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Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre Sticky Fingers, dos Rolling Stones

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Várias coisas que você já sabia sobre Sticky Fingers, dos Rolling Stones

Lançado em 23 de abril de 1971, Sticky fingers, nono disco de estúdio dos Rolling Stones, virou cinquentão sem perder a juventude e o charme. E sem perder o lado provocativo. Estressados com a mudança de gravadora, com brigas entre a banda e empresários, e com a mudança para o Sul da França (embora negassem que iriam para um “paraíso fiscal”), os Stones vinham de um período mais movimentado e estressante ainda. Em 1969, a banda tinha se apresentado no festival de Altamont, que terminou com briga generalizada, roubos, depredação e quatro mortes (uma delas, por esfaqueamento).

Os fantasmas da violência e da despedida em tons sombrios dos anos 1960 ainda rondavam as cabeças de Mick Jagger (voz), Keith Richards (guitarra), Mick Taylor (guitarra solo), Bill Wyman (baixo) e Charlie Watts (bateria) quando começaram a fazer o novo disco. Assim que Sticky fingers saiu, os fãs tiveram acesso a um universo que falava de aventuras sexuais (Brown sugar, Bitch), o ranço do dia a dia (Sway), drogas (Sister morphine), charme da decadência (Dead flowers). O disco ainda consolidava a presença de Mick Taylor, ex-John Mayall’s Bluesbreakers, na banda desde 1969.

Sticky fingers já teve diversos relançamentos, incluindo um em 2015 com faixas bônus. Hoje  chega aos 50 anos como um dos melhores e mais inspiradores discos da historia do rock. E tá aí nosso relatório sobre ele. Ouça lendo, leia ouvindo.

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ME EMPRESTA CINCO PAUS? Havia uma preocupação rondando as cabeças de Mick Jagger e Keith Richards na época de Sticky fingers: dinheiro. A banda, que saía da gravadora Decca/London, se julgava roubada pelo empresário Allen Klein, figurinha controversa, e dono da produtora Abkco. Keith Richards conta que o grupo descobriu que ele era o único proprietário de uma empresa nos EUA, feita só para lucrar com os Stones.

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GRANA E MAIS GRANA. O banqueiro (e príncipe) Rupert Loewenstein, consultor financeiro dos Stones desde 1968, vivia falando o quanto eles estavam sendo roubados por Klein. E convenceu o grupo das vantagens fiscais de se mudarem para o Sul da França. Também persuadiu a banda a passar a ensaiar no Canadá, para diminuir os gastos, e conseguiu grandes patrocinadores para as turnês. Em contrapartida, os RS iniciavam enorme temporada de processos contra Klein, que se arrastaria por quase duas décadas.

ALIÁS E A PROPÓSITO, os Stones foram para a França para fugir do fisco da Inglaterra. Mas graças a uma reforma fiscal, hoje em dia o que mais tem é celebridade fugindo da França para pagar menos impostos.

MEUS QUERIDOS ROYALTIES. Nos anos 1960, havia ainda uma discussão sobre se contratos valiam para LPs ou músicas gravadas. Aliás, também sobre se tudo o que um artista houvesse gravado enquanto estava sob contrato era realmente de propriedade da gravadora, mesmo que fossem demos inacabadas. Klein seria o proprietário de tudo que o grupo gravasse para Sticky fingers, caso a banda não tivesse brigado, já que ele reclamava tudo que a banda gravasse até o fim de 1971. No fim, foram agregados ao antigo contrato da banda com a Abkco os singles de Wild horses e Brown sugar – que saíram até em coletâneas da banda, como a caixa The London years.

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E COMEÇOU A GRAVAÇÃO! Sticky fingers havia sido iniciado ainda em 1969, com gravações da banda no estúdio Muscle Shoals, no Alabama. You gotta move, Brown sugar e Wild horses vieram de lá. Sister morphine havia sido uma sobra de Let it bleed (1969) e deixada para outro lançamento. Mas a coisa pegou mesmo fogo quando a banda instalou uma unidade móvel numa van em Stargroves, casa de campo de Mick Jagger em Newbury, cidade no condado de Berkshire, na Inglaterra em março de 1970.

