Crítica
Ouvimos: The Struts, “Pretty vicious”

- The Struts é uma banda britânica formada em 2012 e que tem na formação Luke Spiller (voz), Adam Slack (guitarra), Jed Elliott (baixo) e Gethin Davies (bateria). Pretty vicious, lançado pelo selo Big Machine Records, é o quarto álbum da banda.
- O hit Too good at raising rell, que já ganhou um clipe bem safadinho, veio de experiências típicas do dia a dia de rockstar vividas pelo vocalista. “É definitivamente escrito a partir de pura experiência e foi escrito em uma época em que eu estava vivendo de forma bastante selvagem”, contou à Loudwire. “”Lembro-me de voltar para casa, acho que foi depois de algumas noites fora e a frase ficou circulando na minha cabeça: muito bom em criar o inferno”.
- O vocalista já foi definido como “filho musical de Freddie Mercury e Mick Jagger”, pelo jornalista Roger Goodgroves, do site Get To The Front.
A imprensa anda tratando a banda britânica The Struts como um retorno ao glam rock, ao glam metal, ou como uma espécie de tributo aos Rolling Stones. Em Pretty vicious, o álbum, isso tudo aí aparece, sim. Too good at raising hell, a faixa de abertura, é um hard rock solar com um rapzinho no meio, e faz lembrar um desvio pauleira de formações hoje esquecidas que misturavam sacanagem rueira e hip hop, como Mucky Pup – ou mesmo os hoje não tão lembrados Backyard Babies. A letra (“suítes de grife, luvas Gucci, botas Chelsea/todos os meus demônios são movidos a cocaína”) é pura estragação rocker.
No geral, os Struts são aquele tipo de artista que vai sempre andar em falta – o grupo chega ao quarto álbum dominando a arte de fazer música para aquela entidade complicada de agradar, e que muita gente diz que não existe, chamada “todo mundo”. Mais até do que a banda de Mick Jagger, sem boas doses de Billy Idol, Bruce Springsteen, New Order e Bon Jovi (é isso aí, o que é que tem?) nem sequer haveria disco. Pretty vicious, a faixa-título, cai pra cima do hard punk de FM. I won’t run é um country-rock daqueles de estourar em rádio rock no Brasil. Somebody someday encerra o álbum em clima de balada de piano e órgão, daquelas para decorar a letra.
O lado mais banal do disco fica por conta das músicas levanta-plateias, como a balada Hands on me, o power pop Rockstar, ou o baladão quase emo Bad decisions. E de fato, a banda brinca de Stones à sua maneira em Do what you want – que soa como Start me up com um refrão lembrando ABBA, se é que é possível – e em Remember the name, com acordes abertos e poderosos como os de Keith Richards. Vale dizer que também lembram um velho chupador e freguês dos Stones, o Aerosmith, no rock-gospel Gimme some blood. Falta originalidade, mas sobram atitude e manha pop, e esse Pretty vicious vai parar com folga na lista de discos bem legais de 2023.
Nota: 8
Gravadora: Big Machine Records
Foto: Reprodução da capa do álbum.
Crítica
Ouvimos: Girl Scout – “Brink”

RESENHA: Girl Scout mistura grunge, dream pop e shoegaze em Brink, com melodias fortes e clima pop. Rock estudado, variado e cheio de boas surpresas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Human Garbage Records / AWAL
Lançamento: 20 de março de 2026
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Tem uma turma enorme usando um rótulo bem louco chamado bubblegrunge, que mistura guitarras pesadas e músicas cantaroláveis. Várias bandas resenhadas no Pop Fantasma são tidas como parte dessa onda: Momma, The Beths, Mannequin Pussy e… o Girl Scout, uma banda sueca que honra a tradição das bandas suecas de fazerem música amigável e cantarolável em quase todo tipo de estilo musical.
Na real, bubblegrunge tá mais pra uma piadinha meio sem graça: mesmo em discos como Bleach, do Nirvana (1989), já havia peso lado a lado com canções próximas do power pop. O Girl Scout está mais para um tipo de banda cuja sonoridade pode ser explicada pelo rótulo “rock” – algo que os aproxima de bandas igualmente recentes como o Rocket. Brink, disco de estreia deles, está mais para um meio e caminho entre estilos como dream pop e pós-punk – e o gênero que sairia naturalmente desse cruzamento, o shoegaze, também surge lá.
Ele brota naturalmente de Song 1 (que ganha também um beat que lembra um drum’n bass orgânico), da doçura de Uh huh (cujo título é – ora, vejam só – o refrão), da onda college de Simple life (na qual o vocal de Emma Jansson lembra o de PJ Harvey) e do New Order com sujeira de Keeper. Surge até na tristeza alt folk de Ugly things ,que ganha golpes de guitar band no final. Brink é também o disco de Same kids, feita para ser algo como o momento deslavadamente pop do álbum: melodia ótima, linhas vocais e clima próximos do power pop.
- Ouvimos: Hater – Mosquito
O Girl Scout é uma banda que surgiu da mistura sonora: Emma Jansson, Per Lindberg e Kevin Hamring estudavam jazz na Escola Real de Música de Estocolmo quando decidiram montar uma banda de rock. O som de Brink segue uma tendência dos dias de hoje: não é o tipo de som que “brota” espontaneamente e não seria feito sem muita audição, pesquisa e com algo próximo do estudo de música. No caso, se não for o estudo de partituras, pelo menos a escuta detalhada de inúmeros discos.
Vai daí que Dead dog soa como um Pretenders mais sujo, um Clash mais pop, ou um Joy Division (o de faixas como Interzone e Shadowplay), mas com riffs e acordes menos sombrios – e basicamente é coisa de suecos bons de melodia. The kill une dores vindas do folk e do grunge, Crumbs tem elementos herdados de power pop, Pixies, New Order e até Paul McCartney (surge lá pelas tantas um “do me a favor” no mesmo tom de Let’em in) e Homecoming, no final, é total emparedamento sonoro com guitarra, teclados e voz – mesmo abrindo com vibe folk e ganhando compasso ternário. Uma ótima surpresa.
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Crítica
Ouvimos: Ivyo – “Frequência tropical”

