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Cinema

O mundo realista dos Trapalhões

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O mundo realista dos Trapalhões

Os Trapalhões não existem desde os anos 1990, certo? Errado: como naquela piada do sujeito que pergunta por alguém que já morreu, ouve falar do óbito e dribla o mico com um “morreu pra você! continua vivo no meu coração!”, os finados Mussum e Zacarias e os ainda ativos Didi e Dedé continuam aprontando juntos para muita gente. O legado do quarteto rende documentários (Mussum ganhou o seu há pouco), livros, uma marca de cerveja, vídeos que estão entre os mais vistos do YouTube.

https://www.instagram.com/p/Bvdh94RlyNY/

E, em breve, o lado oculto dos Trapalhões irá render um documentário bastante realista. É Trapalhadas sem fim, dirigido por Rafael Spaca, que já escreveu livros sobre o quarteto. O filme vai focar em temas BEM polêmicos a respeito do grupo: divisão de lucros, amizade na vida real, puxadas de tapete, a separação de Renato Aragão dos outros três em 1983. Mas Rafael explica que basicamente é um filme sobre a história do quarteto, só que as polêmicas não serão evitadas. “Não é um filme depreciativo. O público vai ver e formar o seu juízo”, esclarece.

https://www.instagram.com/p/BvdfxwCF7re/

Batemos um papo com Rafael e procuramos saber um pouco do que vem por aí. Trapalhadas sem fim (cujo Instagram, cheio de fotos dos entrevistados, ilustra o decorrer desta entrevista) renderá dois cortes: uma série de TV em cinco episódios que irá cobrir toda a trajetória do quarteto e um documentário de duas horas com material que não será mostrado na série, para o cinema. O que sobrar, vai para a web. “Já é um dos maiores levantamentos já realizados a respeito do quarteto”, conta o diretor.

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https://www.instagram.com/p/BveswUDlhJa/

Você escreveu livros sobre os Trapalhões, está fazendo um filme… Qual sua relação com o trabalho dos Trapalhões? Sempre foi fã? Sim, minha primeira ida ao cinema foi para ver Os Trapalhões e o Rei do Futebol (1986). Vi muito o programa deles e gostava mais dos filmes. Depois vi os filmes anteriores, acompanhei os que iam saindo posteriormente… Sempre considerei Os Trapalhões meus heróis de infância. Depois me interessei por produção cultural, por rádio e TV, acho que muito em razão de gostar de cinema, e principalmente por gostar dos Trapalhões. Eles acabaram influenciando até mesmo minha profissão. Escrevi um livro sobre o cinema dos Trapalhões (O cinema dos Trapalhões por quem fez e por quem viu, em 2016) e depois outro sobre as HQs deles (As HQs dos Trapalhões, de 2017). Tenho outras coisas pra lançar, mas com essa crise as editoras estão com um pé atrás. Sempre quis entender a história do grupo, os bastidores, como funcionava aquilo…

https://www.instagram.com/p/BvubQ0lHNY8/

Que livros você pretende lançar? Pelo menos mais dois: um deles é a biografia do Dedé Santana, que vou dividir a autoria com o Vitor Lustosa, que foi diretor-assistente de pelo menos 15 filmes dos Trapalhões. E um livro de entrevistas e conversas com o próprio Vitor, que revela toda a dinâmica dos filmes dos Trapalhões. Vai ser um livro bem interessante. A memória do Vitor é muito boa, e o livro fala de um período que foi o mais bacana dos Trapalhões, que é até metade dos anos 1980.

https://www.instagram.com/p/Bwc7Gb2HVMS/

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Os Trapalhões, por sinal, têm apenas um documentário, que é O mundo mágico dos Trapalhões (1981), e bem chapa-branca… É o que acontece quando você faz um trabalho sob encomenda. Tem muita coisa que o filme não responde. O Renato é um cara cheio de nuances, comete erros, não é perfeito, não é um santo. Não sei se pelo cargo dele na Unicef, ele quer passar uma imagem impoluta. Sempre teve muito folclore, muita lenda em torno das histórias dos Trapalhões, como a questão do relacionamento deles, da divisão dos lucros. A Sara Silveira, que foi produtora do Carlão Reichenbach, viu que eu tinha um trabalho enorme de pesquisa dos Trapalhões e sugeriu que eu transformasse minha pesquisa em documentário.

