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Crítica

Ouvimos: Rolling Stones – “Foreign tongues”

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Agora vai! Rolling Stones anunciam oficialmente "Foreign tongues", o novo disco

RESENHA: Foreign tongues mostra Rolling Stones inspirados, equilibrando tradição e novidade em um disco cheio de músicas com potencial de clássico.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Polydor
Lançamento: 10 de julho de 2026

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O mercado no qual sai Foreign tongues, disco novo dos Rolling Stones, é ingrato: milhares de álbuns lançados a cada sexta-feira, atenção sendo disputada com mídias bem diferentes (de séries e influencers a sites de fofoca, já que tudo “sai” na internet e está ao alcance de um clique). Ainda tem a concorrência com artistas de vários outros nichos – porque depois de tanto tempo, os Stones nem são apenas uma “banda de rock”, são um acontecimento a ser acompanhado, um circo, uma Copa do Mundo rocker.

  • Mais sobre Foreign tongues aqui.

Com isso tudo aí, vale acrescentar que a formação de um “hit clássico” dos Rolling Stones em 2026 segue uma rotina bem diferente da de 30, 40, 50 anos atrás – se bobear, nem Mick Jagger, Keith Richards, Ron Wood e seus colaboradores sabem direito qual seria essa rotina hoje em dia. E olha que Foreign tongues, mais do que Hackney diamonds (2024), tem algumas músicas que talvez, quem sabe, os fãs vão guardar na memória para sempre.

Divine intervention tem muito dos Stones clássicos, Mr Charm, e Covered in you também, a belíssima In the stars também, a cover de Beautiful Delilah (Chuck Berry) idem. Todas têm a cara de um “hit” dos Stones, vindo da mesma onda que gerou várias músicas ótimas deles. Dá pra perceber que, cercado de amigos e colaboradores, e já entrosado com Andrew Watt na produção, o trio restante conseguiu arrumar uma maneira de “ser” os Rolling Stones em 2026. Mais até do que no disco anterior.

Isso já é muita coisa, porque muitas bandas experientes perdem integrantes, veem o tempo passar e não conseguem fazer ajustes – ou começam a soar tão diferentes delas próprias, que a saída acaba sendo regravar e reproduzir o passado. Os Stones de 2026 são cidadãos irritados com Donald Trump (mas que não ousam dizer o nome dele no belo country Ringing hollow). São músicos que conseguem ir dos anos 1970 aos 1980 em poucos minutos – e sim, Never wanna lose you, com Robert Smith nos sintetizadores e nos vocais, soa como uma canção do The Cure repaginada, o que mostra a excelência do grupo na arte de elencar feats.

Seja lá que problema Keith Richards tenha nas mãos, ele continua sendo um ótimo compositor e criador de riffs – assim como Mick Jagger parece o mesmo de sempre, conseguindo mandar bala até na safadeza em falsete (no single Jealous lover, com vocais na cola de Emotional rescue, de 1980). O grupo consegue soar até meio punk + pub rock em Hit me in the head. E Keith Richards, como segundo vocalista, ganha ares de Lou Reed na faixa-solo Some of us – um belo hino gospel que explica que a felicidade não se compra (“você sabe que não podemos ter tudo / alguns de nós estamos de joelhos”).

O que tem de desnecessário em Foreign tongues não incomoda ninguém – o blues Back in your life caberia mais num disco solo de Mick Jagger, e a versão de You know I’m no good, de Amy Winehouse, tem cara de lado B de single que subiu de posto. Mas é isso: os Stones em 2026 estão tão felizes com eles mesmos que dá pra perceber isso em cada acorde do novo disco.

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Crítica

Ouvimos: Fat Dog – “Cancel me (I’m tired)”

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Resenha: Fat Dog - "Cancel me (I’m tired)"

RESENHA: No segundo álbum, Cancel me (I’m tired), o Fat Dog leva o dance-punk a novos extremos, misturando new rave, synthpop, guitarras pesadas e humor politicamente incorreto em músicas sobre poder, opressão e esgotamento.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Domino Recording Co.
Lançamento: 2 de outubro de 2026

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Juro que quando ouvi o Fat Dog pela primeira vez, achei que aquela classe toda fosse gerar uma banda legal, e nada mais do que isso. Woof, a estreia dessa banda britânica (2024, resenhado aqui), revelava um grupo atrevido, imaginativo, chegado a uma estranha mistura de disco music, música eletrônica, emo e sons pesados e dançantes de modo geral – e que poderia ser categorizado naturalmente como indie sleaze, dance-punk, coisas do tipo.

Vai daí que Cancel me (I’m tired), o segundo álbum, é bem mais do que apenas uma surpresa, já que se trata de uma banda que reza no credo de grupos com Viagra Boys, Yard Act e até Shame, mas com personalidade própria. O Fat Dog voltou carregando mais ainda no humor absurdo e num clima musical que coloca a banda como sobrinhos da geração new rave (lembra desse nome?). Ou como uma turma que entendeu que o politicamente incorreto está em mãos erradas, e se arrisca a entrar para o mesmo local onde hoje residem as camisas da seleção brasileira.

Nomes como Devo, Happy Mondays, Battles, David Bowie e até Kaiser Chiefs surgem como evocações e lembranças do álbum, em canções como Smile and wave (quase Viagra Boys + Shame + dance punk), Go fuck urself (rastros de Der kommissar, de Falco, mas com um ar meio chique dado pelo saxofone) e a ótima Shit love – esta, uma zoeira entre rock e música eletrônica, com guitarras em tom sabbathiano.