RESENHA: Ivyo mistura beats eletrônicos e ritmos afro-baianos em disco que cruza tradição, pista e MPB, com participações e clima de pesquisa sonora.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Sanamba Music
Lançamento: 19 de novembro de 2025
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Ivyo é um produtor, DJ e percussionista baiano ligado à união de sons afro e criações eletrônicas – no mesmo caminho de artistas como BaianaSystem. Frequência tropical, estreia de Ivyo, tem lá suas ambições: a ideia é fazer um trabalho de pesquisa musical que una climas dançantes e uma onda tropicalista, continuada de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Novos Baianos. Uma onda que passa também pela evolução dos sons baianos de Carnaval em Carnaval, e pelo cruzamento de batidas eletrônicas e orgânicas – elementos de pagodão, UK Garage, funk carioca e tech house vão passando rapidamente pelas faixas.
- Ouvimos: Janine Mathias – O rap do meu samba
Com participações de nomes como Tássia Reis, Hiran, Bia Trindade e Rafael Mike na interpretação das músicas, Frequência tropical inclui elementos de rap e trap em faixas como o samba com beat eletrônico Caminhos abertos, e o axé de luxo Encontrar. Mas tem conexão com a MPB dos anos 1980, de antes do termo “axé music” surgir, em Estações (que cita o beat de ijexá de Queixa, de Caetano Veloso). Xaxado, baião, parte para o Nordeste eletrônico, e Tapete sagrado une percussões e batidas inorgânicas, citando nomes de nações dos cultos afro.
Yabá, no final, é uma síntese do disco, incorporando candomblé e batidões, samba do recôncavo baiano e axé, e ganhando ares de gira eletrônica, com participação do percussionista Ronald Alagan. Ivyo conta que uma preocupação de Frequência tropical é unir novidade e ancestralidade. Acaba transformando, por conta disso, seu disco num documento sonoro.
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Crítica
Ouvimos: Obelga – “Último ensaio sobre seus olhos”

RESENHA: Obelga estreia com rap que mistura boogie, soul e MPB oitentista, priorizando clima e sofisticação pop mais que rimas, com faixas dançantes e detalhistas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: RISCO
Lançamento: 19 de novembro de 2025
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O rapper mineiro Obelga vem de Uberlândia, foca numa paleta de temas que vai do amor às dores do dia a dia, e tem um relacionamento sério com a visão de MPB partilhada por artistas como Ana Frango Elétrico e Julia Mestre: a música nacional transante dos anos 1980, influenciada pelos synths de Lincoln Olivetti, pelos timbres de guitarra de Robson Jorge e por aquele boogie que surgia em vinhetas de TV e trilhas de novela.
Último ensaio sobre seus olhos, álbum de estreia de Obelga, já adianta esse design musical em Descansar é pecado – rap romântico e dançante, com a própria Ana nos vocais – além dela, nomes como VND, Murica, JOCA, Dadá Joãozinho e Tarcis vão surgindo aos poucos. O clima de viagem sonora entre o soul e o boogie prossegue no pós-disco Indecisa e suspeita, e na variedade musical de Particular, que abre como soul-reggae, ganha micropontos de psicodelia e vai ficando cada vez mais dançante.
33 noites, por sua vez, investe na dance music jazzística, e Sala de espera tem clima de voo, tranquilidade sonora e heranças do soul de Cassiano. Já Vilão é soul com ritmo quebrado, vocal em falsete e vibes de samba e jazz. Parece desde o começo um disco feito com atenção a detalhes e sem a menor pressa, e é mesmo: o trabalho em Último ensaio surgiu em 2021 quando o co-produtor RyamBeatz começou a enviar beats para o rapper.
Assumidamente inspirado em artistas como Quincy Jones, Isaac Hayes e Mano Brown, Obelga talvez seja o nome do rap atual que parece mais interessado em dar um verniz de sofisticação pop ao estilo. Na real, Último ensaio é marcado mais pela busca de um conceito musical destacado do que pela rima perfeita. Muito embora a combinação de bons versos e melodias de primeira seja o prato principal de faixas como a psicodélica Céu de casa (sobre sonhos, ostentação e pequenas vinganças) e Num bairro no canto do mundo. No final, brilham o piano e os vocais altamente melódicos de Minha vez, som que consegue combinar climas noturnos e solares.








































