Sim, você não leu errado. A revista Playboy, cujo negócio principal tem zero utilidade para pessoas com deficiência visual, tem uma edição paralela impressa em braille. Olha aí algumas fotos.

Foto: Giupatamon (Imgur)

Não, seu engraçadinho: as fotos das modelos peladas não apareciam em alto-relevo para serem “apalpadas” ou algo do tipo. O que acontece é que – pelo menos para quem não ficou apenas nas fotos e passou a ler a revista inteira – a Playboy sempre foi sinônimo de excelente jornalismo, com grandes perfis, ótimas reportagens e textos de autores consagrados. Com a chegada do “novo jornalismo” e da turma gonzo, houve espaço para experimentações, vivências de repórteres, jornalismo-verdade, textos humorísticos e tudo o que você puder imaginar. Isso sem falar nas entrevistas, sempre reveladoras e polêmicas.

A partir de 1970, o Serviço Nacional de Biblioteca para Cegos e Deficientes Físicos (que pertencia à Biblioteca do Congresso) decidiu que os cegos não podiam ficar de fora dessa. E mandaram rodar edições da Playboy em braille, para que todo mundo pudesse ter acesso pelo menos ao ao conteúdo não-erótico da publicação. Não era a primeira vez que isso acontecia: a National Geographic também ganhou uma edição no formato.

O problema é que isso tinha acontecido nos malucões anos 1970. Nos 1980, época em que uma onda neoconservadora tomou conta do mundo, uma renca de políticos decidiu brecar a produção da Playboy para cegos. Em 1981, o senador republicano Mack Mattingly, da Geórgia, queria que a Biblioteca do Congresso ao menos acabasse com as poucas sessões mais sexualizadas que haviam sobrado na revista – a de piadas e a de cartas picantes de leitores, por exemplo. Não rolou.

Um outro deputado votou pela redução do orçamento da Biblioteca – alegando que, com o déficit, imprimir uma revista daquelas seria mal uso do dinheiro público. Seja como for, a Playboy alegou censura, o caso ficou alguns anos em discussão e a proibição foi finalmente revogada em 1986, o que permitiu que os cegos conseguissem ler sua Playboy em paz a partir daí.

Mais detalhes sobre isso, você encontra numa excelente reportagem da Timeline, que traz até uma foto de uma Playboy em braille autografada por ninguém menos que Ray Charles. Atualmente, a Playboy ainda pode ser encontrada em braille e não há muito problema para quem quiser adquirir um exemplar. A única dificuldade é que as tiragens estão ficando menores, já que com os novos aplicativos que vêm surgindo, nem todo cego lê usando o sistema.