Cultura Pop
Várias coisas que você já sabia sobre Sticky Fingers, dos Rolling Stones

Lançado em 23 de abril de 1971, Sticky fingers, nono disco de estúdio dos Rolling Stones, virou cinquentão sem perder a juventude e o charme. E sem perder o lado provocativo. Estressados com a mudança de gravadora, com brigas entre a banda e empresários, e com a mudança para o Sul da França (embora negassem que iriam para um “paraíso fiscal”), os Stones vinham de um período mais movimentado e estressante ainda. Em 1969, a banda tinha se apresentado no festival de Altamont, que terminou com briga generalizada, roubos, depredação e quatro mortes (uma delas, por esfaqueamento).

Os fantasmas da violência e da despedida em tons sombrios dos anos 1960 ainda rondavam as cabeças de Mick Jagger (voz), Keith Richards (guitarra), Mick Taylor (guitarra solo), Bill Wyman (baixo) e Charlie Watts (bateria) quando começaram a fazer o novo disco. Assim que Sticky fingers saiu, os fãs tiveram acesso a um universo que falava de aventuras sexuais (Brown sugar, Bitch), o ranço do dia a dia (Sway), drogas (Sister morphine), charme da decadência (Dead flowers). O disco ainda consolidava a presença de Mick Taylor, ex-John Mayall’s Bluesbreakers, na banda desde 1969.
Sticky fingers já teve diversos relançamentos, incluindo um em 2015 com faixas bônus. Hoje chega aos 50 anos como um dos melhores e mais inspiradores discos da historia do rock. E tá aí nosso relatório sobre ele. Ouça lendo, leia ouvindo.
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ME EMPRESTA CINCO PAUS? Havia uma preocupação rondando as cabeças de Mick Jagger e Keith Richards na época de Sticky fingers: dinheiro. A banda, que saía da gravadora Decca/London, se julgava roubada pelo empresário Allen Klein, figurinha controversa, e dono da produtora Abkco. Keith Richards conta que o grupo descobriu que ele era o único proprietário de uma empresa nos EUA, feita só para lucrar com os Stones.
GRANA E MAIS GRANA. O banqueiro (e príncipe) Rupert Loewenstein, consultor financeiro dos Stones desde 1968, vivia falando o quanto eles estavam sendo roubados por Klein. E convenceu o grupo das vantagens fiscais de se mudarem para o Sul da França. Também persuadiu a banda a passar a ensaiar no Canadá, para diminuir os gastos, e conseguiu grandes patrocinadores para as turnês. Em contrapartida, os RS iniciavam enorme temporada de processos contra Klein, que se arrastaria por quase duas décadas.
ALIÁS E A PROPÓSITO, os Stones foram para a França para fugir do fisco da Inglaterra. Mas graças a uma reforma fiscal, hoje em dia o que mais tem é celebridade fugindo da França para pagar menos impostos.
MEUS QUERIDOS ROYALTIES. Nos anos 1960, havia ainda uma discussão sobre se contratos valiam para LPs ou músicas gravadas. Aliás, também sobre se tudo o que um artista houvesse gravado enquanto estava sob contrato era realmente de propriedade da gravadora, mesmo que fossem demos inacabadas. Klein seria o proprietário de tudo que o grupo gravasse para Sticky fingers, caso a banda não tivesse brigado, já que ele reclamava tudo que a banda gravasse até o fim de 1971. No fim, foram agregados ao antigo contrato da banda com a Abkco os singles de Wild horses e Brown sugar – que saíram até em coletâneas da banda, como a caixa The London years.
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E COMEÇOU A GRAVAÇÃO! Sticky fingers havia sido iniciado ainda em 1969, com gravações da banda no estúdio Muscle Shoals, no Alabama. You gotta move, Brown sugar e Wild horses vieram de lá. Sister morphine havia sido uma sobra de Let it bleed (1969) e deixada para outro lançamento. Mas a coisa pegou mesmo fogo quando a banda instalou uma unidade móvel numa van em Stargroves, casa de campo de Mick Jagger em Newbury, cidade no condado de Berkshire, na Inglaterra em março de 1970.
