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Cultura Pop

US Festival: o (er) Woodstock da década do “nós”

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US Festival: o (er) Woodstock da década do "nós"

Nunca ouviu falar do US Festival? Contextualizando primeiro: os anos 1970, você deve saber, foram definidos como a “década do eu”, após todo o sonho hippie dos 1960 ruir bonito.

Steve Wozniak, co-fundador da Apple, imaginava que os anos 1980 seriam bem mais venturosos. Para ele, a década seria um período em que os jovens se uniriam em torno da música e da tecnologia. E olha que a nova era começou como um pesadelo para Wozniak: em 1981, ao pilotar seu avião, sofreu um sério acidente. O executivo feriu-se gravemente no rosto, ficou um tempo desmemoriado e recorreu aos próprios jogos da Apple para se recuperar totalmente.

Em 1982, o público conseguiu ver o resultado de algumas das encucações que passavam pela cabeça de Wozniak naquele tempo. Isso porque ele, já recuperado, montou o US Festival, cuja primeira edição aconteceu no comecinho de setembro, durante a semana do trabalho, no Parque Regional de Glen Helen, perto de San Bernardino, na Califórnia. Para fazer o evento, Wozniak contou com a ajuda de Bill Graham, criador do Filmore e empresário de artistas como Grateful Dead e Santana. A ideia do executivo era bem maluca: estandes com a turma da tecnologia de ponta (incluídos aí a Apple e até a Atari, concorrente da sua empresa), conexão via satélite com a União Soviética, telões gigantes e um som poderosíssimo de 400 mil watts. Era de meter medo.

US Festival: o (er) Woodstock da década do "nós"

Wozniak tinha uma concepção musical para o US Festival que, após pesquisas, mostrou-se um tanto inviável. No entender do cocriador da Apple, o evento deveria seguir uma linha papai e mamãe, e investir em artistas de americana music (um rótulo cata-corno que une sons com raízes no folk, country, rhythm’n blues, rock de raiz e outros estilos). A entrada de Graham na história aconteceu justamente porque alguém soprou no ouvido de Wozniak que seu evento tinha que trazer artistas mais moderninhos se quisesse vender um excelente número de ingressos.

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Dito isso, olha aí ninguém menos que os Ramones levando mensagens de amor, paz e “hey ho, let’s go” para a plateia.

Os Talking Heads também subiram no palco do evento. Que por sinal dividiu-se em uma noite punk-new wave, uma noitada de rock mais clássico e, finalmente, no último dia, a turma da americana (e do pop-rock que se comunicava com esse público).

Olha o The Police aí.

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No último dia, rolou um “café da manhã com Grateful Dead”, banda queridinha de Graham e Wozniak. Olha aí o que é que o baterista e percussionista Mickey Hart tem a dizer sobre a união de rock e tecnologia (tudo a ver uma coisa com a outra, segundo ele, que também elogia Wozniak).

https://www.youtube.com/watch?v=foEV15oY-04

No último dia também teve show do Fleetwood Mac. O grupo ainda estava com o mesmo timaço do disco Rumours, de 1977, mas já driblava o desgaste, com vários discos solo, turnês individuais, excesso de drogas e um descontrole que levaria Mick Fleetwood a abrir falência em 1984.

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No segundo dia, por sua vez teve Tom Petty & The Heartbreakers, estouradíssimos nas paradas americanas por aquela época.

O evento tentava levar para os anos 1980 o espírito dos três dias de música e paz de Woodstock. Acabou levando para a época outra coisa típica dos primeiros festivais: a administração caótica. Dizem que Wozniak perdeu entre US$ 5 e US$ 12 milhões no evento. Seja como for, olha aí o que estava esperando os fãs de rock no ano seguinte: mais um US Festival. E com um condimento a mais: seriam quatro dias, em maio de 1983, divididos entre new wave, heavy metal, rock e o indefectível momento country.

Sim, as tais pesquisas as quais Wozniak teve acesso indicaram que ele deveria dar uma atençãozinha para a galera do metal: afinal o Van Halen era uma das mais bem sucedidas bandas do momento, a nova onda do metal britânico (Iron Maiden, Saxon, Def Leppard) mandava bem e alguns veteranos mantinham a fama nas alturas. Por sinal, se fosse uma batalha, o metal teria ganhado. Só o dia do som pesado vendeu mais ingressos que todos os dias juntos. O que mais tem é gente dizendo que o US Festival foi um marco para o estilo. A partir daí, todo mundo teria certeza de que seria burrice fazer festival sem apelar para o som nas alturas.

Olha aí Ozzy Osbourne de cabelo curto, apresentando a estreia do virtuoso (e chato) Jake E. Lee na guitarra.