CASARÃO. Com a entrada de grana na vida dos Stones, os músicos começaram a comprar casas, embora passassem a maior parte do tempo na estrada. Stargroves havia custado a Jagger a bagatela de 37 mil libras em dezembro de 1967, e o cantor ainda despejou uma carreta de grana na reforma do imóvel, que estava em ruínas. Mick gostava de ir para lá junto com Marianne Faithfull porque podia fazer o que quisesse sem ser incomodado, desde ir a lojas locais tomar sorvete com Nicholas, filho de quatro anos da namorada, até usar drogas sem riscos (já que o local estava fora do radar do esquadrão de drogas).

POBREMAS. Durante as gravações, uma coisa precisava ser resolvida pela banda, em especial pela dupla de compositores: como mostrar que os Stones estavam atualizados com o que acontecia no mundo do rock? Jagger parecia atualizado com a nascente onda do hard rock, Keith parecia imerso em seu próprio mundo e estava cada vez mais drogado (com direito ao que chamava de “tempo para se drogar”, que atrasava gravações e o levava a faltar a sessões importantes). Bill Wyman chegou a afirmar que Mick queria sucessos, mas Keith “não estava nem aí”.

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ESTÚDIO MÓVEL. O nome “Rolling Stones mobile studios” virou sinônimo de tecnologia. A primeira versão funcional do estúdio, com oito canais, foi usada por bandas como The Who, Led Zeppelin e Deep Purple. Volta e meia era cedido também para o Festival de Montreux. Aliás, num incêndio durante um show de Frank Zappa no evento, o estúdio quase pegou fogo enquanto o Deep Purple gravava o disco Machine head. O sucesso Smoke on the water é sobre isso, se você não sabia.

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POR SINAL, o tal incêndio não foi só um foguinho. Um maluco disparara um sinalizador para o teto do Cassino Montreux e começou tudo. Frank Zappa avisara à plateia durante seu show sobre o incêndio, pedindo calma. Houve uma evacuação 100% controlada – apesar de um grupo ter ficado preso no porão do local e sido resgatado pelo próprio dono da casa, Claude Nobs. O prédio ficou em chamas e precisou ser reconstruído. O Deep Purple gravava bem perto e viu tudo.

ALIÁS E A PROPÓSITO, mesmo com a produção de Jimmy Miller, músicos convidados como o saxofonista Bobby Keys e o pianista Jim Price gravavam quase tudo sozinhos.

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O GRUPO foi retrabalhando algumas canções, ainda que aos pedaços. Mick Taylor foi indelicadamente retirado de Moonlight mile (cujo nome “de trabalho” era Japanese thing), com Richards lhe dizendo que ele “tocava alto demais”. Já Can’t you hear me knocking, por causa da parte final em clima de jazz latino, reuniu todo mundo no estúdio. O álbum ainda teve gravações feitas em dois estúdios londrinos, Trident e Olympic.

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FANTASMA DO PASSADO. Querendo sair da Decca, os Stones mexeram nas fitas de shows que tinham dado em Nova York e Baltimore em novembro de 1969. A ideia era fechar o contrato com a gravadora da maneira mais tranquila possível (disco ao vivo, enfim) e responder à crescente onda dos discos piratas. Get yer ya-ya’s out saiu em 4 de setembro de 1970, com Sticky fingers em andamento.

SÓ QUE ainda assim a banda descobriu que devia um single para a Decca. Mick compôs e gravou (no Stargroves, durante os dias de Sticky fingers) Schoolboy blues, conhecida como Cocksucker blues. A letra falava de sexo oral, anal e prostituição masculina e assustaria qualquer dono de gravadora. A Decca não fez por menos: engavetou a canção e, como retaliação à malandragem dos Stones, soltou a coletânea Stone age, que se tornaria popular o suficiente para amedrontar a banda, já que estavam lançando disco novo.

SELINHO. Sem a Decca e com Allen Klein afastado do universo dos Stones (ainda que volta e meia aparecesse para reclamar direitos sobre músicas supostamente compostas sob sua gestão e lançadas depois), os Stones realizaram um sonho e puseram na rua sua própria gravadora. A Rolling Stones Records era “do grupo”, mas era chefiada por Marshall Chess, filho do fundador da Chess Records, Leonard Chess.