O eletro-punk comanda em especial The devil, Bad dog (beat pesado e onda sonora próxima de Master Peace), Call it what you want e a ótima faixa-título – mas no novo testamento, o Fat Dog também promove a união de Bowie, Lloyd Cole e synthpop em Heart of darkness, além de unir country e orquestra em Snakes, e de fechar o álbum com uma balada grandiosa e bem diferente do restante do álbum, Aliens.

Nas letras, o Fat Dog aponta suas armas para tudo aquilo que possa significar poder e opressão existencial – tipo o excesso de expectativas e aporrinhações na faixa-título (na qual eles consideram a hipótese até de usar IA para fazer música), Smile and wave e Go fuck urself. Gente com quem o diabo acharia melhor não fazer um pacto aparece em The devil, a revolta política dá as caras em Call it that you want, e gente problemática e “poderosa” cai do cavalo em Bad dog e Heart of darkness. Que virada.

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Crítica

Ouvimos: Naimaculada – “Acromatopsia” (EP)

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Resenha: Naimaculada - "Acromatopsia" (EP)

RESENHA: Em Acromatopsia, o Naimaculada transforma uma São Paulo cinzenta e padronizada em música, cruzando MPB, metal, jazz e rock progressivo, com participações de Kiko Dinucci, BNegão e outros convidados.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Deck
Lançamento: 14 de setembro de 2026

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A modernidade, segundo gente de áreas como arquitetura e design, e artistas visuais em geral, está se tornando um deserto sem cores, ou com pouca variedade de tonalidades. Basta você olhar para uma área mais colorida ou até poluída visualmente, para que aquilo seja automaticamente associado aos anos 1980. Em compensação, é na era dos lugares “instagramáveis” que tudo parece ficar igual, asséptico, com as mesmas cores – e, no caso do próprio Instagram, com as mesmas fontes de letras.

Indo mais além, nada como a era da IA para tudo ficar REALMENTE parecido – e nem só os textos, mas as ideias, os estilos de vida e uma espécie de combo on-offline da vida, do trabalho e da psiqué de todo mundo. O EP novo do Naimaculada, Acromatopsia, é uma espécie de voyeur dessa falta de variedades tonais: o grupo passeia por uma São Paulo em que tudo é preto e branco.

Apresentando vários convidados (Thalin, do projeto Maria Esmeralda, Nabru, Sol, Kiko Dinucci e BNegão) e parte das gravações realizadas em Shijiazhuang, na China – com músicos tocando instrumentos locais – Acromatopsia vai bem além do progressivo altamente brasileiro e vigoroso da estreia A cor mais próxima do cinza (2024). O título faz referência a uma condição visual rara caracterizada pela incapacidade total ou parcial de perceber as cores. As letras enxergam tudo por esse prisma, em que São Paulo é um festival de inércias e engessamentos, um paraíso que reluz de longe, mas não de perto.

Com a voz forte de Ricardo Paes à frente, as músicas soam as vezes como um improvável encontro entre Black Sabbath, Gilberto Gil e Luiz Melodia, partindo para o jazz do inferno em O pecado tem medo, para um progressivo “distante” em Shangri-La (com os músicos chineses) e para uma MPB-metal afrontosa em O que é que será? Já Terminal Bandeira, com Kiko Dinucci, fica no mesmo corredor de Medusa, novo álbum do músico – abre com uma guitarra bem própria, e vai achando um caminho igualmente particular para chegar a algo que lembra um pós-hardcore. Ou um Nintendocore.

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Ouvimos: O Preço – “Caóticas palavras”

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Resenha: O Preço – “Caóticas palavras”

RESENHA: Liderado por Christian Targa, fundador dos Blind Pigs, O Preço mistura street punk, ska e reggae em Caóticas palavras, disco de protesto sobre desinformação, escolhas políticas e resistência popular.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 5 de outubro de 2026

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Banda punk paulista liderada por Christian Targa (voz e guitarra), um dos fundadores do Blind Pigs, O Preço não escolheu esse nome à toa: o repertório do álbum Caóticas palavras fala sobre o preço que todo mundo anda pagando pelas escolhas mais erradas que o mundo tem feito. E adianta algumas coisas que, se ninguém tomar cuidado, podem acontecer após o segundo turno das eleições presidenciais no Brasil.

O som do O Preço tem a ver com a vocação rueira do punk dos anos 1970 e 1980, quase sempre apontando para o clima street punk de bandas como Angelic Upstarts, ou para uma versão mais acelerada de bandas como The Clash e The Damned. Começo imediato abre o disco falando em derrotas inaceitáveis e lembra que a vanguarda é o cidadão trabalhador. Maldita calamidade fala de desinformações do dia a dia, em clima que lembra Richard Hell & The Voidods.

No decorrer de Caóticas palavras, hinos marciais como Cara planilha e Desumano não unem-se a canções de guerra como Revolver a evolução, Enquanto houver a esperança e Parentes e amigos – além de letras irônicas e realistas como a de Muamba militar. Inserido no contexto do punk setentista, e recuperados ao longo da história do estilo, gêneros como reggae e ska surgem na faixa-título e no rap-reggae O ska é a munição, com Bocão DRR soltando o verbo do lado da banda.

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