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Crítica

Ouvimos: Iggy Pop – “Iggy & Ziggy Cleveland ‘77” / “Jesus loves the Stooges”

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Dois relançamentos de Iggy Pop: um ao vivo com David Bowie, acessível e histórico; outro com raridades dos Stooges, irregular e mais para fãs.

RESENHA: Dois relançamentos de Iggy Pop: um ao vivo com David Bowie, acessível e histórico; outro com raridades dos Stooges, irregular e mais para fãs.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5 (Cleveland 77) e 7 (Jesus loves)
Gravadora: Cleopatra Records
Relançamento: 13 de março de 2026 (Cleveland 77) e 27 de março de 2026 (Jesus loves)

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A grande diferença entre esses dois piratões licenciados (pela gravadora Cleopatra Records) é que o primeiro pode fazer você se tornar fã de Iggy Pop – já o segundo é altamente recomendado para quem já é muito fã. Ambos ganharam relançamentos em vinil agora, e estão no Bandcamp, aquela rede social em que você pode comprar música, nem que seja os áudios para ouvir.

Iggy & Ziggy Cleveland ‘77, mais que um disco ao vivo, é um momento. Os concertos de Iggy Pop no Agora Ballroom, em Cleveland, entre 21 e 23 de março de 1977 foram históricos não apenas por divulgarem o disco básico The idiot (1977), como também por trazerem Iggy acompanhado de um tecladista muito especial: ninguém menos que o produtor e anjo da guarda David Bowie, que ficava no canto do palco, de forma a quase nem ser visto.

Há pedaços desses shows no oficial TV eye live 1977, de 1978, mas aqui há doze faixas de uma das apresentações. As gravações de Cleveland ‘77 foram realizadas no dia 21 de março – mesmo dia em que uma banda desconhecida chamada Devo foi levar um papo com Iggy no camarim, deu-lhe uma fita demo e ela acabou na mão de Bowie, que ajudou o grupo a conseguir um contrato.

Mesmo que Bowie tenha preferido sumir, dá pra reconhecer a voz dele em várias faixas (ele fazia backing vocals também), assim como dá pra entender o banho de elegância que ele, Ricky Gardiner (guitarra) e os irmãos Tony e Hunt Sales (baixo e bateria) deram na onda musical de Iggy, que lembra uma espécie de Mick Jagger maldito. Gimme danger, dos Stooges, ganha um ar menos perigoso e mais sombrio. E boa parte do material da ex-banda de Iggy se torna até mais palatável, no melhor dos sentidos – até porque Bowie foi bastante competente em captar o que havia de mais melhor em Iggy Pop.

  • A fase 1976-1977 de Iggy Pop no podcast do Pop Fantasma
  • Tudo sobre Raw power, de Iggy Pop e Stooges

Jesus loves the Stooges, por outro lado, é mais para fãs e para quem quer ouvir tudo que surgir por ai com o nome de Iggy. É uma compilação de gravações de estúdio de 1972 e 1973, com o material pré-Raw power (disco de 1973, produzido e mixado por David Bowie), incluindo muita coisa que já havia saído em outros lançamentos e até caixas. Entre as faixas, tem o que funciona bem, que são clássicos como I wanna be your dog, Johanna, Wild love e o gospel zoeiro Jesus loves the stooges. Tem igualmente o que funciona mais ou menos (Iggy relendo The ballad of Hollis Brown, de Bob Dylan, em vibe garageira country de terror).

Agora, tem também o que não funciona: com James Williamson nas guitarras ao lado de Ron (baixo) e Scott Asheton (bateria), os Stooges entram numa trip blues que acabou deletada de Raw power. Aqui, ela surge em faixas dispensáveis como a versão de Purple haze, de Jimi Hendrix, ou enormidades como Cry for me e Delta blues shuffle. Um disco mais “da banda” do que do cantor, na real – e olha que isso não aconteceu nem mesmo em discos em que Iggy estava doidão demais para intervir em alguma coisa.

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Crítica

Ouvimos: The Sophs – “Goldstar”

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Resenha: The Sophs – “Goldstar”

RESENHA: The Sophs estreia com Goldstar, disco que mistura indie, country torto, punk e alt-rock em canções imprevisíveis e cheias de personalidade.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Rough Trade
Lançamento: 13 de março de 2026

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Existe uma possibilidade do The Sophs, que vem de Los Angeles, entrar pelo mesmo buraco de tatu pelo qual passou o Geese – e sair lá no mainstream. Por enquanto, esse sexteto não parece ter cara de manobra psicológica, mas é uma banda que usa a esquisitice como arma pop em vários momentos de seu disco de estreia, Goldstar. Especialmente no que diz respeito ao vocalista Ethan Ramon, um amante dos fluxos de consciência, dos vocais intensos e das histórias de bebedeiras e perdições pelas ruínas da vida.

O The Sophs tem a mesma obsessão pelo country que o Geese tem – o estilo, além de todo seu imaginário, é usado como recurso em vários momentos de Goldstar. Nunca li nenhuma entrevista da banda, mas acho difícil que sejam amantes do estilo, porque o lance ali é rock alternativo, indie rock e estranhezas.