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Teve Scorpions.

Teve DUAS HORAS de show do Van Halen, a banda do momento. O VH recebeu US$ 1.500.000 para tocar – originalmente era só um milhão, mas eles descobriram que David Bowie ganharia o mesmo para tocar lá e avisaram que só se apresentariam se fossem a banda mais bem paga do evento.

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Na entrevista abaixo, os repórteres pegaram o gentil Bowie antes de subir ao palco. O festival marcou seu retorno aos Estados Unidos após cinco anos sem tocar lá. “É como estar num encontro às cegas, daí vem um cara atrás de você e avisa: ‘Ela é muito bonita!’”, brinca o cantor, meio nervoso. O cachê altíssimo de Bowie, por sinal, tem explicação: o cantor precisou abrir um buraco no meio da turnê do disco Let’s dance para atender ao pedido do fã Wozniak.

https://www.youtube.com/watch?v=XoKE5EMsBeg

Olha aí o principal nome da primeira noite: o Clash. Joe Strummer parecia bastante puto da vida de tocar num festival tão capitalista. Chegou a falar que tecnologia era nada mais do que “vão fazer você comprar, ou você morre”. Irritado com uns “fãs” que passaram boa parte do tempo no mundo da lua e cagando para o show, o vocalista gastou vários minutos da apresentação dirigindo pequenos esporros à plateia.

Via Night Flight

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Cinema

Jogaram o documentário musical brasileiro Som Alucinante no YouTube

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Jogaram o documentário musical brasileiro Som Alucinante no YouTube

Som alucinante, filme de Guga de Oliveira (irmão de Boni, ex-todo poderoso da Rede Globo), lançado nos cinemas em 1971, apareceu pela primeira vez na íntegra no YouTube há poucos dias. O filme traz um apanhado de shows do programa Som Livre Exportação, musical exibido pela Rede Globo entre 1970 e 1971. A produção foi feita no espírito do filme do festival de Woodstock, de Michael Wadleigh, com shows misturados a entrevistas com artistas, músicos, a equipe técnica tanto do festival quanto do filme, e com pessoas da plateia.

Logo no começo, o radialista paulistano Walter Silva (o popular Pica-Pau) resolve perguntar a uma mulher da plateia o que ela espera encontrar no show. Como resposta, recebe risos e um “ah, sei lá, dizem que tá bacana, né?”. Bom, de fato, o formato de festival não competitivo – ou de pacote de shows – ainda não era das coisas mais conhecidas aqui no Brasil.

Tudo ali era meio novidade, tanto o fato de tantos nomes estarem reunidos num mesmo evento, quanto o fato de vários nomes “alternativos”, de uma hora para outra, terem virado grandes atrações de um programa da Globo: Ivan Lins (em ascensão e fazendo seu primeiro show em São Paulo), Gonzaguinha, Mutantes, A Bolha, Ademir Lemos e até um deslocadíssimo grupo americano chamado Human Race – que apresentou uma cover de Paranoid, do Grand Funk. Para contrabalancear e garantir mais audiência ao programa, Elis Regina, Wilson Simonal e Roberto Carlos participaram da temporada de 1971 da atração (que mesmo assim continuou sem audiência, mas com sucesso de crítica). O show levado ao ar nessa temporada serviu de fonte para o documentário.

O que mais chama a atenção em Som alucinante, na real, não é nem mesmo a música. Bom, e isso ainda que o filme apresente uma entrevista bem interessante com um iniciante Gonzaguinha (que faz um excelente discurso sobre “não pensar no mercado e ser você mesmo”), uma Rita Lee aparentemente em órbita falando sobre “é bom ganhar dinheiro com o que se faz, né?”, Mutantes tocando José e Ando meio desligado, A Bolha tocando o gospel-lisérgico Matermatéria, Elis Regina dividindo-se entre os papéis de cantora e mestra de cerimônia. E também várias entrevistas com Milton Nascimento que não vão adiante, de tão constrangido que o cantor estava.

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O mais maluco no filme é que a plateia desmaia, e o tempo todo (!). Os fãs começam a empurrar uns aos outros e num determinado momento, a solução da produção é convidar os que estavam em maior situação de vulnerabilidade para subir no palco. Numa cena, um policial carrega uma garota desmaiada e ele próprio quase toma um estabaco.

Jogaram o documentário musical brasileiro Som Alucinante no YouTube

Companhias indesejáveis na plateia do Som Livre Exportação

Em outro momento, os fãs são puxados ao palco por policiais e pessoas da produção com uma tal intensidade, que aquilo fica parecendo uma tragédia bíblica. Ou um evento que estava mais para Altamont do que para Woodstock, porque era evidente que aquilo estava ficando perigoso. Especialmente porque militares circulavam na plateia e aparecem, em determinados momentos, atrás do palco, o que já explica todo aquele estresse.