CASARÃO. Com a entrada de grana na vida dos Stones, os músicos começaram a comprar casas, embora passassem a maior parte do tempo na estrada. Stargroves havia custado a Jagger a bagatela de 37 mil libras em dezembro de 1967, e o cantor ainda despejou uma carreta de grana na reforma do imóvel, que estava em ruínas. Mick gostava de ir para lá junto com Marianne Faithfull porque podia fazer o que quisesse sem ser incomodado, desde ir a lojas locais tomar sorvete com Nicholas, filho de quatro anos da namorada, até usar drogas sem riscos (já que o local estava fora do radar do esquadrão de drogas).
POBREMAS. Durante as gravações, uma coisa precisava ser resolvida pela banda, em especial pela dupla de compositores: como mostrar que os Stones estavam atualizados com o que acontecia no mundo do rock? Jagger parecia atualizado com a nascente onda do hard rock, Keith parecia imerso em seu próprio mundo e estava cada vez mais drogado (com direito ao que chamava de “tempo para se drogar”, que atrasava gravações e o levava a faltar a sessões importantes). Bill Wyman chegou a afirmar que Mick queria sucessos, mas Keith “não estava nem aí”.
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ESTÚDIO MÓVEL. O nome “Rolling Stones mobile studios” virou sinônimo de tecnologia. A primeira versão funcional do estúdio, com oito canais, foi usada por bandas como The Who, Led Zeppelin e Deep Purple. Volta e meia era cedido também para o Festival de Montreux. Aliás, num incêndio durante um show de Frank Zappa no evento, o estúdio quase pegou fogo enquanto o Deep Purple gravava o disco Machine head. O sucesso Smoke on the water é sobre isso, se você não sabia.
POR SINAL, o tal incêndio não foi só um foguinho. Um maluco disparara um sinalizador para o teto do Cassino Montreux e começou tudo. Frank Zappa avisara à plateia durante seu show sobre o incêndio, pedindo calma. Houve uma evacuação 100% controlada – apesar de um grupo ter ficado preso no porão do local e sido resgatado pelo próprio dono da casa, Claude Nobs. O prédio ficou em chamas e precisou ser reconstruído. O Deep Purple gravava bem perto e viu tudo.
ALIÁS E A PROPÓSITO, mesmo com a produção de Jimmy Miller, músicos convidados como o saxofonista Bobby Keys e o pianista Jim Price gravavam quase tudo sozinhos.
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O GRUPO foi retrabalhando algumas canções, ainda que aos pedaços. Mick Taylor foi indelicadamente retirado de Moonlight mile (cujo nome “de trabalho” era Japanese thing), com Richards lhe dizendo que ele “tocava alto demais”. Já Can’t you hear me knocking, por causa da parte final em clima de jazz latino, reuniu todo mundo no estúdio. O álbum ainda teve gravações feitas em dois estúdios londrinos, Trident e Olympic.
FANTASMA DO PASSADO. Querendo sair da Decca, os Stones mexeram nas fitas de shows que tinham dado em Nova York e Baltimore em novembro de 1969. A ideia era fechar o contrato com a gravadora da maneira mais tranquila possível (disco ao vivo, enfim) e responder à crescente onda dos discos piratas. Get yer ya-ya’s out saiu em 4 de setembro de 1970, com Sticky fingers em andamento.
SÓ QUE ainda assim a banda descobriu que devia um single para a Decca. Mick compôs e gravou (no Stargroves, durante os dias de Sticky fingers) Schoolboy blues, conhecida como Cocksucker blues. A letra falava de sexo oral, anal e prostituição masculina e assustaria qualquer dono de gravadora. A Decca não fez por menos: engavetou a canção e, como retaliação à malandragem dos Stones, soltou a coletânea Stone age, que se tornaria popular o suficiente para amedrontar a banda, já que estavam lançando disco novo.