https://www.instagram.com/p/BwlBNQ2Hflb/

Isso te facilitou o acesso a fontes? Uma foi puxando a outra. No livro do cinema dos Trapalhões, conversei com 132 pessoas. Quando me deu o lampejo de fazer o documentário, quis que não fosse uma repetição do livro, mas que fosse algo que complementasse. Acho que 95% das pessoas que entrevistei para o filme não estão no livro. São pessoas com as quais falei pela primeira vez na vida. Algumas delas até me falaram que o Renato gosta de florear um pouco a imagem dele, digamos. Mas como é um documentário independente, a gente fez tudo sem ter certeza de onde vai dar, de onde vai exibir. Conseguir falar com Caetano Veloso, com Supla, foi muito bacana. Tentamos fazer com que a conversa fluísse, com que fosse agradável falar. E teve gente que me falou: “Nunca falei tanto desse tema!”, ou “puta merda, tô fodido!”. Acho que com o distanciamento histórico algumas pessoas se sentiram à vontade de falar de certos temas que estavam inconscientes, ou entalados. Muita gente se soltou e falou durante quatro horas! Teve entrevista que alterou completamente o rumo do projeto, declarações tão impactantes que eu achei que seria um crime não colocar no filme. Inclusive muita gente que acompanhava o meu trabalho me mandou mensagem me xingando porque acha que fiz o filme para falar mal dos Trapalhões.

https://www.instagram.com/p/BwIXKeVH34Q/

Sério? Sim, o país está tão polarizado com essa questão política que já imaginava que fosse acontecer no âmbito cultural. E era gente que acompanhava meu trabalho, que eu julgava que pudesse ter consideração por mim, e mandou mensagem falando: “Como você pode falar mal do Renato?” Eu não tô falando mal, eu entrevistei essas pessoas. Mas tem gente que nem viu o filme pronto e já tá falando que eu traí os Trapalhões (risos). É a história deles, e a história é turbulenta. O Renato fala que não, mas as pessoas que são testemunhas oculares resolveram falar.

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https://www.instagram.com/p/Bwc79qcnW0-/

O Renato não quis falar para o seu documentário, certo? Eu estou tentando falar, quero ouvir o lado dele. Mandei uns cinco e-mails quando fiz o livro sobre o cinema dos Trapalhões. Ele elogiou a entrevista para o livro e disse que estava à disposição, mas desde então nunca mais respondeu (a Renato Aragão Produções, que cuida da carreira do artista, esclareceu a uma reportagem do jornal O Dia que o ator não participará do documentário por “questões jurídicas e contratuais”).

https://www.instagram.com/p/ByRburYJCtY/

Você falou das HQs dos Trapalhões e é engraçado porque elas denotam que o marketing dos Trapalhões não era tão profissional, já que o programa era na Globo e os quadrinhos eram lançados pela Bloch, que era a editora da Rede Manchete. Hoje a Globo já botaria os quatro para assinar outro tipo de contrato… Na verdade o foco da Globo era a televisão. Por mais que ela tivesse a Rio Gráfica Editora, não era unificado. Eles podiam fazer contratos à parte. Pra você ver, não tinha nem Globo Filmes. O J. B. Tamko produzia, depois a Globo exibia. Era uma coisa mais solta. Mas os Trapalhões ganharam muito dinheiro.

https://www.instagram.com/p/By0nKSep21L/

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Tem uma velha piada que compara os Beatles aos Trapalhões. Ambos os grupos tinham um malandrão (Paul McCartney/Didi), um mal-humorado (John Lennon/Mussum), um garoto bonzinho (George Harrison/Dedé) e um cara ingênuo (Ringo Starr/Zacarias). Passou pela sua cabeça tecer comparações entre Trapalhões e Beatles, ou qualquer coisa da cultura pop? Sim, mas foi uma analogia que eu fiz na questão comportamental, não musical. O grupo era uma harmonia aparente, como eram os Beatles. Mas teve a Yoko Ono dos Trapalhões que foi a morte do Zacarias. Por mais que o grupo já houvesse tido outros integrantes, o que está no imaginário das pessoas é o quarteto. Quando sai um, dá para perceber que falta alguma coisa, já que eram três escadas pra um. Depois ficam dois para um! Algumas pessoas que entrevistei falaram disso.

https://www.instagram.com/p/BzHlyBWJ7wU/

Afinal, o Zacarias morreu mesmo de Aids? Foi uma hipótese nunca confirmada… Não posso dar spoiler, mas é um dos temas do filme. Tem duas versões dessa história, e algumas pessoas falam disso abertamente, sobre quem era o Zacarias na intimidade. Uma das coisas que mais me surpreenderam quando fiz o filme foi o tema da amizade. Muita gente achava que eles eram amigos de frequentar a casa um do outro. Até que em 1983 vem a separação. Para haver separação, tem que ter alguma questão. Se é entre amigos, resolve-se conversando. Mas aí eu localizei as pessoas que testemunharam essa história e tem coisas ali que nunca haviam sido faladas.

