hugo: Estamos numa fossa histórica tão grande que vai ser um pega pra capar explicar isso tudo pras gerações futuras, haha. A quimera construída pelo conservadorismo moral aliada ao neo-liberalismo e ao fetiche militar vão deixar chagas tão profundas na nossa sociedade que resultará num árduo trabalho para recuperarmos até o mesmo básico já perdido.

Nosso EP reflete uma das faces da tragédia; o desmonte da educação, a desvalorização e repressão dos professores, a alienação dos alunos cujas máximas ambições não passam de um fetiche consumista ao passo em que são criados como futura mão de obra barata, o desdém pela ciência que os conservadores conspiracionistas promovem… Enfim, um disco cuja proposta é expor, de forma ácida e sarcástica, as entranhas desse projeto nefasto implementado no país, neste caso, na área da educação. Certamente um material que conta um pouco do que estamos vivenciando nesse momento da história, seria uma boa introdução, sim, juntamente com diversos outros materiais do meio underground com o mesmo intuito de denunciar toda essa barbárie lançados nesse mesmo período. E tem muita coisa boa por aí!

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As letras têm muito humor ácido e ironia. Como as pessoas que ouviram as músicas receberam isso? Tem gente que ouve fica chocada?

Hugo: Desde o começo a proposta da banda era essa, fazer um som debochado, sarcástico, meio maluco. Isso não reflete só nas letras, mas na nossa própria sonoridade, na fusão de gêneros do meio punk que resultam na nossa identidade. Até o momento, nunca tivemos grandes problemas com esse tipo de coisa.

Pessoal que já tá habituado com esse tipo de som sacou a proposta direto, até mesmo algumas faixas que antes nos gerava um leve receio por uma possível má recepção, como Educação Moral e Cívica, não nos deram dor de cabeça alguma com más interpretações. A canção Uzi, até o momento, foi a que mais gerou espanto, mas sempre no pessoal que não entende muito a pira do nosso estilo musical, gente de fora da cena, amigos ou familiares nossos. Algumas pessoas não sacaram o que a música quer atacar, acham que é um ode aos tiroteios em escola… pá acabar, haha! Mas quando rola algo do tipo, a gente explica, sem problemas. Como disse, no geral, pessoal sacou nossa proposta, isso nos deixa bem contentes.

André, você é professor. O quanto a vida que você leva na escola influenciou as letras? Como tá sendo dar aula num momento escroto desses?

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André: Trabalhar em uma escola pública possibilita ter uma boa visão de parte da realidade brasileira, principalmente no convívio com os alunos mais carentes. Duas contribuições marcantes dessa vivência são a letra da música Lucasmatheus, que é inspirada nas conversas de adolescentes do nono ano e também a escolha de começar o EP com um som de sirene de escola, o mesmo usado em fábricas, o que diz muito sobre como a educação é vista no Brasil. Lecionar no Brasil nunca foi fácil, mas nesse momento escroto, algumas bizarrices têm se destacado, como vereadores que querem fazer leis estúpidas para interferir no currículo e usar a escola para surfar na onda conservadora e até uma tentativa de transformar em cívico-militar a escola em que trabalho.

E como foi isso do disco ter sido gravado e ensaiado no pátio de uma escola pública? Rolou de aluno da escola terem ouvido as músicas? Tem um coral de adolescentes em Tia Neide, não?

André: Moramos numa cidade bem pequena e por isso não temos estúdios à disposição. Então ensaiar e gravar a bateria na escola foi uma alternativa bem legal já que o espaço é grande e o barulho não chega a perturbar a vizinhança. Somos muito gratos à diretora por isso e até emprestamos nosso equipamento de som para a realização da formatura do nono ano como forma de retribuir.

Os alunos acabam conhecendo as músicas por iniciativa própria, já que só tocamos lá nos fins de semana. Punk rock não está nas preferências musicais dessa geração, mas eles ficam curiosos e curtem saber que o professor toca em uma banda doida dessas. As vozes no final de “Tia Neide” são de alunos meus e foi bem massa essa participação, porque lemos a letra juntos e discutimos o sentido dela antes de gravarem os versos declamados.

