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Figurótico: 20 anos de rock em Barra Mansa (RJ), comemorados com EP

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Figurótico: 20 anos de rock em Barra Mansa (RJ), comemorados com EP

Banda independente de Barra Mansa, município do interior do estado do Rio, o Figurótico completou vinte anos em 2021. O grupo teve namoros com a cena carioca (com direito a shows em festivais como as Seletivas do MADA) e o vocalista Figurótico chegou a virar músico contratado do Biquini Cavadão por alguns tempos. Pegou a vaga inclusive sendo testado pelo próprio Bruno Gouveia (vocalista), que após uma sessão de estúdio, o desafiou a cantar clássicos de bandas dos anos 1980, durante um almoço.

Hoje o grupo é um trio formado pelo cantor, ao lado de Eduardo Pança (baixo) e Paschoal Júnior (bateria). As duas décadas de rock na cidade são comemoradas pelo Figurótico (que o vocalista faz questão de esclarecer que é uma banda, não um trabalho solo) com o EP Arquitetura noturna, com sete músicas, e que vai ganhar continuação com outro EP em breve. Como primeiro single, o disco traz uma recordação da região da banda – Pois é, poesia, com letra da lenda da poesia do Médio Paraíba, Marco Poeta, e tom folk, bem diferente do som herdado do rock nacional anos 1980 do grupo.

Batemos um (longo!) papo com Figurótico sobre disco novo, a história da banda, rock em Barra Mansa, Biquini Cavadão e outros temas.

Como surgiu a opção por um som mais acústico na música nova?

Por ser muito calcada no violão de aço sempre a imaginei assim, folk. Aquela para tocar e ouvir em meio à natureza. Porém toda música é uma coisa antes de ser gravada e outra após ser. Elas se resolvem em definitivo mesmo é no estúdio. Então antes ainda pairava no ar a dúvida entre ter a banda completa ou deixa-la somente ao violão.

Diante da pandemia passamos meses sem encontrar nosso baterista pessoalmente. Ela foi a primeira “pré” a ser registrada de modo caseiro no estúdio que meu irmão adaptou aqui num quarto do terraço, durante a quarentena de 2020. Registrei apenas em voz e violão e encaminhei para o amigo e guitarrista Rodrigo Novaes. Nós dois já tínhamos feitos alguns shows em duo num bar de Volta Redonda (RJ), tocando um set totalmente acústico, onde ele usava um violão dobro.

Então naqueles shows eu já havia dito que “tinha algumas músicas com bastante violão e que se gravássemos um dia, pediria a ele pra colocar aquela sonoridade”. Ele não só gravou um dobro na música (trazendo uma frase que tinha só no fim da canção para a introdução da música) dando uma bela chamada logo na intro, como preencheu com bandolim e ainda fez as vozes de teclado que acompanhariam o solo (criado por ele) no meio da música. Pronto, naquela pré-gravação a música já tinha pra mim um aspecto totalmente definido.

Gostei de imediato. Meu irmão ouvindo-a e encaixando no computador as partes que o Rodrigo mandou, disse “é, nem vou gravar baixo nessa não”. Tudo isso sem nem ter aparecido ainda a Lei Aldir Blanc, que foi a responsável pelo EP sair do papel depois. Naquele clima de confinamento geral ainda cogitei “vamos soltar essa gravação caseira
pro público!”. Mas refleti melhor e decidi esperar um pouco pra gravá-la valendo.

Mais tarde quando já reencontramos nosso baterista pros ensaios das músicas, meses após, chegamos a testar uma levada de bateria nos refrãos e na parte do solo, mas foram descartadas. A palavra do Rodrigo teve um papel importante também. Quando gravou disse: “Meu irmão, não ponha bateria nessa faixa não, ela tá pronta”. Ele tinha razão.

Das sete músicas do EP, outras duas contam com esses instrumentos acústicos, porém a banda tocando junto. Terá momentos nessa onda, mas acústica mesmo só essa. Não chega a ter aquela coisa do Na calada da noite, do Barão Vermelho, que a gente chamava de “o disco dos violões”, mas resolvemos trazer pra este algumas que tinham essa aura e que eram mais melodiosas. Já nas outras quatro faixas restantes não tem nada de violão.

De onde vem esse nome Figurótico? Era o nome da banda e virou um apelido?