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HÁ QUEM COMENTE que a gravadora era só uma fachada para disfarçar o fato de que a banda estava sem gravadora e entrara em leilão. Mas por fim, quem levaria a melhor seria o Kinney Group, definido pelo biógrafo dos Stones, Christopher Sandford, como “uma empresa fraudulenta, que supostamente envolvia a máfia, com uma divisão de estacionamentos e uma divisão mortuária”. Acontece que a Kinney era dona da Atlantic Records na época, e a banda ganhou um contrato de distribuição mundial de 5,7 milhões de dólares.

ALIÁS E A PROPÓSITO, os Stones, em dada altura, foram cortejados pela RCA, gravadora de Elvis Presley, e futura casa de David Bowie, Lou Reed e Iggy Pop. Quase aceitaram.

SÓ PARA ELES. A ideia original da Rolling Stones Records não era lançar novos artistas, apesar de “lançamentos de novos talentos” constar do release inicial do selo. A gravadora servia para dar aos Stones mais controle sobre seus discos, além de espaço para gravações solo de seus integrantes. O baixista Bill Wyman lançou dois (bons) solo nos anos 1970, mas que passaram despercebidos porque a gravadora já estava ocupada demais com os lançamentos da banda. Mas o primeiro lançamento da Rolling Stones Records foi o seminal Brian Jones presents the Pipes of Pan at Joujouka, gravado no Marrocos pelo falecido Brian Jones em 1969, e guardado até 1971.

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SÓ QUE a gravadora chegou a lançar outros nomes ocasionalmente. Lançaram o Cracker, um grupo cubano-americano que soltou discos lá a partir de 1973. E ninguém menos que Peter Tosh, reggaeman que conseguiu sucesso com o disco Bush doctor, em 1981, mas acabou deixando o selo após desentendimentos com Keith Richards (em cuja casa se hospedou, e da qual não queria mais sair). O vocalista do The Mamas & The Papas, John Phillips, fez contrato solo com a gravadora, deixou lá umas canções prontas – nas quais era acompanhado por quase todos os stones – mas o material só saiu em 2001 sob o título Pay, pack and follow.

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OS STONES, diga-se, estavam seguindo uma tendência famosa entre bandas que vendiam bem, tinham público certo e desejavam mais liberdade criativa. O Deep Purple soltou a Purple Records, o Jefferson Airplane, a Grunt, e o Led Zeppelin, só em 1976, pôs para rodar a Swan Song Records. A Apple, dos Beatles, era modelo para essa turma toda, tanto do que fazer quanto do que não fazer (ou seja: contratar um monte de gente ao mesmo tempo, investir em negócios sem sentido e deixar correr uma sangria de dinheiro). Mas vale citar que até Paul McCartney e George Harrison, já em carreira solo, lançaram seus selos (MPL e Dark Horse, respectivamente).

ALIÁS E A PROPÓSITO, Jagger decidiu que os discos dos Stones em seu selo teriam número de série iniciado com as letras COC (uma piada com “cock”, termo chulo para o órgão sexual masculino). A partir de 1978, substituiria as três letras por CUN (redução de “cunt”, o mesmo para o órgão sexual feminino). Sticky fingers era o COC-59 100.

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A HISTÓRIA DE QUE os Stones estavam tentando desfrutar da vida em exílios fiscais já começava a chegar aos ouvidos de alguns críticos. Em 4 de março de 1971, a banda começava a rodar com uma turnê britânica e o Daily Telegraph queixou-se de que a “vantagem tributária pessoal” era a única prioridade para o grupo. Em 6 de abril de 1971, pouco antes de Sticky fingers sair, os Stones fizeram um cruzeiro num navio com seu logotipo, seguindo até Cannes para assinar contrato com a Kinney-Atlantic.

DROGAS E ROCK’N ROLL. Sticky fingers talvez seja o disco de rock que mais dispara referências a drogas. As letras falam em “olhos de cocaína” (em Can’t you hear me knocking), “dança de viciado em anfetamina” (na mesma música), “cabeça cheia de neve” (em Moonlight mile, outra referência à coca) e ainda havia Sister morphine, relato do dia a dia de um viciado em heroína, com letra de Marianne Faithfull, surrupiada por Jagger e Richards. A cantora e ex-mulher de Jagger passou anos amargando a puxada de tapete, mas em 1994 entrou na justiça. Keith Richards admitiu a chupada em sua autobiografia Vida.