Falem um pouco do Quinta Série, o selo que vocês montaram pra lançar o disco. Vão sair outras bandas por ele?

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Hugo: O Quinta Série Records, inicialmente, foi uma iniciativa nossa para lançar os sons da Sakim e de outros projetos que nós, os integrantes, pudéssemos vir a concretizar futuramente. Essa ideia tornou-se mais concreta a medida que fomos adquirindo nossos novos equipamentos de gravação, e eu, Hugo, fui estudando pra poder produzir os materiais.

Toda nossa produção é pelo do it yourself, e neste primeiro lançamento pelo selo, todo o processo, do começo ao fim, foi feito de forma genuinamente independente. Não fomos a nenhum estúdio profissional pra gravar e nem pagamos ninguém pra produzir o disco. Isso nos gerou um envolvimento maior, um propósito maior. Foi minha primeira experiência produzindo um material de forma mais séria, o intuito agora é melhorar as habilidades e conhecimentos de produção pra poder, sim, começar a produzir e lançar outras bandas e projetos underground num futuro próximo.

Nosso EP ficou bem legal, ainda que eu saiba que muita coisa ali pudesse ser melhorada, principalmente na parte de masterização. É um processo, é aprendizado que vem com o tempo. Mas sim, minha vontade maior é poder trampar com outras pessoas de fora pra poder concretizar mais e mais projetos e dar voz a outros artistas que tenham essa necessidade de gritar ao mundo suas revoltas. E que viva o barulho!

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Um papo com Flavio Tris sobre novo álbum, gravações à distância, amor e perdas

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Flavio Tris, cantor e compositor paulista, tem um hiato de quatro anos entre cada disco – era algo que ele não sabia explicar porque acontecia, mas que denota muita reflexão entre cada lançamento, ainda mais numa época em que todo mundo pisca o olho e saem vários novos álbuns e singles.

Vela, o terceiro disco, sai pelo selo Pequeno Imprevisto e tem participações de Monica Salmaso e Lenna Bahule. E é marcado, segundo o próprio Flávio, pela “interferência mínima dos arranjos instrumentais sobre o núcleo das canções”, como já acontecia com o disco anterior.

Batemos um papo com Flavio sobre a história musical dele, o novo disco e, claro, sobre como têm sido esses tempos de volta dos shows (foto: Guta Galli/Divulgação)

No release, diz que você não sabia direito porque havia uma diferença de quatro anos entre cada disco seu. Você diria que é isso tem a ver com a vontade de fazer com que seu som seja devidamente absorvido, a cada disco? Chegou a pensar sobre isso com o disco lançado?

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Possivelmente tem a ver com isso sim, até porque tenho de fato percebido que minha música é de absorção lenta. Pode bater – e bate – de primeira em alguns ouvintes, mas em muitos casos as camadas de entendimento vão sendo assimiladas aos poucos, inclusive por mim mesmo. É comum eu receber feedbacks de ouvintes que vão gostando mais das canções depois de anos da primeira escuta. Mas esse aspecto, acho eu, parece ser só uma das explicações possíveis para esse lapso regular entre os discos.

Existe também um aspecto prático, por exemplo na distância entre Sol velho lua nova (2017) e Vela (2021), que aqui se revela nas circunstâncias que me impediram de gravar esse último disco em 2019, como de início era a ideia. A doença e morte do meu pai, a falta de condições financeiras mínimas para realizar o disco. Mas justo aí reside o mistério, pois essas circunstâncias e o adiamento da gravação acabaram dando forma ao disco. Algumas canções que estão no disco nasceram depois de 2019, ou seja, não era para o disco ser gravado naquele momento, o disco veio mesmo quando tinha que vir. Aí portanto a sensação de que esse lapso era necessário e que não aconteceu por acaso, mas por razões de certa forma enigmáticas que talvez algum dia eu venha a decifrar.