Foi o quê, afinal? Pode dar uma dica? Bom, posso falar que era uma questão que não era só financeira, tinha uma questão artística. Quando o Renato foi fazer O Trapalhão na Arca de Noé e os outros três foram fazer Atrapalhando a Suate (os filmes lançados durante a separação de 1983), houve declarações pesadas de ambos os lados, coisas que você lê hoje e fala: “Amigos não falam isso e depois voltam a tudo como era antes!”

Verdade, muita briga de ego… E teve gente até que falou que os Trapalhões não voltaram a ser como eram antes. É um material muito rico e faço questão de frisar que não é depreciativo. Tem gente que viveu e viu algumas histórias, que vai falar: “Olha, não é bem isso que aconteceu, etc”. Vai ter polêmica? Vai ter puxada de tapete? Vai. O público é que vai tirar suas conclusões. O fato é que eram todos gênios, mas não tinha nenhum santo. Santos são os que a igreja canonizou, quem está aqui não é santo (risos). Eu só dei a voz para que falassem as coisas. E teve gente que falou que eles eram geniais, como teve gente que falou que tinha puxada de tapete, histórias de um atrapalhar o desenvolvimento do outro. Eu, que pesquiso muito, fui surpreendido com histórias, com muita coisa que falaram.

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Cinema

Michael Lindsay-Hogg: descubra agora!

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O cara que dirigiu Let it be (o filme dos Beatles que hoje todo mundo conhece como uma série chamada Get back) rende, ele mesmo, uma série cheia de histórias. O americano Michael Lindsay-Hogg, hoje com 81 anos, diretor de TV e cinema, é filho da atriz irlandesa Geraldine Fitzgerald, grande nome da Broadway que migrou para o cinema. Herdou o sobrenome do inglês Sir Edward Lindsay-Hogg, com quem sua mãe foi casada, e cresceu acreditando que o britânico era seu pai biológico. Só que havia uma belíssima confusão por trás disso: sua mãe disse a ele, quando Michael tinha 16 anos, que havia suspeitas de que o cineasta Orson Welles – com quem ela tivera um affair – era seu verdadeiro pai.

A informação chegou aos ouvidos de Michael de maneira tão confusa que ele passou um bom tempo na dúvida sobre se aquilo era verdade ou não. E para piorar, Orson era bastante próximo da família, a ponto de Michael ser amigo de infância da filha do cineasta, Chris. O bom tempo aí não é figura de linguagem, não. Em 2010 (!), após até mesmo a própria Chris afirmar que acreditava que ele poderia ser ser irmão, Lindsay-Hogg decidiu fazer um teste de DNA, que não revelou praticamente nada. Seja como for, Patrick McGilligan, autor da biografia Young Orson, afirma que o cineasta não poderia ser pai de Michael pelo motivo de que Geraldine estava na Irlanda quando engravidou, e isso teria acontecido durante um período em que Orson estava nos EUA.

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Com o tempo, Michael foi se interessando por dirigir programas de TV e acabou cuidando do Ready steady go!, sucesso jovem da televisão britânica. Saiu-se tão bem que acabou inventando o videoclipe. Bom, não foi bem assim: ele dirigiu alguns dos primeiros promos (filmetes promocionais) para músicas pop, nos anos 1960. Coisas como Rain e Paperback writer, dos Beatles, 2.000 light years from home, dos Rolling Stones e outros.

Aliás, Hogg acabou cuidando de dois filmes para as maiores bandas dos anos 1960, Beatles e Stones. Por sinal dois caroços na vida das duas bandas: o proscrito Rock and roll circus, dos Rolling Stones, gravado em 1968 e só lançado em 1996, e… Let it be, dos Beatles, lançado no cinema em 1970 e sempre deixado de lado na era do DVD. E hoje, impossível não saber, transformado em prato principal das discussões pop, por causa de Get back.