O inverso. Apelido criado pelo meu saudoso professor de violão/guitarra e das maiores referências de músico que tivemos aqui em Barra Mansa (RJ), Luiz Paulo, o Gordo. Tinha mania de apelidar os alunos. Alguns vingaram e persistiram até hoje: como o do meu irmão e baixista da banda, Pança; e do Setas, amigo de infância, músico e dono do Setas Studio (que hoje está localizado justamente onde era essa “academia de música instrumental” do Gordo), onde foi gravado a maioria do EP.

O meu era algo relacionado a ele me achar uma “figura”. De tanto eu chegar imitando os outros alunos ele dizia “chegou aquela figuraça: chegou a figura exótica, a figura erótica, isso é um Figurótico!”. Não tinha um significado exato. Aos poucos levaram para o colégio e pegou. Quando precisei usar um nome artístico fiquei num dilema entre usar um dos meus nomes/sobrenomes (Edson Flávio Pineschi de Souza), ou o apelido. Portanto é meu apelido que virou o nome da banda.

E fui sendo chamado assim desde que passei a dar aulas de violão aos iniciantes nessa escola de música; ou quando era o guitarrista do Madeira de Lei, de 1991 a 1995; e de 1996 à 2001 integrante da dupla Toni Madeira e Figurótico. Foi quando meu apelido se popularizou mesmo por aqui, pois todas as semanas gravávamos spots de rádio pros shows que fazíamos na noite, tocando de terça a domingo.

Daí quando montamos a banda em 2001 e larguei essa dupla, foi natural optarmos por este apelido, pois assim não haveria chance de ter uma outra banda com tal nome. Até um dia receber um telefonema suspeito de um cara querendo registrar este nome, perguntando se eu tinha o registro e tal, então corri atrás do trabalhoso processo de registrar a marca no INPI. Desde então temos o registro.

Fala um pouco da gravação do EP. Rolou alguma coisa diferente em relação aos outros álbuns em termos de produção?

Sim, muita. Os dois álbuns anteriores foram gravados por nosso ex-baterista Erick Leal e todo o processo de gravação daqueles se deu no estúdio dos irmãos Diogo e Tuta Macedo, o Emestudio (originalmente localizado em Volta Redonda quando gravamos o primeiro disco em 2006; e posteriormente na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro (RJ), onde gravamos o segundo, em 2012).

Agora com o baterista Paschoal Jr., registramos a bateria neste mesmo Emestudio e o restante aqui em Barra Mansa, no novíssimo Setas, do nosso amigo já citado acima que está com o que há de melhor em equipamentos. Além de ser um cara que convivemos por décadas. O local é um templo da música em Barra Mansa pra nós. Fica praticamente  ao lado de casa e no contexto pandêmico caiu como uma luva. O EP só voltou para a mão do Diogo Macedo pra ser mixado e masterizado. Visto que ele tinha feito esse processo nos dois anteriores, achamos que isso também daria identidade ao resultado final. Ter ao final do processo todas essas pessoas queridas reunidas, foi espetacular.

O que mais se difere dos álbuns anteriores é que abrimos o leque pra outros instrumentos, chamando músicos-amigos convidados (Rodrigo Novaes, ex-guitarrista do Yahoo e Gori, toca dobro e slide no disco; Dario Aragão Neto, teclados e ex-músico de Tunai; Walmer Carvalho, saxofonista do Biquini Cavadão). Se nos dois primeiros discos eu já sentia essa vontade, pensando “esse solo de guitarra poderia ser um sopro, uma flauta, etc”, mas me prendia na ideia fixa de fortalecer a identidade da banda por sermos um power trio, nesse abrimos a porteira. Até então só tínhamos experimentado o quarteto de cordas (e que quarteto!) em Amanheceu no segundo disco e a voz da Tay Cristelo numa versão em inglês Sinning by omission, que fecha aquele.

Rodrigo e Walmer gravaram de suas casas, em seus estúdios caseiros. O primeiro, de Volta Redonda (RJ); o segundo, de Juiz de Fora (MG). Dario registrou no Setas Studio. O que não mudou nada no processo foi a produção das músicas, que sempre chegaram para serem gravadas com os arranjos prontos, feitos por nós mesmos, cada um no seu instrumento e/ou decidindo em conjunto. Meu irmão Eduardo Pança e o Paschoal Júnior já na primeira audição desenvolvem suas linhas. Nunca tivemos produtores.