Como você vê essa coisa da modernidade, de bandas e artistas lançarem singles e EPs um atrás do outro? E essa onda que chegou a rolar, de músicas bem curtas?

A onda das músicas curtas eu atribuo a certa superficialidade das novas gerações, em grande parte resultante de uma tendência de comportamento mais ansioso, menos reflexivo. Tem muito a ver com a dinâmica das redes sociais, certamente. E é claro, em termos absolutos não tenho nada contra músicas curtas, aliás a história da canção popular brasileira está cheia delas e muitas são joias indiscutíveis. Em Vela mesmo há uma canção com 2 minutos cravados. O problema não é a música ser curta, é ela ter que ser curta para atender a uma demanda mercadológica, ou pior, a uma involução geracional.

Sobre singles e EPs, sobre serem lançados a todo tempo, não vejo problema. Essa mudança na dinâmica dos lançamentos, apesar de refletir também, em certa parte, esse mecanismo “fast food” de consumir música, me parece legítima. O artista independente de hoje tem que estar trazendo atenção para a sua obra quase diariamente (o que é uma grande distorção, mas é o que é) e portanto é razoável que esses artistas estejam parando de lançar discos apenas a cada dois, três, quatro anos. Eu particularmente gosto de escutar discos inteiros e gosto de gravar discos inteiros, com dramaturgias mais complexas. Imagino que devo continuar a lançar discos inteiros, quem sabe a cada quatro anos, mas me vejo também entrando na dança e lançando singles, EPs, mergulhando em projetos paralelos.

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Você acredita que o fato de ter um espaço bom entre cada disco ajudou bastante no seu amadurecimento como compositor, cantor e criador de discos?

Eu certamente amadureci como ser humano desde o lançamento do meu primeiro disco. Imagino que isso tenha repercussão na minha obra, sobretudo considerando que minhas canções são relatos íntimos e muito verdadeiros de como eu vejo o mundo.

Como foi o processo de gravação? Foi tudo à distância?

De início gravei sozinho, em voz e violão, retirado no interior de SP, as prés do que seriam as canções do disco. Fui compartilhando tudo com o Gui Augusto, que era meu parceiro desde o início do projeto. Depois chamamos César Lacerda para a direção e concordamos em chamar novamente o Elisio Freitas para assinar a produção musical junto comigo, além de criar as guitarras e baixos do disco. Fomos para estúdio gravar o núcleo duro das canções: eu gravando violão, Gui Augusto gravando percussão, César na direção. A partir disso, exceto pela gravação das minhas vozes em estúdio alguns meses depois, tudo foi concebido, arranjado e gravado à distância. Elisio estava no RJ e todas as demais participações vocais e instrumentais foram gravadas pelos próprios músicos/cantores em suas casas ou em estúdio nas cidades onde estavam. Mixagem, masterização e arte gráfica, tudo também foi executado à distância, sempre sob a minha supervisão.

Como foi ter a Monica Salmaso no disco? O convite partiu de você?

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O convite foi ideia do César Lacerda e eu, admirador da Mônica, achei ótimo. Portanto foi nosso o convite. Mônica foi além do programado, gravou contracantos e vocalizes incríveis que não tínhamos imaginado. Abrilhantou a canção com sua musicalidade serena e potente. É um grande privilégio tê-la junto conosco em Vela.

Aliás, como foi trabalhar com o Cesar Lacerda no disco?

César é um amigo querido de longa data, um cantor/compositor extraordinário e um produtor/diretor competentíssimo. Já tínhamos trabalhado juntos em Sol velho, lua nova e o diálogo ao longo da realização de Vela fluiu de modo muito harmonioso. César foi importantíssimo em diversos momentos-chave da feitura do disco, sempre muito preciso e seguro quanto aos caminhos que devíamos seguir nas encruzilhadas com que nos deparamos ao longo do processo.