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Pega aí sete coisas que Michael dirigiu – só não incluímos Let it be/Get back, porque esse você tem a obrigação de saber.

“RAIN”, BEATLES (1966). Por causa desse filme e do de Paperback writer, George Harrison costumava dizer que os Beatles “inventaram a MTV”. Na verdade, inventaram o hábito de fazer várias versões para o mesmo clipe, já que Rain teve três clipes, todos dirigidos por Michael Lindsay-Hogg. Num dos mais populares, os quatro parecem saídos da contracapa do LP Revolver (1966). Paul, que tivera um acidente de moto, aparece com um dente quebrado.

“CHILD OF THE MOON” – ROLLING STONES (1968). Lado B do single Jumpin’ Jack Flash, e a música mais bonita já feita por Mick Jagger e Keith Richards. Ganhou um clipe extremamente surrealista, o melhor feito pela banda na época. Uma mesma personagem é interpretada na juventude por Dame Eileen Atkins, e na velhice por Sylvia Coleridge. E deixa Jagger, Richards, Brian Jones, Bill Wyman e Charlie Watts intrigados. O clipe também é de Lindsay-Hogg, em parceria com Tony Richmond. Outros clipes da banda, como Angie e Start me up, também seriam dirigidos por Hogg.

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“ROLLING STONES ROCK AND ROLL CIRCUS” (1968, lançado em 1996). Concebido por Mick Jagger como uma ideia original para promover o disco Beggar’s banquet, esse filme tem caráter histórico. Soa como uma despedida digna dos anos 1960 – um ano antes dos Stones transformarem a década quase num morto-vivo com o festival de Altamont – e é a última aparição da banda ao vivo com Brian Jones, que morreria no ano seguinte. Os motivos pelos quais a banda decidiu engavetar o filme sempre foram nebulosos, e o mais provável é que tenham se sentido engolidos pelo Who (na ponta dos cascos). O próprio Hogg diz que ouviu Keith Richards dizendo que o show não era “o Who Rock And Roll Circus”. Parte da filmagem ficou perdida por vários anos, e teve que ser rastreada e restaurada.

“JOURNEY TO THE UNKNOWN” (série britânica, 1968). Produção de horror exibida pela ABC nos Estados Unidos, entre 1968 e 1969, e na Inglaterra pela ITV em 1969. Lindsay-Hogg dirigiu o episódio Matakitas is coming, sobre uma pesquisadora e um bibliotecário presos numa biblioteca com um assassino em série (o Matakitas do título, interpretado por Lion Lissek). Foi ao ar em 28 de novembro de 1968 nos EUA.

“NASTY HABITS” (filme de 1977). Michael, que já havia feito vários telefilmes, dirigiu essa comédia exibida nos cinemas, com Glenda Jackson, Melina Mercouri e Geraldine Page no elenco. O roteiro era baseado em The abbess of crewe, livro da escritora escocesa Muriel Spark, e leva o escândalo de Watergate para o dia a dia maluco de um bando de freiras sem caráter. Tem inteiro no YouTube.

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“THE CONCERT IN CENTRAL PARK” – SIMON & GARFUNKEL (1981, lançado em 1982). Feito com o objetivo de arrecadar fundos para a manutenção do parque de Nova York, o concerto que marcou a reaproximação da dupla (uma reaproximação que só duraria três anos, vale dizer) não teve sua importância dimensionada pelos dois na hora. Art Garfunkel se achava fora de forma, mas topou cantar. Paul Simon só se tocou da repercussão quando leu os jornais no dia seguinte. Hogg dirigiu o filme do concerto para transmissão na HBO e lançamento em vídeo. O próprio Simon despejou uma carreta de grana na gravação.

“YOU GIVE GOOD LOVE” – WHITNEY HOUSTON (1985). Lindsay-Hogg dirigiu também um dos primeiros clipes de Whitney, que foi definido pela Time como “a história de um romance com um cinegrafista”, já que a cantora aparecia sendo filmada por um admirador, no vídeo. Acostumado com os Beatles e os Stones dos primeiros tempos, Hogg estranhou o batalhão de funcionários com quem teria de trabalhar: cabeleireiros, maquiadores, estilistas… Mas tratava-se de um orçamento nada apertado e Houston era uma das maiores estrelas pop da época.