Ah, sim a parte do “nós estamos todos reunidos nessa grande festa”, dos Mutantes (que aparece no documentário Loki?, sobre Arnaldo Baptista) foi tirada de Som alucinante. E pelo menos um crítico do Jornal do Brasil, Alberto Shatovsky, detestou a linguagem “moderna” do filme.

A sequência de Roberto Carlos no filme.

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E se você não reconheceu o sujeito de bigodes e cabelo black que aparece em alguns momentos no filme, é o Ademir Lemos, do Rap da rapa (lembra?). Era um dos apresentadores do Som Livre Exportação.

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Cultura Pop

O 1967 dos Beatles no podcast do Pop Fantasma

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Da mesma forma que uma década muitas vezes não começa no ano em que ela se inicia (já havia um “anos 1990” encartado no fim da década anterior), as mudanças vividas pelos Beatles em 1967, ano do disco Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, começaram pelo menos uns dois anos antes.

Mas para todos os efeitos, foi há 55 anos que John, Paul, George e Ringo lançaram um dos discos mais desafiadores da história da cultura pop, tramaram sua volta ao cinema, fizeram duas aparições significativas na televisão (numa delas, lançaram um telefilme que deixou sensação de entalo nas gargantas de muitos fãs), realizaram montes de experiências de estúdio, perderam tragicamente seu empresário e começaram a dar passos rumo à independência. E, ah, graças a um certo composto químico de três letras, sintonizaram dimensões bem diferentes das que os pobres mortais estavam acostumados naquela época.

O último episódio da segunda temporada do Pop Fantasma Documento levanta os causos de uma das épocas mais movimentadas do dia a dia dos quatro de Liverpool. Aumente o volume, ligue-se e sintonize!

Nomes novos que recomendamos e que complementam o podcast: Turn Me On Dead Man, Trudy and The Romance, Dario Julio & Os Franciscanos.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

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Edição, roteiro, narração: Ricardo Schott. Arte: Aline Haluch. Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Estamos aqui toda sexta!

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Cultura Pop

Devo: no YouTube, tem versão “rascunho” do filme The Men Who Make The Music

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Devo: no YouTube, tem versão "rascunho" do filme The Men Who Make The Music

Raridade por vários anos para muitos fãs do Devo, o filme The men who make the music (1981), realizado pela banda, foi lançado sob o rótulo maluco de “vídeo-LP”. A produção combina imagens de shows do Devo (focando bastante na turnê de 1978) com textos irônicos sobre a indústria da música, além de aparições do controverso personagem General Boy (interpretado por Robert Mothersbaugh Sr, pai dos irmãos Mark e Bob).

Devo: no YouTube, tem versão "rascunho" do filme The Men Who Make The Music

O tal conteúdo “anarquista” do vídeo fez com que ele ficasse arquivado por uns dois anos, já que The men who make the music foi terminado em 1979. O lançamento deveria ter acontecido em paralelo com o disco Duty now for the future, tanto que o LP original anuncia um endereço para os fãs comprarem um produto chamado Devo-vision, que sairia pela Time-Life (empresa responsável por arquivar o filme por dois anos, irritada com as mensagens anti-indústria da música do vídeo).

O material ainda aparece intercalado com imagens bem antigas do Devo. O grupo aparece tocando Jocko homo em 1976, em imagens do primeiro curta do Devo, The truth about de-evolution – que também incluía o clipe do grupo em 1974 tocando Secret agent man, igualmente incluído em The men. Nessa época, o Devo tinha uma formação bastante variável. Com pelo menos cinco ou seis músicos gravitando em volta (incluídos aí três irmãos Mothersbaugh), a banda virou quarteto no clipe de Secret agent man.

The men who make the music, por sinal, teve ainda uma versão demo, feita com produção amadora, em 1977. Tá no YouTube. Foi dirigida por Jerry Casale e produzido por Marina Yakubic, que era namorada de Mark na época.

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O vídeo (sim, é vídeo, produzido com câmeras de TV) tem diferenças nos diálogos, nos cenários, na qualidade de som e de imagem (bastante rascunhadas) e no fato de que as músicas não aparecem em clipes. Todas são gravadas em versões extremamente cruas, ao vivo num palco.

Uma surpresa para os fãs é que, originalmente, a versão do grupo para (I can’t get no) Satisfaction, dos Rolling Stones, era quase um blues maníaco e lembrava Captain Beefheart. Muito diferente do que se imagina do Devo.

Aproveita e pega The men who make the music, a versão oficial, que também tá no YouTube.

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