Apenas duas músicas do EP não contam com participação de outros músicos: a que abrirá o EP (Pra me reparar); e a que fechará (Arquitetura noturna), mas mesmo assim ambas não escaparam de ter um convidado. O amigo Altino aparece em duas frases em cada música dando sua interpretação única com sua inconfundível voz. Uma dica do Setas, que ao me ouvir gravando tais trechos disse “você está cantando igual ao Altino!”, e caímos na risada. Convocamos o Altino.

A pré-produção deste foi interessante, porque devido à pandemia acabamos tirando do papel um desejo de anos, o de fazer um home studio num quartinho de nosso terraço apenas pra ensaios e gravações caseiras. Com tudo parado, meu irmão que é arquiteto também, em poucos dias organizou a bagunça que lá estava e viabilizou um bem básico pra registros de áudio.

A pandemia acabou nos permitindo mais tempo pra testar essas coisas com calma, pois nos álbuns passados as gravações eram marcadas de acordo com a disponibilidade do estúdio e de nossa agenda de shows. Sem shows, podíamos gravar com tranquilidade. E com o anúncio da Lei Aldir Blanc, vimos finalmente que daria pra iniciar a gravação. A ideia há uns anos atrás que esse disco fosse um álbum intitulado Arquitetura noturna (e a Batalha dos Espumas). Mas analisando a era do streaming vimos que lançar álbuns já não tinha o mesmo impacto. Então o desmembramos em dois EPs. Este agora, e no futuro um outro, que se chamará A batalha dos espumas.

E só pra finalizar sobre este tema, foi um disco gravado com máscara! Só na hora de pôr as vozes definitivas na sala sozinho é que tirei. De resto, todo o processo dentro do estúdio foi assim. Nove horas gravando a primeira sessão de guitarra das músicas, por exemplo, sozinho na sala e de máscara. Paranoia total. Assim como na sessão de bateria no Rio ao tocarmos a guia pro baterista gravar, todos de máscara por oito horas seguidas de gravação.

São vinte anos de banda em 2021. Como tudo começou?

Como disse, começou bem antes de 2001. Somos da mesma faixa etária (eu 46 anos, meu irmão 45, e Paschoal 48) e todos começaram estudando loucamente seus instrumentos após o primeiro Rock in Rio e no boom do Rock Brasil. Para no início dos 1990 já estarmos nas primeiras bandas nos apresentando em colégios, praças, etc. Nossa primeira banda foi a Cheque-Mate, em 1988, entre parentes. Além de meu irmão no baixo, nosso primo Élcio Pineschi que morava no Rio vinha passar finais de semana aqui, trazia sua bateria Pinguim e tocávamos (recentemente ele reapareceu na cena tocando na sua banda de metal carioca, Unmasked Brains). Não chegamos a fazer show.

Meu primeiro “show” se é que podemos chamar de, foi com uma banda num aniversário de um amigo, em 1988, já com outro grupo de amigos. O segundo, em 1990, no dia do estudante no Colégio Verbo Divino onde estudávamos, com o nome (roubado da primeira) Cheque-mate (ao lado do meu irmão Eduardo Pança, o Setas e mais três amigos de sala).

Em 1991 entrei para o grupo de rock Madeira de Lei, onde comecei a gravar finalmente com uma banda, tinha repertório para um disco. Gravamos, mas não foi lançado. Fizemos muitos shows até 1995, incluindo uma participação no extinto Fest Valda, no Imperator em 1992. Paralelamente fui tocando com músicos mais velhos noutros projetos. Foi quando as bandas de rock daqui praticamente morreram por falta de local pra tocar, e o rock passou a ser coisa do underground.

Montamos uma dupla então. Era o vocalista dessa banda, Toni Madeira e eu no violão. Fizemos o circuito dos bares, tocando de tudo: MPB, rock e até outras coisas mais “radiofônicas” do período… rs. Ficamos muito conhecidos no sul do estado rapidamente, fazendo de 5 a 6 shows por semana, enchendo lugares. Parei de dar aulas de violão nesse período (vinha desde os 14 anos) por conta do volume de shows.