SELINHO. Sem a Decca e com Allen Klein afastado do universo dos Stones (ainda que volta e meia aparecesse para reclamar direitos sobre músicas supostamente compostas sob sua gestão e lançadas depois), os Stones realizaram um sonho e puseram na rua sua própria gravadora. A Rolling Stones Records era “do grupo”, mas era chefiada por Marshall Chess, filho do fundador da Chess Records, Leonard Chess.
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HÁ QUEM COMENTE que a gravadora era só uma fachada para disfarçar o fato de que a banda estava sem gravadora e entrara em leilão. Mas por fim, quem levaria a melhor seria o Kinney Group, definido pelo biógrafo dos Stones, Christopher Sandford, como “uma empresa fraudulenta, que supostamente envolvia a máfia, com uma divisão de estacionamentos e uma divisão mortuária”. Acontece que a Kinney era dona da Atlantic Records na época, e a banda ganhou um contrato de distribuição mundial de 5,7 milhões de dólares.
ALIÁS E A PROPÓSITO, os Stones, em dada altura, foram cortejados pela RCA, gravadora de Elvis Presley, e futura casa de David Bowie, Lou Reed e Iggy Pop. Quase aceitaram.
SÓ PARA ELES. A ideia original da Rolling Stones Records não era lançar novos artistas, apesar de “lançamentos de novos talentos” constar do release inicial do selo. A gravadora servia para dar aos Stones mais controle sobre seus discos, além de espaço para gravações solo de seus integrantes. O baixista Bill Wyman lançou dois (bons) solo nos anos 1970, mas que passaram despercebidos porque a gravadora já estava ocupada demais com os lançamentos da banda. Mas o primeiro lançamento da Rolling Stones Records foi o seminal Brian Jones presents the Pipes of Pan at Joujouka, gravado no Marrocos pelo falecido Brian Jones em 1969, e guardado até 1971.
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SÓ QUE a gravadora chegou a lançar outros nomes ocasionalmente. Lançaram o Cracker, um grupo cubano-americano que soltou discos lá a partir de 1973. E ninguém menos que Peter Tosh, reggaeman que conseguiu sucesso com o disco Bush doctor, em 1981, mas acabou deixando o selo após desentendimentos com Keith Richards (em cuja casa se hospedou, e da qual não queria mais sair). O vocalista do The Mamas & The Papas, John Phillips, fez contrato solo com a gravadora, deixou lá umas canções prontas – nas quais era acompanhado por quase todos os stones – mas o material só saiu em 2001 sob o título Pay, pack and follow.
OS STONES, diga-se, estavam seguindo uma tendência famosa entre bandas que vendiam bem, tinham público certo e desejavam mais liberdade criativa. O Deep Purple soltou a Purple Records, o Jefferson Airplane, a Grunt, e o Led Zeppelin, só em 1976, pôs para rodar a Swan Song Records. A Apple, dos Beatles, era modelo para essa turma toda, tanto do que fazer quanto do que não fazer (ou seja: contratar um monte de gente ao mesmo tempo, investir em negócios sem sentido e deixar correr uma sangria de dinheiro). Mas vale citar que até Paul McCartney e George Harrison, já em carreira solo, lançaram seus selos (MPL e Dark Horse, respectivamente).
ALIÁS E A PROPÓSITO, Jagger decidiu que os discos dos Stones em seu selo teriam número de série iniciado com as letras COC (uma piada com “cock”, termo chulo para o órgão sexual masculino). A partir de 1978, substituiria as três letras por CUN (redução de “cunt”, o mesmo para o órgão sexual feminino). Sticky fingers era o COC-59 100.
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A HISTÓRIA DE QUE os Stones estavam tentando desfrutar da vida em exílios fiscais já começava a chegar aos ouvidos de alguns críticos. Em 4 de março de 1971, a banda começava a rodar com uma turnê britânica e o Daily Telegraph queixou-se de que a “vantagem tributária pessoal” era a única prioridade para o grupo. Em 6 de abril de 1971, pouco antes de Sticky fingers sair, os Stones fizeram um cruzeiro num navio com seu logotipo, seguindo até Cannes para assinar contrato com a Kinney-Atlantic.