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Versão checa de Alice no País das Maravilhas

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Versão checa de Alice no País das Maravilhas

O cineasta checo Jan Švankmajer (tido como grande influenciador até de nomes como Terry Gilliam, animador do Monty Python) tinha vontade de fazer uma versão de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, mas sem que o filme parecesse com um conto de fadas. Fez isso em 1988, quando lançou Alice, ou Něco z Alenky (o título original, que significa Algo de Alice). O filme de Jan mistura técnicas de stop motion (com os objetos que cercam Alice) e live action, e dá uma ideia bem louca do que acontecia no mundo de Alice. Mas é um filme para ser visto por crianças – nada a ver com aqueles dois pesadelos envolvendo o mundo da garota que o POP FANTASMA publicou certa vez (veja aqui e aqui).

“Alice é um dos livros mais importantes e surpreendentes produzidos por esta civilização”, afirmou certa vez Jan, que quis preservar a ideia original, de que o texto de Carroll havia sido escrito como um sonho. “Um conto de fadas tem um aspecto educativo: trabalha com a moral do dedo indicador levantado, o bem vence o mal. Já o sonho, como expressão do nosso inconsciente, persegue intransigentemente a realização dos nossos desejos mais secretos, sem considerar as inibições racionais e morais, porque é movido pelo princípio do prazer. Minha Alice é um sonho realizado”, afirmou.

Confira aí embaixo, com legendas em português.

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Nove documentários bastante realistas sobre música: descubra agora!

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Nove documentários bastante realistas sobre música: descubra agora!

Let it be, documentário sobre os Beatles, já foi considerado um exemplo de filme em que o artista enfocado deixa baixar a guarda, e o cineasta pega de tudo: brigas, desilusões, comportamento tóxico, passivo-agressividades, etc. Com o novo Get back, que recauchuta e aumenta o material do filme, as coisas mudaram um pouco. Mas dá pra dizer que o clima meio azedo de Let it be animou vários artistas a adotarem o “venha como estiver” em documentários – e ainda fez vários cineastas deixarem a censura de lado e mostrarem tudo o que a câmera é capaz de focalizar. Segue aí uma listinha de nove documentários que seguem esse mesmo estilo.

“METALLICA: SOME KIND OF MONSTER” (2004). O velho clichê do “você vai se emocionar” levado a consequências meio estranhas: depois de assistir a esse documentário, que relata a guerra de nervos que virou o grupo americano na época do disco Saint Anger (2003), difícil de imaginar como a banda conseguiu sobreviver e se manter trabalhando. Jason Newsted tinha caído fora, Lars Ulrich falava pelos cotovelos, James Hetfield foi para o rehab, os integrantes chamaram um psicólogo para ajudar o grupo a manter a cabeça no lugar e o “alguma espécie de monstro” que emergia aí era o próprio comportamento tóxico dos integrantes. Dirigido por Joe Berlinger e Bruce Sinofsky.

“ANVIL: THE STORY OF ANVIL” (2008). Esse filme já esteve na Netflix e saiu de lá – e já passou no canal Bis algumas vezes. A história da banda canadense de heavy metal é das mais complexas: o grupo é citado como influência por bandas como Slayer, Metallica, Anthrax e vários outros. Mas passaram por um período de obscuridade em que os líderes do grupo precisaram se virar em empregos bastante humildes, com pouca grana. As coisas começam a parecer entrar nos eixos quando o grupo começa a fazer um novo disco com Chris Tsangarides, o mesmo cara que produziu o primeiro álbum do Anvil (esse disco saiu mesmo e se chama This is thirteen, de 2007). Dirigido por Sacha Gervasi.

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“LOUD QUIET LOUD: A FILM ABOUT THE PIXIES” (2006). O curto (75 minutos) documentário sobre a tour de “volta” dos Pixies em 2004 mostra que a banda retornou musicalmente nos eixos. Só que lá dentro, as coisas não iam tão bem quanto pareciam, e a estrada era um verdadeiro fardo para todos. Kim Deal (baixo) era ajudada pelos pais e pela irmã gêmea Kelley a não voltar para as drogas, David Lovering (bateria) parecia prestes a ter um ataque a qualquer momento, Joey Santiago (guitarra) lutava para manter a sanidade. Já Black Francis (guitarra, voz) virava a cara para não cumprimentar fãs, atendia jornalistas de má vontade e repetia frases de autoajuda no tour bus para manter a cabeça no lugar. Dirigido por Steven Cantor e Matthew Galki.