Nisso incluímos uma banda pra dar vazão à pista de dança pois tínhamos de manter as pessoas “dançando…”. Foi então que logo após o Rock in Rio 3, em 2001, eu resolvi voltar ao que tinha me posto nessa vida musical, ao rock (por isso o nome do primeiro disco). E montamos a banda com meu irmão e o baterista Erick, ambos já músicos
concorridíssimos pelos artistas daqui e que integravam a banda que servia de base à Toni Madeira e Figurótico.

Começamos num boteco chamado Sindicato do Porre e pela primeira vez eu era a voz principal de alguma banda, antes só fazia backing. Fizemos uns testes nesse bar de um amigo por um mês, fazendo shows abertos pra ver se eu aguentava o tranco de tocar e cantar uma noite inteira, assim fomos testamos um novo repertório de covers.

Logo viramos residentes uma casa em Volta Redonda (RJ), Zappata Café, tocando semanalmente e reconstruindo um público. O lema era “vamos tocar somente covers de que gostamos, sem fazer média ou aderir a qualquer tendência, apenas rock”.

Rapidamente o local fervilhou de gente e mudamos pra outra casa ao lado onde permanecemos por incríveis 5 anos ininterruptos às sextas-feiras, Cana Café. Na labuta da noite íamos buscando nossa sonoridade, tocando sem parar. Fomos achar a sonoridade mesmo durante a gravação de nosso primeiro disco, em 2004. Antes disso tínhamos apenas 4 músicas de minha autoria que pudessem ser gravadas. Essas 4 acabaram fora do primeiro disco por já termos sacado que aquilo ainda era resquício de outra época.

Foi entrega total. Entrei na faculdade de jornalismo no Rio em 2002 pra justamente me aproximar das palavras, pois queria poder escrever sozinho as letras da banda. E assim tem sido desde então, tendo sempre um ou outro parceiro nas letras, mas acabei encontrando sozinho uma forma de escrever pra banda. Tocamos em qualquer palco, desde o início. Nossa sequência de shows só foi interrompida pela pandemia. No ano de 2019, por exemplo, batemos um recorde pessoal de 217 shows, entre completos, com a banda e acústico em bares.

Os primeiros discos tinham uma sonoridade que me lembrava muito Titãs em vários momentos, e uma onda meio punk, mas dosada…

Somos uma banda de “rock brasil”, costumo dizer. Crias do brock, basicamente. Embora todos nós temos nossas peculiaridades em termos de influência no instrumento de cada um, coisas que fomos buscar lá atrás nos músicos do Deep Purple, no Clapton, Hendrix, Police, nos instrumentistas Al Di Meola, Larry Carlton, Stanley Clarke, Chick Corea, etc. Estudamos muito até nos tornarmos músicos. Todos os outros músicos da banda, por exemplo, possuem trabalho paralelo com música instrumental. Eu sou a exceção, só toco na banda mesmo.

Meu irmão, Eduardo Pança, lançou recentemente com o Setas e nosso ex-baterista, Erick, o álbum Pegadas jazz 20 anos (onde participei com uma faixa instrumental minha, Faisão), também pela Lei Aldir Blanc. E nosso baterista atual, Paschoal, toca também com a Jazz4 Band, tocando… baixo. Sim, ele toca bateria, baixo e guitarra.

Mas voltando à sonoridade da banda… você tem toda a razão! Temos muito de rock paulista sim: um pouco de Titãs, de Ira!, de Ultraje; e por consequência natural Ramones, Clash, até Surf Music. Tudo – muito bem destacado por ti – dosado, em pequenas passagens.

Ouvi de amigos agora que escutaram o EP, que “tem um Ira! aí, um Titãs ali, ou um ‘acorde’ Lobão”. Minha mãe quando ouviu Pois é, poesia gravada falou que lembrou Raul Seixas. Não posso discordar, tenho Raul e Camisa de Vênus no DNA também. Fazendo um exercício rápido, influência de surf music na banda aparece em A melhor batida de amor, Eu hospedei o meu trabalho e O trabalho me chama.

Já a de Rush, do Erick, aparece em Pasmaceira (cujas partes melódicas fiz inspirada no The Doors); e EnTerra Brasilis (cujo final fiz inspirado no Clash). Já em Pecando por omissão a influência em trechos da voz e na levada, tem um pouco de Arnaldo Brandão, outras passagens inspiradas no Clash também. Tudo sutilmente.