DORGAS, MANO. Keith Richards refletiu sobre o excesso de drogas em sua vida nessa época, no livro Vida, e questionou como foi possível fazer tanta música sob o signo de uma das drogas mais pesadas do mundo. Keith diz que não recomenda heroína a ninguém, mas garante que a droga tem pontos positivos. “Em muitos casos ela é um grande nivelador. Depois que você começa a tomá-la, é capaz de enfrentar tudo que surgir na sua frente”, conta ele, que estava extremamente estressado com a mudança para o Sul da França.

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DE VOLTA AO COMEÇO. Apesar de haver arranjos de cordas e metais aqui e ali, Sticky fingers foi recebido pela maioria dos críticos musicais como uma volta ao básico – ainda que os Stones não tivessem condições de soar tão “básicos” quanto soavam quase dez anos antes. A Rolling Stone via em Brown sugar uma das introduções clássicas de guitarra da banda, por exemplo. Mas Jon Landau, que resenhou o disco para a revista, ressaltava que a banda parecia desinteressada em alguns momentos do disco. Lester Bangs, no entanto, classificou-o como “o disco do ano” na pesquisa entre críticos do Village Voice.

VENDEU, AFINAL? Bastante. Em maio de 1971, Sticky fingers foi direto para o primeiro lugar da parada britânica, e passou 69 semanas na Billboard 200. Até hoje, foram mais de nove milhões e trezentas cópias vendidas.

E A CAPA? Passou para a história que o ator Joe Dallessandro, da trupe de Andy Warhol, tinha sido o modelo da capa de Sticky fingers, mas há controvérsias. Warhol fez o design e Billy Name fez a foto, e foram vários os clicados. Há quem diga que Jed Johnson, amante do designer na época, era o garoto da capa. Dallessandro costuma afirmar que ele tinha sido fotografado. O zíper, também ideia do designer, teve que ser cuidadosamente posicionado no lugar do selo do LP, já que alguns lojistas reclamaram que ele arranhava o vinil após os empilhamentos para a distribuição. O trabalho gráfico clássico do disco rendeu a Andy Warhol o equivalente hoje a uns US$ 200 mil, uma soma bem grande de dinheiro para 1971.

>>> Veja também no POP FANTASMA: Umano non umano: Mick Jagger e Keith Richards num filme italiano de 1969

ALIÁS E A PROPÓSITO, mesmo levando o nome de Warhol, a capa acabou sendo feita quase que totalmente por um dos maiores colaboradores do artista, Craig Braun.

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BLÉ. Craig também fez os últimos ajustes no logotipo da nova gravadora dos Stones, dando a ele o tom de vermelho que tornou a ideia famosa. Jagger sugerira a John Pasche, um estudante de artes recrutado na Royal College of Art (e que desenhara um pôster para uma turnê da banda) que copiasse a língua da deusa hindu Kali. Pasche fez os primeiros desenhos, mandou para Craig e este ajustou os tons de vermelho com duas listras brancas. No fim das contas, o estudante ganhou só 50 libras (e mais 200 em 1972).

REGATA? Antes de decidir por Warhol, o grupo chegou a chamar Pete Webb, designer inglês conhecido na época, para fazer a capa. Webb teria assustado a banda com uma terrível viagem na maionese. Ele quis fotografar o grupo usando chapéus de palha e blazers listrados, e teve a ideia de clicar a banda numa “montagem surreal da regata de Henley”. O grupo achou melhor que ele fizesse só as fotos internas.

>>> Veja também no POP FANTASMA: Performance, com Mick Jagger: tudo sobre as controvérsias do filme

CENSURA NA ESPANHA. O país vivia a ditadura do general Francisco Franco desde 1936 (permaneceria sob as botas dos milicos até 1975). Não houve jeito: Sticky fingers chegou às lojas por lá pela EMI-Odeon local, mas a gravadora teve que mudar a capa, considerada obscena. O solícito John Pasche foi chamado para conceber o novo visual. Mas teve a ajuda de Phil Jude, o cara que faria em 1973 a foto da sopa de cabeça de bode do disco Goat’s head soup. A censura e a realização dessa capa de Sticky fingers atrasaram em alguns meses o lançamento por lá (na Inglaterra foi em abril, na Espanha só em junho). Mas o engraçado é que o novo design era mais lascivo e tinha realmente “dedos grudentos” (leia mais aqui).