DROGAS E ROCK’N ROLL. Sticky fingers talvez seja o disco de rock que mais dispara referências a drogas. As letras falam em “olhos de cocaína” (em Can’t you hear me knocking), “dança de viciado em anfetamina” (na mesma música), “cabeça cheia de neve” (em Moonlight mile, outra referência à coca) e ainda havia Sister morphine, relato do dia a dia de um viciado em heroína, com letra de Marianne Faithfull, surrupiada por Jagger e Richards. A cantora e ex-mulher de Jagger passou anos amargando a puxada de tapete, mas em 1994 entrou na justiça. Keith Richards admitiu a chupada em sua autobiografia Vida.
DORGAS, MANO. Keith Richards refletiu sobre o excesso de drogas em sua vida nessa época, no livro Vida, e questionou como foi possível fazer tanta música sob o signo de uma das drogas mais pesadas do mundo. Keith diz que não recomenda heroína a ninguém, mas garante que a droga tem pontos positivos. “Em muitos casos ela é um grande nivelador. Depois que você começa a tomá-la, é capaz de enfrentar tudo que surgir na sua frente”, conta ele, que estava extremamente estressado com a mudança para o Sul da França.
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DE VOLTA AO COMEÇO. Apesar de haver arranjos de cordas e metais aqui e ali, Sticky fingers foi recebido pela maioria dos críticos musicais como uma volta ao básico – ainda que os Stones não tivessem condições de soar tão “básicos” quanto soavam quase dez anos antes. A Rolling Stone via em Brown sugar uma das introduções clássicas de guitarra da banda, por exemplo. Mas Jon Landau, que resenhou o disco para a revista, ressaltava que a banda parecia desinteressada em alguns momentos do disco. Lester Bangs, no entanto, classificou-o como “o disco do ano” na pesquisa entre críticos do Village Voice.
VENDEU, AFINAL? Bastante. Em maio de 1971, Sticky fingers foi direto para o primeiro lugar da parada britânica, e passou 69 semanas na Billboard 200. Até hoje, foram mais de nove milhões e trezentas cópias vendidas.
E A CAPA? Passou para a história que o ator Joe Dallessandro, da trupe de Andy Warhol, tinha sido o modelo da capa de Sticky fingers, mas há controvérsias. Warhol fez o design e Billy Name fez a foto, e foram vários os clicados. Há quem diga que Jed Johnson, amante do designer na época, era o garoto da capa. Dallessandro costuma afirmar que ele tinha sido fotografado. O zíper, também ideia do designer, teve que ser cuidadosamente posicionado no lugar do selo do LP, já que alguns lojistas reclamaram que ele arranhava o vinil após os empilhamentos para a distribuição. O trabalho gráfico clássico do disco rendeu a Andy Warhol o equivalente hoje a uns US$ 200 mil, uma soma bem grande de dinheiro para 1971.
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ALIÁS E A PROPÓSITO, mesmo levando o nome de Warhol, a capa acabou sendo feita quase que totalmente por um dos maiores colaboradores do artista, Craig Braun.
BLÉ. Craig também fez os últimos ajustes no logotipo da nova gravadora dos Stones, dando a ele o tom de vermelho que tornou a ideia famosa. Jagger sugerira a John Pasche, um estudante de artes recrutado na Royal College of Art (e que desenhara um pôster para uma turnê da banda) que copiasse a língua da deusa hindu Kali. Pasche fez os primeiros desenhos, mandou para Craig e este ajustou os tons de vermelho com duas listras brancas. No fim das contas, o estudante ganhou só 50 libras (e mais 200 em 1972).
REGATA? Antes de decidir por Warhol, o grupo chegou a chamar Pete Webb, designer inglês conhecido na época, para fazer a capa. Webb teria assustado a banda com uma terrível viagem na maionese. Ele quis fotografar o grupo usando chapéus de palha e blazers listrados, e teve a ideia de clicar a banda numa “montagem surreal da regata de Henley”. O grupo achou melhor que ele fizesse só as fotos internas.