Como começou sua história com o Biquini Cavadão e como foi ter o Bruno Gouveia na música?

O Biquini chegou até o Emestudio, na Barra da Tijuca em 2012, por indicação de um roadie deles, o Marcos Almir, se não me engano. E ali gravaram o CD Roda gigante. Quando da pré-produção pro DVD Me leve sem destino em 2014, que comemoraria os 30 anos da banda, eles faziam uns testes pra alguém que fizesse os backings que o Bruno queria, Tuta e Diogo me indicaram.

Marcamos o teste e fui no dia seguinte. Montei um CD com as melhores do Biquini e fui ouvindo no caminho de Barra Mansa ao Rio no carro. Lá chegando Bruno pediu que eu fizesse e gravasse uns vocais e que a música que mais estavam com dificuldade de dobrar a voz era Em algum lugar no tempo. Bruno a cantou sem microfone na minha frente e aquela voz tomou conta do ambiente com uma força que eu pensei que estaria ferrado. Fiquei assustado com o poder de uma voz sem estar microfonada.

Fui pra sala de gravação e começou: “Faz essa, faça essa nota, agora essa frase…” e iam gravando tudo. Bruno explicava minuciosamente o que queria, abria vozes atrás de vozes – é mestre nisso! Em Janaína, antes que ele me indicasse onde seria o vocal eu já fiz, por conhecer a música e ter a mania de sempre ouvir os vocais. Afinal fiz muito isso no tempo com o Toni Madeira. Depois de algumas horas eles me agradeceram e disseram que iriam resolver entre os quatro que fizeram tal teste e avisariam no dia seguinte se rolou ou não. Eu os agradeci, disse que já tinha aberto muito shows deles em Volta Redonda e que já tinha sido um prazer fazer um teste de voz sendo eu um guitarrista de ofício. Eles iriam precisar que fosse guitarrista também, mas o que definiria era quem fizesse as vozes como o Bruno gostaria.

Desci, parei na loja de conveniência do posto na frente pra comer algo antes de retornar à Barra Mansa. Antes de comer o Tuta me liga, “peraí que o Bruno vai falar”. “É você mesmo, só precisava conversar com o Miguel. Pode ficar no Rio pra amanhã? Almoça com a gente agora?”. E assim foi. Sentamos no Horti-fruti para almoçar e o
Tuta pra quebrar o gelo, provocou: “Ele sabe tudo dos anos 80. Aí o Bruno: “Ah, é? Escola de Escândalos!”. E eu: “Nos seus sonhos, tudo era perfeito/Rodolfo Valentino não faria melhor” (canta Luzes). Miguel quis me testar também: “Kongo!”. E eu: “Biquini defunto, sai daí vagabundo/o rasta tava na praia, com a cabeça cheia de cana”, disparei (cantou Biquini defunto). Portanto, ter o Bruno eternizado numa faixa nossa é um sonho! Sou fã dele, pude ver de perto tudo o que ele faz pelo Biquini nos bastidores.

Além de cuidar da voz, cantar pra cacete, tem uma visão muito séria do que significa o fã pra uma banda, ele sabe de qualquer detalhe. Conhece muito de bandas inglesas, brasileiras, de literatura, de tecnologia, está atento a tudo o que cerca o mercado musical. Qual a engrenagem do streaming, dos algoritmos, etc. Quando eu e meu irmão começamos a aprender violão lá em 85, minha mãe dizia “Duardo já tá tocando aquela música, ‘sabe esses dias em que horas dizem nada?’…”. Bruno estava nos nossos cadernos de violão, agora está na nossa música, porra!

Como surgiu essa música Pois é, poesia, o primeiro single?