MAIS CENSURA NA ESPANHA. Sister morphine saiu do repertório do disco por lá. Entrou no lugar uma versão ao vivo de Let it rock, de Chuck Berry, gravada ao vivo em Leeds, em 1971.

ALIÁS E A PROPÓSITO, Sticky fingers saiu no Brasil em 1971 pela Philips numa edição bacaninha que tinha até o zíper na capa. Mas Sister morphine também foi tirada das primeiras edições. Só que não foi substituída por nada e o disco chegou aqui com nove músicas. Pouco depois, foi reeditado com a música.

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>>> Veja também no POP FANTASMA: Tiraram o som do clipe de Dancing in the street, de Mick Jagger e David Bowie, e você nunca mais vai ver o vídeo original sem rir

E DEPOIS? As gravações do disco subsequente dos Stones, Exile on Main St (1972), começaram logo na época de Sticky fingers. E estenderam-se enquanto a banda se instalava na França. Os Stones haviam virado uma usina de força cheia de tensão, que sugava quem deles se aproximasse. Mas que rendia grandes músicas e discos tão caóticos quanto clássicos. Como acontecia com Sticky fingers, Exile era mais um disco para tocar em último volume. Mas isso é outra história.

 

Cinema

Mulheres do punk no Reino Unido, em documentário

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Mulheres do punk no Reino Unido, em documentário

Se você só tiver tempo de ver UM filme sobre música em algum momento do dia de hoje, veja este. She’s a punk rocker UK é um filme ultra-hiper-independente, dirigido durante vários anos por Zillah Minx, a vocalista do grupo gótico-anarco-punk Rubella Ballet, e que conta a história do punk feito por mulheres no Reino Unido. Entre as fontes, tem gente muito conhecida, como Poly Styrene (X-Ray Spex) e Eve Libertine (Crass).

No filme, dá pra ver também os depoimentos de nomes como Caroline Coon, que durante um tempinho foi empresária do Clash e trabalhou com a banda num especial período de confusão – quando a banda ainda era um incompreendido nome da CBS britânica que não conseguia estourar nos Estados Unidos de jeito nenhum (opa, fizemos um podcast sobre isso).

Um depoimento interessante é o de Mary, uma punk veterana que trabalhou por uns tempos como segurança de Poly Styrene, cantora do X-Ray Spex. Tanto ela quanto Poly lembram que o  público dos shows era meio violento em alguns lugares – com “fãs” jogando cerveja e cuspindo na plateia para demonstrar que estavam gostando da apresentação (era comum). Logo no começo do documentário, entrevistadas como Rachel Minx (também do Rubella Ballet) contam que nem tinham uma ideia exata de que elas eram punks quando começaram a adotar o visual típico do estilo – roupas rasgadas, maquiagem, reaproveitamento de peças usadas. Em vários casos, a ideia era se vestir diferente porque todas começaram a produzir suas próprias roupas – e a moda se refletia na música, nas letras e no comportamento.

A própria Zillah é uma figura importante e pouco citada do estilo musical, e viveu o estilo de vida punk antes mesmo dos Sex Pistols começarem a fazer sucesso. O filme dela  foi feito inicialmente com uma câmera emprestada e precisou passar por vários processos de edição durante vários anos. Apoiando o Patreon do projeto, aliás, você consegue ter acesso às integras de todas as entrevistas.

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Ela disse nesse papo aqui que foi aprendendo a fazer tudo sozinha, sem nenhum financiamento, com a ideia de responder algumas perguntas sobre a presença feminina no punk britânico. “Ser punk era perigoso, então por que tantas mulheres se tornaram punks? Foi apenas sobre vestir-se escandalosamente? Essas mulheres punk foram tratadas como membros iguais da subcultura e como foram tratadas pelo resto da sociedade? Como ser uma mulher punk afetou suas vidas? A mulher punk influenciou diretamente as atitudes da sociedade em relação às mulheres de hoje?”, disse.