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CENSURA NA ESPANHA. O país vivia a ditadura do general Francisco Franco desde 1936 (permaneceria sob as botas dos milicos até 1975). Não houve jeito: Sticky fingers chegou às lojas por lá pela EMI-Odeon local, mas a gravadora teve que mudar a capa, considerada obscena. O solícito John Pasche foi chamado para conceber o novo visual. Mas teve a ajuda de Phil Jude, o cara que faria em 1973 a foto da sopa de cabeça de bode do disco Goat’s head soup. A censura e a realização dessa capa de Sticky fingers atrasaram em alguns meses o lançamento por lá (na Inglaterra foi em abril, na Espanha só em junho). Mas o engraçado é que o novo design era mais lascivo e tinha realmente “dedos grudentos” (leia mais aqui).

MAIS CENSURA NA ESPANHA. Sister morphine saiu do repertório do disco por lá. Entrou no lugar uma versão ao vivo de Let it rock, de Chuck Berry, gravada ao vivo em Leeds, em 1971.
ALIÁS E A PROPÓSITO, Sticky fingers saiu no Brasil em 1971 pela Philips numa edição bacaninha que tinha até o zíper na capa. Mas Sister morphine também foi tirada das primeiras edições. Só que não foi substituída por nada e o disco chegou aqui com nove músicas. Pouco depois, foi reeditado com a música.
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E DEPOIS? As gravações do disco subsequente dos Stones, Exile on Main St (1972), começaram logo na época de Sticky fingers. E estenderam-se enquanto a banda se instalava na França. Os Stones haviam virado uma usina de força cheia de tensão, que sugava quem deles se aproximasse. Mas que rendia grandes músicas e discos tão caóticos quanto clássicos. Como acontecia com Sticky fingers, Exile era mais um disco para tocar em último volume. Mas isso é outra história.
Cultura Pop
Billy Corgan e Butch Vig juntos no estúdio de novo após 33 anos

RESUMO: Billy Corgan e Butch Vig retomam a parceria de Gish e Siamese dream em Black stars, faixa da trilha de Jogos vorazes. Um reencontro com o produtor que ajudou a criar o som do Smashing Pumpkins. Relembre o histórico.
Texto: Ricardo Schott – Fotos: Reprodução
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Imagine você entrar num estúdio com Billy Corgan, no começo dos anos 1990, e descobrir que ele quer gravar uma música com dezenas de guitarras. E que, se uma delas não soar exatamente como ele imaginou, vai ter que fazer tudo de novo. Agora imagine que o produtor, em vez de mandar o sujeito sossegar, acha a ideia ótima. Pois era mais ou menos assim que funcionava a parceria entre o Smashing Pumpkins e Butch Vig. E, 33 anos depois, os dois resolveram repetir a experiência.
A novidade é Black stars, música lançada nesta sexta-feira (16) e incluída na trilha sonora de Jogos vorazes: Amanhecer na colheita. A trilha completa sai em 13 de novembro, uma semana antes da estreia do filme. É a primeira gravação lançada pelo Smashing Pumpkins com produção de Vig desde o álbum Siamese dream, de 1993. A faixa também entrou no repertório da atual turnê Rats in the cage.
A história dos dois começou em 1990, quando o Smashing Pumpkins gravou Tristessa, compacto lançado pela Sub Pop, sob a produção dele. Isso foi antes de Vig produzir Nevermind, do Nirvana (1991). Corgan gostou do cara logo de primeira. Numa entrevista à Tape Op, contou que o produtor não tinha pose, trabalhava pra caramba e não se assustava com as ideias que ele e o baterista Jimmy Chamberlin levavam para o estúdio. Pelo contrário: parecia gostar da complicação.