Essa música surgiu em 2007, quando morava no Rio pra cursar jornalismo durante a semana. Fiz muitas músicas na solidão do apartamento da Tijuca (voltava todos os fins de semana pra Barra Mansa e Volta Redonda pra tocar). Estava com um dos livrinhos de poesia do Marco Poeta (autor da letra) recém-lançado: Não demoro, só quando te olho. Musiquei um poema antes desse, gravei no meu gravadorzinho portátil. Na última folha do livro achei esse sob o título A uma mulher: “Descobrir o amor / É ser espinho e virar flor…”

Musiquei numa paulada só, pois já vinha tocando aquela introdução e quando fui lendo em cima da harmonia bateu perfeitamente. Faltava um refrão e nem foi preciso gastar tempo, na página da esquerda havia esse outro verso solto: “Cada louco com sua mania / Pois é / Poesia”. Não levei 10 minutos pra fechar. Outra música do EP, o próximo single Parado na esquina, também é dessa leva, com a diferença de que levei 10 anos pra terminá-la.

Neste período também saiu a maioria das canções do segundo disco. Outra foram ficando pra depois, dentre elas Pois é, poesia. Eu sempre gostei dela, só achava naquele momento que ela destoaria das outras da
banda, principalmente se fosse para entrar no Nos bastidores da falácia, não caberia no contexto. Mas sabia que ela tinha de ser gravada algum dia. Que banda não experimentou outras sonoridades na carreira? Era só esperar a ocasião propícia.

Tenho muitas músicas feitas no violão porque fiz muito acústico na noite em lugares que não comportavam a banda toda, ou não podiam pagar, hehe. E como desde 1996 toco todo final de semana pra me sustentar, desenvolvi meu jeito de tocar, abusando do capotraste no braço pra tirar outras sonoridades ou, principalmente, das cordas soltas,
fazendo os acordes abertos pra preencher o vazio de se estar tocando sozinho às vezes.

Quem foi o Marco Poeta, autor da letra?

Foi um ícone da região do Médio Paraíba, poeta mundano, amante da natureza, da noite, e como já li num trabalho sobre ele, “um artista da palavra, do fogo e da madeira”. Além de poesias fazia trabalho artesanal em madeiras, utilizando a técnica da pirografia. Era comum vermos em bares, restaurantes daqui um cardápio feito a mão por ele; ou um quadro, um chaveiro, todos estilizados com sua assinatura e mensagens de paz. Ele nasceu em Barra Mansa (RJ) mas era muito associado à Maromba, aquela vila que fica acima de Visconde de Mauá e Maringá, que vai parar na Cachoeira do Escorrega. Suas poesias ecoavam por lá e por cá. Era um ídolo na minha turma quando começamos a sair na noite, com sua aparência de hippie (quase sempre sem camisa), chamava a atenção de todos.

Repetíamos seus poemas pela madrugada, “eu te olho, tu me olhas/eu te molho, tu me molhas/e ficamos assim”, ou num enorme e clássico dele que terminava com “cara a cara/téte-a-téte/aconteceu, virou Manchete”. Tinha verborragia, amor, chamava a montanha de namorada (“quem mais entende de amor é meu deus/que é meu amigo do peito, amigo de verdade/amor de montanha é diferente de cidade”), uivava pra Santa Clara dando “bom diaaaa” ao acordar na sua humilde morada descrita em tantos poemas.

Cheguei a mostrar Pois é, poesia pra ele várias vezes. Infelizmente não deu tempo de vê-la gravada, e com a voz do Bruno ainda por cima… Mas a mãe dele viu, me ligou chorando de emoção com o resultado. Suas poesias estão nos livros Liberdade (1984), Poetanu escuro (1991), O outro lado da coisa (1992), Imagem e semelhança (1997) e Não demoro, só quando te olho (2003). Eram livros feitos em gráficas daqui, não por editoras. Mereciam um acervo e arquivo na web.

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Ouvimos: Pond, “Stung!”

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Ouvimos: Pond, "Stung!"
  • Stung! é o décimo disco da banda australiana Pond, hoje formada por Nick Allbrook, “Shiny” Joe Ryan, Jay “Gum” Watson, Jamie Terry e James “Gin” Ireland, todos divididos em vários instrumentos.
  • Os integrantes do grupo se dividem em mil outros trabalhos. Stung! foi realizado em sessões semanais durante um ano. “Mas acho que uma semana entre as sessões é tempo suficiente para esquecer para onde você está indo com o álbum”, disse Allbrook à Far Out. Antes que o trabalho se perdesse por falta de organização, o grupo se trancou no estúdio de um amigo em Dunsborough, na costa sudoeste da Austrália.
  • Nomes como Scott Walker, Blur e Talk Talk são citados por Allbrook como influências do disco. Quanto às letras… “Boa parte da vibração das letras do álbum é que você tem todos os motivos para odiar e temer o mundo, mas você só precisa continuar amando o mundo, e amando as pessoas”, diz.