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Cultura Pop

E os 30 anos de The End Of Silence, da Rollins Band?

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A relação de Henry Rollins com a Imago Records – selo que contratou sua Rollins Band no começo nos anos 1990 – acabou em briga. A gravadora e o cantor brigaram nos tribunais por alguns anos. Rollins havia recém mudado para a DreamWorks e era acusado de “quebra de contrato” e de ter mudado de selo por ter sido induzido pela nova casa. O artista alegava fraude e coerção econômica, e reclamava que a Imago tratava seus contratados como se fossem “bens móveis”. Com a mudança, algumas novidades aconteceram na vida do cantor, que chegou a ser fotografado jantando com Madonna (interessadíssima em levá-lo para seu selo Maverick) e deu margem até a boatos de um caso amoroso.

O surgimento de Rollins no mainstream, por outro lado, foi bem mais ameno – embora não menos cheio de trabalho e movimentações. Após alguns anos liderando o Black Flag, e sendo uma das figuras proeminentes do punk californiano, ele havia iniciado uma carreira solo com o álbum  Hot animal machine (1987), um precursor da Rollins Band, lançado pelo selo indie Texas Hotel, ao mesmo tempo em que mantinha carreira paralela como escritor e poeta, e gravava desconcertantes discos de spoken word, com seus textos biográficos e tristes – alguns deles escancarando a porta da misantropia.

Sua Rollins Band começou a ser tramada nessa época, e seria um projeto único: com o fortão Rollins à frente, bancando o herói punk californiano, o grupo daria passos além do punk, tocando uma mistura de metal (numa onda pré-stoner) e jazz rock, descambando para o noise rock e para as influências de grupos como Swans, Suicide e Velvet Underground. A política de Rollins, na hora de fazer as letras, era a da superação, do exorcismo de antigos fantasmas, do fim do silêncio em relação à opressão.

Lançado com uma turnê em que a Rollins Band abria para os Red Hot Chili Peppers, o trintão The end of silence, terceiro disco do grupo, chegou às lojas em 25 de fevereiro de 1992, já pela Imago, selo montado por Terry Ellis, fundador da gravadora Chrysalis. O disco abria direto com Rollins aconselhando o ouvinte e analisando detalhadamente a alienação e o autoabandono (Low self opinion).

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O cantor, que sofrera com pais abusivos e espancamentos nos tempos de escola, dava conselhos a si mesmo em Grip (“quando essas paredes se fecham ao seu redor/quando todos duvidam de você/quando o mundo pode viver sem você/mantenha-se no controle”). Comentava sobre relacionamentos que acabam em abandono, nas letras de You didn’t need e Tearing. Aos berros, narrava um encontro com seu pai, que costumava espancá-lo na infância, em Just like you.

The end of silence não é um disco agradável. Não que seja um disco ruim, mas ele soa pesado e desconfortável em vários momentos. A atmosfera é extremamente sombria. Rollins era acompanhado por um time de supermúsicos: Chris Haskett (guitarra), Sim Cain (bateria) e Andrew Weiss (baixo). Ao contrário de qualquer disco punk que você possa imaginar, as músicas são quilométricas. O álbum original dura 72 minutos, até mesmo no vinil. Blues jam, faixa de mais de onze minutos, foi tão improvisada em estúdio, até mesmo por Rollins, que sua letra nem sequer aparece no encarte.

Os shows, por sua vez, assustavam: enorme e tatuado, Rollins se movia pelo palco com uma fúria descomunal, impressionando desde novos fãs até gente bem experiente, como Wayne Kramer, do MC5, com quem o cantor chegou a trocar correspondência durante vários anos. O cantor era constantemente chamado para participar de programas da MTV, e acabou conseguindo até mesmo um papel no filme cyberpunk Johnny Mnemonic, de Robert Longo (1995).

Era de fato, o fim do silêncio para um dos maiores nomes do punk americano, cujo próximo passo musical com a Rollins Band seria o disco Weight (1994), um álbum bem mais sacolejante e de canções mais curtas – e nem por isso menos furioso, graças a músicas como Disconnect, Shine (uma canção anti-suicídio, lançada por acaso no mês de morte de Kurt Cobain) e Divine object of hatred. Pena que a discografia de Rollins hoje em dia não esteja nas plataformas digitais.