Foi assim que chegaram a Gish (1991), álbum de estreia da banda, primeiro no qual trabalharam juntos. Corgan queria um disco com peso, psicodelia, melodias bonitas e guitarras aparecendo de todos os lados – um baita rock de arena, com ambiência, totalmente o oposto daquela onda da época, de simplesmente colocar quatro músicos numa sala e apertar o botão de gravar. Vig comprou a ideia e ajudou a organizar tudo aquilo. Dá para ouvir o resultado em Siva, Rhinoceros e Daydream, três músicas bem diferentes que parecem fazer parte do mesmo universo.
Só que os dois tinham um problema: não sabiam a hora de parar. Corgan contou à Rolling Stone italiana que Vig pegava pesado com afinação, ritmo e vocais. Fazia Billy cantar a mesma parte tantas vezes que ele começava a achar que não sabia cantar. O engraçado é que, olhando para trás, o vocalista reconhece que aquela cobrança fez toda a diferença.
Em Siamese dream (1993), o segundo disco, a situação ficou ainda mais complicada. A banda já tinha uma gravadora grande esperando resultados, Billy passava por uma fase emocional difícil e os integrantes não se entendiam nada bem. Foram gravar em Atlanta, mas os problemas viajaram com a banda nas malas.
Corgan acabou tocando praticamente todas as guitarras e boa parte dos baixos. Algumas músicas ganharam tantas camadas que Vig precisava descobrir como fazer tudo caber na mixagem. Era guitarra em cima de guitarra, com mais uma guitarra aparecendo quando você achava que já tinha acabado. E, se alguma coisa não estivesse perfeita, lá iam eles gravar de novo. O disco demorou, custou caro e deu um trabalhão. Só que saiu dali Siamese dream, com Cherub rock, Today, Disarm e vários clássicos.
Corgan nunca escondeu o quanto Vig foi importante. Nos textos da reedição de Siamese dream, em 2011, escreveu: “Butch me apoiou o tempo todo nessa visão maluca”. E completou: “Butch era a única pessoa que poderia ter feito aquele disco conosco, porque o respeitávamos tanto que queríamos estar à altura dos padrões elevados dele”.
Mas aí chegou a hora de fazer o duplo Mellon Collie And The Infinite Sadness (1995), e Billy resolveu mudar tudo. Chamou Flood e Alan Moulder para produzir, porque queria sair daquela maneira de trabalhar. Numa entrevista ao Grammy.com, explicou que Vig havia ajudado a construir uma versão quase idealizada do Smashing Pumpkins. Flood queria outra coisa: ouvir a banda como ela realmente soaria nos shows.
E não, a troca não aconteceu por causa de alguma briga. Em 2011, perguntaram a Corgan se ele toparia trabalhar novamente com Vig. “Eu amo Butch e temos uma relação muito boa. Adoraria. Ele provavelmente é uma das únicas pessoas com quem eu voltaria a entrar em estúdio”, respondeu. Vig também sempre pareceu adorar Corgan, embora já tenha declarado algumas vezes que o músico foi “um pentelho” no estúdio (quem conhece a história de Billy sabe que isso é um nome até carinhoso).
Pois bem: demorou 15 anos para aquela declaração virar realidade. Black stars coloca novamente os dois no estúdio, agora com décadas de experiência acumulada e sem a obrigação de repetir o que fizeram em 1993.
Ainda não há indicação de que a parceria vá render um álbum inteiro. Por enquanto, é uma música para uma trilha sonora. Mas já dá para imaginar a cena: Billy aparece com uma ideia complicada, Butch escuta, pensa um pouco e resolve que dá para melhorar. E lá vem outra guitarra…
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Cultura Pop
Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

RESUMO: Antes da fama, o U2 tocou Out of control na TV irlandesa vestido de palhaço. Tem gente achando que é obra da IA, mas não é não.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
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No comecinho de sua história, prestes a fazer as primeiras gravações, o U2 fez um vídeo de Out of control na TV irlandesa em clima de circo, com maquiagens faciais e roupas de palhaço. Tá aí o vídeo.