A definição de “rock psicodélico” é pouca areia para o caminhão do Pong, mas faz sentido. Em quase todo o tempo de Stung!, eles soam balizados pelos tons viajantes, mas o principal que fica da audição do disco é a variedade musical. Que às vezes põe o grupo australiano próximo até das bandas nacionais que referenciam-se numa mescla de pós-punk, vanguardismo e Mutantes.

A discografia extensa da banda (dez discos lançados com relativamente pouco tempo de distância entre cada um, desde 2014) revela um grupo moderno, ruidoso, por vezes eletrônico e dançante, mas que usa o som dos anos 1960/1970 como uma espécie de senha musical – mais ou menos como seus confrades do Tame Impala, ou como outras formações, como Flaming Lips, ou até mesmo Beck.

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Com o sucesso do Tame Impala, o Pond (que no começo dividia integrantes com eles e tinha ares de “projeto colaborativo”, no estilo casa-de-noca em que entra e sai quem quer) ficou com a posição de primo mais estranho ainda da banda de Kevin Parker, que por sinal é ex-integrante do Pond. Houve momentos em que soaram mais pop, menos pop, mais eletrônicos. Stung!, décimo álbum, soa como uma mistura de todas essas fases, abrindo com o dream pop de Constant picnic, e seguindo com o jangle rock de (I’m) Stung, e o folk psicodélico, agridoce e misterioso de Neon river. Mas caindo logo na sequência no groove BEM pop de So lo, numa onda mais próxima do Chic e de Prince do que do Pink Floyd. E no instrumental progressivo-stoner-setentista Black lung, lembrando um King Crimson com levada.

Stung! segue com uma bela valsinha psicodélica referenciada em Beach Boys (Sunrise for the lonely), um instrumental eletrônico e dançante que soa como coisa do A wizard, a true star, clássico de Todd Rundgren (Elf bar blues), além dos oito minutos de Edge of the world pt. 3, dream pop distorcido que mais parece um Bee Gees virado do avesso. Invetem também no power pop na bela e pesada Boys don’t crash e em Last Elvis, e num r&b estranho em Elephant gun.

Nota: 9
Gravadora: Spinning Top

 

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Ouvimos: Eels, “Eels time!”

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Ouvimos: Eels, "Eels time!"
  • Eels time! é o décimo-quinto disco da banda indie norte-americana Eels, projeto capitaneado pelo músico e compositor Mark Oliver Everett. O disco traz as primeiras sessões presenciais da banda após a pandemia de Covid-19.
  • Em um dos singles do disco, Goldy, Mark (ou E, como é conhecido) faz um estranho exercício de imaginação em que pensa em seu cachorro de estimação como se fosse um peixinho dourado (!), nos versos “às vezes, as respostas para todos os seus problemas estão bem ali, no aquário sobre sua mesa”.
  • Boa parte do material do disco foi composto em colaboração com o ator americano e vocalista do All American Rejects, Tyson Ritter. Ele também ajudou na produção do álbum, ao lado de Mark e Sean Coleman.
  • A parceria surgiu depois que Mark foi convidado a trabalhar com ele em uma música para o filme Filha do prisioneiro, de Catherine Hardwicke. Quando os dois conversaram, descobriram que eram vizinhos e que já haviam estado no elenco da mesma gravadora, a DreamWorks, mas ainda não haviam se encontrado.

A carreira dos Eels já é bem sólida: são 15 álbuns (contando com esse Eels time!) e fãs sempre esperando por discos contemplativos e um tanto tristes. E não custa dizer que os últimos anos foram complexos para a banda. Os primeiros shows dos Eels após a pandemia quase fizeram o líder Mark Oliver Everett “perder a cabeça”. Há alguns meses, Everett fez uma cirurgia de coração aberto – e recordou nas redes sociais que foi salvo pela atenção que passou a dar à própria saúde, depois de perder o pai por causa de problemas cardíacos.