“THE CHILLS: THE TRIUMPH & TRAGEDY OF MARTIN PHILLIPS” (2019). O grupo neozelandês The Chills teve um quase-hit no Brasil, The male monster from the id, que tocou em algumas rádios-rock no comecinho dos anos 1990, mas nunca foi conhecido aqui. A história do grupo é tão cheia de momentos sombrios quanto Soft bomb (1992), o disco que tem essa faixa. O líder Martin Phillips lutou contra o vício em drogas pesadas por vários anos, o baterista Martyn Bull morreu de leucemia em 1983, a banda nunca conseguiu manter uma formação muito fixa e sempre pulou de gravadora em gravadora, apesar do prestígio. Recentemente, aos 54 anos, Martin descobriu que tem hepatite do tipo C – e o assunto aparece igualmente no documentário, que flagra o músico lutando por seu trabalho e por sua saúde (mental e física). Passou aqui no Brasil no InEdit. Dirigido por Julia Parnell e Rob Curry.

“COCKSUCKER BLUES” (1972). Desse aí a gente ate já falou no POP FANTASMA: trata-se de um documentário cinema-extremamente-verdade sobre tudo da turnê dos Rolling Stones em 1972. E por tudo, leia-se tudo mesmo: Keith Richards preparando-se para usar heroína, Mick Jagger cheirando cocaína, roadies e groupies usando drogas injetáveis, os Micks (Jagger e Taylor) fumando maconha. Surgem alguns momentos bizarros de pornografia: Mick Jagger aparece se masturbando, e em outro momento, uma groupie aparece nua na cama. Tá inteiro no YouTube e bate recordes de degradação. Dirigido por Robert Frank.

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“SUZI Q” (2019). A música e a trajetória de Suzi Quatro, cantora, baixista e radialista norte-americana, que teve sucesso quase meteórico graças a músicas como 48 crash e Can the can. O lado “cinema verdade” da história fica por conta da relação da cantora com as irmãs, que parece eternamente cagada por causa de ciúmes e problemas surgidos na época em que eram todas adolescentes e tocavam na mesma banda. Dirigido por Liam Firmager.

“CRACKED ACTOR: A FILM ABOUT DAVID BOWIE” (1975). Filmado em 1974, Cracked… é uma dureza de assistir, especialmente para quem é muito fã de Bowie. Feito para ser exibido na BBC, o documentário era bem realista em mostrar como Bowie, em plena turnê do disco Diamond dogs (1974), andava chapado e fora de órbita. Alan Yentob, o diretor, disse ter pego Bowie sempre nas primeiras horas da manhã (numa época em que o cantor pegava tão pesado na cocaína que mal dormia), em conversas rápidas. Bowie, que nunca gostou da ideia de ver o filme lançado em VHS ou DVD (nunca saiu), disse que “quando vejo isso agora, não posso acreditar que sobrevivi”.

“LAST DAYS HERE” (2011). Quando você ouvir falar que o artista tal “se mostrou como é” num documentário, procure ver se essa pessoa viu esse filme, que conta a história de uma figurinha bem bizarra do rock: Bobby Liebling, vocalista da pioneira banda de doom metal Pentagram, formada em 1971. Bobby passou vários anos drogadaço, destruiu sua carreira e no começo do filme, é visto aos 50 anos, morando num porão da casa dos pais. O estilo de vida de Bobby era tão degradante que os diretores Don Argott e Demian Fenton quase desistiram da ideia do filme, inicialmente. Mas tudo foi se ajeitando.

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“DIG” (2003). No Brasil, a banda americana The Dandy Warhols é o típico grupo-de-boate – todo mundo já dançou Bohemian like you em alguma festa e muita gente pensa que se trata de um lado Z do Blur ou algo parecido. Lá fora, tiveram sucesso por algum tempo, e sempre mantiveram um relacionamento de tapas e beijos com o grupo experimental The Brian Jonestown Massacre, que seguiu o caminho das loucuras de estúdio, da degradação (por causa do estilo de vida do líder Anton Newcombe) e do sucesso cult. O filme retrata a rivalidade entre as duas bandas. Mas vale dizer que alguns integrantes dos dois grupos (Newcombe entre eles) detestam o filme e o comparam a um programa de fofocas. Você decide se vale. Dirigido por Ondi Timoner.

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