O vídeo é de 1979 e pertence aos arquivos da RTÉ, emissora pública irlandesa – e pelo que a emissora diz, apareceu no programa Our times. Já teve gente levantando a hipótese de ser obra de IA. Não é, pelo visto. “Embora a estética crua e a qualidade amadora das possam levar os espectadores a questionar a sua autenticidade, este vídeo específico foi documentado e discutido pela comunidade de fãs do U2 como uma peça genuína da história da banda”, diz um comentário publicado no canal do YouTube @DutchU2Fan.
Não foi a primeira vez que a banda esteve na atração: em 13 de novembro de 1978, tocaram a música The fool, numa apresentação que acabou sendo reprisada em 27 de novembro. Aliás, a primeira vez que Bono, The Edge, Larry Mullen e Adam Clayton foram à RTE rolou em 2 de março de 1978, quando ainda se chamavam The Hype – na ocasião, foram a programa Youngline e cantaram Street mission.
Além das maquiagens, Bono surge usando apetrechos teatrais e fazendo caras e bocas para a câmera – em alguns momentos, tudo parece uma cena de humorístico brasileiro dos anos 1970. E naquela altura, Out of control era praticamente o cartão de visitas do U2. Em agosto de 1979, o radialista Dave Fanning apresentou três músicas do grupo em seu programa na RTÉ — Out of control, Stories for boys e Boy/Girl — e deixou os ouvintes escolherem qual delas deveria ocupar o lado A do primeiro lançamento da banda. Out of control venceu. No mês seguinte, as três músicas apareceram no EP Three, cuja primeira edição teve mil cópias numeradas.
A canção também tinha uma origem bastante pessoal. Bono a escreveu quando completou 18 anos, pensando no desconforto de perceber que dois dos acontecimentos mais importantes da existência estão totalmente fora das nossas mãos: ninguém decide nascer e, em última instância, também não controla a própria morte.
Agora: por que diabos eles estão vestidos daquele jeito?
Bom, não há, pelo menos na documentação conhecida sobre a apresentação, uma explicação de Bono, The Edge, Adam Clayton ou Larry Mullen Jr. para as roupas, mas maquiagens e os apetrechos. Também não aparece nos arquivos disponibilizados pela RTÉ uma justificativa para o figurino. Pode ter sido uma ideia do programa, uma brincadeira da própria banda ou simplesmente parte da estética daquela atração
O vídeo pertence a uma fase realmente embrionária do U2, que ainda traria uma apresentação no programa Aspects Of rock em setembro de 1979, tocando Life on a distant planet. Em janeiro de 1980, a banda chegou ao Late late show com Stories for boys. E pouco depois, aquela banda de garotos que ainda podia surgir fantasiada na televisão começaria a gravar a estreia Boy, lançada em outubro de 1980. Um primeiro passo na construção do U2 que a gente conhece hoje.
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Cultura Pop
Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

RESUMO: O Nirvana recebeu o Video Vanguard Award no VMA e entrou numa história que começou em 1984 com Beatles e David Bowie. Entenda como surgiu e por que o prêmio mudou ao longo das décadas.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
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O Nirvana voltou ao VMA neste domingo (27) para receber um prêmio que, de certa forma, conta a própria história da MTV. Dave Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear subiram ao palco para buscar o Video Vanguard Award, homenagem pelo conjunto da obra audiovisual da banda.
Recebendo a honraria, os mais ilustres três ex-integrantes vivos da baanda entraram numa lista que começou com Beatles e David Bowie e, ao longo de mais de quatro décadas, passou por Madonna, Michael Jackson, R.E.M., Beastie Boys, U2, Beyoncé e vários outros.
Mas o que exatamente é o Video Vanguard? Bom, temos duas respostas, uma curta e uma longa. A resposta curta: é uma espécie de prêmio pelo conjunto da obra do VMA, dedicado a artistas que tiveram impacto importante sobre o videoclipe e a cultura pop. Não está ligado a um vídeo específico lançado naquele ano e nem sequer é entregue em todas as edições.