No disco novo, como não poderia deixar de ser, muita coisa vem movida pelo que andava passando pela cabeça de Mark antes, durante e (talvez) depois dos problemas de saúde. Time, a faixa título, traz comentários otimistas e até religiosos: “não há muito tempo agora (…)/talvez haja alguma maneira, querido deus, de eu poder ficar”. We won’t see her like again é auto-explicativa, e fala sobre “um amor sobrenatural, sem abaixo ou acima”. If I’m gonna go anywhere mexe igualmente na questão da falta de tempo e na atenção sendo sempre dada ao que importa. Let’s be lucky investe em luta e otimismo (“saia da cama/e olhe para frente/às vezes você tem que fazer sua própria sorte”).

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O álbum abre com folk tristinho e com atmosfera de nostalgia, em músicas como Time e We won’t see her like again (nessa, Mark parece cantar direto de uma máquina do tempo), sonoridade depois retomada em faixas como Song for you know who, Let’s be lucky e On the bridge. Posteriormente, Eels time! vai pra um lado mais indie-rock em Goldy, e ganha uma estileira mais Beatles-Byrds na quarta faixa, Sweet smile.

Haunted hero, uma balada quase country, e o gospel sombrio de If I’m gonna go anywhere, investem num lado comum do disco: aquela coisa do encarar a  vida, encarar a estrda, apesar de tudo, e apesar dos medos diários e do caos nosso de cada dia. Um som e uma poesia que unem fé no futuro e tons agridoces, mas que podem cansar um pouco, devido à pouca variação.

Nota: 7,5
Gravadora: Play It Again Sam

 

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Ouvimos: Fastball, “Sonic ranch”

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Ouvimos: Fastball, "Sonic ranch"
  • Sonic ranch é o nono disco de estúdio da banda texana Fastball – lembra do hit The way, que dominou as rádios pop entre 1998 e 1999? É também o sexto disco do grupo após serem dispensados da gravadora Hollywood Records, pela qual ficaram famosos.
  • O grupo surgiu em 1992 e sempre teve a mesma formação: Tony Scalzo (voz, baixo, teclados, guitarra), Joey Shuffield (bateria), Miles Zuniga (voz, guitarra). O nome é que mudou bastante: passaram a se chamar Fastball só em 1995, quando foram contratados pela Hollywood.
  • Recentemente, para manter alguns negócios funcionando (ainda mais na época da pandemia), o Fastball montou um Patreon. “Realmente ajuda a manter o dinheiro entrando. Não é muito dinheiro, mas é o tipo de dinheiro que podemos pagar por coisas que surgem”, diz Scalzo aqui.

Se você não escutou falar do Fastball após o sucesso monumental deles entre 1998 e 1999 com o hit The way, ou nem procurou saber deles, vale citar que o grupo nunca encerrou atividades, mantém a mesma formação desde o começo e, entre um ou outro intervalo, lança discos regularmente desde o platinado segundo álbum, All the pain money can buy (1998).

Mais: a onipresença de The way nas rádios no mundo todo – Brasil incluído aí –  escondeu de muita gente que o Fastball sempre foi, na verdade, uma banda que funcionava entre o punk e os anos 1960 (daí faz sentido seu maior sucesso ser uma canção abolerada e aparentada de Besame mucho). E uma banda que poderia ser classificada tranquilamente como power pop, até por trazer muitas semelhanças com grupos como Big Star. É por aí que caminha o curto e conciso (32 minutos) Sonic ranch, nono álbum de estúdio do grupo.

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Sonic ranch tem algumas pérolas de balanço sixties, como The island of me, que poderia estar na trilha de algum filme da série Austin Powers, além de Hummingbird e America, com musicalidade herdada, respectivamente, dos Beatles e dos Kinks.  Mas o álbum vai numa onda análoga à de discos como a estreia Make your mama proud (1996), com canções mais urgentes e que falam por si próprias, sem muitos ganchos especiais ou truques de sucesso.

Boa parte do material tem o pé no folk mesmo que muita coisa do disco tenha peso punk, como acontece em Daydream e na abertura com Rather be me than you. Ou nas oitentistas Let love back in your heart e Get you off my mind, soando como algum lado-B de banda britânica da época. O repertório ainda tem as delicadas I’l be on my way (essa, uma balada só de voz e piano) e Grey blue sky, além do tom Neil Young de On and on.

Nota: 8
Gravadora: Sunset Blvd Records

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