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Cinema

Jogaram o documentário musical brasileiro Som Alucinante no YouTube

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Jogaram o documentário musical brasileiro Som Alucinante no YouTube

Som alucinante, filme de Guga de Oliveira (irmão de Boni, ex-todo poderoso da Rede Globo), lançado nos cinemas em 1971, apareceu pela primeira vez na íntegra no YouTube há poucos dias. O filme traz um apanhado de shows do programa Som Livre Exportação, musical exibido pela Rede Globo entre 1970 e 1971. A produção foi feita no espírito do filme do festival de Woodstock, de Michael Wadleigh, com shows misturados a entrevistas com artistas, músicos, a equipe técnica tanto do festival quanto do filme, e com pessoas da plateia.

Logo no começo, o radialista paulistano Walter Silva (o popular Pica-Pau) resolve perguntar a uma mulher da plateia o que ela espera encontrar no show. Como resposta, recebe risos e um “ah, sei lá, dizem que tá bacana, né?”. Bom, de fato, o formato de festival não competitivo – ou de pacote de shows – ainda não era das coisas mais conhecidas aqui no Brasil.

Tudo ali era meio novidade, tanto o fato de tantos nomes estarem reunidos num mesmo evento, quanto o fato de vários nomes “alternativos”, de uma hora para outra, terem virado grandes atrações de um programa da Globo: Ivan Lins (em ascensão e fazendo seu primeiro show em São Paulo), Gonzaguinha, Mutantes, A Bolha, Ademir Lemos e até um deslocadíssimo grupo americano chamado Human Race – que apresentou uma cover de Paranoid, do Grand Funk. Para contrabalancear e garantir mais audiência ao programa, Elis Regina, Wilson Simonal e Roberto Carlos participaram da temporada de 1971 da atração (que mesmo assim continuou sem audiência, mas com sucesso de crítica). O show levado ao ar nessa temporada serviu de fonte para o documentário.

O que mais chama a atenção em Som alucinante, na real, não é nem mesmo a música. Bom, e isso ainda que o filme apresente uma entrevista bem interessante com um iniciante Gonzaguinha (que faz um excelente discurso sobre “não pensar no mercado e ser você mesmo”), uma Rita Lee aparentemente em órbita falando sobre “é bom ganhar dinheiro com o que se faz, né?”, Mutantes tocando José e Ando meio desligado, A Bolha tocando o gospel-lisérgico Matermatéria, Elis Regina dividindo-se entre os papéis de cantora e mestra de cerimônia. E também várias entrevistas com Milton Nascimento que não vão adiante, de tão constrangido que o cantor estava.

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O mais maluco no filme é que a plateia desmaia, e o tempo todo (!). Os fãs começam a empurrar uns aos outros e num determinado momento, a solução da produção é convidar os que estavam em maior situação de vulnerabilidade para subir no palco. Numa cena, um policial carrega uma garota desmaiada e ele próprio quase toma um estabaco.

Jogaram o documentário musical brasileiro Som Alucinante no YouTube

Companhias indesejáveis na plateia do Som Livre Exportação

Em outro momento, os fãs são puxados ao palco por policiais e pessoas da produção com uma tal intensidade, que aquilo fica parecendo uma tragédia bíblica. Ou um evento que estava mais para Altamont do que para Woodstock, porque era evidente que aquilo estava ficando perigoso. Especialmente porque militares circulavam na plateia e aparecem, em determinados momentos, atrás do palco, o que já explica todo aquele estresse.

Ah, sim a parte do “nós estamos todos reunidos nessa grande festa”, dos Mutantes (que aparece no documentário Loki?, sobre Arnaldo Baptista) foi tirada de Som alucinante. E pelo menos um crítico do Jornal do Brasil, Alberto Shatovsky, detestou a linguagem “moderna” do filme.

A sequência de Roberto Carlos no filme.

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E se você não reconheceu o sujeito de bigodes e cabelo black que aparece em alguns momentos no filme, é o Ademir Lemos, do Rap da rapa (lembra?). Era um dos apresentadores do Som Livre Exportação.

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