A resposta longa é… a própria história do prêmio. E é a melhor resposta, já que o prêmio nasceu junto com o próprio VMA, em 1984. E não custa lembrar que nessa época videoclipe ainda era uma linguagem em formação e a MTV tinha apenas três anos. Na primeira cerimônia, só pra você ter uma ideia, David Bowie ganhou o prêmio, e houve menção especial aos Beatles e a Richard Lester, que dirigiu os filmes Help e A hard days night, do quarteto.
No caso dos Beatles e Lester, a escolha reconhecia especialmente a importância dos filmes do grupo para aquilo que, anos depois, se consolidaria como a linguagem do videoclipe – e da mesma forma, Bowie havia desenvolvido muito do idioma dos clipes vários anos antes. Na real, como ainda nem sequer havia uma “história” do videoclipe, era fundamental apontar quem havia ajudado a inventar aquela nova linguagem.
Nos anos seguintes, por sua vez, já estava claro que o grande lance era premiar quem já estava fazendo história ali mesmo, com a linguagem dos clipes. Em 1985, ganharam o prêmio David Byrne (então apenas o líder dos Talking Heads) e os diretores Russell Mulcahy e Godley & Creme. Madonna recebeu em 1986. Peter Gabriel, em 1987.
Detalhe: Michael Jackson ganhou em 1988 e, a partir de 1991, seu nome passou a ser associado oficialmente à honraria, que durante décadas ficou conhecida como Michael Jackson Video Vanguard Award. Em 2019, a MTV silenciosamente, mas nem tanto, tirou o nome do astro do prêmio. Nesse ano, a vencedora foi a rapper Missy Elliott.
Na década seguinte, a lista parece quase um resumo do período em que rock e MTV andavam grudados. Bon Jovi recebeu o Vanguard em 1991; Guns N’ Roses, em 1992; Tom Petty e Rolling Stones, em 1994; R.E.M., em 1995; Red Hot Chili Peppers, em 2000; U2, em 2001; e Duran Duran, em 2003. Exceções à regra: em 1997 o rapper LL Cool J levou a estatueta pra casa. No ano seguinte, os Beastie Boys ganharam o prêmio.
Depois, o perfil foi mudando junto com a própria MTV e com a cultura pop. Britney Spears, Justin Timberlake, Beyoncé, Kanye West, Rihanna, Pink, Jennifer Lopez e Missy Elliott estão entre os homenageados. Nos últimos anos vieram Nicki Minaj, Shakira, Katy Perry e Mariah Carey. Agora o prêmio volta ao rock com o Nirvana.
Dá pra dizer que poucos grupos carregam uma ligação tão evidente com a era clássica da MTV. Smells like teen spirit não apenas virou um dos clipes mais associados aos anos 1990 como ajudou a transformar a imagem do rock no canal. Come as you are, In bloom e Heart-shaped box reforçaram uma identidade visual que misturava estranheza, humor, desconforto e uma boa dose de antipatia pelos padrões do estrelato.
No VMA deste ano, coube a Chuck D, do Public Enemy, entregar o prêmio. Novoselic aproveitou o discurso para colocar Kurt Cobain no centro da história e lembrou que muitas ideias dos vídeos vinham da visão artística do vocalista. Para ele, a permanência do Nirvana também tem relação com uma busca do público por autenticidade.
Grohl, Novoselic e Smear receberam a homenagem sem Cobain, morto em 1994, mas com sua imagem aparecendo durante a cerimônia. A escolha fecha um círculo curioso: uma banda que ajudou a definir a MTV dos anos 1990 recebe, mais de três décadas depois, um prêmio criado justamente para reconhecer quem mudou a maneira de juntar música e imagem.
Mais do que um troféu para quem acumulou clipes famosos, o Video Vanguard começou como uma homenagem a quem empurrou o videoclipe para algum lugar novo. E sua lista de vencedores acabou registrando também as mudanças da própria MTV: dos Beatles e dos diretores pioneiros ao domínio do rock, daí às grandes estrelas do pop e do hip hop.
Agora o Nirvana entrou nessa história. Digamos que, para uma banda que chegou à MTV parecendo não pertencer àquele mundo, demorou bastante.
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