Você perdeu seu pai e tornou-se pai no meio da gravação. No que isso influenciou nas letras? Músicas como Saudade e Outras manhãs virão vem desses acontecimentos, certo?

Considerando que minhas canções são retratos das coisas que eu vivo e vejo, não havia como esses fatos não influenciarem as canções. A morte de meu pai sobretudo, pois o nascimento da minha filha aconteceu quando já estávamos finalizando as gravações. Saudade é uma canção feita para ele, após sua morte, do jeito mais franco possível. Dia da morte parece ser um tanto a voz dele mais até do que a minha, só que a canção foi criada enquanto ele ainda era vivo. Outras manhãs virão é um pouco anterior a essa vivência, nascida mesmo do meu sentimento diante da tragédia de termos eleito um presidente perverso, desumano, autoritário e incompetente, e num nível mais amplo diante da frustração de ver a ascensão do neo-fascismo no Brasil.

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Essa última música, por sinal, é a segunda mais ouvida no Spotify, do disco. O título da canção, que é bem esperançoso, deve estar atraindo muita gente para ouvi-la, não?

Essa canção acaba sendo uma provocação para lembrarmos sempre do caráter impermanente da realidade, para percebermos, mesmo dentro do olho do furacão, que muito já aconteceu antes e muito ainda vai acontecer, distante disso que estamos vivendo agora. Essa “esperança” nasce dessa percepção. E estamos quase todos precisados dessa esperança, dessa possibilidade de ver um futuro mais feliz, mais humano, mais generoso.

Fale um pouco da Lenna Bahule, que canta com você no disco.

Lenna é também uma amiga muito querida já há muitos anos. Cantora maravilhosa, compositora maravilhosa, pessoa maravilhosa. Sua participação no disco é uma imensa honra. Ela compreendeu perfeitamente o sentido da canção e sua interpretação é impecável.

Como você se envolveu profissionalmente com a música?

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Faço música desde muito cedo, pois tive aulas de piano quando criança. Pude ver um caminho como profissional da música quando comecei a compor, perto de 2004. Mas estava me formando em Direito, então ainda houve uma transição entre a advocacia e a música. No meio disso fiz um mestrado em Filosofia do Direito, cheguei a dar aulas em universidade, e enfim deixei tudo para me dedicar apenas à música. Gravei um primeiro EP em 2009, pude perceber que minha música tocava as pessoas, e soube ali que seria o primeiro de muitos. Não pretendo fazer outra coisa da vida até meu último dia.

Muita gente já está voltando a sair, a ir a shows, a reencontrar amigos. Como tem sido esse processo para você? Isso chegou a animar você a marcar shows do disco?

Eu imaginei que os shows presenciais só voltariam a acontecer em 2022, portanto estou um tanto atrasado no processo de marcar os shows da turnê de lançamento de Vela. Mas estou animado para isso sim, sempre acompanhando a evolução da pandemia, a circulação das novas cepas. Talvez ainda tenhamos que dar um passinho para trás na flexibilização das medidas de prevenção, mas estou esperançoso que, com a cobertura vacinal avançada que temos, a tendência é a volta a certa normalidade ao longo desse próximo ano.

Por conta sobretudo da nossa filha, eu e minha companheira estivemos bem rigorosos no confinamento durante esse último ano e meio, e ainda por causa dela seguimos tendo um cuidado acima do normal. Mas algum relaxamento já está sendo possível, sobretudo aqui em SP onde o vírus tem circulado menos. Ainda não me sinto seguro para sentar num boteco ao lado de desconhecidos, mas já tenho me permitido estar perto dos amigos e fiz um show recentemente nos arredores de Belo Horizonte para um público de aproximadamente 50 pessoas, com as pessoas seguindo os protocolos de prevenção. Tenho confiança de que em breve vai ser possível lançar o disco em SP. Se puder ser com sorrisos e abraços, tanto melhor.

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