Para quem tem entre 40 e 50 anos, tem uma chave de compreensão interessante em Goldstar: a estreia dos Sophs é a cara da finaleira dos anos 1990, quando de repente o rock começou a ficar estranho e nostálgico a ponto de surgirem hits improváveis como o bolerinho The way (do Fastball), o pop sixties do espaço Walking on the sun (do Smash Mouth) e a cascata de emoções de bandas como Cake. No Brasil, Los Hermanos fizeram sucesso com Anna Julia porque, provavelmente, a jovem guarda weezeriana dos cariocas cabia no meio disso aí tudo.

Essa cláusula de loucura permite que os Sophs abram Goldstar com dois mistos de barulho pixie e cantiga de violão à Paul McCartney (The dog dies in the end e Goldstar), prossigam com um som que mais parece com uma canção da Shakira em clima punk (Blitzed again) e caiam depois no alt-rock elegante (Sweat). Quando você começa a achar que não tem mais como saber pra onde o disco vai, surge um folk rock gospel (House), um punk country (Sweetpie) e um power pop herdado diretamente do evangelho dos Replacements (Death in the family).

Momentos em que tudo parece mais com um velho cântico de festas mafiosas não faltam em Goldstar, disco que adere também às working songs (A sympathetic person), à poesia falada em clima sixties, com órgão de churrascaria e clima punk (a destrutiva The told me jump, I said how high) e a algo entre The Jam e Strokes (I’m your fiend). Se eu descobrir que The Sophs é invenção de algum fabricante de loucuras indies, vou ficar bem puto.

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Crítica

Ouvimos: Mesh Kimono – “Line cliché” (EP)

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Resenha: Mesh Kimono – “Line cliché” (EP)

RESENHA: Mesh Kimono estreia com Line cliché, um EP de psicodelia pop que mistura rádio dos anos 1970, vaporwave, glitches e romantismo espacial.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Living Waters Records
Lançamento: 26 de junho de 2026

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Mais conhecido por seu trabalho como músico acompanhante (tocou com MGMT, Craig Finn Band, Lemon Twigs) o norte-americano Will Berman estreia solo com seu projeto Mesh Kimono e o EP Line cliché. Uma espécie de viagem psicodélica e mística em torno do som de rádio dos anos 1970 – como imaginário, Will cita “os karaokê decadentes e os lounges de piano esfumaçados e sombrios da Nova York do final dos anos 70”, além de referências musicais como Jeff Lynne, XTC, Todd Rundgren, Andy Partridge e Eric Carmen.

  • Ouvimos: Lulina e Hurso – Vida amorosa que segue vol. 2

Na real, é como se o pop de rádio da virada dos anos 1970 para os 1980 (uma lista que inclui Doobie Brothers, Christopher Cross, Rita & Roberto, Lincoln Olivetti, Hall & Oates e tudo que era lento demais para ser disco music) fosse jogado num chip de computador – ou numa fita VHS coloridíssima, estourada e com defeitos. Essa onda passa por faixas como o pop “physical” Permanent death, som tecladeiro, cheio de glitches, e com bateria eletrônica “antiga”. E também pelo romantismo espacial, a la Genesis e Guilherme Arantes, de Supermoon.

Um clima que passa aliás por todo o EP, que ainda tem a balada psicodélica Floating away, o aconchego pop e mágico de After all e pelo menos um tema “tristinho” de novela dos anos 1970, Waterbaby – só que transformado em vaporwave furioso e estelar. Um EP curto e viciante.

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Ouvimos: Katy da Voz e as Abusadas – “Sandra Eletrônica” (EP)

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Resenha: Katy da Voz e as Abusadas – “Sandra Eletrônica” (EP)

RESENHA: Katy da Voz e as Abusadas troca o funk por techno e house em Sandra Eletrônica, EP de batidas fortes, humor e letras sem freio.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 11 de junho de 2026

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Entre os preparos para uma turnê europeia, Katy da Voz e as Abusadas decidiram fazer um EP que fosse mais “música eletrônica” do que essencialmente um disco de funk. Sandra Eletrônica é formado basicamente por techno, house e club music, e os batidões aqui são outros.

  • Ouvimos: Cyberkills – Dedo no cue

A receita de muita sacanagem nas letras envolve agora a rapidez aeróbica de Drogas, sexo, techno, repete! (“diga não às drogas / dependendo, diga sim”, zoa a letra) e o bailão anos 1990 da faixa-título, de versos como “agora tá todo mundo vendo meu piriquito no grupo da igreja!” e “é piranha, é gainha / dá o (*) e faz a linha”.

Se não tá bom o suficiente pra você, tem o clima quase Domingo Legal anos 90 da inacreditável Ejacu e a onda Só as melhores da Pan de Diz aquendei, cada uma mais pornô do que a outra. No final, o disco todo surge remixado numa faixa só, Mixtape da Sandra. Música sem freio e sem filtro.

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